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ÍNDIO NÃO CONSOME E QUEM NÃO CONSOME NÃO É GENTE

Atualizado em 27 de agosto de 2008 às 12:08 | Publicado em 26 de agosto de 2008 às 20:28

Índio não compra jornal. Índio não compra anúncio na televisão. Índio não compra propaganda na rádio. Índio não vota. Índio não patrocina campanha eleitoral. Índio não consome. Não consumir dá nisso: você não vale nada numa sociedade como a brasileira.

Isso ajuda explicar o motivo pelo qual índio está f..... na mídia.

Querem um exemplo? Desde que a disputa por terra na Raposa Serra do Sol começou, nos anos 80, 21 indígenas foram mortos. Sobre quantos casos você ouviu falar no rádio, na televisão, nos jornais?

Por outro lado, quantas vezes a mídia corporativa brasileira abriu espaço para falar do perigo dos "índios imperialistas", que manipulados por estrangeiros vão retalhar o Brasil?

Fiquem com a transcrição aproximada da entrevista que fiz com a advogada Joênia Wapixana, que representa os indígenas no Supremo Tribunal Federal.

A entrevista foi feita em Boa Vista, Roraima.

Fiquem tranqüilos que a Joênia não vai aparecer nas páginas amarelas da Veja:

O Paulo Quartiero, em uma entrevista que a gente gravou com ele, falou que aqui na região o desenvolvimento se dará da mesma forma que em outras regiões do Brasil e não tem como mudar isso...

Olha, essa palavra desenvolvimento para nós tem outro significado que o meramente capitalista, meramente econômico e individual. O desenvolvimento que trabalhamos é numa perspectiva de respeito. Primeiro, ao próprio costume e à própria cultura indígena. Para mim, desenvolvimento é você ter água com qualidade e você manter um ambiente saudável, ter saúde, educação. O desenvolvimento que se prega é muito diferente dos valores indígenas. É lógico que nós usamos tecnologia para benefício próprio. Mas o desenvolvimento dos arrozeiros é puramente individual e nele só tem importância a cobiça, a ganância e a exploração dos recursos naturais. Os rios Surumu, Tacutu e Cotingo são os principais rios que abastecem as comunidades [da reserva]. É onde se toma banho, de onde se consome para afazeres domésticos,  onde tem os peixes. É a principal fonte de sobrevivência da biodiversidade. Qual é o tratamento que se dá a esses rios? Eles tiram água para a irrigação, desviam o curso do rio através de valas e não há qualquer controle sobre a utilização. Há quantos anos eles fazem isso? O que se faz ali na plantação de arroz é a pulverização, que contamina as águas! Com o que? Com agrotóxicos. O desenvolvimento que ele [arrozeiro] trouxe para Roraima é o que destrói, o que degrada, que ocupa ilegalmente terra de comunidades que têm direitos coletivos. Então queremos um desenvolvimento  onde as comunidades indígenas tenham suas criações conforme os manejos tradicionais, onde tudo é discutido coletivamente, onde há respeito ao meio ambiente, onde ninguém sai jogando agrotóxico. A gente utiliza tecnologia nos cursos de preparação para lidar com reflorestamento -- por exemplo, de buritizais, de madeira -- mas para as próprias comunidades indígenas. Essa é a nossa forma de desenvolvimento, que contribui com o meio ambiente, não que acabe com ele. Desenvolvimento, sim, mas com respeito, não de qualquer jeito.

Foi feito um estudo de impacto ambiental para retirar a água dos rios e irrigar as plantações de arroz?

Claro que não, eles nem sequer têm licença do Ibama, conseguiram uma licença ilegal dada por um órgão estadual. Judicialmente nós cobramos uma posição dos órgãos fiscalizadores. Inclusive duas semanas atrás eles foram multados em 30 milhões de reais, uma multa que inclui não só retirada de água mas por terem fechado [aterrado] um lago. Acho que inclui aquelas bombas, que foram lacradas.

Mas as bombas estão funcionando, a gente viu...

Pois é, mas é justamente isso que a gente não entende. O Supremo suspendeu a retirada dos arrozeiros e de outros não-índios mas não deveria fechar os olhos para os crimes que são cometidos dentro da terra indígena.

(SEGUE...)

 

 

 

 


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Pitágoras (27/08/2008 - 23:18)
Curioso ouvir o tal do Quartiero, com seu sotaque de catarinense defendendo seus interesses privados em detrimento daqueles dos índios. Esse cidadão impoluto saiu lá do sul para plantar arroz lá no extremo norte do país e bem na TERRA INDÍGENA. Tenha a santa paciência, parece a invasão de 1500 revivida!

