Heloisa Villela: O acordo da Al Jazeera com Washington

publicado em 21 de setembro de 2011 às 11:34

por Heloisa Villela, de Washington

A notícia é estarrecedora. Mas não foi manchete na imprensa mundial. O diretor geral da rede Al Jazeera, Wadah Khanfar, entregou o cargo ontem sem explicar porque e sem dizer o que fará daqui prá frente. Khanfar é palestino, foi correspondente da Al Jazeera no Iraque, entre outros lugares, e dirigia o jornalismo da empresa há oito anos. É apontado como grande responsável pelo crescimento da tevê que hoje é a mais assistida no mundo árabe e mereceu elogios até da secretária de Estado, Hillary Clinton, o que por si só já seria motivo para deixar qualquer cético de orelha em pé.

Pois agora as dúvidas vieram à  tona. Mais uma vez, a cargo do site WikiLeaks. O New York Times teve acesso ao material e contou que em um telegrama diplomático de outubro de 2005, o embaixador americano Chase Untermeyer desceve um encontro com Wadah Khanfar no qual foram entregues ao diretor da Al Jazeera cópias de relatórios da Agência de Inteligência do Departamento de Defesa americano sobre as reportagens feitas pela Al Jazeera a respeito da guerra no Iraque. Segundo o telegrama, Khanfar informou que o Ministério das Relações Exteriores do Qatar já havia fornecido a ele os mesmos relatórios, o que sugere um elevado grau de consultas entre os dois governos e a Al Jazeera.

O telegrama diz ainda que Khanfar salientou a necessidade de manter secretas as consultas. E criticou qualquer referência, por escrito, a um entendimento entre os Estados Unidos e a Al Jazeera. De acordo com o telegrama, Khanfar afirmou: “O acordo era de que seria sem papel. Como uma organização jornalística, não podemos assinar acordos dessa natureza, e tê-lo aqui por escrito nos preocupa muito”. Na mesma reunião, Khanfar admitiu que a rede modificou detalhes das reportagens para satisfazer pedidos dos americanos. Por exemplo: retirou do ar imagens de crianças feridas, em um hospital, e de uma mulher com o rosto muito machucado.

Com relação a uma segunda reclamação dos americanos, o diretor da Al Jazeera se mostrou relutante, mas prometeu colaborar. “Não imediatamente”, relata o embaixador americano no telegrama, “porque provocaria comentários, mas em dois ou três dias”.

Se isso acontece com uma rede financiada pelo governo do Qatar, imagine a que tipo de pressão não cedem os diretores de jornalismo americanos? O que não fica claro, nessa história toda, é o motivo pelo qual o diretor da Al Jazeera cedeu. Em troca do que? Acesso? Espaço no mercado americano? Ontem, Wadah Khanfar entregou o cargo. Despediu-se dos colegas e subordinados por carta. Destacou o crescimento que a Al Jazeera experimentou nos últimos oito anos, enquanto ele esteve à frente da direção de jornalismo.

Nem uma palavra, dele ou da empresa, a respeito dos documentos do WikiLeaks. Mas que ele deixou a empresa depois que os documentos foram divulgados, isso é fato.

Leia também:

Matheus Pichonelli: A ‘gangue das meninas’ provoca pânico

 

26 Comentários para “Heloisa Villela: O acordo da Al Jazeera com Washington”

  1. Nelson disse:

    E há, ainda, incautos e inocentes a acreditarem no mito chamado liberdade de imprensa. Mito ardorosamente defendido pelos governos dos Estados Unidos e outros "democráticos" do mundo todo.

    Que não deveríamos alimentar tantas esperanças na Al Jazeera, isto é verdade. Porém, temos de levar em conta também o que está relatado abaixo, que foi publicado em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=135651:

    "Lo que el público sabe es que las estaciones de Al Jazeera en Afganistán e Iraq han sido bombardeadas por fuerzas estadounidenses, y que su ex periodista en Afganistán, quien entrevistó a Osama bin Laden, ha sido condenado a prisión en España. Y que el jefe de su oficina en Jordania, Yasir Abu Hilaala, fue recientemente golpeado por un policía jordano y un civil uniformado durante la cobertura de Al Jazeera de una huelga en Ammán, y que últimamente el corresponsal de Al Jazeera en Afganistán fue detenido por fuerzas israelíes durante un viaje a Cisjordania por sospechas de que sea miembro de Hamás, lo que no tiene base alguna, como dicen sus abogados. "

  2. Bonifa disse:

    "…mereceu elogios até da secretária de Estado, Hillary Clinton, o que por si só já seria motivo para deixar qualquer cético de orelha em pé."
    .
    Como se sabe, na hora do desespero americano com a deflagração da Revolução Árabe, a famosa "tempestade perfeita", Hillary falou ao Senado dizendo que "Estamos perdendo a guerra da informação (na verdade, a guerra pelo total controle americano das informações). Televisões como a Al Jazeera e a Russian Today são hoje amplamente vistas ao redor do mundo (Pepe Escobar é hoje repórter da Russian Today)." Naquela ocasião, a Jazzera ainda conseguia resguardar certa independência. A total submissão veio com a repressão brutal aos manifestantes pela democracia no Bahrein. A Jazeera não cobriu os massacres cometidos pelos invasores sauditas convocados pelo rei do Bahrein para sufocar o movimento. Quando veio a invasão da Líbia, a Jazeera se omitiu completamente, limitando-se a noticiar os "rebeldes" anti-kadafistas.

