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Cartas de Minas
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Conceição Oliveira: No debate entre as seguidoras de Oprah e Deneuve, onde ficam as mulheres que não andam de limousine?

10 de janeiro de 2018 às 21h09

Muito barulho sobre uma manchete

por Conceição Oliveira, em seu blog

O título da carta das francesas (Nous défendons une liberté d’importuner, indispensable à la liberté sexuelle) é mais provocativo que o texto em si.

Antes de escrever sobre ele, pergunto-me, aqui do meu mundinho proletário de quem pega 3 conduções por dia e demora 2 horas para chegar de casa ao trabalho — e mais 2 do trabalho para casa — o que Deneuve e Oprah têm a me dizer desde suas belas limousines e de seus microfones em seus tapetes vermelhos…

Como a imprensa brasileira explorou o discurso de Oprah, assim como explorou o manifesto das francesas, destacando trechos descolados do contexto, dando importância demais a um título que não faz jus aos argumentos centrais do texto, prestando um desserviço à informação e ao tratamento adequado de questões graves, como o assédio sexual e a violência contra as mulheres, resolvi dar meus pitacos.

“Violação é crime e ponto, flerte não é”.

Na África do Sul 4 em cada 10 homens já cometeram crime de estupro.

Na República Democrática do Congo o estupro é arma de guerra e até os homens são alvos.

O Brasil ocupa lugares vexatórios neste ranking de barbáries.

Os estupros e a violência psicológica, física, simbólica contra as mulheres são praticados em todos os grupos sociais, por todas as etnias, em todos os lugares do globo.

Foi numa comunidade carioca que uma jovem menor foi violentada por 33 homens, incluindo menores.

As principais vítimas de assédio em transportes públicos são mulheres jovens.

A vovó Deneuve e as demais vovós esqueceram-se de ter sororidade ao soltar o seu manifesto, logo após o discurso contundente da vovó Oprah, que rememorou uma vítima de estupro dos tempos das Leis Jim Crow.

Esclarecendo isso, vamos ao documento original, publicado no Le Monde pelas vovós francesas.

Já no primeiro parágrafo, elas deixam claro que não defendem assediadores, criminosos sexuais: “Violação é crime e ponto. Flerte não é”.

Elas reafirmam que, como mulheres, não querem ser infantilizadas.

Nós mulheres adultas sabemos ou deveríamos saber a diferença entre assédio e uma cantada ruim.

Grosso modo, o texto é um debate com o puritanismo estadunidense e a maneira enviesada com que aquela sociedade trata questões como o assédio sexual: por vezes pais e professores nos EUA acusam até mesmo crianças de cometer assédio sexual.

É a isso que as francesas se referem ao insistirem em “pôr limites à caça às bruxas”.

Elas reafirmam a liberdade sexual das mulheres e em nenhum momento querem voltar ao século XIX, quando só os homens deveriam se dirigir às mulheres.

Elas insistem no fato de sermos sujeitos de nossos próprios corpos e de não sermos reduzidas a eles.

Somos seres completos, não somos apenas bundas ou cérebros.

Em nenhum momento do manifesto as personalidades francesas endossam a violência contra as mulheres: “Era necessária a tomada de consciência das violências sexuais exercidas sobre as mulheres no quadro profissional, onde certos homens abusam do seu poder“ é um trecho do manifesto.

O que elas criticam é a tendência ao totalitarismo quando temas como esses ganham dimensão global, em tempo real.

Não é incomum o efeito cascata, quando denúncias tomam as redes sociais e outras mídias.

O Tribunal da internet é absolutista: uma foto de réveillon no Rio de Janeiro bota o fotógrafo no banco dos réus, pedem a pena de morte com requintes de castigo pedagógico.

Uma campanha séria de denúncia contra assédio pode invariavelmente descambar em fogueira, sem distinção: igualando homens ruins de cantada a criminosos sexuais.

Voltemos ao documento: “Mas é a característica do puritanismo pedir emprestado, em nome do bem chamado bem geral, os argumentos da proteção das mulheres e sua emancipação, para melhor vinculá-los ao status de vítimas eternas”.

E prosseguem: “De fato, #metoo levou na imprensa e nas redes sociais uma campanha de denúncia e acusação pública de indivíduos que, sem ter a oportunidade de responder ou se defenderem, foram colocados exatamente no mesmo nível dos infratores sexuais”.

