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Lincoln Secco: A dama afogada e o tsunami de violências que se forma

16 de janeiro de 2016 às 15h48

o som ao redor

Cena do filme O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A DAMA AFOGADA         

Lincoln Secco, em Núcleo de Estudos d’o Capital, sugerido por Antônio David

Existe uma situação no xadrez em que um jogador em absoluta inferioridade consegue empatar a partida. O seu Rei está ameaçado por todos os lados e ele não pode fazer nenhum movimento. Ainda assim, não está em cheque e nessa situação sem saída declara-se o empate. Alguns chamam a isso de “Rei afogado”.

É óbvio que a presidenta Dilma Roussef está numa situação assim: a que poderia ser chamada de Dama afogada, caso as regras do Xadrez não tivessem sido inventadas por homens.

Cercada por todos os lados, é preciso dizer que não é de somenos importância que a primeira mulher presidenta tenha resistido ao apelo pela renúncia. Talvez a sua força individual nesse isolamento venha a ser o único legado de um governo desastroso.

Colapso

Durante a crise do governo tucano em seu segundo mandato, embora o PT liderasse manifestações de rua e o petista Tarso Genro tivesse sugerido a renúncia de FHC, o partido jamais contou com apoio do PMDB (e obviamente da mídia) para um golpe contra um presidente em baixa popularidade e marcado pela ilegitimidade de uma reeleição comprada no Congresso.

Quando o PT chegou ao governo imobilizou os movimentos sociais, como era de se esperar e, assim, o partido constituiu o polo negativo de um circuito que reproduz uma Democracia Racionada.

Claro que ele visou reformar por dentro, mas a única saída seria em algum momento o curto-circuito.

Só que depois de junho  de 2013 o polo negativo que compunha o circuito fechado da dominação democrática desapareceu e tornou supérflua a esquerda integrada, especialmente porque ela é parecida, mas não é igual à Direita. Ela aceitou a Economia como o reino intocável, mas insistiu em alguns gastos sociais.

Ao PT cabia a partir dali superar o lulismo e montar uma nova Frente em 2014 sem o PMDB. Correria o risco de perder a eleição, mas veria agora o PSDB promover o ajuste fiscal.

Ou vencer e entrar numa crise de governo minoritário, mas com mobilização social. Mantendo a estratégia conciliadora só obteve um governo sem maioria no congresso e na sociedade.

Ainda assim, em 2015 o fio desencapado não foi o PT e sim lideranças frustradas de outros partidos. Parece que as elites políticas, empresariais e judiciárias chegaram à conclusão de que o PT não é mais necessário.

A crise pela qual passamos não terá fim em seis meses ou mesmo em alguns anos, qualquer que seja o desfecho da disputa pelo poder. Poderá adormecer, mas voltará à tona a cada luta eleitoral, judiciária e midiática, especialmente se o PT tiver uma candidatura competitiva em 2018.

Sociedade Afogada

Pode ser que dessa vez o nível de violência social tenha subido tanto que não possa mais ser domesticado. Não me refiro à violência bárbara e costumeira da história do Brasil. O atendimento social armado do qual fala Paulo Arantes já revela o quanto o Estado se previne!

O PT moveu, sem que o quisesse, as placas tectônicas da sociedade. Só que, embora civil, ela nunca foi civilizada.

As pessoas passaram a se acotovelar nos aeroportos, antes espaços privilegiados da classe média. Agrediram-se acovardadas sob a proteção da internet.

Engarrafaram mais o trânsito em cidades que nem chegaram a ser espaços de cidadania. Não chegaram a ler os livros e a frequentar o sindicato, dois elementos da formação básica de qualquer esquerda.

Basta andar nas ruas quentes e inóspitas de São Paulo. Elas eram até mais  sujas e violentas nos anos 1980, mas faltavam-lhe ainda esse olhar recíproco de ódio sem esperança. Mesmo sem jornais e com sindicatos restritos a setores oligopolizados, o PT se organizava em núcleos de base, logo  abandonados em favor do projeto eleitoral.

Cinema

Para sugerir uma leitura da  crise recorro a três filmes. Entre o de Sergio Bianchi (Cronicamente Inviável, 2000) e o de Kleber Mendonça Filho (Som ao Redor, 2012) há uma transformação surda.

O primeiro com o ceticismo em torno de alguns exemplos individuais; o segundo construindo os conflitos sociais no tecido das relações de indivíduos concretos. Bianchi fez o retrato no qual as personagens são necessariamente inviáveis.

