Atualizado em 21 de junho de 2008 às 11:31 | Publicado em 21 de junho de 2008 às 11:18
Recentemente tive o prazer de - finalmente! - conhecer pessoalmente o Eduardo Guimarães.
Ele é o que ele escreve e presumo que a transparência e a honestidade intelectual - além da capacidade de traduzir em prosa o raciocínio lógico - são os motivos que levam tanta gente a lê-lo.
Hoje reincidi: comprei a Folha de S. Paulo, que sem dúvida alguma ocupa um lugar especial no coração do Eduardo.
Na página 2, num texto sob o título "Não há arroz para todos", me chamou a atenção uma frase de Clóvis Rossi: "Como China, principalmente, e Índia resolveram adotar o padrão ocidental de consumo, ficou claro o que pensadores alternativos vinham dizendo faz tempo, mas ninguém lhes dava muita atenção, porque se impôs a ditadura do pensamento único, que marginaliza vozes discordantes: o padrão de consumo do mundo rico, se copiado, leva fatalmente a que não caibamos todos no planeta Terra".
Acredito que Eduardo Guimarães deveria celebrar a conquista de um novo aliado. E dar as boas vindas ao Clóvis Rossi.
Quando penso no que tenho em comum com milhares de Eduardo Guimarães espalhados por todo o Brasil a resposta mais simples é: somos todos contra a ditadura do pensamento único, somos contra o monopólio da opinião e da informação exercido por meia dúzia de famílias, queremos uma mídia plural e que não criminalize os movimentos sociais, que dê conta de dar voz a TODOS os brasileiros, que não se guie unicamente pelo lucro e pela audiência, que não omita ou distorça informações, que dê tratamento igual a iguais e que sirva ao público, não ao ego de comentaristas que se julgam acima das leis e da crítica de leitores, ouvintes e telespectadores.
Queremos mais, não menos informação.
Queremos mais, não menos fontes de análise e opinião.
E é por isso que não queremos a criminalização de Hugo Chávez. Mesmo que Clóvis Rossi não pense assim, ele é um dos pensadores alternativos dos tempos de hoje, ainda que eu pessoalmente não acredite que o bolivarianismo seja uma solução global para a crise da civilização ocidental - que é disso que se trata. Não queremos a criminalização de Evo Morales e sua visão alternativa para a Bolívia, nem do ex-bispo Fernando Lugo e seu cristianismo comunitário no Paraguai.
E é por isso que não queremos a criminalização da Via Campesina. Ainda que eu pessoalmente não concorde com os métodos do movimento, é preciso pensar, sim, no que significa o plantio desvairado de eucaliptos Brasil afora. Quando é que vimos, na TV, uma reportagem decente sobre o que é o deserto verde? É verdade que o plantio de eucaliptos em encostas chupa a água das chuvas e reduz o volume dos rios? É esse o modelo de desenvolvimento que queremos?
E é por isso que não aceitamos que se trate o governo Lula como se estivesse acima das críticas ou como se o presidente da República, na condição de vítima de ataques torpes e vis da elite econômica branca e preconceituosa do Brasil, mereça por isso a beatificação. É preciso, sim, discutir como o Brasil ocupará a Amazônia. Daremos às mineradoras, às madeireiras e ao agronegócio licença para repetir o "modelo de desenvolvimento" concentrador de renda e destruidor do meio ambiente do Sudeste? É isso o que queremos? Queremos fazer do Xingu um Tietê?
Repito, aqui, o pensamento que norteou um artigo que republiquei recentemente de autoria da ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva: nós, brasileiros, temos a oportunidade de não repetir no Brasil os erros e crimes cometidos no processo "civilizatório" de europeus e americanos. Podemos não destruir a floresta. Podemos não matar os índios. Podemos não reproduzir o modelo concentrador de riqueza e distribuidor de miséria.
Estamos longe disso, com certeza. Mas não será possível nem pensar em um novo modelo de desenvolvimento se tivermos uma mídia que, tomando emprestada a frase de Clóvis Rossi, imponha "a ditadura do pensamento único, que marginaliza vozes discordantes".
Ainda bem que São Paulo sabe votar, ao contrário dos nordestinos... Maluf, Clodovil e Frank Aguiar é coisa nossa!