  3. Fran disse:

    Tem imprensa corrupta em todo lugar.Aqui além de serem corruptas ainda são golpistas,se tiverem uma oportunidade de fazer um golpe,elas são as primeiras,tudo para não perderem seus privilégios.A imprensa mercantil tem um lado,o lado do mercado e não o nosso.

  4. ZePovinho disse:

    Eu,que costumo ler os artigos dos liberais do Instituto Von Mises,agora decobri outra mina de ouro e dedico ao meu amigo ASSALARIADO:
    http://www.marxists.org/portugues/index.htm

  5. HCoelho disse:

    Imagine qual a pressão emcima de certos orgãos do Brasil. Se é que precisa…

  6. Marat disse:

    Só não vê quem não quer: Os EEUU são uma ditadura global, apoiada pelos seus serviçais europeus e consentida pelos humilhados árabes que estão nas mãos de lunáticos ditadores mantidos pelos petrodólares. O curioso é que quando a gente fala de Hitler, tem de utilizar de cara feia, gestos de repulsa etc., mas, se falarmos a verdade sobre o abutre fantasiado de águia, logo vem um séquito de defensores (tolos úteis ou malandros pagos) lembrar que aquele país "também" faz coisas boas… Ora, coisas boas, depois de matar milhões e milhões, mentir e roubar? Que sejam Hitleres de verdade, e não enrustidos!

  7. Luiz Reis disse:

    Não existe jornalismo independente, em lugar algum do mundo. Alguns são movidos por ideologia política, outros por grana, poder… financiados por governos, empresas ou grupos políticos. Nenhum desses está isento. Alguém achou que a Al Jazeera era um ente iluminado vindo do além sem nenhuma relação com quem quer que seja? Só porque apresenta outras versões de fatos ocorridos no Oriente Médio nós a colocamos no pedestal da infalibilidade… buscamos eternamente o perfeito, nos outros, claro…

  8. É, pelo jeito os americanos vão ter que encontrar outro testa de ferro.

  9. Julio Silveira disse:

    Os States devem ter lhe oferecido dois caminhos, o primeiro amenizar suas criticas as ações americanas sob pena de tornar a al jazera uma entidade vinculada ao terror, com apoio de seus parceiros (que agem feito guangues) internacionais. O segundo seguir de forma autonoma, tendo a CIA providenciando a passagem de seus dirigentes para o encontro com as virgens no paraiso.

  10. Polengo disse:

    Conheço duas pessoas no mundo que não têm preço. São amizades pessoais.
    (Por isso mesmo, nunca vou ouvir falar delas em jornal).

    São só duas, em um imenso círculo de conhecidos.
    No mundo, quantas serão de verdade?
    Algumas dúzias, talvez.

  11. FrancoAtirador disse:

    .
    .
    Não vejo novidade alguma.

    O dono da Al Jazeera é o Sheik Hamad bin Khalifa Al-Thani,
    Emir da Monarquia Absolutista do Catar,
    parceiro dos EUA de longa data.

    <img src="http://www.gulf-times.com/mritems/images/2011/3/23/2_423975_1_252.jpg"&gt;
    .
    .

  12. zwca disse:

    A Al-Jazeera, vendida à CIA e ao Qatar, ainda é MUITO MELHOR QUE TUDO QUE SE LÊ OU VÊ NO BRASIL.

  13. Luca K disse:

    O comentário do Marcos é muito preciso. Nada de novo no front. Deve-se sempre manter um pé atrás com a mídia de massa. Quem são os donos? Quais são os interesses? E por aih vai…

  14. Rios disse:

    E ainda tem gente que não acredita na relação promíscua de parte da chamada "grande" imprensa brasileira com certos políticos e grupo econômicos, buscando unica e exclusivamente seus interesses.

  15. Armando S Marangoni disse:

    O Leo tocou num ponto interessante: a emoção da novidade é essencial para muitos.
    O problema é que ser for conveniente, nada é novidade quando a especulação é levada a sério.
    Ou seja, contra a leviandade só seu oposto.

