Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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ONDE FOI O TICO?

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 07:22

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Quando eu desembarquei em Nova York, esperava encontrá-lo no aeroporto. Rodrigo nunca apareceu. Eu assumia a função de correspondente da TV Manchete, em 1985. Carregava duas malas gigantes, pesadas, com minha mudança dentro. Dei sorte de encontrar outro brasileiro, taxista pirata, que me levou até o apartamento de um amigo.

Não teve um bom começo nossa amizade. Carioca, Rodrigo era ao mesmo tempo folgado e cativante. Apesar do cano que tomei no aeroporto, logo que o conheci no trabalho simpatizei com a figura. Rodrigo Cavalcanti gostava de dizer que era do Catete, no Rio de Janeiro.

Amigo dos amigos como poucos vi. Ao mesmo tempo, capaz de decisões e ações estúpidas. Era um tremendo contador de histórias, sem ser mentiroso: jogava limpo, falava a verdade, não era hipócrita.

Quando saímos juntos, de carro, pela primeira vez, mal nos conhecíamos. Enquanto dirigia, Rodrigo falava sozinho. Maluquice, pensei eu, quieto, sentado no banco do carona. E ele falando, tagarelando, xingando os motoristas de táxi amarelo e fazendo referências a um certo Tico. Tico, olha só o que o desgraçado fez. Quase me jogou fora da pista, esbravejava Rodrigo em voz alta.

Tentei quebrar o gelo. Quem é esse Tico? Rodrigo pediu que eu abrisse o porta-luvas da van. Abri. Pediu que eu apanhasse uma pequena caixa de madeira.
O Tico tá aí dentro, explicou. Achei que era gozação, mas Rodrigo estava falando a verdade, como pude comprovar dias depois, através de colegas.

Havia existido um imigrante brasileiro, apelidado de Tico, que era visto com freqüência na rua 46, a dos brazucas, em Manhattan. Impossível não reconhecê-lo. Tico mancava de uma perna e era corcunda, por conta de uma doença de infância. Era também boa praça e tinha muitos amigos.

Num sábado, depois de uma bela feijoada, Tico saiu de um restaurante, teve um infarto fulminante e caiu morto. Ficou com o rosto enterrado na neve.
Os amigos, entre eles Rodrigo, cuidaram de chamar a ambulância e começaram a procurar alguém da família do Tico, que vivia sozinho em Nova York.
Acharam parentes do falecido no Brasil, mas pelo jeito Tico não se dava bem com nenhum deles: ninguém se dispôs a pagar pelo traslado do corpo.
Os amigos se cotizaram, juntaram dinheiro para pagar o transporte. Mas a família, nem os trâmites burocráticos cumpriu.

Resultado: Tico seria enterrado como indigente, em Nova York. Os amigos decidiram usar o dinheiro arrecadado para pagar a cremação. Seria mais fácil levar as cinzas do Tico de volta para o Brasil. Rodrigo se dispôs a cuidar das cinzas, enquanto não houvesse alguém disposto a transportá-las para o Rio de Janeiro.

Ele e Tico eram cariocas e o horror ao frio os unia no desprezo pelo inverno americano. Porém, Rodrigo era muito supersticioso. Decidiu manter a urna longe de casa. Botou as cinzas no porta-luvas e rodou milhares de quilômetros conversando com o Tico. Rodrigo passou a acreditar piamente que o Tico tinha se tornado uma espécie de santo protetor dele, que as cinzas do amigo traziam sorte e ajudavam a desfazer congestionamentos e evitar acidentes.

De início, achei tudo aquilo macabro, de mau gosto. Depois, me dei conta de que Rodrigo e os amigos tinham feito tudo o que era possível nas circunstâncias. Semanas mais tarde, voltei a pegar carona na van do Rodrigo. Eu mesmo tomei a iniciativa: abri o porta-luvas e procurei pelo Tico.
A urna já não estava lá.

Tentei de todas as formas falar com a família dele, mas nem as cinzas do Tico eles quiseram receber, desgraçados! - praguejou Rodrigo. E aí, o que é que você fez com elas? Foi a pergunta que fiz a Rodrigo.

Num dia muito frio, em que a nevasca cobria as ruas da cidade com uma fina camada de gelo, o carro de Rodrigo derrapou e acertou em cheio uma pilastra da ponte do Brooklyn. Frustrado, irritado, nervoso, Rodrigo perdeu a compostura. Apanhou a urna e atirou as cinzas no East River, que banha a ilha de Manhattan. A caixa de madeira boiou - e o Tico deslizou lentamente em direção à baía de Nova York.

Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru em 08 de janeiro de 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Ivan Moraes (30/03/2008 - 01:50)
Tico era um monstro. Uma vez minha irma foi para o Brasil e deixou o apartamento com ele porque tava com pena dele. Quando voltou alguns anos mais tarde o cara da agencia lhe disse que nao poderia mais alugar apartamento em seu proprio nome e teria que inventar um nome falso pra isso, porque Tico tinha parado de pagar o aluguel assim que ela foi embora e quando foi despejado tinha vandalizado o apartamento de cima em baixo - nao sobrou nada inteiro la. Quem lidou com ele se deu mal sempre, ele passou uma vida, pelo menos aqui, causando danos e males. Mas tem muito mais coisa nessa historia que ninguem contou, Azenha. O que eu ja sei desde os anos 70 eh que Tico saiu do Brasil porque a policia carioca o teria matado se tivesse ficado la, e que ele tinha varios aleijoes que foram causados por tortura. Ele tinha marcas de tortura da policia no corpo todo. Nao sei mais nada a respeito -exceto pela comprehensivel antipatia da minha familia, obviamente, mas alguns valadarenses dos anos 70 se lembram dele muito bem e talvez pudessem aparecer pra nos contar mais: quem foi esse tragico monstrinho e o que o fez tao monstruoso, e tao tragico? (Alguem tem que saber alguma coisa!)



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