
Atualizado em 28 de março de 2008 às 14:17 | Publicado em 28 de março de 2008 às 13:37
SÃO PAULO - Vi os dois comícios finais da campanha eleitoral de 2006 em Bogotá. Havia muito mais gente no comício da oposição. A capital colombiana é uma cidade tradicionalmente oposicionista. Álvaro Uribe venceu no primeiro turno. A política colombiana passou por um rearranjo desde que Uribe assumiu o poder, em 2002. Os partidos tradicionais sofreram o mesmo colapso das principais forças políticas da Venezuela, a AD e o COPEI.
Dentre as novidades estão a Alianza Social Indígena, que governa a São Paulo colombiana, Medellin, com políticos não tradicionais. Sergio Fajardo Valderrama, ex-prefeito de Medellin, investiu pesado em programas sociais, especialmente na educação. É um doutor em matemática que entrevistei na minha penúltima visita ao país. Valderrama fez seu sucessor nas eleições de outubro do ano passado. Medellin fica no departamento de Antioquia, onde Uribe começou a carreira. Medellin é a terra do escultor Fernando Botero. É a terra de Pablo Escobar, o megatraficante que promoveu uma guerra civil contra o estado colombiano nos anos 80.
Uribe é popular, mas menos do que faz crer a mídia brasileira. Existem sérias dúvidas sobre as pesquisas do Gallup local, que consistentemente dão ao presidente taxa de aprovação superior a 70%. O Gallup é acusado pela oposição de ter mudado a metodologia das pesquisas para favorecer Uribe. O Partido do presidente chama-se Partido de la U, que seria da Unidade, mas que na verdade expressa o personalismo: é o partido do Uribe.
Nas eleições de 28 de outubro de 2007 o uribismo tomou uma sova. Os partidos do que a oposição batizou de "Aliança La Picota" perderam prefeituras e governos de departamentos importantes. La Picota é o nome da penitenciária onde estão presos acusados de envolvimento com grupos paramilitares. Cerca de 50 deputados e senadores estão sob investigação, quase todos da base do governo. O partido Colombia Democrática, de um primo de Uribe, foi um dos que ruiram. Os paramilitares têm envolvimento com matança de civis, narcotráfico, repressão a sindicalistas e outros serviços sujos.
A eleição mais importante no ano passado foi a disputa pela Prefeitura de Bogotá. O candidato do Polo Democrático, Samuel Moreno, venceu com quase 44% dos votos, contra 28% do candidato apoiado por Uribe, Enrique Peñalosa Londoño. Ou seja, o presidente fracassou na tentativa de transferir votos. Mas bem que tentou.
A campanha foi suja e a mídia deu apoio maciço ao candidato uribista. A RCN é a principal emissora colombiana. Foi buscar no arquivo uma fala de Samuel Moreno para tentar demonstrar que ele apoiava as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Os comentaristas políticos dos principais jornais deram apoio abertamente a Peñalosa.
Na revista Número, o diretor Guillermo Uribe - nenhuma relação com o presidente - escreveu: "O presidente e seus ministros não podem levar o país a prolongar o banho de sangue mediante a eliminação da oposição legítima. Não podem esquecer ou desconhecer que mais de duas mil pessoas do movimento de esquerda União Patriótica foram assassinados nos anos 80, precisamente pelas acusações de que eram o braço desarmado das FARC."
Dá para perceber, portanto, que Uribe faz o uso político das FARC de acordo com seus objetivos políticos.
O Plano Colômbia permitiu a ele grandes avanços na segurança pública. Um dos principais foi resgatar as estradas, nas quais no passado eram comuns os seqüestros coletivos, no estilo dos arrastões cariocas. Aqui é importante ressaltar outro ponto sobre o qual a mídia brasileira informa muito mal: os seqüestros na Colômbia não são ou foram arma exclusiva das FARC. Os paramilitares seqüestraram e eliminaram gente ligadas aos movimentos sociais, motivo pelo qual o Congresso americano considerou suspender a ajuda à Colômbia. Há um caso famoso de duas empresas americanas, uma delas a sucessora da United Fruit, que empregaram paramilitares para matar sindicalistas.
