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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Adilson Filho: Sem investigar seus defeitos, esquerda não vai descobrir motivo da falta de reação ao Golpe

07 de julho de 2017 às 18h37

Muita força, mas não a dose necessária

A TRAGÉDIA CIVILIZATÓRIA BRASILEIRA

por Adilson Filho

Acho que em nenhum outro lugar a própria tragédia é desprezada com tanta força como no Brasil.

Por aqui, ditador vira nome de rua e família escravocrata adepta do nazismo dá nome ao bairro onde torturou e matou à vontade.

Por aqui, jogadores de futebol levam faixa com a bandeira de outro país aos gramados, mas diante do horror quase semanal nas nossas favelas, se calam.

Por aqui, a gente se indigna com Golpes de Estado em outras partes do mundo, mas diante de um que arranca o couro da nossa gente, fazemos piada, dançamos em roda e, volta e meia, ainda damos uma mãozinha aos usurpadores.

Isso não é (só) culpa da Globo, é a nossa formação: individualista, racista e autoritária.

Toda a nossa atuação politica em sociedade deriva desse ranço histórico.

Nós, parte da classe dominante brasileira e formadores de opinião, somos assim.

Seja o opressor direto, o indireto, ou os que se posicionam ao lado do oprimido, todos comungam do mesmo “ethos de classe”.

A violência da opressão conta com a anuência silenciosa e, às vezes, até com a colaboração dos seus pares.

Se olharmos com honestidade pra isso, veremos envergonhados que é assim.

Nenhuma luta prosperará aqui no país enquanto não esgotarmos a tragédia da escravidão e das sucessivas ditaduras, o seu efeito devastador em nossa alma coletiva.

De uns anos pra cá, estávamos finalmente encarando a nossa maior chaga, a vexatória desigualdade social — dando voz e um pouco de dignidade aos que podem lutar de verdade por essa transformação.

Mas, no lugar de vermos a nossa responsabilidade na apatia geral da nação, preferimos ficar lamentando: cadê o povo que não se mexe?

Acima de tudo, por isso, eu levo muito a sério esse golpe, pois sei muito bem a força do Brasil que esses bandidos esmagam como barata agora, com medo de deixar emergir.

POR QUE TEVE GOLPE E NÃO TEVE LUTA?

Por que teve golpe e não teve luta?

Pelo simples fato que, como é de hábito, ninguém quer olhar: não somos ‘de luta’ aqui no Brasil, pelo menos como imaginamos.

A luta aqui nesse país foi a resistência do negro e do índio, do nordestino miserável pra não morrer de fome, do trabalhador nas fábricas que se organizou e um dia chegou lá pra garantir o pão na mesa da família, e do pobre na favela pra sobreviver todo santo dia.

Esse mesmo pobre que pessoas zombam aqui chamando de “pobre de direita”, sem perceber o qto de responsabilidade tem como classe dominante como espelho para as classes menos favorecidas.

Aliás, também não temos esquerda como imaginamos.

O analfabetismo político aqui vai de ponta a ponta do espectro ideológico.

Praticamente, não existe consciência cidadã e coletiva, noção do papel que exercemos na sociedade de classes, do papel do Estado, uma séria de coisas que dão o argamassa da luta da esquerda.

O golpe em Jango, que nos colocou numa ditadura de 21 anos, teve participação de boa parte da classe média na época, muitos se arrependeram depois e se juntaram a uma outra parte que organizou focos de resistência, mas insipiente perto do tamanho do monstro.

O Diretas Já, de 84, que conseguiu nos unir em torno de um objetivo, ainda assim, redundou numa passagem conciliatória para o “colégio eleitoral”.

A nossa academia então, não existe nada mais ‘discretamente’ conservador.

Intelectuais tidos como “vacas sagradas” chamam a resistência dos negros e índios contra o massacre que sofreram de “processo civilizatório nacional” ou “maravilha da miscigenação”.

