Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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Resmungos de quem olha adiante

Atualizado em 13 de agosto de 2009 às 19:30 | Publicado em 13 de agosto de 2009 às 18:06

por Luiz Carlos Azenha

Tenho uma certa preguiça quando cruzo com um modete que canta as virtudes do vinil, dos anos 60 e da Jovem Guarda. Perdôo os velhos saudosistas, mas nunca os jovens que sentem saudade de um tempo que não viveram.

Quando algum deles se aproxima e, notando meus cabelos grisalhos, tenta se enturmar falando que aqueles eram bons tempos eu respondo: Você sabia que minha vizinha fugiu para casar? Que meu vizinho ficou dois anos sem falar com o pai depois que ele (o Zé Roberto, não o pai dele) deixou o cabelo crescer? Que quando a agulha da vitrola quebrava era um deus-nos-acuda para arranjar outra?

É óbvio que, ao ouvir esses resmungos rabugentos, meu interlocutor sai às pressas e não deixa que eu complete o raciocínio.

Estou entre os que acreditam que tempos bons são os atuais. Por mais que fossemos inocentes e utópicos, éramos então -- eu era criança nos anos 60 -- prisioneiros de tantas convenções e regras moralistas que não é de estranhar que os Beatles tenham literalmente explodido para poder acompanhar a geração deles: de jovens bem comportados se converteram em viajantes do ácido lisérgico, o LSD de Lucy in the Sky with Diamonds, predecessor do ecstasy.

Naquele tempo ou você explodia -- literal ou figurativamente -- ou acabava fazendo tudo rigorosamente "como os nossos pais". Pensar nisso era pior que pensar na prisão. Nossos pais não tinham podido estudar, não tinham podido viajar, não tinham podido mudar de emprego, não tinham podido correr riscos. O que quero dizer é que vivíamos em uma sociedade extremamente hierarquizada e provinciana. Se vocês acreditam que a panelinha do eixo Rio-São Paulo-Brasília é poderosa hoje, não imaginam como o Brasil era provinciano então.

E eu digo isso como filho de imigrante português, comunista, que enricou e faliu várias vezes ao longo da vida, que amava livros, jornais e as rádios BBC e de Moscou. Ou seja, eu era um outsider dentro de meu próprio grupo e talvez por isso pude sentir na pele a sensação de impossibilidade que fez minha vizinha fugir para poder casar. Sim, um dia acordamos e a notícia corria. A vizinha, que costumava embarcar em automóveis elegantes diante de casa -- quando automóvel era um luxo e uma moça solteira não andava em um impunemente -- tinha sido vista deixando a casa dos pais carregando malas. Nunca mais tivemos notícias dela.

Pois é por isso que eu não dou moleza quando cruzo com algum modete que idealiza em retrospectiva. Se perdemos alguma coisa no passado foi culpa das idéias que permearam o Século 20: o cientificismo deu ao homem um certo ar de invencibilidade que explodiu em guerras, em Hiroshima e nas catástrofes do socialismo real. A Ciência não resolveu nossos problemas, nem a Fé. O problema talvez seja a crença de que nossos problemas precisam ser resolvidos. Não dizem que o caminho da viagem é tão ou mais importante que o destino? Olhemos adiante, pois.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
jose fernandes de macedo junior (15/08/2009 - 12:19)
Belo texto! Lírico! Vou relê-lo e lembrar minha juventude, as decadas de 60,70,... Porra!...Sacanagem!... Tava lá atrás tudo isso e o Azenha ligou o "toca-disco" da memória.Mas aceite meu muito obrigado pelo cativante texto.

Pedro Luis Paredes (14/08/2009 - 21:32)
Calma Zé, se for ver as coisas nem mudaram tanto assim... Já existe até single ended 7.1 VALVULADO! rs
Não como os velhos que mapeiam os conflitos entre gerações, criando aberrações e desfazendo de ideais nobres e princípios básicos por uma moral alheia. São os ultra vintage.
Ainda tem muita gente presa em regras moralistas, e nascidas a pouco pode acreditar. Perdoe. Isso é culpa justamente dos ultra vintage, que não tem mais salvação apesar de usufruir plenamente do avanço tecnológico. Os que vão além se desprendem, e da até gosto de ver, ler...
Pronto, cansei de ser chato. É que não tinha nada pra escrever, achei interessante e coloquei um breve contra ponto.


