Hospital-escola que a Partners in Health está construindo em Mirebalais, cidade ao norte de Porto Príncipe
por Heloisa Villela, de Washington
Quem precisa recontar a história da revolução sangrenta que derrotou 18 generais franceses (Napoleão e os espanhóis nada puderam contra a garra dessa gente) e dizimou um terço da população que, com muito sangue, suor e convicção, transformou o Haiti na primeira república negra independente?
Quem precisa mencionar os US$ 20 bilhões (valores corrigidos para hoje) de multa impostos pela França ao Haiti para admitir que perdeu a guerra e a colônia, multa que os Estados Unidos ajudaram a forçar o Haiti a assumir caso contrário não levantariam o embargo à ilha? (Como eles gostam de um embargo!).
Quem precisa trazer tudo isso à tona e mais a ocupação americana no começo do século XX, a ditadura dos Doc que contou com o apoio dos gringos, os dois golpes de estado contra o presidente eleito Jean Bertrand Aristide, o segundo encerrado com um sequestro (novamente os americanos!) e o translado, na marra, para a África do Sul onde passou sete anos?
Qualquer pessoa interessada em compreender um mínimo do que é a miséria em que o Haiti vive tem obrigação de voltar os olhos para o passado, o mais recente e os 200 anos que nos antecedem. Estive lá mais uma vez. Foi a terceira, nos últimos dois anos e dois meses. Vi muita diferença em relação ao que presenciei logo após o terremoto de janeiro de 2010. E vi, também, a continuação dos problemas de sempre, agravados, agora, pela falta de moradia na capital, Porto Príncipe.
Mais de oitocentos acampamentos de desabrigados ainda estão espalhados por toda parte. O governo lançou um programa que contemplará apenas seis. Quem mora nesses acampamentos (claro, os mais visíveis, nos pontos mais importantes ou onde mora aquela minoria rica), procura um lugar para morar. Quando encontra, o governo paga o primeiro ano de aluguel. Depois, é por conta do cidadão. Soa bem. O problema é que ninguém tem emprego. Depois de um ano, o que acontece com essa gente?
Então, vamos aos custos…
Visitei a casa de uma família que deixou a barraca e foi morar numa favela. A casa é, na verdade, um cômodo. Sem cozinha nem banheiro. A comunidade tem um banheiro coletivo. Bom, esse quarto custa US$ 500 dólares por ano. Seguindo estimativas oficiais e das centenas de organizações não governamentais que se aboletaram no país, existem cerca de quinhentos mil desabrigados acampados em diferentes pontos da cidade. Multiplicando um pelo outro, o governo precisaria de US$ 250 milhões para pagar o primeiro ano de aluguel de todos eles (supondo que todos encontrassem um canto).
Agora, vamos lá: qual é o orçamento anual das operações de ocupação de paz da ONU (opa, errei… Operações de Paz) no Haiti? US$ 800 milhões de dólares. Dinheiro suficiente para pagar três anos de aluguel para essa gente toda. Esse talvez seja um cálculo sem sentido. Nem todos os aluguéis custarão o mesmo preço e nem todo mundo vai arranjar um quarto ou um apartamento. Na verdade, é preciso construir novas estruturas. De preferência, mais resistentes a abalos.
Vamos, então, fazer outro cálculo. Durante a minha estadia, visitei o hospital-escola que a organização Partners in Health está construindo em Mirebalais, cidade que fica a pouco mais de cinquenta quilômetros ao norte de Porto Príncipe. Além de treinar médicos e enfermeiros haitianos para atender, de graça, a população, o hospital será autossuficiente em energia (vai usar energia solar), terá seis salas de operação, clínica da mulher, maternidade, ala para os homens, alguns exames sofisticados, mas nem todos, e um pé direito bem alto para garantir refresco porque o calor haitiano é brutal. Mas nada de ar condicionado ou elevador para o prédio de dois andares. Nada de instalar aparelhos que, quando quebrarem, ninguém terá como consertar por falta de peças ou de conhecimento mesmo. A filosofia é atendimento de primeira, com simplicidade.
O prédio da entrada do hospital já está pronto. Um muro baixo, todo branco, com uma cerca de esculturas vazadas de metal, feitas por artistas haitianos. Tudo preto e branco. Simples e bonito. Logo na entrada, à esquerda da recepção, fica a clínica da mulher. Quem explica é David Walton, médico, gerente da obra e diretor da Partners in Health:
- Primeiro, não queremos que as grávidas tenham que se deslocar muito dentro do hospital. Mas também achamos importante dar papel de destaque para a mulher haitiana. Ela é o centro vital da família. É quem cuida de todos e muitas vezes, é também quem garante o sustento. Se ela adoece, a família inteira sofre.