Sérgio Buarque, super incensado pela esquerda acadêmica, foi talvez o maior demonizador do Estado nacional (o que talvez explique aquele professor da UFRJ, deputado carrioca cabeludo que fica nas ruas despolitizando as pessoas, mas falar da agressão do Mercado que é bom, nada)

Nesse sentido, nunca existiu esquerda no Brasil. A esquerda por aqui está longe de ser orgânica como na Argentina e no Uruguai, ela é acadêmica, artista, burguesa, de mesa de bar, chama o governo golpista de governo (sem aspas), beija a mão de Aécio Neves na farra do jornalista do Globo…

E é Suplicy mandando cartinha pro Temer, é Jean Wyllys elogiando FHC e emprestando sua imagem pra direita sionista de Israel contra o massacre das crianças palestinas, é Luciana Genro dando vivas à Lava-Jato e todas aquelas correntes do seu partido que marcharam pedindo a cabeça de Dilma nas ruas.

É gente, pasmemos, relativizando um ataque frontal à liberdade de expressão por parte de um juiz sequestrador!

Isso aí é não é esquerda nem aqui nem na China de Mao Tse Tung.

Aqui no Rio, a esquerda se criou muito à sombra do PT festivo dos anos 80 que, hoje, enguiçado em seu burocratismo, não arregaça as mangas pra fazer a luta; prefere amolecer os braços na janela esperando pela redenção de Lula em 2018.

Aqueles mais ‘descolados’, que lutavam por liberdades na ditadura — não por justiça social, frise-se — hoje, ou foram pra direita de vez, como Fernando Gabeira, Arnaldo Jabor, ou se diluíram em partidos verdes e ensolarados que trouxeram pra cena bandeiras caras as minorias sociais, dando-lhes um contorno liberal mas descolado da estrutura e da luta de classes (assim como acontece nos EUA, na França); ou seja, uma nova cara para uma “nova direita” que começa a querer desabrochar.

Olhar pra dentro da própria esquerda no lugar de ficar culpando os paneleiros é o único caminho onde eu consigo encontrar explicação para que um golpe de Estado de tamanha violência contra o povo brasileiro não encontre resistência nenhuma dos que deveriam estar organizando um levante pra paralisar esse país até esses larápios devolverem o futuro dos nossos filhos de volta.

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4 Comentários escrever comentário »

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Pimenta C. Outros

09/07/2017 - 05h38

Apenas para sentar lenha no petismo.