[Nota do Viomundo: #metoo é a hashtag que promove denúncias contra abusadores]

A quem isso serve?, elas questionam.

Serve ao pensamento conservador: “Essa febre para enviar porcos ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se libertarem, serve aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, dos extremistas religiosos, dos piores reacionários e daqueles que falam em nome de uma concepção substancial de bem e moralidade (vitoriana) em que as mulheres são seres separados, crianças com rosto adulto, exigindo a proteção. Confissão pública, incursão de promotores autoproclamados na esfera privada, que se instala com um clima de sociedade totalitária”, diz o texto da carta.

Aqui no Brasil, Jair Bolsonaro, que acusa a deputada federal Maria do Rosário de “defensora de estupradores”, é o mesmo que faz da ameaça de estupro uma arma no parlamento — contra deputadas como a própria Maria do Rosário –, ao mesmo tempo em que vende castração química como moeda eleitoral.

O discurso de Oprah

Oprah, em seu discurso no Golden Globe, pautou de modo contundente e emocionante o sexismo e o racismo na sociedade estadunidense, ao narrar a história dos tempos das leis Jim Crow, quando a segregação racial era institucionalizada e mulheres negras deveriam engolir a seco a violação de seus corpos, sem acesso à Justiça pra punir seus violadores.

Extrapolou a questão do assédio e da violência contra a mulher para outros espaços geográficos, religiões, posições políticas, culturas e locais de trabalho.

Oprah dialogou diretamente com a violência sexual, especialmente quando as mulheres negras, ainda mais objetificadas e desumanizadas em sociedades com herança escravagista como a nossa, são as principais vítimas.

Deneuve e as demais francesas separam a violência sexual do direito à liberdade sexual das mulheres, considerando o campo privado, demarcando aquilo que é de esfera pública e o que não pertence a ela.

É como se Deneuve nos dissesse: o que faço dentro de quatro paredes, minhas práticas sexuais, meu comportamento sexual, como me relaciono com meus parceiros, não é da sua conta, sou adulta e sei colocar limites.

E não é mesmo, assim como não é da conta de ninguém as roupas que uso, os gestos que faço, meu vocabulário e nada disso deveria ser, em lugar nenhum do mundo, salvo conduto para homens violentarem mulheres.

Qual é de fato nosso debate público, mulheres trabalhadoras?

Nem Oprah nem Deneuve estão preocupadas com a profunda desigualdade do Capital em sua nova fase de reestruturação produtiva, que aprofunda a exclusão, o sexismo e o racismo.

Homens e mulheres trabalhadores, no nosso caso, de maioria negra, são excluídos de todos espaços de poder, jogados para as ocupações mais inferiorizadas no mercado de trabalho.

Ambas estrelas de cinema não fizeram qualquer menção ao mesmo Capital que usa e abusa das lutas pelo reconhecimento de nossas identidades e especificidades reduzindo-as a nichos de mercado.

Capital que precifica o assédio sexual de acordo com a hierarquia empresarial, como o faz nossa reforma trabalhista, onde uma copeira assediada vale menos que uma diretora assediada.

E aqui reside minha grande questão: mesmo no campo progressista, há os que reduzem a luta dos direitos coletivos à esfera do comportamento.

Peguemos um estudo de caso concreto entre nós nas redes sociais, a página Quebrando o Tabu.

Quais são os temas predominantes desta página?

As causas do racismo e do sexismo no mercado de trabalho?

O feminicídio calcado, fundamentado e estruturado numa sociedade patriarcal como a nossa?

O fundamentalismo religioso, com bancada no Congresso estimulando a lgbtfobia, o controle dos corpos femininos, os direitos reprodutivos, assim como a privatização de nossas riquezas nacionais?

O golpe contra nós todas, que aprovou de uma tacada só o trabalho intermitente, inviabilizou o recurso à Justiça do Trabalho dos trabalhadores precarizados?

Não.

O foco da página que atrai uma legião de progressistas é o comportamento.

Questões de “empoderamento das gostosas”, de Pablo Vittar na lata de Coca-Cola, da estética dos cabelos afros, do som das trans etc.

