Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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FAXINA EM PORTUGUÊS

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 07:39

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Nova York - É antevéspera de Natal e dona Zezé liga no celular de um amigo. Estamos presos no trânsito infernal de Manhattan. Funcionários do transporte público da cidade estão em greve. A faxineira quer orientações sobre o que fazer. O amigo, paciente, explica como funciona a numeração das ruas da cidade.

“Se a senhora caminhar da Quinta Avenida para o lado leste da ilha, os números vão aumentar”, ele diz. Confusa, ela quer saber como descobre se está do lado leste. “Na frente dos números tem um E?”, pergunta o amigo. Se tiver é lado East, ou leste. Ela confirma e os dois seguem falando. Meu amigo usa tanto o telefone que dentro do carro um microfone de telefonista - daqueles que se fica na cabeça.

A faxineira, que arranha apenas algumas palavras em inglês, está tentando voltar para casa. Ela mora em Queens, distante do centro da cidade. É orientada a caminhar em direção à Terceira Avenida, onde há maior chance de conseguir um táxi. A cidade está um caos. O metrô, que carrega 5 milhões de passageiros por dia, está fechado por causa da greve.

Nas ruas, a temperatura está abaixo de zero. O vento no cânion formado pelos edifícios de Manhattan é de cortar a pele. Dona Zezé, ainda se recuperando de uma fratura no pé direito, se arrasta até a Terceira Avenida. Depois nos contaria que não teve sorte. Tentou mas não conseguiu parar um táxi amarelo. No vale-tudo, os motoristas nem acionam mais o taxímetro. Colocam até quatro passageiros dentro do carro. Quinze dólares por cabeça, ainda que a corrida seja sómente de alguns quarteirões.

Dona Zezé liga de novo. O amigo, que se auto-intitula anjo da guarda negro, desvia do caminho para ajudar a brasileira. Lá está ela, nos esperando na esquina combinada.Ao entrar no carro, quero saber da vida dela. Dona Zezé entrou nos Estados Unidos com visto de turista. E ficou. Trabalhou em algumas casas de família. Hoje celebra o fato de ter alugado apartamento, não precisa mais dormir na casa de patrão.

“Dona Zezé, como é que a senhora se vira sem falar inglês?”, quero saber. No começo era mais difícil. Ela arranjava faxinas através de amigas. Algumas em apartamentos de Manhattan - casa de solteiro é o que não falta na cidade. A limpeza bem feita, daquelas que americano nunca viu – eles nem olham embaixo da cama, por exemplo – garantiu à dona Zezé uma ampla clientela.

Hoje mesmo, apesar da greve, do frio e do pé quebrado, ela fez duas faxinas. “Dona Zezé, como é que a senhora saiu de uma casa e conseguiu chegar na outra?”, eu quis saber. Depois da primeira faxina, ela já estava pensando em desistir do segundo compromisso quando viu uma fila de gente diante de um ônibus. Eram funcionários de uma empresa, que havia fretado a condução para não perder um dia de trabalho.

Dona Zezé conseguiu se entender com o motorista, que falava espanhol. Embarcou junto e ficou no meio do caminho, perto do lugar da segunda faxina. Foi assim que garantiu cem dólares, limpinhos, apesar do dia caótico em Manhattan. Aperto mesmo ela conta que passou com um patrão muito exigente. Ele costumava deixar bilhetes em inglês pedindo isso ou aquilo. Numa ocasião, escreveu: “Please, make room in the frige”.

Dona Zezé achou que tinha entendido pelo menos uma parte do recado: “make room”, arrumar o quarto. Mas não sabia o que era o tal frige. Liga pra cá, liga pra lá, uma amiga entendeu freezer no lugar de frige. E mandou dona Zezé desligar a geladeira e limpar o freezer. O troço demorou tanto para descongelar que o patrão americano chegou do trabalho e se assustou.

Dona Zezé, de faca na mão, raspava gelo das paredes do freezer. Sem se entender com a faxineira, o americano ligou para um amigo brasileiro. Finalmente ele desfez o mistério e explicou para dona Zezé: “frige”, em inglês, é abreviatura de geladeira.

Tudo o que o gringo queria é que a brasileira jogasse no lixo aquelas comidas vencidas, tão comuns em casa de solteiro. A expressão "make room in the frige" significa um pedido para abrir espaço na geladeira. Apesar do desencontro, até hoje o gringo continua fiel à faxineira. Gostou tanto do trabalho que agora pendura, em português, os pedidos: “Arrumar a gaveta de cuecas e meias”, “trocar a roupa de cama” e, quase sempre, “não mexa no feezer”.

Texto reproduzido pelo jornal Bom Dia Bauru no dia 25 de dezembro de 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Juan (31/07/2008 - 15:17)
Trash!

rita (17/05/2008 - 08:27)
também eu lidei com com muitos emigrantes que não sabiam uma palavra de inglês ...mas ,como D.Zezé não deve haver muitas ou será que há ?talvez !Obrigada pela imagem de ternura e humor .Vejo o transito,o passageiro no carro ,e ela embaralhada para voltar...como voçês dizem vida não é fácil!MESMO. Abração



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