Atualizado em 17 de março de 2008 às 10:02 | Publicado em 16 de março de 2008 às 19:34
SÃO PAULO - Segunda-feira, 10 da manhã. A Nikkei, bolsa japonesa, fechou com perda de 3%, o menor valor desde agosto de 2005. O dólar bateu em 96 ienes, para desespero dos exportadores japoneses.

SÃO PAULO - São 22:51 em São Paulo e a bolsa de Tóquio está perdendo 411 pontos. O dólar continua em queda em relação ao yen. A bolsa japonesa está aberta desde as 9 da noite, horário de Brasília. Ou seja, já teve tempo de absorver as notícias dos Estados Unidos e continua em baixa. Se ficar como está será uma segunda-feira terrível nos mercados financeiros.
SÃO PAULO - Este é o prédio da Bear Stearns em Manhattan. As ações da empresa valiam U$ 3,54 bilhões na noite de sexta-feira. Ela acaba de ser vendida em Nova York ao JPMorgan por 236 milhões de dólares, caso contrário declararia falência segunda-feira de manhã. O Banco Central americano anunciou o negócio antes da abertura do mercado em Tóquio, para evitar pânico. Também anunciou uma redução de juros em pleno domingo à noite (para 3,25%) e criou uma ferramenta especial para fazer empréstimos às instituições financeiras americanas que precisarem nos próximos seis meses.
Agora são 20:24 em São Paulo. A Bolsa de Tóquio abriu em queda de 400 pontos. Segura na cadeira...
Às 21:33, depois de 33 minutos de negociações em Tóquio o dólar atingiu seu valor mais baixo em relação ao yen dos últimos 12 anos. A Bolsa de Valores de Tóquio caiu pela primeira vez abaixo dos 12 mil pontos desde agosto de 2005. Segue em queda de cerca de 2%.

SÃO PAULO - Das duas, uma: ou a proximidade faz a coisa parecer menor do que é ou só à distância é possível ter uma visão mais ampla do buraco em que está se metendo a economia dos Estados Unidos. Já é possível dizer: o buraco é grande. Se o carro vai capotar ou não é imprevisível. Também é impossível dizer qual será exatamente o impacto no resto do mundo.
Digo isso por causa do tom distinto da cobertura. Os jornais mais próximos de Wall Street admitem que as coisas não andam bem. Mas tem gente que ainda diz que a hora de comprar ações é agora, na baixa, para tirar proveito da recuperação irreversível do mercado. Um tipo de sugestão que tem grande impacto nos Estados Unidos: mais da metade dos americanos tem algum dinheiro investido no mercado financeiro.
Já na Europa a visão é mais pessimista. Tanto que um jornal britânico como o Independent, que tem poucas ligações com o mercado, publicou no domingo 16: "Wall Street teme a próxima Grande Depressão."
A editora de Negócios do jornal, Margareta Pagano, se baseia no fato de que, apesar de todas as intervenções feitas até agora pelos bancos centrais, especialmente pelo americano, "os bancos comerciais ainda se negam a emprestar uns para os outros."
Um analista dá como certa a recessão no Reino Unido. Outro diz que Itália e Espanha caminham na mesma direção. A economia da Alemanha está sólida.
Há consenso nos dois lados do Atlântico sobre a crise de confiança. Sobre o medo de fechar negócios. Como escrevi em outro texto, a crise das hipotecas espalhou papéis ruins pelo mundo. O Joe Doe (que é como se referem ao Zé da Silva americano) deixou de pagar as prestações em Denver, Colorado, mas a essa altura - dada as peculiaridades do mercado financeiro dos dias de hoje - a dívida dele está pendurada numa cesta de investimentos de um aposentado britânico.
Centenas de milhares de americanos deixaram de pagar a hipoteca e o rojão está estourando no mundo inteiro.
