
Atualizado em 09 de fevereiro de 2008 às 00:17 | Publicado em 29 de janeiro de 2008 às 15:19
WASHINGTON - Se eu conheço bem a mídia brasileira, longe de se desculpar por ter errado e incentivado os brasileiros - todos os brasileiros - a se vacinar, vai haver uma tentativa de culpar o governo federal TAMBÉM pelos casos em que houve reação à vacina. Há mais gente internada hoje por reações adversas do que sob suspeita de febre amarela. Eu insisto neste assunto porque é inacreditável, em minha opinião, que a grande mídia brasileira não tenha escrúpulos para fazer uma cobertura EQUILIBRADA, que coloque os interesses do público acima dos interesses político-partidários. Não estou absolvendo o governo Lula, nem o Ministério da Saúde antecipadamente por erros que eventualmente tenham sido cometidos.
É só ouvir a entrevista do dr. Granato, da UNIFESP, que está na Rádio Viomundo. Tomar ou não a vacina depende de uma avaliação; quem corre risco zero de pegar febre amarela deve se vacinar? Ele diz que não. Não duvido que o próximo passo desta mídia incompetente e ou mal intencionada seja o de criticar a qualidade da vacina brasileira.
Então eu vou adiantar para vocês que as reações à vacina são muito mais comuns do que a mídia brasileira faz parecer. E não acontecem só no Brasil, mas também nos Estados Unidos, com vacinas fabricadas nos melhores laboratórios daqui. Já lhes informei sobre o boletim epidemiológico mais recente da Organização Mundial de Saúde, dando conta de 4 mortes entre 40 mil vacinados no Peru, com uma vacina local. No Brasil, no ano passado, segundo o dr. Granato, foram 4 mortes em 60 milhões de doses.
Agora eu traduzo parcialmente para vocês o detalhado texto que o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a agência americana que cuida da saúde pública, divulga em seu site especificamente em relação à vacina. Os destaques são meus:
"Reações à vacina da febre amarela em geral são suaves. Os vacinados falam em dor-de-cabeça leve, mialgia, febre baixa ou outros sintomas leves que podem ser sentidos dias depois da vacinação e durar de cinco a dez dias. Em estudos clínicos, a incidência de reações adversas leves é de menos de 25%, mais muitas delas podem ter outros motivos, já que os estudos não incluíram comparação com pacientes que receberam placebo. Cerca de 1% dos vacinados são obrigados a suspender as atividades regulares. Reações imediatas de hipersensibilidade, caracterizadas por coceiras, urticária e asma ou uma combinação delas são incomuns (incidência de menos de 0,8 por 100 mil doses).
Historicamente, eventos adversos associados à vacina de febre amarela se dão primariamente entre crianças e se apresentam como encefalite. Desde 1992, seis casos de encefalite foram registrados entre adultos no US Adverse Event Reporting Sustem (VAERS).
Além disso, 10 casos de doença neurológica auto-imune (YEL-AND) foram registrados no VAERS, inclusive de pacientes com a síndrome de Guillian-Barré e encefalomielite aguda generalizada. Todos os pacientes com YEL-AND relacionada à vacinação apresentaram sintomas entre 4 e 27 dias depois de receberem a dose. O risco de YEL-AND não parece ser limitado a crianças e a taxa geral de risco nos Estados Unidos é de cerca de 0,5 por 100 mil doses.
Uma síndrome séria de reação adversa vem sendo descrita nos últimos 10 anos entre os vacinados para febre amarela a partir de vacinas DE VÁRIOS FABRICANTES DIFERENTES. Esta síndrome era descrita como falência de órgãos febril múltipla e agora é conhecida como doença viscerotrópica associada à vacina de febre amarela (YEL-AVD). Desde 1996, 12 casos de YEL-AVD, uma doença que é clinicamente e patologicamente similar à febre amarela, foram registrados NOS ESTADOS UNIDOS; outros 24 casos suspeitos foram identificados em todo o mundo até agosto de 2006.
[...]
Sete dos casos nos Estados Unidos (58%) foram fatais.
[...]
Estimativas grosseiras da incidência de YEL-AND nos Estados Unidos indicam uma taxa de 0,3 a 0,5 casos por 100 mil doses. Essa taxa é maior para quem tem mais de 60 anos de idade; para esse grupo a taxa é de 1,8 casos por 100 mil doses.
Por causa de recentes registros de mortes de viajantes não vacinados a áreas endêmicas, a vacinação de viajantes para ÁREAS DE ALTO RISCO deve ser encorajada como uma estratégia-chave; no entanto, por causa de reações adversas severas, os médicos deveriam ser cuidadosos ao recomendar a vacina SOMENTE PARA PESSOAS QUE ENFRENTAREM VERDADEIRO RISCO DE SE EXPOR À FEBRE AMARELA. Estudos estão em andamento para esclarecer a causa e os fatores de risco para os raros adventos sérios associados à vacina contra febre amarela."
E aí eles recomendam: não vacinar crianças de menos de 9 meses; avaliação cuidadosa antes de vacinar quem tem mais de 60 anos de idade; o mesmo para quem tem problemas relacionados à glândula timo; não devem ser vacinadas mulheres grávidas nem que estiverem amamentando; não devem ser vacinados os imunodeprimidos e quem tiver alergia a ovo.
Eu não quero correr o risco de fazer exatamente o contrário do que faz boa parte da mídia brasileira, ou seja, dizer que ninguém deve se vacinar. Eu mesmo me vacinei, anos atrás, antes de viajar a trabalho para a Amazônia. Mais recentemente, minhas filhas que são jovens saudáveis se vacinaram antes de viajar para a Venezuela.
Porém, como o próprio dr. Granato deixou implícito na entrevista, tomar ou não a vacina não deve ser decidido por colunistas, nem por repórteres, nem pelo conselho editorial de um jornalão. É coisa para especialistas. E, apesar da mídia fazer de conta que não sabe disso, parece haver um consenso entre eles de que: 1) não há epidemia de febre amarela no Brasil; 2) só deve se vacinar quem for viajar para áreas de risco.
A vacina utilizada no Perú, que matou 4 pessoas em novembro do ano passado,ERA BRASILEIRA - conforme afirma a OMS :
"The vaccine was manufactured by Bio-Manguinos in Brazil"
http://wwwn.cdc.gov/travel/contentYellowFeverVaccinePeru.aspx