Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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SUBÚRBIO DE BAURU

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 07:59

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Deve ter sido nos anos 70. Eu e meu irmão José Carlos éramos leitores do Pasquim. O semanário era publicado no Rio de Janeiro. Só algumas cópias chegavam a Bauru. O jornal era crítico do regime militar. Mas nas entrelinhas, por causa da censura. Um dia eu fui pego de surpresa pela manchete de uma das páginas internas.

Estava escrito: Nova York, subúrbio de Bauru. O texto era assinado por Sonia Nolasco. Ela contava dos prazeres da infância, das visitas que fez a parentes em Bauru. Lembrou-se com nostalgia da Confeitaria da Lalai. Do encanto que os doces expostos no balcão causavam nela. Do sorvete inesquecível.
Nunca, nem no mais remoto dos meus sonhos, imaginei que um dia teria o prazer de conhecer Sonia Nolasco, em Nova York.

Ela foi casada com Paulo Francis, com quem também tive o prazer de conviver, quando eu era correspondente da Rede Manchete e, ele, da Folha de S. Paulo.
O texto ácido escondia um jornalista sorridente, culto, muito bem informado. Eu me lembro de ter comentado com Sonia, de passagem, o artigo do Pasquim. Mas aquele título, Nova York, subúrbio de Bauru, sempre navegou pela minha mente em forma de interrogação.

O que Sonia quis dizer com a frase? Vinte anos se passaram, por aí. De Sonia, sei que ficou uma temporada em Timor Leste, trabalhando em causas humanitárias. Deixou Nova York depois do infarto que matou Paulo Francis – uma surpresa para todos nós.

E foi aos poucos, com a chegada da maturidade, que comecei a entender aquele texto de Sonia Nolasco. Não tive o prazer de conhecer a Confeitaria da Lalai.
Mas me lembro com saudade, por exemplo, dos papos de jovem jornalista no balcão do Skinão – aquele, que trouxe para Bauru o “verdadeiro sanduíche Bauru”. No tempo das “turmas” – nada a ver com as gangues de hoje - formávamos um bando de crianças a “defender” nosso território e, acima de tudo, as meninas - que nos despertavam paixões secretas.

E lembro do Bauru Atlético Clube, ex-Luzitana, jogando de camisetas listradas, em azul, no campo que hoje – pelo que me dizem amigos – corre risco de virar um shopping center. Lembro de meu pai, o “seo” Azenha, furioso com a atuação de um juiz que prejudicava o BAC, em alguma partida de segunda ou terceira divisão.

E me lembro do chão de pedriscos cinzas, rente ao alambrado, de onde ele recolheu meio tijolo para atirar em campo, o que interrompeu brevemente a partida. Felizmente, a pontaria do "seo" Azenha não estava à altura da paixão dele pelo BAC – o pedaço de tijolo caiu no gramado, longe do juiz.

E lembro da Jaci Guedes, desfilando em carro aberto, campeã mundial de basquete; da dupla Suzete e Simone, que vi em início de carreira, jogando contra Paula - quando ela ainda não era a Magic Paula. Menino, aluno aplicado mas desajeitado do professor Flávio De Angelis, que nos ensinava os fundamentos do basquete na Luso Brasileira, eu me lembro de meu vizinho – se não me engano, era o Miltão -, que saiu de Bauru para jogar no Jaó, em Goiás.

Eram nomes que ressoavam em minha cabeça como se fossem mágicos. E depois de lembrar de tudo isso eu entendi o que Sonia Nolasco quis dizer naquele artigo do Pasquim: no plano geográfico, financeiro, político, com certeza Nova York é muito mais importante que Bauru.

Mas, no emocional, para todos aqueles que dividiram os prazeres da infância em Bauru, nunca. E é por isso que agora, depois de 16 anos de vida em Nova York, é minha vez de dizer: Nova York, subúrbio de Bauru.

Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru no dia 20 de novembro de 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
maria santos (29/03/2008 - 11:01)
O bom é podermos viver o bastante para compreendermos o sentido das coisas. Uma bela crônica!

Conceição Oliveira (29/03/2008 - 10:39)
Gosto muito desses seus textos memorialísticos, eles dão um tom literário ao espaço. Esse está bem interessante, só não consigo entender como é que alguém com o seu perfil pode admirar alguém como o perfil de Paulo Francis, não falo do aspecto político, de seu conservadorismo exarcerbado, cada um que tenha direito de acreditar e defender uma postura política. Falo é de caráter e visão de mundo mesmo, Francis era um deslumbrado, achava que viver em Nova York era uma categoria de pensamento, como bem apontou uma psicóloga brasileira na década de 80 quando mais uma vez os absurdos etnocêntricos que ele defendia virou notícia. Nunca vou esquecer o desrespeito desse indivíduo pelas pessoas, em uma entrevista na Folha alisando seu gato ele teve a ousadia de tripudiar, logo após o assassinato de Chico Mendes: "Quem é Chico Mendes"? Eu é que pergunto quem é Paulo Francis perto da história de Chico Mendes...



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