A Colômbia é um país altamente militarizado. A influência dos militares no governo Uribe é fortíssima, especialmente daqueles que desenvolveram relações diretas com os Estados Unidos. O pessoal da alta hierarquia montou empresas que ganham contratos públicos. Os serviços de segurança estão por toda a parte.
As FARC, os paramilitares e o banditismo puro e simples são, grosso modo, resultado de um fato: a Colômbia tem uma terrível distribuição de renda. Basta visitar Medellin, a cidade mais rica, para constatar a separação geográfica entre os milhões de pobres e miseráveis e as centenas de milhares da elite branca.
Com a desmoralização da política e a decadência das forças tradicionais - o Partido Conservador e o Partido Liberal -, muitos candidatos simplesmente concorrem formando seus próprios movimentos. A política colombiana está fortemente personalizada. O Partido de la U é o movimento de Uribe.
É impossível analisar o ataque da Colômbia ao Equador fora desse contexto político. Uribe foi derrotado nas eleições municipais e departamentais de 2007. A mão firme contra as FARC é a base do discurso dele. O risco de um processo de paz é justamente o de eliminar a razão de ser das forças políticas que se aglutinaram em torno do presidente.
Quando percebeu que não poderia deixar o flanco dos investimentos sociais aberto à oposição, Uribe correu ao Congresso americano atrás de autorização para usar o dinheiro recebido dos Estados Unidos não só no combate às FARC e ao narcotráfico, mas também em projetos sociais.
O que fizeram o Polo Democrático e aliados? Querem mudar a Constituição para obrigar o governo a gastar mais com saúde, educação e saneamento básico, o que com certeza afetaria o orçamento militar. Já estão na segunda fase da certificação junto ao equivalente do TSE para apresentar ao Congresso um projeto de lei que, aprovado, resultaria em referendo para fazer ou não as mudanças constitucionais. Foram apresentadas recentemente 1.642.802 assinaturas. Se a Registraduría Nacional del Estado Civil confirmar a validade de 1,4 milhão, a proposta segue para o Congresso.
O que fez o Partido de la U? Começou o processo para dar a Uribe a possibilidade de disputar um terceiro mandato. Eu prefiro ficar com os fatos, não com as declarações deste ou daquele personagem. E o fato é que o partido de Uribe apresentou ao TSE colombiano 260.864 assinaturas. A Registraduría tem um mês para dizer se o partido obteve as 140 mil assinaturas válidas. Se sim, aprovará um comitê do partido que será encarregado de recolher, num prazo de seis meses, 1,4 milhão de assinaturas válidas. Ou seja, no mais tardar no início do ano que vem o Partido de la U poderá apresentar ao Congresso o projeto de lei que, aprovado, permitiria a convocação de um referendo. O secretário-geral do partido prevê a votação até a metade de 2009.
É da lógica da política que Álvaro Uribe não mergulhe de cabeça na proposta. E se o projeto for derrotado no Congresso? E se ele sentir que não tem força política para vencer o referendo? Vai cometer suicídio político? Independentemente das declarações do presidente, voltemos aos fatos: o partido de Uribe já começou oficialmente o processo para obter o direito de lançar Uribe como candidato pela terceira vez, em 2010.
Imagine se globo, veja, fsp e estadão vão criticar um empregado do George Bush? Estas empresas são ponta de lança dos interesses estadunidenses. O objetivo único é defender os interesses do Império na região... Resumindo: Se Bush e Uribe fizerem um bunda-le-le na cara dos civita/marinho/frias/mesquita... eles escrevem um editorial elogiando a formosura da buzanfa destes "líderes" do "mundo livre". Esta mídia quinta-coluna é o fim da picada.