Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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UM OSSO DURO PARA A MÁQUINA DE MOER CARNE

Atualizado em 17 de abril de 2008 às 19:58 | Publicado em 17 de abril de 2008 às 19:56

SÃO PAULO - A máquina de moer carne da mídia não pára. Precisa produzir continuamente. E produzir, sempre, algo sexy. Na pior acepção da palavra. Crianças defenestradas, arrastadas por automóveis, vale tudo desde que a morte tenha "valor" de venda. Ou seja, a morte de uma criança por desnutrição, aos poucos, bem diante do prédio da Folha de S. Paulo, na Barão de Limeira, tem valor zero na escala da notícia. Bebês mortos em reservas indígenas e em maternidades já se tornaram parte do trivial.

A internet, que me ajudou a agregar todos vocês em torno de um endereço eletrônico, ainda que fugazmente, também flexibilizou - palavra amada pelos telemarqueteiros da notícia - as relações de trabalho no ramo. As redações de hoje representam, para o trabalho intelectual, o que foram os sweatshops da indústria têxtil na revolução industrial.

Jovens, mal pagos e mal dormidos têm tripla jornada de trabalho - uma na redação, outra no celular e a terceira na internet - pelo preço de um estagiário. A eles foi transferida a tarefa de produzir as notícias sexy, de pegada. Esse termo do boxe foi adaptado para o jornalismo e cai - com perdão antecipado pelo trocadalho - como uma luva. Pegada. É preciso ter pegada, esmurrar o leitor ou o telespectador, despertá-lo do sono profundo em que foi mergulhado pela própria banalização da notícia, pelo martelar monocórdico das manchetes que juntam o dalai lama, arthur virgílio e a previsão do tempo em 30 segundos.

Há dois ou três dias um colega foi preso pela polícia, sob a acusação de porte de drogas. Não sei detalhes do caso, mas estou certo de que não dura muito no ciclo da notícia. É que o caso diz muito de nós mesmos, jornalistas. Nem todos os nossos triunfos e furos e notícias de primeira mão são capazes de encobrir nossa humanidade, nossas fraquezas, nossos erros, nossos crimes e contravenções. Lembrem-se, caros leitores: a mídia constrói sua imagem junto ao público sobre um alicerce falso. Nós estamos certos, sempre, árbitros pairando sobre a sociedade, produtores dos mandamentos diários sobre os juros, os gols e a safra. Admitimos erros, sim, mas desde que eles só sirvam para confirmar a regra de que estamos certos 99,9% das vezes.

Uma de minhas diversões prediletas é ir pescar notícias antigas e trazer os esqueletos para que vocês se divirtam com os bicos, as caneladas, os palpites furados, os exageros, as previsões estapafúrdias e a hipocrisia. Consuma à vontade nosso produto em nova embalagem, light. É 100% notícia com 0% de informação.

 


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Tiago (19/04/2008 - 19:24)
se alguém tiver a curiosidade de ler um jornal/revista de um ano atrás, vai morrer de rir, ou de ódio... ¬¬

Marcus Medbarr (18/04/2008 - 20:38)
A exposição excessiva, muito antes do julgamento, acaba por comprometer a notícia investigativa. Reforça-se o imediatismo, o sensacionalismo, as superficialidades do mundo da comunicação.
Eis um repórter exposto de maneira contudente, configurando-se a desmedida antes dos fatos reais, verdadeiros.
A banalização da informação, o sensacionalismo barato acaba por comprometer o interesse daqueles que clamam por notícias exemplares, pela conduta ética-profissional, pela dedicação por um jornalismo responsável.

Edinho Kunzler (18/04/2008 - 16:45)
Um texto excelente para uma realidade estúpida.

Luiz Carlos Azenha (18/04/2008 - 15:51)
Com certeza o Cabrini vai satisfazer a sua curiosidade.

Juliano Guilherme (18/04/2008 - 15:44)
Senti uma ponta de amargura na sua devastadora crítica à mídia dos dias de hoje. Também teria se fosse jornalista. Mas com certeza, se o fosse, estaria junto dos quixotescos Azenha, Nassif, PHA, Eduardo Guimarães, Miguel do Rosário, Mello, Rovai e alguns outros idealistas. Exatamente por fazer parte dos leitores que exigem notícia 100% informação, que gostaria de que um de vocês nos dissesse o que realmente se passou com o Cabrini

Luiz Henrique (18/04/2008 - 15:04)
Quando é q vc Azenha será entrevistado pela Caros Amigos.

