Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
Não dá pra mostrar tudo na tv.
Home Receba as últimas notícias via RSS [ Leia + ] Fale Comigo
Minha Nova York Utilidades

PROVAS "EM EXCESSO" SALVARAM BRASILEIRO

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 06:44

3605209_fibers.jpg

Marcelino matou ou não? Foi vítima de racismo? Bode expiatório? Essas perguntas martelaram meu cérebro. O imigrante brasileiro, pessoa simples, foi acusado de matar um empresário graúdo de Newark, no estado americano de Nova Jersey.

A cidade tem uma grande comunidade de portugueses. Mais recentemente, foi tomada por brasileiros. Assisti ao julgamento de ponta a ponta. Fui arrastado pelo caso do mesmo jeito que algumas pessoas são tragadas pelo Big Brother. Tese da acusação: a briga de namorados terminara mal. Depois de socar o americano, o réu em fuga teria atropelado a vítima.

Marcelino poderia ser condenado à morte. Os americanos usam uma injeção letal para cumprir a pena. Drogas que paralisam os músculos, inclusive do coração. Logo que começou o julgamento a promotoria descartou a pena de morte, mas queria prisão perpétua. O promotor era metódico, detalhista. Mas não tinha o dom da palavra.

Provas, óbviamente, são essenciais, mas apresentá-las em tom monótono pode chatear o júri. O juiz, um italianão boa gente, estava convencido da culpa do brasileiro. Torcia pelo promotor. Controlava com um chicote verbal o advogado de defesa. A acusação foi assentando as bases de sua teoria. Tijolo por tijolo.
Havia gastos na conta de cartão de crédito do americano, despesas típicas de alguém apaixonado. Flores, roupas caras, garrafas de vinho - supostos presentes de amante.

O promotor tentava demonstrar que, ao contrário do que sustentava a defesa, o brasileiro e o americano se conheciam, sim. Se não era namoro, pelo menos era amizade fora do comum. A vítima, gente de família conhecida na cidade, não era homossexual assumido, daqueles de andar de mãos dadas com o namorado. O brasileiro teria arranjado vida boa às custas do gringo.

Faltavam testemunhas para provar que os dois haviam se encontrado publicamente. Namoro? Sim, mas clandestino. Encontros em lugares vazios, como aquele estacionamento - alegava a promotoria.

O advogado de defesa era uma figura e tanto. Teatral. Vaidoso. Logo se tornou amigo dos repórteres brasileiros que acompanhavam o caso. O julgamento já passava da metade quando apareceu a testemunha. A mulher dizia ter visto, da janela de casa, o desenrolar do crime. O promotor fez o melhor uso daquele depoimento-chave.

Quem é, afinal, o matador? A mulher apontou o dedo, aquele dedo apontado não tinha dúvidas, apontava direto para Marcelino, o brasileiro, sentado no banco dos réus. Ele engoliu em seco, acusou o golpe. Nós vimos. O júri viu.

No dia seguinte, o promotor veio disposto a dar o nocaute. Agora ia mostrar provas materiais. Um suéter de lã, encontrado na casa do brasileiro, tinha sido usado pelo réu na noite do crime. E havia fibras do suéter, coisa microscópica, na roupa do morto. Havia um laudo provando isso: fibras do suéter do brasileiro estavam na camisa da vítima. O promotor conduziu os jurados a uma dedução lógica: depois de namorar dentro do carro, de se abraçar, Marcelino e o americano teriam se desentendido.

Briga de amor. Violência. E a fuga - que havia deixado no estacionamento a vítima do atropelamento. O brasileiro estava frito.

Chegou a hora da apresentação da defesa. O advogado, Tarcísio Meira de subúrbio, abriu a metralhadora giratória contra a acusação. Trouxe de volta a testemunha - aquela, que dizia ter visto tudo da janela de casa. Dava golpes verbais no fígado, cruzados no queixo, batia na linha da cintura. Era noite, lugar mal iluminado, pela data do crime nem lua cheia havia. Reconhecer um rosto, a mais de 50 metros de distância? A senhora é uma lince? Usou binóculos?

O homem era bom de conversa, fisgava os jurados com a palavra, plantava minhocas na cabeça deles. E as fibras, como teriam passado da roupa de Marcelino para a da vítima? O advogado trouxe cópias oficiais do arquivo da polícia. Mostravam que o suéter apreendido na casa do brasileiro, prova essencial da acusação, não havia sido guardado de acordo com o regulamento. A seqüência de horários e assinaturas deixava margem a dúvidas.

Segundo o advogado de Marcelino, a roupa poderia ter saído do arquivo de provas e voltado horas depois. A defesa chamou uma especialista para testemunhar: a quantidade de fibras na roupa do falecido era inconsistente com a média deixada por um abraço, ou vários, por mais apertados que fossem. Os doze jurados assistiam àquela apresentação de olhos arregalados. Eu também.

O advogado sacou da embalagem oficial, de plástico transparente, o suéter de Marcelino. Chacoalhava a peça de roupa no ar, simulava uma conspiração policial para enquadrar o brasileiro. Chamou ao banco de testemunhas uma agente da própria polícia técnica. Alguém poderia ter esfregado a roupa de Marcelino, depois do crime, na camisa da vítima?

Não sei, ela se esquivou. Advogado de defesa: Mas pode ser? Quem sabe... É uma possibilidade? Agente policial: Talvez. Advogado de defesa: Você pode me garantir, 100%, que não aconteceu? Não.

E foi assim que o júri se recolheu para decidir o caso. Levou um dia e meio. Fomos chamados às pressas para ouvir o veredito: not guilty. Não culpado, é assim que falam os americanos. Não significa que o réu é inocente.

Tinha jurado convencido de que Marcelino matou o gringo, sim, do jeitinho descrito pelo promotor. Mas faltavam provas beyond a reasonable doubt, além de uma dúvida razoável, que é o que exige a lei americana para condenar alguém.

Dias depois de encerrado o julgamento, liguei para o advogado. Pergunta não de repórter, mas de curioso: afinal, de onde é que ele tinha tirado aquela linha de defesa? Ele explicou que o pai era policial aposentado, sabia de tudo o que se passava nos bastidores da polícia de Newark. Ninguém duvidava na polícia que o brasileiro era o autor do crime.

Mas, na falta de provas materiais, agentes teriam esfregado o suéter do imigrante na roupa da vítima, quando as duas peças estavam sob guarda policial.
Marcelino, então, era um assassino livre? Pergunte a ele, disse o advogado, e desligou.

Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru em 22 de janeiro de 2006


Indique esta Matéria
ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
jose marcos pellegatti (27/04/2008 - 09:06)
Caro Azenha, seus textos são ótimos. Este lembra o que poderá acontecer no caso da menina Isabella, somente provas periciais não serão contundentes para condená-los.

Dulce Leão (29/03/2008 - 18:28)
Azenha...interessante esta SUTILEZA..."não culpado"... mas também não sai como inocente... não conheço esta figura "jurídica" no nosso código penal. Este advogado deveria se chamar "PERRY MASON" :)



Comente este Texto
Email: viomundoteve@msn.com Receba o conteúdo do site via RSS developed by: webmasters online design by: kallore design