Patricio (14/08/2009 - 21:14)
Pois eu tenho saudades.
Não da ditadura, mas dos amigos que se foram durante e depois dela. Não do porrete que comia lascado, mas da agilidade que tínhamos quando corria dos meganhas. Não da censura, mas da coragem de pôr na vitrola o LP do Geraldo Vandré, bem alto, assustando os vizinhos da pensão em que morávamos. Não dos artistas que se recusaram a cantar para o povo, alegando ser vítimas de uma patrulha ideológica que não existiu, mas da coragem de outros músicos que colocavam o dedo na ferida da direita e diminuíam nossa dor.
E de Maria, que não morreu na tortura, mas teve tempo para denunciar essa tralha de gente que ainda hoje está por aí, tirando com nossa cara.

João Aguiar (14/08/2009 - 18:04)
O outro lado também é verdade, a galerinha aí não vive sem um xópin, rs

Gerson (14/08/2009 - 17:27)
Krishnamurti já dizia:

"Tudo o que tenho a dizer-vos é que os deuses, os mestres, os guias, não são absolutamente necessários para atingirdes a libertação."

"Eu nego que a verdade possa achar-se através dos outros, por muito maravilhosas que sejam tais pessoas e as suas organizações. A totalidade absoluta não pode ser realizada senão pelo vosso esforço pessoal".

"As religiões são obstáculo ao entendimento e a Verdade é um país sem caminhos".

"Eu segui o santuário que vós seguis, com as vossas mediações e cerimônias. E como passei por todas essas coisas eu vos digo: - deixai-as de lado! Como sofri e também fui cativo eu vos digo: - deixai essas coisas de lado, elas não auxiliam. A Verdade é uma terra sem caminhos, porque ela é o Todo".



TPI (14/08/2009 - 17:20)
Esqueci um comentário. Sabem qual o maior defeito da nova geração? É que a gente não faz parte dela.

TPI (14/08/2009 - 16:54)
Se a gente olha com um olhar comparativo, não dá para ter saudosismo, mas o grande diferencial era a juventude, o gosto e depois o cheiro das descobertas. Aí não dá para comparar, porque as primeiras vezes ficam na cabeça e depois passamos a rodar no automático e um dia sentimos falta daquelas sensações que nosso passado juvenil nos permitiu, e ligamos isso ao tempo. Lembram da música do Chico Buarque na voz do Moreira da Silva: "ai que saudade que eu tenho dos meus doze anos/ que saudade ingrata/ dar banda por aí/ chutando lata..."?
No mais, pequenos comentários: 1) que sorte o Azenha ter pai comunista, meus parentes eram salazaristas e eu sei a desgraça que era isto. 2) Tem tecnologia nova que ainda não alcançou a velha. Vejo um filme em formato digital e eles não alcançam a vivaciade da película, que ainda vejo em algumas mostras.

L@!r M@r 3$ (14/08/2009 - 16:27)
Pois é André Lucato: Viva Allan Turing!!!

L@!r M@r 3$ (14/08/2009 - 16:26)
Legal esse texto. Vivo falando pros meus filhos que a melhor época da nossa vida é a que vivemos agora. rsrsrs.

Bom fim de semana!

Flavio Lima (14/08/2009 - 16:21)
Podi cre Azenha!
No frigir dos ovos a coisa melhorou muito.
Ja pensou falar em poco-moco, ainda!
Viva o hoje!

Gb (14/08/2009 - 16:11)
Olha, Azenha, respeito a sua opinião, mas vejo de outra forma. A década de 60 foi das mais ricas culturalmente no mundo, extamente pelo que fez os dias de hj serem diferentes daquela época. Não fossem essas "quebras de tabus", hj não seria normal uma moça de 18 anos sair com as amigas para boites e voltar sozinha de madrugada sem ficar "mal falada". Eu, particularmente, sinto falta desse espírito rebelde, de querer mudar as coisas. Vejo muita gente deitada em berço esplêndido e não ve que a liberdade que usufruem hoje é em boa parte devido a quem lutou no passado para que mudanças acontecessem.

Pedro Dias (14/08/2009 - 16:08)
A grande jogada é viver o dia de hoje somente. O passado não volta mais e você não tem nenhuma ingerência sobre ele e o futuro será bom ou ruim dependendo do que você fizer agora. Por isso macacada, deixem o passado morto e enterrado e vivam um bom presente para que o futuro seja compatível com o que você estiver vivendo agora.

Neo-tupi (14/08/2009 - 15:36)
Assino embaixo. Também era criança nos 60, e só acho que nos anos 60 para trás a infância era mais infância.
Quanto a isso eu não tenho dúvidas que houve um retrocesso.
Nada contra o videogame e a internet, que podem ser usadas tão bem quanto era usados livros de Monteiro Lobato. O que estraga é a mercantilização da infância, o consumismo infantil (quando a infância é justamente a liberdade das pressões sociais, como de consumo), a formação de consumidores infantis, "adulteração" da infância precocemente, a terceirização parcial da família pela creche, segregação social em escolas privadas para os mais ricos e escolas públicas para os mais pobres (na minha infância, em cidade do interior, ricos e pobres frequentavam escolas públicas e dividiam a mesma sala de aula, jogavam futebol juntos, estavam em grupo juntos, se os pais não eram integrados socialmente, as crianças pelo menos eram durante algum tempo.
Felizmente já ganha corpo a preocupação com estes assuntos.