Há vários motivos para isso:
1. A rapidez das transações eletrônicas, algumas das quais são feitas entre dois computadores;
2. A multiplicação de investimentos que passam praticamente batidos pelas autoridades encarregadas de fiscalizar o setor financeiro;
3. A interdependência dos grandes grupos financeiros, alguns dos quais são irmãos siameses.
4. A dúvida sobre a capacidade dos bancos centrais de controlar a situação, especialmente depois de seguidas intervenções.
Mesmo o Wall Street Journal, que não está soando o alarme do fim do mundo, diz que chegou a hora do acerto de contas.
Olhem esse parágrafo escrito por Liz Rappaport e Justin Lahart: "A cascata de notícias ruins dos últimos dias, culminando com a operação de salvamento da Bear Stearns, está acelerando a erosão na confiança e longevidade de algumas instituições financeiras nobres dos Estados Unidos. A crise de confiança já se estende a todos os tomadores de empréstimo - inclusive os donos de imóveis americanos, que assistem à perda de valor de seu principal bem [ a casa própria] -, levantando dúvidas até mesmo sobre a capacidade do Banco Central e do governo de reparar rapidamente os problemas".
"Bancos e firmas de Wall Street estão desconfiados de tal forma uns dos outros que estão deixando de fazer negócios", registra o jornal. Isso explica o fato de que a onça de ouro, a maior garantia contra a inflação, está chegando perto de mil dólares.
E a confiança do consumidor americano, responsável por fazer girar a maior economia do planeta? A pesquisa mais recente do Wall Street Journal/Rede NBC mostra que apenas 20% acham "que o país está no caminho certo".
Pior: a dívida conjunta dos domicílios americanos bateu em 13,8 trilhões de dólares no fim de 2007, a maior parte em hipotecas e outras linhas de crédito ligadas à casa própria.
E o investidor estrangeiro? Está caindo fora, aos poucos.
Diz o jornal que é porta-voz de Wall Street: "Isso é uma perspectiva preocupante para uma economia de baixa poupança e alto endividamento, que depende de 2 bilhões de dólares por dia de financiamento externo."
Um entrevistado lembra que o dólar e as hipotecas podres são duas faces da mesma moeda. Muitas instituições e fundos estavam especulando no mercado de papéis garantidos pelas hipotecas com dinheiro emprestado no Japão. Agora eles se desfazem do investimento e convertem o dinheiro de novo para o yen. O valor dos papéis despenca. E o dólar vai junto. O Wall Street Journal fala na possibilidade de um crash do dólar.
Segundo o Fed, a moeda americana perdeu 14,3% de seu valor em relação a um cesta de moedas estrangeiros nos últimos doze meses. Isso fortalece o setor exportador dos Estados Unidos, que vem aí disputar mercado.
Agora, está em andamento a corrida para encontrar comprador para a Bear Stearns e evitar que o colapso da quinta maior empresa de Wall Street arraste junto outras. Falou-se no grupo financeiro Citic, da China. Seria irônico demais: dinheiro comunista salvando um banco de Wall Street.
PS: Logo depois de escrever esse texto pintou nas últimas notícias do New York Times que a Bear Stearns vai declarar falência nesta segunda-feira se não conseguir ser engolida pelo principal concorrente, o JPMorgan. O Banco Central americano quer que o negócio seja fechado antes das nove da noite deste domingo, quando abrem os mercados em Tóquio. Que domingo, hein?! O Banco Central americano acaba de reduzir novamente a taxa de juros nos Estados Unidos para 3.25%. São 20:34 em São Paulo. Quanto tempo a Folha e o Estadão vão levar para dar a notícia?
PS2: A Bear Stearns foi vendida ao JPMorgan por preço de ferro-velho, 2 dólares por ação, pouco mais de 200 milhões de dólares. É a barganha do século, já que a empresa tem um prédio gigantesco em lugar nobre de Manhattan. O Banco Central americano criou uma instituição paralela para ajudar aos bancos americanos a partir de amanhã cedo, com empréstimos a juros baixos pelos próximos seis meses. São 20:47.
Azenha, por que meu comentário-teoria não foi publicado?