Responder

Edgar Rocha

08/07/2017 - 19h09

Eu acrescentaria que há milhões – milhões! – de pessoas que compartilham dessa opinião. Mas, vá falar pra um petista ou qualquer filiado de qualquer partido e “esquerda”, pra ver se o discurso defensivo pseudo-intelectual não aflora!
Esfregam teses, orelhas de livro na tua cara, cobram uma participação que sempre está condicionada à subserviência ao pensamento homogêneo de lideranças, te chamam de conservador, pequeno-burguês, reducionista e o diabo na cara dura, dizem que “jamais na História deste país” se avançou tanto nas políticas públicas de distribuição, que estamos contra, que denegrimos, quando na verdade, é prática da própria esquerda submeter os críticos às conversas de pinga com limão que desqualificam, atingem pessoalmente e isolam. A esquerda só aceita apoio se este for submisso e se estiver de acordo com a agenda política de suas lideranças. Não se discute a agenda política nem sua natureza, nem suas falhas estratégicas, nem os princípios teóricos que afastam a política da vida cotidiana. Houve um tempo em que a mistificação da resistência era suficiente para a aglutinação de forças. “A causa” a ser defendida, baseada em teorias externas alimentava esperanças. Com a prática, tal ilusão se foi e aquilo que era palpável na inclusão do cidadão à vida política foi abandonado por fata de funcionalidade em relação ao projeto indizível que jamais fora revelado aos “subalternos” da vida política. Tal projeto redundou no que temos hoje e ninguém quer mais se submeter aos oráculos da esquerda, sejam eles os acadêmicos ou articuladores eleitos. Estes últimos prescindiram de suas bases e mostraram sua real vocação: a política de bastidor e de acordos à revelia de projetos e de anseios das bases. Mais do mesmo. Uma hora o saco do cidadão comum – do carregador de piano – se enche e a preocupação primeira passa a ser a sobrevivência à selvageria cotidiana, filha da selvageria política. Cada um se vira como pode e se esforça pra resistir às carências verdadeiras que nunca, “nunca na História este país”, foram devidamente confrontadas: coronelismo, neo-coronelismo aplicado por agentes públicos e pelo poder paralelo, violência física e simbólica contra o Estado de Direito e a Justiça, encarceiramento de pretos e pobres, abandono do poder público diante de demandas básicas, a quais nem de longe um esquerdista achou ou acha prioritário… O diálogo entre a esquerda e a realidade dos excluídos na vida política sempre deixou a desejar. Tudo era micro, local e pouco importante para a vida política. A esquerda vive do macro, se alimenta e se anaboliza com as grandes causas e a grandes esperanças. A educação política deveria ser tão básica tão frugal quanto a negligência diante daquilo que sempre fez falta para o pobre e nunca faltou aos incluídos. A experiência da pequena conquista – da rua asfaltada, da sonhada linha de ônibus, da creche, da alimentação acessível deveriam ser o estágio inicial para a participação ativa do cidadão e não a promessa de uma utopia compreensível só aos que não desejam outra coisa senão poder sentar ao lado do burguês e sentir-se em casa, poderoso e incluso nas decisões do país. O golpe colocou a esquerda de gabinete em se devido lugar. Os abandonados da grande causa, bem, alguns se refastelam com o aperto de quem um dia se disse companheiro e depois sumiu. Outros aguardam o reconhecimento dos erros. E outros, como eu e acredito que a maioria, se vêem impotentes diante do fato de que não haja ainda espaço para crítica, nem para a participação, nem para legitimação de suas ações. Fazem aquilo que as lideranças nunca deveram ter abandonado: agem localmente, mantêm sua conduta ética e tentam de alguma forma colaborar pra algo que julgam distante de germinar, mas cuja a certeza de sua existência sobrepõe-se à desesperança de que, neste momento, poderá despertar. É só uma semente, uma possibilidade. Mas,é o que temos e é certo que existe. Não tenho esperança que queiram que brote. Mas, a semente de uma grande árvore dura muito. E aguarda a condição para vir à tona. O jeito é esperar o esterco apodrecer, a sombra e a umidade serem propícias e,aí sim, dar início a uma nova realidade.

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Mineiro

08/07/2017 - 17h02

Concordo em quase tudo principalmente na parte que não existem esquerda, isso tá mais na cara ,só não vê que não quer. Só não concordo em não culpar os paneleiros do golpe e os pobres de direita ,porque esses imbecis teve participação direta no golpe facista e de bandidos. Agora responsabilizar a esquerda covarde e o Pt no golpe e também dizer que eles são culpados tanto quanto a direita, isso eu assino embaixo. Porque foi mesmo ,os golpistas junto com o pig vem tramando esse golpe a muitos anos e ninguém da maldita esquerda não mexeu um dedo se quer. E agora quer pousar de Santa e tirar o seu da reta ,mas não tira mesmo ,é culpado o pt ,é culpado a maldita esquerda covarde e nos também que somos todos covardes e também não fez nada. Todos tem culpa nesse golpe direto ou indiretamente, mas tem.

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Ricardo Fuampa

08/07/2017 - 10h02

Gosto deste tipo de análise. Não posso falar pelos outros, falo por mim. Não fui enfrentar o golpe, por que nunca fui governo, e é claro que o golpe foi contra o governo. Antes porém o governo tinha escolhido seus parceiros: Temer, Cunha, Jucá, Renan, ao mesmo tempo em que o PT excluiu seus militantes mais aguerridos, já a partir de Heloísa Helena. Foi uma troca. Vai-se companheirismo, venha governabilidade. Um golpe destes não foi planejado, foi acontecendo a medida da perda de competência do PT já no mensalão. Perdeu-se o Dirceu. Um herói nacional como Genuíno ser condenado seria o motivo para revide. Não houve nada, pois o PT sabe que se locupletou da mesma forma que os outros partidos vem fazendo desde sempre. Quantas campanhas de finanças tivemos que fazer até que um belo dia não precisávamos mais de dinheiro. Sobrava dinheiro faltava o resto. Dilma foi a grande vítima disso tudo. Não era dirigente partidária e nem mesmo uma expressão política para se confrontar com a canalhada do congresso. Dilma fez o que tinha de fazer, não cedeu às pressões da corja. Todavia, a luta continua, outras batalhas virão.

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