Fábio José de Mello (14/08/2009 - 15:26)
"O melhor lugar do mundo é aqui e agora", já dizia Gilberto Gil.

Hans Bintje (14/08/2009 - 15:01)
MEU MUNDO É HOJE
Paulinho da Viola
Composição: Wilson Batista

Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim
Meu mundo é hoje não existe amanhã pra mim
Eu sou assim, assim morrerei um dia
Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia
Tenho pena daqueles que se agacham até o chão
Enganando a si mesmo por dinheiro ou posição
Nunca tomei parte desse enorme batalhão,
Pois sei que além de flores, nada mais vai no caixão
Eu sou assim, quem quiser gostar de mim eu sou assim

Vídeo YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=RvkG5iDxU4s

Silvano (14/08/2009 - 14:31)
Concordo plenamente com o texto, mas eu adoro relembrar as coisas gostosas do meu passado e as ruins nem tanto.rss.rsss.
Parabéns pela crônica.

Willian (14/08/2009 - 13:27)
O Azenha escreve um texto lírico e os comentaristas já colocam a política no meio. Ops, tô fazendo o mesmo...

P.S.Pô, Azenha, vc não tem saudade nem do telex?

Gerson (14/08/2009 - 13:06)
Mas bem que eu quria ver novamente certas cenas como estas de 40 anos atras:

Woodstock 1969

http://www.youtube.com/watch?v=cIvs4j4IniA

http://www.youtube.com/watch?v=pB1pV8zRVaw

Cláudia (14/08/2009 - 11:24)
Nossa, que coincidência. Hoje mesmo recebi um e-mail com um daqueles infindáveis Power Point cujo título, Vou me embora para o passado, uma corruptela de Manuel Bandeira, já dá uma idéia do conteúdo que poderia muito bem ser assim resumido: qualquer época é melhor do que essa em que vivemos. O que o autor não percebe é que para ele não existe época alguma para se viver porque em qualquer uma encontraria defeitos e o discurso seria sempre o mesmo, Vou me embora para o passado.

carlos anselmo-eng°-fort/ce (14/08/2009 - 11:20)

pô, azenha, logo numa sexta-feira. ô home ruim!
o tema será devidamente decodificado e bebido logo mais depois do expediente.
parabéns!

Mário Alberton (14/08/2009 - 10:26)
Esse é pra ser publicado em livro de crônicas.

Patrick (14/08/2009 - 09:36)
Ótima crônica! No ano passado, durante as Olimpíadas, quando saiu a primeira medalha para o judô feminino, alguém lembrou que até 1976 (ano em que nasci), era PROIBIDO às mulheres praticar judô e jogar futebol! Proibido por lei, não era mera convenção social.

http://infinitoaldoluiz.blogspot.com/ (14/08/2009 - 09:20)
Ao Christian Schulz
Amigo, o "problema do som " hoje, é que por baixo dessa barulheira toda, "tá rolando direto na massa encefálica o SOM DO SILÊNCIO" em muitos níveis e versões com objetivos inconfessos ... Já colocou sua atenção nisso?
Muita paz e para você e todos nós, sou grato.

http://infinitoaldoluiz.blogspot.com/ (14/08/2009 - 09:11)
"Vivemos a temer o futuro, mas é o passado que nos atropela e mata."
Mário Quintana

P.S.:E por falar em falar com o coração; tempo bom é o JÁ, o agora, o momento presente de infinitas possibilidades.

Belo texto Azenha, como de costume... Sou grato!

emerson (14/08/2009 - 02:05)
talvez tão estranho quanto alguém sentir saudade de um tempo idealizado que não viveu, é alguém sentir saudade de um tempo que não merece ser lembrado.

ver um coroa de quase 70 anos sentir saudade de sua juventude e elogiar sua geração, que no fim das contas, nos colocou nesta sinuca.

ver estes velhos sentirem saudade da sua década de sonhos e ficar preso nela, sem perceber o presente

Stella (13/08/2009 - 22:54)
Ô Azenha! Tá apaixonado? Sua inspiração tá bombando! (Ia escrever tá uma brasa mora! mas seria muito "anos 60" após um texto como esse ;-)) Parabéns! Abraço apertado!