Tais temas ganham a centralidade do debate e também o interesse do mercado, que lucra sempre higienizando o som do funk, embranquecendo-o, produzindo maquiagem ‘étnica’, se apropriando da luta antirracismo para vender automóvel, como a Fiat fez com o mote “Está na hora de rever seus conceitos”, em que a crítica ao pensamento retrógrado e preconceituoso do racismo brasileiro vira peça publicitária.

Nosso desafio no campo da esquerda (jovens, mulheres, negros, população lgbt etc.) é fazer o debate do racismo, do sexismo, da lgbtfobia e de toda ideologia que nos desumaniza e nos oprime sem descolá-lo da questão de classe, sem abrir mão da centralidade do trabalho.

Porque são justamente a juventude negra, as mulheres negras e as trans da periferia as mais afetadas pelos ataques aos direitos trabalhistas, pela ameaça da reforma da Previdência, pelo ataque à educação e saúde públicas, pela violência institucional do Estado em todas as suas formas.

Estão nessa maioria esmagadora da classe trabalhadora as principais vítimas da aprovação da PEC 95, que congela durante vinte anos os gastos públicos e que fará mais mulheres negras morrerem com sangramentos, sem atenção básica do SUS, depois de seus abortos feitos clandestinamente.

São também as mulheres negras e a juventude negra que terão pioradas as suas condições de vida e sobrevivência, com a legalização da terceirização e do trabalho intermitente.

Todas estas pautas estão ausentes do debate público nessas páginas que focam as questões identitárias por um viés restrito ao comportamento, ao “empowerment” importado do liberalismo estadunidense, como a Quebrando o tabu.

O feminismo não prega ódio aos homens

Para encerrar, o Feminismo, ao menos aquele com o qual me identifico, jamais propôs ódio aos homens.

O feminismo quer igualdade de gênero, de oportunidades entre homens e mulheres; quer remuneração de igual valor para trabalho de igual valor, quer repartir o tempo da educação dos filhos, o tempo de cuidado aos idosos, às pessoas com deficiência severa e que exigem cuidados constantes, quer revolucionar uma sociedade fundada no patriarcalismo que nos inferioriza, nos desumaniza para extrair mais-valia.

O feminismo que defendemos não quer reproduzir em relação aos homens as taxas cruéis de feminicídio, em que os principais algozes são namorados, maridos ou ex de suas vítimas.

Não queremos morte aos homens, queremos morte às relações de poder que nos escravizam e que também impõem aos homens um comportamento embrutecido, para reafirmar sua masculinidade.

Leia também:

Carlos Cleto: Cristiane Brasil cometeu ato de improbidade

 

8 Comentários escrever comentário »

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Bruna Menezes

12/01/2018 - 21h42

Parabéns e obrigada pelo excelente tecto! Achei corajoso e necessário o discurso de Oprah , principalmente pelo recorte do racismo. Estou do lado da raiz do ativismo das americanas no sentido de denunciar assédio , violência contra as mulheres. Mas não gosto do efeito cascata e midiático que leva a julgamentos absolutistas (como a autora do artigo bem analisou) e ficou claro que o manifesto francês não endossa a violência, pelo contrário , foi uma fala necessária, pois, pelo que compreendi, incentiva que as denúncias sejam feitas, sim, mas dentro da legalidade e não como um reality show pra vender e apedrejar sem limites. Como o tribunal das redes sociais e dos blogs e revistas são mais rápidos , já pegaram a figura mais célebre do embate francês, uma mulher e respeitada atriz, Deneuve, fizeram uma leitura distorcida , e já estão a colocando como defensora dos agressores. O que é um absurdo. Nenhuma das duas fizeram um recorte social. Mas deram importantes contribuições.

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Lexalex

11/01/2018 - 21h55

Gostei! Embora não concorde com a parte do capitalismo..etc… Parece que foi a única que leu o texto em francês nesse angu de caroço. Só chamou de vovós, foi simpática e
tolerante, ví outras pessoas chamando de porcas, imundas, defensoras da pedofilia e do estupro e obviamente burras né! Desconfio que a hora que a tradução sair por aí vai ficar esquisito para um monte de ‘formadores de opinião” e “digital influencer” que deram pitacos sem ter feito a leitura direta do texto. Ou melhor, não vai ficar esquisito, pois o que importa nesses tempos é LACRAR com textão!

