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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Heloisa Villela: Os americanos aprenderam pouco com o 11 de setembro

11 de setembro de 2017 às 10h23

Sadako tinha muito a ensinar

por Heloisa Villela, de Nova York

Um museu-memorial. Mais um para o 11 de setembro.

Confesso, me deu preguiça só de pensar em entrar e ver do que se tratava.

Lá se vão mais 15 anos do atentado que pegou os Estados Unidos de surpresa. Acompanhei de perto quando aconteceu. Filho recém nascido, outro já andando, totalmente alheios, claro, ao que se passava.

Hoje prestes a sair de casa para ingressar na faculdade, eles conhecem a história daquele dia, visitaram o local com a escola. Mas até onde conhecem realmente tudo que diz respeito ao ataque? Ao antes? Ao durante? E especialmente, ao depois?

Eles acompanham o que eu faço. Sabem das guerras que se seguiram e das mentiras pregadas para chegar lá.

Com eles não me preocupo tanto. Mas os colegas, país afora, sabem pouquíssimo. E foi por isso, segundo Lee Ielpi, que mais um museu foi criado.

Este, iniciativa dos parentes dos mortos no ataque. Lee Ielpi é guia aqui sempre que pode. E ele quase sempre está disponível. Me leva da entrada às galerias. Uma a uma. Começando em uma sala bastante escura.

Na parede, uma tela com as cenas da época. Aquelas conhecidas: os aviões se chocando contra as torres. Partindo aço e vidro como se fossem facas fatiando o arranha-céu. Aquela caixa escura e envidraçada que tinha ar de poder e dinheiro se torna frágil e débil em questão de segundos. O que vem a seguir é o horror já conhecido.

Dali para as primeiras consequências. Grandes lascas de metais retorcidos. Objetos incinerados. E o colete do bombeiro Jonathan Ielpi todo queimado. Jonathan, filho de Lee, era bombeiro como o pai.

Na parede da memória, montagem de fotos, ele aparece sorridente, deitado de barriga para baixo.

Os dois filhos pequenos deitados sobre ele. Meninos que hoje são adultos. Um se lembra bem do pai. O outro, nem isso.

Lee não consegue terminar a visita sem marejar os olhos e embargar a voz. “É sempre assim”, me diz. “E no dia que eu não sentir mais nada, vai ser hora de parar”, explica.

A ideia aqui, conta, é fazer com que as pessoas sintam mesmo. Se emocionem. Por isso, todos os guias são parentes de pessoas que morreram no ataque ou os que enfrentam as consequências do trabalho de limpeza.

Quem ficou ali mais de um ano trabalhando, retirando os escombros, hoje tem problemas sérios de saúde. Lee é um deles. Ele não arredou pé do lugar.

Trabalhou o tempo todo e encontrou o corpo do filho. Foi dos poucos. A grande maioria encontrou um dedo, um braço…

Mas Lee não me deixa enveredar demais pelo sofrimento dele. Conta que tem nódulos no pulmão, uma sinusite que não passa e segue em frente como se não fosse grande coisa.

Ele quer chegar nas duas últimas galerias. O ponto principal deste museu. Aqui, os parentes contam o que estão fazendo em memória do filho, pai, mãe, tia, irmão, primo que perderam.

Lee destaca as americanas que perderam os maridos no ataque e foram para o Afeganistão montar escolas para viúvas afegãs. Ele me diz que a saída é fazer algo. Comprometer todos os visitantes que passam por aqui com alguma ação, projeto, organização que busque mudanças. Que combata o ódio e brigue pela construção de um mundo melhor.

A principal peça de decoração da sala são origamis enormes, pendurados no teto, formando um grande móbile de ponta cabeça, leve e colorido.

Na mesma sala, um origami minúsculo chama a atenção. No Japão, diz a lenda que quem dobrar mil pássaros de origami realiza um desejo.

E foi por isso que colegas de escola de Sadako Sasaki convenceram a menina a fazer os pássaros de papel. Sadako ficou doente por causa da radiação da bomba atômica americana lançada sobre Hiroshima quando ela era muito pequena, no fim da segunda guerra mundial.