José Moura-sp (27/08/2008 - 23:02)
Cuidado, que logo mais a reserva vai estar nos noticíarios como a nova Ossétia do Sul. Basta trocar a Rússia por Venezuela. Vão criticar o Lula por não ter atacado a nossa Ossétia do Sul, assim como a oposição pediu a invasão da rica e imperalista Bolívia.

Nunca acreditei nessa idiotice brasileira de invasão da Amazônia, pra mim isso é conversa pra boi dormir.

Minha única indignação na questão dos silvícolas é a presença de religiosos. Isso sim é uma afronta, dói me ver um silvícola catequizado, seja católico, evangélico, etc..

Aliás religião é outro tema que deve ser passado à limpo. Afinal nosso Estado é laico? Porque dos crucifixos nos orgãos públicos?

claudio dos santos (27/08/2008 - 18:56)
a reserva indigena raposa terra do sol é unicamente e exclusivamente dos indios que lá residem antes de nos(uma corja de vagabundo portugueses e descendentes de outras laias imundas), a UNIAO tem a soberania e poder das terras ondes os indios residem..fora isso..arrozeiros, empresarios, governador, senadores vendidos, politicos pedofilios, e outros parias que vivem que roubar o erario publicos nao tem direito a nada, nem a benfeitoria do fizeram, pois invadiram e roubaram e mataram os indios...O MINISTRO AYRES DE BRITO MATOU A PAU, ESSES BANDO DE VAGABUNDOS...VALEU MINISTRO PAU NELES.....

Daniel Xavier (27/08/2008 - 18:48)
Azenha,

Desde que tomei contato com este assunto e me aprofundei, inclusive assistindo sua excelente reportagem, fiquei com um pensamento na cabeça. Será que não existe um meio-termo para esta questão? Pensei numa solução que não sei se é viável: ao invés da demarcação em ilhas ou da demarcação em faixa contínua que esbarre nas fronteiras do país e ameace a nossa soberania, como defende o Exército, por que não é considerada a opção de faixa contínua, um pouco menor em área, que não encoste na fronteira? Deu pra entender? Falo de uma grande ilha, deixando uma relativamente estreita área entre a reserva e a fronteira, onde a presença do Exército não seria questionada. Acho que isso derrubaria os argumentos sobre a segurança nacional, que confesso são a única pulga atrás da minha orelha que não me deixam pular de cabeça na demarcação contínua. Sei lá, posso estar falando besteira. Você pode dar sua opinião?

Um abraço,
Daniel

Conceição Oliveira (27/08/2008 - 17:52)
CARLOS AYRES BRITO para presidente
Como esse ministro é maravilhoso! Que voto fantástico, poético, brilhante!
e PARA VARIAR o Direito pede vistas dos autos, e arrasta-se de novo a questão.

Augusto José Hoffmann (27/08/2008 - 17:46)
Sobre esses tempos bicudos vários profetas já se manifestaram. Leiam 1984 de George Orwell. Somos números para gerar outro$. Qual é a estranheza com a Globo,Band e RBS: todas têm TV para agrobusiness. Pois é, já estamos diante da fábula do ladrão que invadiu o quintal e nada falei... Agora, sem a língua, chiamos, chiamos e chiamos bem baixinho...

graca (27/08/2008 - 17:39)
Tenho acompanhado o debate sobre a demarcacao da Reserva Raposa Serra do Sol,mais nao vi ninguem falar sobre algo que diz respeito ao povo brasileiro: o sub-solo que tem riquezas inimaginaveis pertencera a Uniao ou aos indios. Resposta crucial para podermos nos posicionar a respeito.

Conceição Oliveira (27/08/2008 - 17:24)
A fala de Ayres Brito está primorosa, quem conseguir depois o arquivo do vídeo, por favor, compatilhe o link.

jose carlos lima (27/08/2008 - 16:57)
Dalmo de Abreu Dallari tirou minhas dúvidas acerca do direito dos índios sobre seus território.
Contra o STF há grupos defendendo a Constituição.
Isto não deveria ser papel do STF?

Amadeu Leite Furtado (27/08/2008 - 16:11)
Aqui em Brasilia os índios vieram para relaizar tratamento de saúde na Funai. Invadiram terra pública e agora os vigaristas querem uma "grana" para deixar o setor Noroeste. Borduna neles!