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Antonio Passos

11/01/2018 - 13h37

Porque ? As de limousine não têm direito de falar ? Se a imprensa desse voz às que não têm limousine, não haveria este questionamento com tons de demagogia. Desde quando o debate sobre temas relevantes da sociedade, foi feito na mídia pelas pessoas das classes mais baixas ? Só em países realmente socialistas, pouquíssimos de fato, isto foi tentado, talvez parcialmente conseguido.

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Morvan

11/01/2018 - 12h52

Bom dia. O mérito do debate, partindo das francesas, é justamente no tocante a discutir o punitivismo estadunidense, o fundamentalismo justiceiro, tão amiúde nessas nossas plagas, hoje em dia, de delanhólica liturgia “purgante”. Sem trocadilho.
Mas o texto se perde, um bocado, com o “laissez faire” de la Deneuve; não por que alguém desavisado possa interpretar, ali, um voto de leniência para com os abusos; mas por que uma coisa é D. Catherine ser xavecada. Outra é uma mulher, fragilizada econômica e hierarquicamente, numa empresa, sofrer um xaveco que não o é, mas um rotundo assédio imoral seja de qual modalidade.
Não haá a mais remota chance de comparação fidedigna.
O texto de Conceição já nos brinda com a real discussão a ser travada, nos lembra de que o cerne da discussão sempre passa pela luta de classes, esta tão sorrateira e comumente escamoteada. Conceição resgata o verdadeiro debate.
A propósito, numa recente discussão, no FaceBook, uma pessoa me falou gostar muito de Ophrah. Que a respeitava. Lembrei-lhe de que a discssão não se circunscrevia à personalidade, muito ao contrário, era necessário contextualizar e ponderar a diferença da âncora frente a maioria das mulheres estadunidenses, mormente as afrodescendentes, a grande maioria não afortunada pwela mesma “meritocracia” de Ophrah. Lembrei-lhe de que os EUA elegeram (?) Barack Obama, mas o afro estadunidense não se sentiu representado, nesses seus dois mandatos, nem houve mudança importante de patamar de direitos, etnicamente falando.

Saudações “#ForaTemerGolpsista; Eleger o ‘Jara’, recobrar o país das mãos dos destruidores. Reformas do Golpiciário e midiática, urgente. Com esta curriola togada, jamais teremos democracia“,
Morvan, Usuário GNU-Linux #433640. Seja Legal; seja Livre. Use GNU-Linux.

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Augusto

11/01/2018 - 09h51

Em linhas gerais concordo completamente com Conceição O debate de classe esta fartamente ausente nessa questao. O que vemos aqui eh un frenesi denuncista e punitivista que nada contribui para a melhoria efetiva das condições de vida das mulheres, negros, homosexuais etc. Quanto custa o show (ruim) do tal Vittar?

Tudo isso eh conversa fiada, como simbolo rosa ou colorido do Google em homenagem aos gays e mulheres, quando sabe-se que la dentro a discrepância salarial eh significante.
Gosto do ponto de vista de Deneuve e seu grupo e acho Oprah uma exploradora dramatica e demagoga.

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ana s.

11/01/2018 - 01h22

Concordo! Sem se reportar à luta de classes, essas questões identitárias não passam de tergiversação, diluição. Não nos deixemos pautar pelas Oprahs da vida. Aquela cerimônia do Globo de Ouro foi, até onde eu vi, opressiva e deprimente. Mais do que costumam ser essas premiações fajutíssimas e totalmente distantes da essência da arte.

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Armando

10/01/2018 - 23h39

oba, é disso que eu gosto – os pingos nos is – parabéns pela sua lucidez – esse texto vale – sim sim sim- assino e protocolo – mulheres e homens – juntos, contra a exploração do capital – dos corpos encarnados nos celulares, nas roupas de marcas, nas modas metropolitanas de Ny, Londres e o escambau a quatro – no desbunde das batatas fritas e hambúrguer, nos carros a 72 prestações , nas tvs 4k para ver a copa e no massacre do dia a dia nos ônibus, nos salários de escravidão, no homem que empurra a mulher tão pobre qto ele na frente do metro em SP nos sexos sem gozo e sem o prazer de viver – por nós – parabéns moça de nome Conceição – lindo esse nome e que vc construa junto com esse povo uma história de luta que dignifique a sua vida e a de todos ao seu redor. Obrigado

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Marcos Neves

10/01/2018 - 22h29

Excelente texto.Parabéns

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