Aos 12 anos, em 1955, Sadako estava morrendo de leucemia. Quando se deu conta de que as crianças do hospital, com a mesma doença, estavam morrendo, ela entendeu que não sobreviveria e mudou o pedido.

Ao invés de sobreviver à doença, ela continuou fazendo os origamis pedindo paz no mundo. A foto de Sadako está no memorial do 11 de setembro, ao lado de uma foto da menina. O país que jogou as bombas atômicas no Japão homenageia a criança japonesa que pediu paz no mundo.

Lee diz que é responsabilidade de todos brigar por dias, meses a anos melhores. Por isso eu quero saber o que ele tem a dizer sobre a guerra do Iraque, deflagrada como resposta aos atentados de setembro de 2001. Uma mentira que hoje o mundo inteiro sabe que foi inventada pela Casa Branca.

Lee não tem opinião. Insisto. E vem a resposta americana clásscia: “não falo de política”. Mas Lee, essas respostas individuais não vão dar conta do recado. Se não houver uma resposta coletiva, nada acontece, nada muda. Ele é taxativo e fecha questão. Não está aqui para tratar de política. Mudo a pergunta.

— Como cidadão, não como guia do museu ou parte do conselho diretor dessa organização, como cidadão que vota, que é representado pelo governo A, B ou C, como reage às guerras feitas em seu nome?

Sem chance. Lee mostra os projetos de ONGs criadas depois dos atentados. Os fundos levantados para programas no Afeganistão, no Iraque…

Toda a emoção que ele despertou em mim, a solidariedade e a empatia, se transformam em frustração e até uma certa raiva. Aqui existe sempre esse muro intransponível.

Se for preciso analisar, criticar, pensar de onde vem o ódio que levou aos ataques, o que fazem os Estados Unidos no planeta, as ocupações, guerras e conflitos…

É como se não fosse com eles, ou em nome deles, eleitores americanos, que os governos agem. E aqui acaba a conversa. Acaba a visita e fica claro que é pouca a chance real de mudança.

Leia também:

Miro Borges: O pacto de sangue de Palocci com a Globo

 

13 Comentários escrever comentário »

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Nelson

14/09/2017 - 19h54

Um paradoxo monumental, sem dúvidas. O país que possui muitas das universidades ditas de excelência e que também já legou ao mudo muitos gênios, consegue formar uma legião interminável de alienados e idiotizados no que diz respeito às coisas mais comezinhas relacionadas à política e à geopolítica.

E o objetivo do Sistema de Poder que domina os EUA e boa parte do planeta e tem anseios de dominá-lo por inteiro, é estender este modelo de sucesso retumbante a todos os rincões do planeta. O objetivo é formar legiões de idiotizados pelo mundo afora. A “Escola sem Partido” é um bom instrumento para isso.

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José Fernandes

14/09/2017 - 13h01

Enquanto isso acontece em certas regiões ,golpes apoiado pelo E.U.A ,tentativas de derrubar governo,democráticos,
tentativa de intimidar aqueles que se opõe ao grande imperialismo com propaganda e apoio de outras nações para pisar na quele que o ameaça……e assim continuemos sem pensar, refletir ,sem agir,porque a Politica não interessa.

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MAAR

13/09/2017 - 22h29

A conclusão desta reportagem exemplar atinge o âmago da questão: pior cego é o que não quer ver. A esperança é que existam pessoas lá desejosas do efetivo resgate dos ideais dos fundadores do país. A democracia de fachada é uma farsa vergonhosa.

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Jader Oliver

13/09/2017 - 11h02

Atentado????? Como tem gente que acredita em conto de fadas.
Foi um mega sacrifício de 5.000 mil vidas, tudo muito bem planejado, o objetivo disso? NOM.