Carlos (27/08/2008 - 15:36)
Será que as instituições brasileiras merecem alguma credibilidade? A resposta é não! Nada sai conforme a "justa justiça" exige. Que país é esse? Há cinqüenta anos que não sei responder a essa pergunta, tão fácil de ser respondida em outras plagas!

Bruno P. (27/08/2008 - 15:33)
Na mídia brasileira a TV Bandeirantes defende os arrozeiros de forma descarada, não é a toa que tem esse nome.Pra quem não sabe os bandeirantes foram os grandes assassinos de índios, desbravaram nossa terra em busca de cativos para vender e escravizar, parece que eles ainda não estão satisfeitos.

Paulo (27/08/2008 - 14:27)
Cadê o resto da entrevista?

Paulo de Melo (27/08/2008 - 13:42)
Lembram..daquele refrão de musica..que dizia " O Brasil vai ficar rico, vamos faturar um milhão qdo vendermos as almas dos nossos indios num leilão"...as almas não venderam...mas as reservas...

Tatray (27/08/2008 - 13:34)
Leiam o que diz o mestre Reinaldo Azevedo:
"É bom que nos lembremos sempre: o que está na origem da pendenga é a tentativa do governo e de ONGs, que representam a minoria dos índios que vivem na área, de expulsar da região arrozeiros que ocupam não mais do que 0,7% de incríveis 1,7 milhão de hectares. No que é uma estreita faixa de terra, dado o conjunto, produzem quase 160 mil toneladas de arroz. Ainda que se mantenha a demarcação contínua de Raposa Serra do Sol, por que eles têm de sair?
Alguém poderia se apressar e responder: "Porque a terra é dos índios". A rigor, toda a terra brasileira é. Aquele pedaço de Roraima pertence, CONSTITUCIONALMENTE, à União. Quem definiu que se deveria estabelecer ali uma reserva contínua não foi a natureza, mas a política." Vamos torcer para que o STF coloquem os índios em seu devido lugar, ou seja, ocupando um pedaço de terra condizente com o número de índios e com as suas limitadas capacidades de produção...

Lucas Secanechia Pereira (27/08/2008 - 13:16)
Bem Ludi o que eu queria perguntar e não me expressei legal é se os índios exercem ou não o direito deles a voto, mas valel mesmo assim já vou olhar o que diz o artigo no meu vademecum.

Luiz henrique Gomes Moraes (27/08/2008 - 13:08)
É comno disse o Marcelo Yuka, ex-letrista e baterista do O Rappa, o cartão de crédito é a idnetidade de consumidor em nossa sociedade.

Marco Antônio Leite (27/08/2008 - 13:05)
Índio não consome, mas preserva a natureza, a qual o homem branco de mente suja explora e dilapida há bel prazer suas riquezas. Para que não ocorra o desaparecimento do verdadeiro homem que parece ser o primeiro a chegar neste mundo, se fazem necessários que grupos comprometidos com a justiça dos homens e com os interesses das minorias façam grandes movimentos de rua, a fim de reverter o atual quadro de abandono que estamos vivendo.

Dimitri (27/08/2008 - 13:04)
Indio pode votar, mas nao eh obrigatorio. Nao se lembram do Juruna? Foi eleito por votos indigenas...

Ludi (27/08/2008 - 01:03)
Lucas, que eu saiba vota sim. Leia o art.14 da CF.

Paulo Vitor Carvalho (27/08/2008 - 00:48)
O título do texto sintetiza bem a lógica da mídia comercial brasileira.

Lucas Secanechia Pereira (26/08/2008 - 23:21)
O índio não vota?

Ludi (26/08/2008 - 22:17)
No começo desse embaraço jurídico/econômico/político confesso que nada sabia sobre a situação dos índios. Agradeço a ênfase dada por ti nesse assunto. Estou menos ignorante sobre alguma coisa hoje.
Posto isto rindo, rindo porque li matéria/institucional do Estadão que diz: "Jornal é mais confiável do que novas mídias."
http://www.fndc.org.br/internas.php?p=noticias&cont_key=278271
Lindo, não? Nada que uma pesquisa distorcida e obscura para vender a própria influência. E os tais "empresários", com claro nível intelectual superior ao nosso, membros do proletariado, são os que definem o que é confiável ou não. Bem, compreensível, já que entre 3 linhas ou 3 colunas na A1, melhor ficar com o último.



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