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ONDA NACIONALISTA PODE PROVOCAR MUDANÇA NO PARAGUAI; AMPLA COALIZÃO PERMITE FISCALIZAR O PARTIDO COLORADO

Atualizado em 19 de abril de 2008 às 21:22 | Publicado em 19 de abril de 2008 às 20:26

SÃO PAULO -  Uma onda nacionalista e de resgate da soberania nacional, depois de 60 anos de governos do Partido Colorado e 35 de ditadura militar de Alfredo Stroessner, pode levar a uma mudança histórica neste domingo no Paraguai. A Alianza Patriotica para el Cambio, liderada pelo ex-bispo Fernando Lugo, um seguidor da Teologia da Libertação, é favorita para vencer.

O Partido Colorado, que desde a declaração de Independência do Paraguai domina a política nacional - só ficou fora do Palácio Lopez por um breve período, em que o governo foi dos liberais - tem como candidata a ex-ministra Blanca Ovelar e vai para a disputa enfraquecido por uma disputa interna que provocou o afastamento da campanha de Luis Castiglioni, ex-vice-presidente - derrotado por Blanca na disputa interna.

Além disso, o oficialismo paraguaio nunca enfrentou uma coalizão tão ampla como a formada em torno do ex-bispo Fernando Lugo, que vai de partidos conservadores - como o Partido Liberal Radical Autêntico, do candidato a vice, Federico Franco  - a grupos formados em torno dos movimentos sociais, como o Partido Tekojoja.

Também concorrem o ex-general Lino Oviedo, do Movimento Nacional dos Cidadãos Éticos, o empresário Pedro Fadul, do Partido Patria Querida (PPQ), Horacio Galeano Perrone, do Movimento Teta Pyahú (MTP) - Movimento Pátria Nova-, e Julio López, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Oviedo recebeu liberdade condicional para concorrer à presidência, no que é atribuído a uma manobra do presidente Nicanor Duarte Frutos para dividir a oposição. Hoje também será renovado o Congresso e eleitos todos os governadores dos departamentos do Paraguai. Por isso, ainda que Lugo vença a composição do Congresso deve exercer um poder "moderador" sobre o projeto político dele.

O Partido Colorado, com mais de 1,5 milhão de filiados, é o último remanescente dos grandes partidos políticos do continente. Graves crises institucionais implodiram os partidos da região nos últimos anos - na Venezuela, na Colômbia e na Bolívia, por exemplo. Lideranças ascenderam em vários países dissociadas dos blocos tradicionais de poder, que foram incapazes de responder à demanda por mudanças depois da crise do modelo econômico implantado na América Latina nos anos 80.

Com o controle da máquina estatal - e seus 200 mil funcionários públicos -, a trajetória do Partido Colorado está intimamente ligada à fraude eleitoral. Este repórter testemunhou, no início do mês, no Paraguai, duas situações que podem ser caracterizadas como de fraude antecipada. Numa cidade do departamento de Boquerón, no Chaco, a prefeitura usou "emprego temporário" para distribuir dinheiro vivo a  trabalhadores; em Caaguazú, a 150 quilômetros de Assunção, o candidato ao governo local "comprou" dois votos prometendo passagens para uma eleitora e o marido dela votarem neste domingo  - envolvendo um valor equivalente a 25 reais (veja o vídeo na TV Viomundo).

Nas últimas horas, observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) que estão no Paraguai conseguiram a promessa da Justiça Eleitoral de que os fiscais partidários poderão fiscalizar de perto a contagem dos votos. A ampla coalizão formada em torno de Fernando Lugo também permitiu a organização de uma rede de fiscais como nunca houve em eleições paraguaias, especialmente nos grandes centros.

A mídia paraguaia fez oposição à candidata do governo, Blanca Ovelar, durante a campanha eleitoral. O jornal ABC Color, de Assunção, por exemplo, apoiou Fernando Lugo por conta das propostas de tom nacionalista do ex-bispo. Os donos do jornal são próximos do candidato a vice, Federico Franco.

