Atualizado em 17 de março de 2008 às 17:52 | Publicado em 17 de março de 2008 às 13:37
SÃO PAULO - Um leitor da edição eletrônica do Wall Street Journal resumiu os acontecimentos das últimas horas de forma brilhante: "Capitalismo gafanhoto". Ele se referia especificamente à venda da Bear Stearns ao JP Morgan - 2 dólares por ação -, com apoio total do Fed, o Banco Central americano. Mesmo depois das medidas de emergência anunciadas na noite de domingo pelo governo dos Estados Unidos, as ações das instituições financeiras americanas tomaram uma surra nesta segunda-feira.
Os editores brasileiros parecem meio perdidos com o bombardeio de notícias. Vamos, pois, ao que interessa: o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão anunciaram medidas para dar liquidez às instituições bancárias. Bush disse que "está tudo bem", ou seja, corram para a saída. "É a pior crise desde a Segunda Guerra Mundial", disse o ex-presidente do Fed, Alan Greenspan. Essa aí os editores entendem.
Eu não sei se vocês notaram que este site vinha cantando a bola desde o domingo. Onde olhar para saber o que está acontecendo? No valor das ações das grandes instituições financeiras americanas. As ações da Bear Stearns, que na prática continua ativa, perderam 83% de seu valor hoje, caindo para cerca de 4 dólares e 80, ou seja, mais de dois dólares acima do pago pelo JPMorgan.
Outra corretora importante de Wall Street, a Lehman Brothers, teve suas ações desvalorizadas em mais de 30% desde sexta-feira.
É incrível como as empresas precisam lutar a cada segundo, com todas as armas, contra a boataria e o nervosismo do mercado. Uma das maiores corretoras do mundo, a MF Global, perdeu mais de 55% de seu valor em um único dia e saiu anunciando que contava com U$ 1,4 bilhão de dólares limpos para enfrentar qualquer dificuldade.
Há leitores do site que dizem que esta crise não faz sentido. Faz, sim.
Como eu já escrevi aqui, só agora as instituições financeiras estão encarando de frente o impacto da crise das hipotecas. A mão livre do mercado, que a tudo regula, deitou e rolou nos últimos anos em Wall Street, apostando até no mercado futuro de gols do Robinho. Muitas vezes, sem qualquer fiscalização.
Agora, que as empresas estão quebrando, correm para o colo do Fed. Agora serão todos grandes defensores da intervenção do estado na economia. Logo você verá Estado escrito em maúscula no Estadão e na Folha de S. Paulo.
Quem vai pagar a conta? O contribuinte americano. E, indiretamente, quem não tem absolutamente nada a ver com os que fizeram fortuna especulando em Wall Street e outras capitais financeiras.
Qual é o impacto da queda do dólar em relação às demais moedas? Inflação. Comida mais cara. Ou seja, o morador da Mauritânia, que não tem nada a ver com a história, vai pagar mais caro pelos alimentos.
É por isso que o leitor do Wall Street Journal, ao notar o pandemônio, escreveu: "Capitalismo Gafanhoto".
SÃO PAULO - Prometi que só daria notícias que contam, sem as firulas. As ações da Lehman Brothers já perderam 35% do valor hoje (14:46, hora de Brasília). Compondo com as perdas de sexta-feira, os papéis da empresa já perderam 50% do valor na bolsa de Nova York. A empresa diz que está tudo bem com ela, assim como a agência encarregada de avaliá-la.
SÃO PAULO - Vou noticiar aqui apenas o que os sítios brasileiros não noticiam, por falta de competência: o que interessa neste exato momento (13:34, horário de Brasília) é saber como é que andam as ações das instituições financeiras na bolsa de Valores de Nova York. O resto é perfumaria. Explico: o rumo das ações determina a falta de confiança que pode levar um destes grupos a enfrentar dificuldades nos próximos dias e pedir dinheiro do Banco Central americano.
A Lehman Brothers perdeu 22% na abertura do pregão, a Merrill Lynch 8%, o Morgan Stanley 8%, a Goldman Sachs 6% e o Citigroup 6%.
A única ação em alta é a do JPMorgan. Por um motivo óbvio. O banco fez o melhor negócio da história do capitalismo desde que o diretor geral da Nova Holanda, Peter Minuit, comprou dos índios Algonquin o território em que hoje fica a ilha de Manhattan por 24 dólares em bugigangas. Dizem que foi no dia 24 de maio de 1626. Desconfio que seja equivalente à história de que Pedro Álvares Cabral "descobriu" o Brasil.
De qualquer forma, o Morgan levou por 236 milhões de dólares um concorrente que tem um prédio em Manhattan que sozinho vale muito mais do que isso. E com ajuda do Banco Central americano, o FED. Eles vão dizer que o governo apenas apoiou a transação, para enganar trouxa. Os americanos são tão bons de negócio que queriam empurrar a Bear Stearns para o grupo chinês Citic por U$ 2 bilhões. Esses gringos dão nó em pingo d'água. Deram nó nos Algonquins e deram nó nos contribuintes americanos, além de deixar o dólar despencar, exportando inflação para todo o planeta.
Tá na hora de tirar do armário o bom e velho Marx ....