Marcelinho (18/04/2008 - 13:31)
BBB Isabella Nardoni..

Quem irá ao PAREDÃO???

Pra condenar Alexandre Nardone ligue 555-555

Se vc Preferir Ana Carlonia ligue para 555-556

Sua participação é muito importante.. Não deixe de votar..

donizeti costa (18/04/2008 - 11:57)
Prezado Azenha.
Sei não.
Essa prisão do seu colega de profissão, o jornalista Cabrini, está me parecendo muito estranha.
A história não encaixa, como dizem os atuais técnicos de ponta do futebol brasileiro.
Primeiro que o Cabrini tem muita credibilidade como jornalista, e vai fundo nas suas investigações e matérias, inclusive produziu muitas de nível internacional.
Sempre achei o Cabrini um bom profissional.
Custa-me crer que não se conduza de acordo com os padrões que prega e a imagem que construiu junto ao público brasileiro.
Vamos aguardar o andamento das investigações, mas torço sinceramente,para que toda essa história não passe de um grande mal entendido.


Isabel (18/04/2008 - 11:08)
Azenha: O texto demonstra que voce padece de precoce sabedoria. Não se deixou enganar, não adquiriu complexo de divindade. Preferiu encarar a própria humanidade. Parabéns, deve ter sido difícil.
Leider: Qual o endereço do seu blog?

Wilson - ES (18/04/2008 - 10:00)
Vou tentar ser simples. 100% verdade o que você escreveu. E parabéns pela síntese.

nona fernandes (18/04/2008 - 09:33)
Azenha - VOCÊ É DEZ! - Especialmente quando opina sobre os rumos que a mídia brasileira tomou. Chego a me emocionar quando percebo que nem tudo está perdido. O bem existe, sim. Só precisa que a gente o irradie pelo planeta, e que, paralelamente nos esforcemos para sufocar o mal. Fiquei meio confusa quando diz no finalzinho do texto: "É 100%" notícia e 0% de informação. Notícia não seria novidade? Pois é, aqui a mídia anuncia notícia e repete a mesma por horas, dias e meses. A partir de então, cadê a notícia?
nona fernandes - Vitória da Conquista/Ba

Ricardo Medeiros - Formiga - MG (18/04/2008 - 09:24)
Bacana ! falou tudo !!!

Flávio Mello (18/04/2008 - 07:57)
Realmente, Azenha a diferença de pesos é grande.
Tim Lopes foi morto em um local conhecido com "micro-ondas". Várias pessoas foram executadas da mesma forma, lá. Hoje, a Globo fatura com o que ela considera o maior trabalho dele (ter sido massacrado), mas não fala do descalabro que o próprio Tim tentava acaba: A miséria das favelas. A favela que ela mostra é aquela de duas caras...

Cristiane Bonfim (18/04/2008 - 00:38)
A máquina de moer é tão rápida que muitos de nós nem sequer paramos para refletir o quanto somos atingidos por todo esse processo. Parabéns pelo texto.

romério rômulo (18/04/2008 - 00:30)
azenha:o detestável é o 0% de informação.e essa porcaria
predomina.se é mercadoria,se vende,o resto do mundo que se ferre.essa gentalha é puro cifrão.romério

Helio Barboza (18/04/2008 - 00:01)
Olá Azenha. Como sempre, vc conseguiu traduzir, com o texto acima, tudo que se passa verdadeiramente dentro dos grandes grupos detentores do poder da mídia (é assim que eles se acham). Sobre suas preferências em pescar notícias antigas, penso que vc poderia criar um espaço só para as mesmas, onde, sem sombra de dúvidas, principalmente em se tratando de palpites furados e previsões estapafúrdias, Miriam Leitão seria a grande estrela. Dê-nos essa oportunidade de podermos gargalhar com os pitacos dessa senhora, por favor.

Um grande abraço,

Helio Barboza

Leider Lincoln (17/04/2008 - 20:07)
Azenha: mais uma vez a argúcia e a humanidade de seus argumentos diz tudo! Sou seu fã e continuo no lobby para o Leandro me mandar o código do logo do Sivuca e mudar o endereço para meu novo blogue , versão *.org ''[P]IG você não me pegará''



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