Atualizado em 11 de julho de 2008 às 23:21 | Publicado em 09 de julho de 2008 às 12:00
Durante minha viagem à África li o livro "Poisoned Wells", do jornalista britânico Nicholas Shaxson, que contribui freqüentemente com o Financial Times e a revista The Economist. O livro trata da corrupção envolvendo a exploração de petróleo na África.
Na conclusão o jornalista diz que muito se fala da corrupção dos governos africanos e pouco se fala na corrupção das grandes corporações e indivíduos, que tiram proveito dos paraísos fiscais para sonegar impostos e lavar dinheiro sujo.
"Bens mantidos no exterior por indivíduos ricos, fora do alcance de taxação efetiva, representam um terço dos bens globais - ou 11 trilhões de dólares, numa estimativa conservadora, custando aos governos 250 bilhões de dólares por ano em impostos", diz ele.
O jornalista diz que o dinheiro sujo tem três origens: crime, corrupção e dinheiro comercial. Segundo o autor, os três usam exatamente os mesmos esquemas e subterfúgios: paraísos fiscais, bancos de papel, trustes, fundações anônimas, corporações laranjas e superfaturamento - todas administradas pelo que Shaxson define como "infraestrutura do terno de risca", ou seja, banqueiros, advogados e contadores.
"O mundo sujo dos paraísos fiscais não é uma grande conspiração, mas um terreno global, descentralizado, que fica nos interstícios entre estados. É um problema da arquitetura política e econômica global fragmentada. Políticos nacionais não podem resolver isso: só uma resposta internacional coordenada pode", escreveu o autor.
Ele sugere várias mudanças na legislação. Por exemplo, diz que os Estados Unidos deveriam transformar em crime a recepção, por parte de bancos americanos, de dinheiro resultante de fraudes ou outras atividades criminosas. Por incrível que pareça, isso ainda não acontece, fazendo com que instituições financeiras americanas sirvam para esconder dinheiro sujo do mundo todo. A lavagem de dinheiro, segundo o autor, acontece tanto em Londres e Nova York quanto nos paraísos fiscais.
O autor propõe uma campanha mundial contra o dinheiro sujo.
"O dinheiro sujo ameaça interesses tão poderosos que combatê-lo exige manifestantes nas ruas, em centenas de milhares, até milhões. Um adversário será o que Eva Joly chama de complexo midiático-industrial, empresas de mídia que usam paraísos fiscais para esconder os seus lucros e evitar impostos, que poderão atacar uma campanha contra os paraísos fiscais", escreve Shaxson.
Eva Joly é a juíza de instrução que investigou a escandalosa relação entre o governo do Gabão, na África, e a elite da França, quando dinheiro da exploração de petróleo no país africano foi desviado para financiar atividades clandestinas do governo Miterrand e de políticos franceses.
Obrigado por corrigir, Patrick. Vou pedir ao Leandro Guedes para alterar o texto. abs