  16. Hag disse:

    Heloísa, excelente matéria. Acompanho a Al Jazeera há dois anos e estava mesmo achando-a bem conservadora, à direita por exemplo do Haaretz.

  17. ZePovinho disse:

    A coisa funciona assim,gente.Um velho amigo do meu pai,que trabalhou 30 anos na inteligência da FAB,sempre me avisou para descontar 90% daquilo que eu via no jornalismo internacional.Isso quando eu tinha meus vinte e poucos anos e não entendia nada de PSYOPS.Vejam como é verdade:
    http://www.fair.org/index.php?page=1748

    Why Were Government Propaganda Experts Working On News At CNN?

    3/27/00

    Reports in the Dutch newspaper Trouw (2/21/00, 2/25/00) and France's Intelligence Newsletter (2/17/00) have revealed that several officers from the US Army's 4th Psychological Operations (PSYOPS) Group at Ft. Bragg worked in the news division at CNN's Atlanta headquarters last year, starting in the final days of the Kosovo War.

    In the U.S. media, so far only Alexander Cockburn, columnist for The Nation and co-editor of the newsletter CounterPunch, has picked up on the story. Cockburn's column on the subject is available at http://www.counterpunch.org.

    The story is disturbing. In the 1980s, officers from the 4th Army PSYOPS group staffed the National Security Council's Office of Public Diplomacy (OPD), a shadowy government propaganda agency that planted stories in the U.S. media supporting the Reagan Administration's Central America policies.

    A senior US official described OPD as a "vast psychological warfare operation of the kind the military conducts to influence a population in enemy territory." (Miami Herald, 7/19/87) An investigation by the congressional General Accounting Office found that OPD had engaged in "prohibited, covert propaganda activities," and the office was soon shut down as a result of the Iran-Contra investigations. But the 4th PSYOPS group still operates.

    CNN has always maintained a close relationship with the Pentagon. Getting access to top military officials is a necessity for a network that stakes its reputation on being first on the ground during wars and other military operations.

    What makes the CNN story especially troubling is the fact that the network allowed the Army's covert propagandists to work in its headquarters, where they learned the ins and outs of CNN's operations. Even if the PSYOPS officers working in the newsroom did not influence news reporting, did the network allow the military to conduct an intelligence-gathering mission against CNN itself?

    For instance, one PSYOPS officer worked in CNN's satellite division. According to Intelligence Newsletter, rear admiral Thomas Steffens, a psychological warfare expert in the Special Operations Command, recently told a PSYOPS conference that the military needed to find ways to "gain control" over commercial news satellites to help bring down an "informational cone of silence" over regions where special operations were taking place.

    An unofficial strategy paper published by the U.S. Naval War College in 1996 and written by an Army officer ("Military Operations in the CNN World: Using the Media as a Force Multiplier") urged military commanders to find ways to "leverage the vast resources of the fourth estate" for the purposes of "communicating the [mission's] objective and endstate, boosting friendly morale, executing more effective psychological operations, playing a major role in deception of the enemy, and enhancing intelligence collection."

    ACTION: Please write to CNN and ask why the network allowed government propaganda specialists to work in their news division.

    See FAIR's Archives for more on:
    Time Warner/CNN
    The Balkans
    War and Militarism
    Official Agendas
    Covert Operations

  18. marcos disse:

    nada que o pessoal mais antenado ja não soubesse, porem é um balde de agua fria nos inocentes uteis que acham que só porque ela era concorrente da CNN automaticamente ela era um exemplo de jornalismo.

    No fim só exitem interesses, e essa dai serve os interesses daqueles paisinhos do golfo, assim como a CNN serve aos interesses de dos EUA

    • Rogério disse:

      A Al Jazheera nunca foi uma Telesur. Mas teve tempos melhores que o último ano, quando visivelmente já tinha se tornado porta-voz da CIA, Pentágono e DEA, embora, naturalmente, tentasse escamotear esse fato..

  19. Felipe.c disse:

    A Al Jazeera foi uma decepção completa. Foi muito parcial na guerra civil na líbia.
    Eu me lembro de uma reportagem falando sobre os rebeldes terem roubado armamento anti-aéreo do governo, depois uma reportagem falando de civis mortos exatamente por essas armas, um médico até comentou nunca ter visto nada igual, gente sendo morta por essas armas, com munição anti-aérea… mas falando que o governo era responsável. Ora, se os rebeldes tinham roubado essa bateria anti-aérea, como, inicialmente, responsabilizar SÓ o governo? Claro que a Al Jazeera estava seguindo uma AGENDA nada independente.

  20. Marcio H Silva disse:

    Tá dominado, tá tudo dominado.

  21. leo disse:

    Fora do tópico:

    Sugestão de manchete pro estadão:

    Cientistas identificam comportamento promíscuo e bissexual em Lula http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/

  22. leo disse:

    Quero novidade.

Comentar