Atualizado em 11 de abril de 2008 às 16:59 | Publicado em 29 de dezembro de 2007 às 13:20

"Não à venda da pátria. Os povos que não defendem o seu terminam sendo inquilinos em sua própria terra: Juanito Mora"
SAN JOSE - A Costa Rica está à venda. Um terreno por vez. Oitenta por cento das áreas nas praias mais populares do país, especialmente na costa do Pacífico, foram compradas por estrangeiros - principalmente americanos. Depois de comprar o Alasca, os Estados Unidos estão comprando seu próprio paraíso tropical. Quem encomenda as placas anunciando projetos imobiliários nem se preocupa em anunciar em espanhol. É tudo em inglês.
A América Central é conhecida como um lugar que se promove dizendo o que NÃO tem. No Panamá, anúncios no aeroporto dizem que o país é um bom destino para investimentos, entre outras coisas porque NÃO enfrenta risco de terremotos, nem de furacões. Na Costa Rica o motorista de táxi repete o bordão segundo o qual está tudo bem. "Não somos El Salvador, nem Honduras", disse ele sobre a criminalidade. Nas cidades da Costa Rica, que é um país de classe média, a população se esconde atrás de cercas e de arame farpado. A criminalidade é atribuída a estrangeiros, especialmente imigrantes da vizinha Nicarágua.
Os indicadores sociais da Costa Rica são mesmo muito melhores que os de toda a região, com exceção de Cuba. O país não tem exército e montou um sistema público de atendimento médico e hospitalar de alcance universal. A geografia é linda: mar, montanhas e florestas tropicais. O terreno acidentado impede o agronegócio em grandes extensões de terra. É a geografia a serviço da estabilidade política. A Costa Rica tem um grande número de pequenos proprietários, o que garante uma distribuição de renda bem melhor que a média regional.
Em 2006 o prêmio Nobel da paz Oscar Arias foi eleito presidente pelo Partido de Libertação Nacional (PLN), com apenas 18 mil votos de vantagem sobre Otton Solís, do PAC, o Partido de Ação Cidadã. Arias elegeu-se com a promessa de aprovar a entrada da Costa Rica no CAFTA, a versão do NAFTA para a América Central.
Do CAFTA fazem parte Estados Unidos, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana. A adesão da Costa Rica foi submetida a um plebiscito, em que - depois de forte participação dos Estados Unidos na campanha - o SIM ganhou com pouco mais de 50% dos votos. Qual é o problema do CAFTA? O mesmo do NAFTA, o acordo de livre comércio que juntou Estados Unidos, Canadá e México. Os parceiros pobres nestes acordos comerciais não recebem qualquer compensação financeira. A adesão de Portugal e da Espanha à União Européia foi "comprada" com bilhões de dólares em investimentos em infraestrutura. O México não recebeu nem um peso quando aderiu ao NAFTA, além da promessa de investimentos se mudasse as leis domésticas para adequá-las aos interesses de empresas estrangeiras. O CAFTA segue o mesmo modelo. Isso não é propriamente "adesão", mas "colonização" do século 21.

A Costa Rica fatura mais com turismo, hoje em dia, do que com a exportação de café, banana e plantas exóticas. A contradição está em que a própria expansão do chamado "turismo ecológico" se dá às custas da destruição de florestas, do surgimento de novos condomínios, da falta de infraestrutura para atender aos novos projetos. Os americanos adotaram a Costa Rica como refúgio depois da aposentadoria.
Num país pequeno, de apenas 4 milhões de habitantes, qual seria o interesse estratégico dos Estados Unidos - a ponto de levar Washington a fazer campanha abertamente pela aprovação do TLC? O texto do tratado protege alguns setores da economia local, mas garante aos norte-americanos o que eles buscam em todo acordo desse tipo: proteção à propriedade intelectual, abertura do mercado financeiro, do mercado de seguros e do setor de telecomunicações. A economia americana está se tornando velozmente uma economia de serviços. Los gringos não fazem mais mercadorias. Fazem filmes, programas de TV, programas de computador.
E, quando negociam os acordos comerciais, exigem mudanças nas leis domésticas para dar garantias de que vão faturar com seus produtos "de ponta". Além disso, insistem no tal do "marco regulatório", de que tanto nos fala a Miriam Leitão. Trocando em miúdos o marco regulatório é um sujeito que decide tudo a favor do investimento estrangeiro, sem levar em conta as peculiaridades e os interesses locais. O único compromisso do dinheiro que vem de fora é fazer mais dinheiro e ter liberdade de ir embora quando e como quiser.
Qual é a vantagem que a Costa Rica leva? Ter acesso ao mercado americano para seus produtos de exportação: café e banana. Com certeza algum investidor de Taiwan vai montar uma maquilladora no país, para tirar proveito da mão-de-obra barata e ter acesso ao mercado americano. Na América Central, as maquilladoras são conhecidas mais como prisões do que propriamente como empresas. É capitalismo pré-revolução industrial, com combate aos sindicatos, salários de fome e revista dos empregados na entrada e na saída.
Na Costa Rica, agora os condomínios para estrangeiros vão se espalhar de vez. O país fica a duas horas de vôo de Miami e a três de Atlanta. As praias americanas são feias. O país não tem floresta tropical. A Costa Rica tem praias lindas, muito verde, calor tropical e mão-de-obra barata. Além disso, por causa das estradas precárias e das montanhas, lá os americanos podem brincar com os jipes com tração nas quatro rodas, que nos Estados Unidos só usam para ir de casa ao supermercado. Os "ticos", como são conhecidos os costarriquenhos, terão empregos na copa e na cozinha.

"Não se vende a Pátria, nem se compra o La Nazion"
O que mais me surpreendeu na Costa Rica foi descobrir que também existe uma versão local do PIG - o Partido da Imprensa Golpista. Durante a campanha que precedeu o plebiscito, as emissoras de TV e o principal jornal, o La Nación, mentiram, distorceram e omitiram informação de tal forma que surgiu uma campanha de boicote contra eles. O La Nación agora é chamado de La Nazion, por causa da cobertura nazi. Como se vê, a mídia assumiu o papel de partido político em toda a América Latina. Sempre alinhada com os interesses de Washington e da oligarquia local.
Azenha, aqui no Brasil estamos também nesse processo de vender nossos paraísos aos estrangeiros, principalmente na região litoranea do Nordeste. É só dar um pulinho em Trancoso, Praia do Espelho (Vila do Outeiro tem um resort de R$ 1.000,00 a diária) e mais recentemente Rio Grande do Norte (Praia da Pipa ao sul e a Via Costeira na capital). Já,no sul da Bahia,em Itacaré onde estão detonando tudo. Agentes de viagem vendendo pacotes ditos "turismo ecológico" que de ecológico não tem nada. Conheci algumas pessoas em Itacaré que lutam bravamente contra a especulação imobiliária, mas é muito difícil, pois a cada temporada se deparam com empresários sobrevoando de helicóptero pois estão vasculhando a região em busca de novas áreas. Itacaré já está no limite, o próximo passo é a peninsula de Maraú, do outro lado do Rio de Contas que hoje precisa atravessar de balsa e depois pegar um jeep 4 x 4. Mas já tem um projeto de fazer uma ponte e asfaltar toda península. O que podemos fazer ?? Lamento muito tudo isso. Que droga !!