Eleutério Boanova (13/08/2009 - 22:20)
Eeeee!!! Viva nós os véio....

Dennis Rodrigues da Silva (13/08/2009 - 22:10)
"meu tempo é hoje, eu não vivo no passado, o passado vive em mim."

Paulinho da Viola

Jorge Menezes (13/08/2009 - 21:58)
Diz isso, pra essa elite repulsiva que domina este país desde sempre e que quer de volta o passado...

Christian Schulz (13/08/2009 - 21:50)
Heheheh o Serra é a agulha quebrada no disco riscado, um "Worst Of" do Maluf!

Quanto ao som do vinil, acho mil vezes melhor que o do CD. Quanto ao Mp3, sem comentários. O problema destes dois é a compressão dos graves e dos agudos mais distantes do centro médio da audição humana, que varia de maneira pouco uniforme entre 20 Hz e 20 KHz. A coisa piora com fones de ouvido mais bacaninhas, que peguem entre 16 Hz e 22KHz. A razão de compressão normal do Mp3 é de 90%, 10:1. Ou seja, é o que será substituído por sons pré-gravados no decodificador de Mp3, previamente identificados quando da compressão do original. Essa identificação é bastante falha, tanto mais quanto mais instrumentos e camadas de gravação estiverem presentes. Em discos verdadeiramente estéreo a coisa fica ridícula, com um dos "lados" do original simplesmente deletados. Para quem é "expert" em Mp3, dá para minorar esses problemas.

Claro que ninguém vai levar um disco de vinil para baixo e para cima, ainda mais sendo obrigado a tocar na horizontal. Mas, se alguém tem dúvidas desse papo todo aí de cima, experimente ouvir uma de suas velhas fitas cassete. Acredite, ainda existem Walkman! ;>

Acho que, apesar dessa minha peroração, o problema da música de hoje é simplesmente a música, não os aparelhos, que de resto tocam de modo bastante satisfatório.

Exemplos de modetes aos quais o Azenha se referiu é o preço de novos lançamentos em vinil. Cada disco por volta de 100, CEM MANGOS! Tem que ser muito bobo...

Francisco Nogueira (13/08/2009 - 21:33)
Parabéns!

Moacir Moreira (13/08/2009 - 20:30)
Azenha, você é feliz por pensar. Isso basta.


Emerson Luis (13/08/2009 - 19:20)
Azenha, que belo!

Leni (13/08/2009 - 19:12)
ai, q bom q vc disse isso, Azenha - tb não tenho saudades e sempre digo q ´o meu tempo é agora´ pq é assim q eu sinto - e não tenho saudades de nada, muito pelo contrario: era muita ignorância, ingenuidade, hipocrisia, autoritarismo e preconceitos de toda ordem - e não sabíamos nem identificar. Viva a Ciência!

Andre Lucato (13/08/2009 - 19:03)
Olha, Azenha, muito bonito seu texto.
Tenho 35 anos e o li com um misto de ter vivido e ao mesmo tempo não.
Só que discordo visceralmente de sua colocação de que "a ciência não resolveu o problema". Você tem que definir "problema".
Se ela não resolveu TODOS os problemas, pelo menos não PIORA A QUESTÃO como é o caso da fé que, por deturpação de alguns ou não, ainda justifica guerras, discriminações sociais/sexuais/raciais e promove uma deseducação que é INCONCEBÍVEL nos dias de hoje, sem nem mesmo ser questionada.
Quanto se progrediu no combate ao câncer? Qual era a qualidade de vida dos idosos ontem? E qual é hoje? Qual era nosso conhecimento do mundo ontem em relação a hoje, no aspecto de satisfação intelectual? Antibióticos, vacinas, aviões, computadores, automóveis...
A ÚNICA responsável por você conseguir fazer suas idéias chegar a tantas pessoas é a ciência. Você só poderá embarcar em Cumbica e desembarcar em Lisboa devido à ciência. Só conseguimos tirar um rim de uma pessoa e prolongar a vida de outra, devido à ciência.
Não significa que não falte muito ainda. Falta. E ainda assim a única coisa que nos faz avançar com a velocidade que avançamos é a ciência, porque se dependesse da religião, a Terra ainda seria chata, ainda mataríamos bruxas, sangraríamos pessoas e a comunicação entre nós seria entre uma guerra e outra.
Abraço.

Luiz Henrique Gomes (13/08/2009 - 18:56)
Pensar Fora da Caixa Sempre

Carlinhos Medeiros (13/08/2009 - 18:53)
Belo texto, Azenha. Bons momentos trazem inspiração.

Fernando (13/08/2009 - 18:46)
Votar no Serra é votar na década de 60.



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