Já o filme de Anna Muylaert (Que Horas Ela Volta ) chegou às telas no fim da aventura lulista (2015) exaltando a ascensão da filha de uma empregada doméstica. Mas ali, apesar de cenas tocantes como a da empegada que aperta as bolinhas de plástico de uma embalagem (que um espectador de classe média não entenderá), a personagem central é um títere de uma estrutura e recebe a consciência de fora. O bem intencionado filme de Muylaert é uma autocrítica da classe média.

Kleber Mendonça Filho seleciona um condomínio no Recife como espaço de mediação entre aquilo que o cerca e a vida cotidiana dos moradores, empregados e seguranças. A polícia e a extorsão estatal são para os de fora.

Aquela vida é perpassada pela totalidade das relações sociais: a mudança e a não mudança transparecem na atmosfera de medo. Assim, ele só precisa de ruas vazias. Na própria imobilidade do cotidiano há História: a do coronelismo moderno e a da vingança social.

Acredito que dormimos sem suspeitar que um Tsunami de violências se forma. As nossas elites trabalham todos os dias para isso.

Leia também:

Mino Carta: Vazamentos da PF provam que a PF trabalha contra o governo

O livro da blogosfera em defesa da democracia - Golpe 16

Golpe 16 é a versão da blogosfera de uma história de ruptura democrática que ainda está em curso. É um livro feito a quente, mas imprescindível para entender o atual momento político brasileiro

Organizado por Renato Rovai, o livro oferece textos de Adriana Delorenzo, Altamiro Borges, Beatriz Barbosa, Conceição Oliveira, Cynara Menezes, Dennis de Oliveira, Eduardo Guimarães, Fernando Brito, Gilberto Maringoni, Glauco Faria, Ivana Bentes, Lola Aronovich, Luiz Carlos Azenha, Maíra Streit, Marco Aurélio Weissheimer, Miguel do Rosário, Paulo Henrique Amorim, Paulo Nogueira, Paulo Salvador, Renata Mielli, Rodrigo Vianna, Sérgio Amadeu da Silveira e Tarso Cabral Violin. Com prefácio de Luiz Inácio Lula de Silva e entrevista de Dilma Rousseff.

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Bacellar

17/01/2016 - 00h09

Alguns chamam não…Rei afogado É um termo do xadrez. Empate por imobilidade.

Se não se está em cheque e nenhum movimento é possível. Independe de estar em vantagem ou desvantagem embora evidentemente o “afogado” geralmente esteja apertado.

Jogar por um empate e conquista-lo quando se está em franca desvantagem é uma vitória. Aliás creio ser uma das coisas que mais irritam um enxadrista…Empatar um jogo que se poderia ter ganho…

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FrancoAtirador

16/01/2016 - 19h33

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FSM 2016: Fórum Social Mundial 15 ANOS
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Auditoria Cidadã da Dívida realiza atividade
Dia 20 de Janeiro no FSMPoA 2016
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No próximo dia 20 de janeiro, quarta-feira, às 10h45min,
o Núcleo RS da Auditoria Cidadã da Dívida realiza o painel
“Auditoria Cidadã da Dívida e Direitos Sociais”,
na Escola Municipal de Ensino Fundamental Porto Alegre – EPA
(rua Washington Luiz, 203, Centro Histórico, PoA-RS).
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O painel faz parte das atividades auto-gestionadas do Fórum Social Mundial 2016,
que neste ano completa 15 anos e será realizado de 19 a 26 de janeiro em Porto Alegre.
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Para ter acesso à programação completa do FSM2016 e obter maiores informações,
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acesse: (http://forumsocialportoalegre.org.br) (http://fsmpoa.com.br/default.php)
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A Auditoria Cidadã da Dívida: (http://www.auditoriacidada.org.br)
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A Auditoria Cidadã da Dívida é uma entidade de caráter nacional que, desde 2000,
coleta e divulga dados e informações sobre a situação da dívida pública brasileira,
que, a cada ano, suga quase 50% do Orçamento da União.
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Os integrantes da entidade, como o próprio nome diz, defendem que seja realizada
uma Auditoria da Dívida com Ampla Participação da Sociedade Civil.
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Responder

FrancoAtirador

16/01/2016 - 17h30

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Internamente, a População Brasileira sofre os Efeitos de uma Insensata Campanha Virtual
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para uma Guerra de Secessão, Estimulada pela Mídia Jabáculê do Sudeste (Rio e São Paulo)
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e repercutida pelas Afiliadas das Regiões Sul (PR, SC e RS) e Centro-Oeste (GO, MT e MS),
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com Origem naqueles Gráficos Bipolares Azuis e Vermelhos, em vez de Roxos e Lilases,
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desde o 2º Turno da Eleição Presidencial de 2010, quando Dilma Vana venceu Zica Serra.
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