Em viagem de três dias pelo Paraguai este repórter testemunhou realidades eleitorais bastante diversas. No vazio do Chaco a vitória do governo é garantida pela falta de fiscalização e pelo poder dos coronéis locais. Em Assunção o governo exerceu uma grande pressão sobre funcionários públicos para que produzissem votos. Em Caaguazú, a meio caminho da fronteira com o Brasil, há uma forte base de apoio a Fernando Lugo que vai além da repulsa às terríveis estatísticas sociais produzidas pelo Partido Colorado.

De acordo com dados do próprio governo, 35% dos paraguaios vivem abaixo da linha da pobreza. Mais de um milhão são considerados indigentes, ou seja, não consomem calorias para garantir a sobrevivência dentro de padrões internacionais. Cerca de 500 mil paraguaios são "exilados econômicos", especialmente na Argentina e na Espanha.

Embora sejam amigáveis e se esforcem para falar português com os brasileiros, os paraguaios expressam como nunca na história recente do país o desgosto com a invasão de estrangeiros que formou "enclaves", especialmente na fronteira com o Brasil. Nestas regiões o idioma dominante é o português, a moeda de troca é o real e o noticiário é dominado pela morte da menina Isabella, ainda que o país esteja em véspera de eleição. Grande parte das terras produtivas do Paraguai está na mão de empresários estrangeiros que produzem soja transgênica em vastas extensões de terra.

Além de causar o deslocamento de pequenos produtores para as cidades - sob pressão, muitos venderam seus títulos de posse dados pelo estado, as chamadas 'derecheras' - e a conseqüente queda na produção de alimentos, a expansão da soja produziu devastação ambiental. Também houve efeitos benéficos na economia, que se concentraram no topo da pirâmide social.

Assunção é uma das cidades com o maior número de jipes importados per capita do continente. O dinheiro da soja e as remessas de dinheiro vindas do Exterior, aliadas à chegada do crédito barato, provocaram o surgimento de uma classe média baixa e de fenômenos como a explosão na venda de motocicletas em cidades como Caaguazú.

Esses eleitores, mais os do movimento social organizado e os da classe média ressentida com a invasão estrangeira são os responsáveis pelo "fenômeno Lugo".  O ex-bispo construiu sua campanha em torno da reorganização do estado, da implantação de programas sociais mas, acima de tudo, da busca do que definiu como "recuperação da soberania energética."

O Paraguai é o único país da América do Sul, além da Bolívia e da Venezuela, que tem excedentes energéticos para vender. Em contrapartida, Brasil, Chile e Argentina precisam importar energia para manter o crescimento econômico. O nó para os paraguaios é que eles estão de mãos atadas para vender no mercado a cota de energia a que têm direito produzida nas usinas de Itaipu e Yaciretá, construídas depois de acordos com o Brasil e a Argentina. Nos dois casos os acordos exigem que o Paraguai venda a energia não consumida para o parceiro, a um preço fixo.

Autores paraguaios alegam que a Itaipu Binacional beneficiou empresas brasileiras na construção da maior usina hidrelétrica do mundo; que cobrou juros extorsivos sobre a dívida da entidade, pagos à Eletrobras; que o Paraguai recebe cerca de 100 milhões de dólares por ano por energia que vale muito mais no próprio mercado atacadista brasileiro. O governo Lula afirma que não pretende renegociar o acordo, que vale até 2023.

A onda de nacionalismo dos paraguaios, no entanto, vai muito além da questão de Itaipu. Trouxe de volta o debate em torno do expansionismo da fronteira brasileira desde o tempo dos bandeirantes e o genocídio da guerra do Paraguai, em que o país perdeu metade de sua população e 40% do território para o Brasil e a Argentina. O Paraguai é um país relativamente coeso do ponto-de-vista étnico e preservou o guarani, idioma falado mesmo por crianças de classe média alta.

 

 


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