Bom, eu poderia contar outros tantos detalhes do projeto. Falar da obra tocada exclusivamente por operários, carpinteiros e eletricistas haitianos, orientados em técnicas avançadas de construção, por sindicalistas americanos que vão ao Haiti, sem cobrar nada. Ou da enfermaria com camas que parecem novinhas em folha mas foram doadas ao hospital. E dos bancos de igreja, todos de madeira, que serão usados na recepção, e íam para o lixo, em Boston, mas foram aproveitados a tempo e enviados a Mirebalais.
Claro, poderia falar de tudo isso e muito mais. Porém, o que mais chamou minha atenção foram os custos. Para manter o hospital, pagar os profissionais, remédios, materiais, tudo enfim, a organização (que sobrevive de doações de milionários e empresas e trabalha no Haiti há mais de 20 anos) vai gastar, por ano, entre US$ 6 e US$ 8 milhões. Ou seja, o orçamento anual da ONU, de US$ 800 milhões anuais, poderia manter funcionando mais de cem hospitais, de altíssima qualidade, no país.
Eu fico imaginando, também, o que seria possível fazer, com todo esse dinheiro investido nas operações da ONU, durante oito anos consecutivos, por dois serviços básicos que a população do Haiti não tem. Como disse Paul Christian Namphy, engenheiro da DINEPA, Diretoria Nacional de Água Potável e Saneamento do Haiti: ligar a torneira e ter água é um luxo que poucos no país desfrutam. E o saneamento básico… Agora, a DINEPA está inaugurando o primeiro centro de tratamento de esgoto da história do Haiti. O primeiro! Em 2012. E não é através de encanamentos que o esgoto vai parar no centro de tratamento. Ele é recolhido em caminhões. Falta tanto…
E já que o assunto é dinheiro, vamos ao levantamento da Associated Press: quem recebeu a maior parte do dinheiro alocado pelo governo americano, para socorrer o Haiti depois do terremoto, foi o governo americano. Como? Na ciranda da ajuda aos necessitados, o dinheiro sai dos Estados Unidos direto para os Estados Unidos. Ou seja, os americanos alocaram US$ 379 milhões em ajuda humanitária e enviaram 5.000 soldados ao país. Trinta e três centavos de cada dólar do montante foram usados para reembolsar os Estados Unidos pelo envio das tropas. Quarenta e três centavos de cada dólar foram entregues a organizações particulares ou não governamentais. Quase nada direto para os haitianos ou para o governo do Haiti.
Outras contas que o governo americano pagou para o governo americano:
- US$ 655 milhões para o Departamento de Defesa
- US$ 220 milhões para o Departamento de Saúde e Serviços Humanos
- US$ 350 milhões para a USAID
- US$ 150 milhões para o Departamento de Agricultura enviar comida em caráter de emergência
- US$ 15 milhões para o Departamento de Segurança Interna para cobrir taxas de imigração
Leia também:




[...] Heloisa Villela: Gastos da ONU no Haiti garantiriam 100 hospitais [...]
Amy Goodman fez uma bela entrevista com Paul Farmer, co-fundador da Partners in Health, que nos dá uma idéia do que é o Haiti e sua maravilhosa história.
http://dai.ly/ol8S7B
Parabéns ao Vi-o-Mundo e à Heloísa Vilela por não se aproveitarem da maravilhosa história do Haiti para obscurecer fatos recentes da sua história.
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Todos os dias os ministros dizem ao povo como é difícil governar.
Sem os ministros o trigo cresceria para baixo, em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas, se o chanceler não fosse tão inteligente.
Sem o ministro da Propaganda, mais nenhuma mulher poderia ficar grávida.
Sem o ministro da Guerra, nunca mais haveria guerra.
E atrever-se-ia a nascer o sol, sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e, se o fosse, ele nasceria por certo fora do lugar.
É também difícil, ao que nos é dito, dirigir uma fábrica.
Sem o patrão, as paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado, ele nunca chegaria ao campo,
sem as palavras avisadas do industrial aos camponeses:
quem, de outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados?
E que seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
Se governar fosse fácil,
não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos, como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
e se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas,
não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
que há necessidade de alguns tão inteligentes.
Ou será que governar só é assim tão difícil,
porque a exploração e a mentira são coisas que custam a aprender?
