Atualizado em 11 de abril de 2008 às 16:58 | Publicado em 06 de janeiro de 2008 às 21:45

Numa recente viagem à Espanha, visitei Córdoba. Eu e minha filha Luisa posamos para foto diante da mesquista convertida em catedral. A cidade já rivalizou com Bagdá como um dos centros do império islâmico que se estendia do Oriente Médio à Península Ibérica. O legado arquitetônico dos muçulmanos é espetacular.
Nas catedrais católicas, a nave gigantesca faz o fiel se sentir pequeno, insignificante diante de Deus. A arquitetura islâmica em geral combina fachadas simples com interiores riquíssimos. Ao passar do público para o privado, é como se você estivesse a caminho de uma descoberta.
O exibicionismo dos reis cristãos, que folhearam paredes de catedrais com o ouro saqueado das Américas, não supera a beleza dos arabescos, nem a simplicidade dos pátios e jardins que convidam à reflexão. A fusão entre dois estilos resulta numa arquitetura deslumbrante.

Do lado de fora da mesquita, uma placa nos chamou a atenção. Ela indicava, com especial destaque, a direção a ser tomada para chegar ao Burger King de Córdoba. Sinal de que os bárbaros estão a caminho.
Quando conheci o jornalista Paulo Francis, nos anos 80, em Nova York, ele alertava: "Seremos afogados pela vulgaridade". Enxergava isso na classe média americana, que tinha acesso à educação mas era culturalmente tosca.
Ele se referia ao poliéster, aos tênis recém-comprados dos turistas, ao fast food, à falta de cavalheirismo e à histeria feminista. Eu, como jornalista novato, só ouvia o discurso do Francis. Como bom provocador, ele se dizia monarquista.
"O mundo está sendo nivelado por baixo", dizia. Na época, quieto no meu canto, eu pensava: "O Francis é muito ranzinza". Vinte anos depois, concordo com ele. A batalha foi perdida. Ainda vai chegar o dia em que turistas irão ao Burger King de Córdoba e, se sobrar tempo, visitarão a mesquita.
Publicado originalmente em 2006