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Yves Goulart

12/09/2017 - 12h25

O objetivo do museu, criado por parentes das vítimas do maior atentado terrorista da história dos Estados Unidos, é fazer da memória de cada um uma força de mudança. Em meio às fotos e pertences de quem perdeu a vida, familiares guiam os visitantes pelo memorial.
VEJA A MATÉRIA PUBLICAD NO JR:
https://www.youtube.com/watch?v=6GLsdgL2-vw

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Gilmar Miranda

11/09/2017 - 22h52

Pelos comentários, dá pra perceber que ao menos por aqui as pessoas estão antenadas.
Os atentados de 11.9 foram planejados e executados pelos falcões americanos, aqueles manda chuva da politica econômica e belicista estadunidense.
Infelizmente, muito poucas pessoas sabem entender isto. É possível afirmar, sem medo de errar, que “terroristas muçulmanos”, ou seja lá quem alimente algum ódio doentio pela “Pátria da Liberdade”, que na verdade é o que mais lhe falta, não seriam capazes de promover um ataque tão eficiente aos seus algozes. Nem mesmo se eles autorizassem. E sabem por que? Simplesmente porque aquele espetáculo só é possível a quem detém tecnologia de demolição controlada, além de outras técnicas que esconderam e escondem até hoje da opinião pública. Foi tudo articulado por magnatas americanos muito poderosos entre os setores que mais lucram com guerras covardes contra povos indefesos. Esta é mais ou menos a reflexão que tenho feito sobre esse crime contra a Humanidade.

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    Lukas

    13/09/2017 - 21h30

    Antenada é uma pessoa que tem a mesma opinião que você.

    O óbvio.

Alexandre Ulbricht

11/09/2017 - 21h27

Morvan, adorei sua definição pro judiciario brasileiro: Golpiciario, excelente, disse tudo e sintetizou numa palavra, vou espalhar por ai pelos grupos de internet e blogs progressistas, valeu

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    Morvan

    12/09/2017 - 16h04

    Boa tarde.
    Alexandre Ulbricht (11/09/2017 – 21h27):

    “Morvan, adorei sua definição pro judiciario brasileiro: Golpiciario,…”

    Eu que agradeço, Alexandre; à vontade. Uma honra.

    Saudações “#ForaTemerGolpsista; Eleger o ‘Jara’, recobrar o país das mãos dos destruidores. Reforma do Golpiciário urgente. Com esta curriola togada, jamais teremos democracia“,
    Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

timbatle

11/09/2017 - 17h04

…a sentença contra os EUA, será dada pelos próprios EUA!

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Edgar Rocha

11/09/2017 - 16h44

Não é só aqui no Brasil que as pessoas se recusam a cavar mais fundo. Temem responder a perguntas que não se atreveriam a formular, com medo de obter a mais indesejada das respostas: eu errei.
Talvez por isto, a depressão seja o mal do século e gere uma indústria da fuga de si mesmo que movimenta bilhões.
Afinal, ninguém quer sentir o mesmo que um alemão mediano ao deparar-se com um abajur de pele de semita.

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Morvan

11/09/2017 - 15h17

Boa tarde.
Nisso, o Império foi muito eficiente: criou uma legião de descerebrados, incapazes de pensar fora da caixa e de “apolíticos” (Sic!).
Pessoas despolitizadas, alienadas ao extremo. Incapazes de entender que os falcões estadunidenses, quando querem uma guerra, para ‘incrementar negócios’, se não houver inimigos, criam-se-os.
E o 11 de Setembro (o deles, não o legítimo, no Chile, e com o dedo podre deles, idem) pode ser mais uma destas criações…
Mas isso, honorável Sr. A. Lee Enado nem desconfia, pois não se mete com estes assuntos.

Saudações “#ForaTemerGolpsista; Eleger o ‘Jara’, recobrar o país das mãos dos destruidores. Reforma do Golpiciário urgente. Com esta curriola togada, jamais teremos democracia“,
Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

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David

11/09/2017 - 11h28

É isso aí.
Tudo não passa de lero lero de norte americanos.
Jogam bombas, assassinam milhares de pessoas pelo mundo e depois fazem pose de bonzinhos.
Realmente são poucas as chances de mudanças.

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