BERTOLD BRECHT
http://www.astormentas.com/pt/poema/1702/Dificuld…
A fundo perdido?Ou os haitianos vão penar o resto da vida para ressarcir esses ABUTRES?
É preciso dizer que a onu desempenha impecavelmente seu papel; o papel para o qual foi criada!!
Basta juntar o contexto historico de sua criacao e a sua atuacao e nos teremos um dor organismo internacionais que melhor cumprem seu objetivo: enganar gente besta!!
O objetivo da onu nao é, nunca foi e nunca sera o de ajudar e intervir pelos Países mais pobres e sim, servir para justificar todas as atrocidades perpetradas no mundo pelos eua e seus cumplices
De vez em quando da uns gritinhos histerico e esperneia um pouco, pra parecer que é independente, mas, é tudo farsa!!
Um dos piores atos desse organismo fajuto foi endossar o embargo dos eua contra o Iraque, ocasiao em que milhares de civis morreram a mingua por problemas de saude por desnutricao, doenças causadas por falta de saneamento e falta de antibioticos e quimioterapicos
Deveria ir a julgamento pela corte internacional juntos com os eua!!!
O golpe pró-EUA no Haiti contra o presidente esquerdista Aristide foi o único erro da política externa de Lula/Amorim.
Mas foi um erro gravíssimo.
No geral, concordo com você.
Mas acrescentaria à lista erros menores como:
1 – Durante a Assembléia Constituinte para elaboração da nova Constituição boliviana, quando se debatia a reforma agrária na Bolívia, o chanceler Celso Amorim advertiu que o Brasil cortaria os empréstimos do BNDES para a aquisição de tratores se acontecesse alguma coisa com as propriedades de latifundiários brasileiros no departamento de Santa Cruz.;
2 – Quando o movimento popular do Equador exigiu a saída da Petrobrás de um bloco petrolífero concedido irregularmente, no Parque Yasuní, território indígena e área de preservação, houve pressões condicionando empréstimos do BNDES à manutenção da concessão pela Petrobrás;
3 – Em Angola, enormes quantidades de recursos do BNDES são investidos em parceria com uma tradicional construtora brasileira para desenvolver projetos de monocultura de cana-de-açúcar em vastos latifúndios; para "compensar", a Embrapa também lá se instala – em parceria com a mesma construtora – para supostamente ajudar no desenvolvimento de técnicas agrícolas com vistas ao aumento de produtividade da agricultura – mas em áreas ínfimamente menores dos que as reservadas para a cana. Este caso – o do incentivo à monocultura do açúcar em vastos latifúndios – é mais grave quando se sabe a enorme insegurança alimentar dos países africanos, totalmente dependentes da importação de alimentos.
Mas, sem dúvida, a presença brasileira no Haiti debaixo da doutrina Responsabilidade de Proteger, a famosa R2P – é vergonhosa e um erro gravíssimo de diplomacia. Não à toa, Dilma fez visita relâmpago à ilha Hispaniola, até porque tinha 78% da população contra ela (o número de abstenções nas eleições que conduziram o cantor Martelly ao poder). Que eleições são essas onde apenas 23% da população definem o governo?
Haiti: há quem te ajuda e há quem te USA
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Cuba bombardeou o Haiti com médicos — Uma verdade escondida da internet (Granma):
http://cmprio.blogspot.com/2012/02/cuba-bombardeo…
Médicos cubanos no Haiti deixam o mundo envergonhado (The Independent):
http://sindjufe-mt.jusbrasil.com.br/noticias/3010…
http://www.independent.co.uk/life-style/health-an…
Só dá para concluir uma coisa. Corrupção. Endemica,sistemica, Universal.
Obrigado a Eloisa por sua aula de história para os cidadãos brasileiros. Quantas verdades, que se fossem contaadas de maneira isenta, teriam que ser reescritas. Inclusive a história do proprio Brasil. A propósito, o Haiti também está cada vez mais aqui, com seus "tom tom macoutes" com seus Baby Docs, que despertam ira e amor enquanto dominam e prevalecem sobre um amontoado de desafortunados.
Faltou lembrar que o neo-liberalismo dos anos 90 inundou o haiti com produtos agrícolas subvencionados norte-americanos que eram mais baratos que os produzidos localmente. O resultado disso foi a destruição da infra-estrutura agrícola do pais. Incapazes de concorrer com os produtos importados, os agricultores haitianos abandonaram os seus roçados e foram morar nas favelas da capital.
Uma catástrofe anunciada e insistentemente esquecida.