Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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Loucuras que eu vi Utilidades

SOBRENATURAL DE ALMEIDA

Atualizado e Publicado em 29 de março de 2008 às 07:48

Nélson Rodrigues gostava de lidar com o absurdo. Convido o leitor a uma reflexão: você já enfrentou alguma situação absolutamente inexplicável em sua vida? Falo de um fato que desafie a lógica. Ou as leis básicas da física. O século 20 foi o das certezas.

Marx acreditava, por exemplo, na inevitabilidade da ditadura do proletariado. Era só uma questão de tempo. Os americanos, leio agora num livro imperdível (War Against the Weak), planejavam uma raça ariana muito antes da ascensão de Hitler.

Tinham absoluta certeza de que era preciso eliminar os fracos para melhorar a Humanidade. Passamos a escrever Ciência com “c” maiúsculo, como sinônimo de certeza. Nelson Rodrigues nunca embarcou nessa. Gostava de desafiar todas as convenções de seu tempo, até mesmo no futebol.

Passou a creditar os gols incríveis que testemunhava no Maracanã a um tal de Sobrenatural de Almeida, que na hora agá desviava a bola, ora ajudando o goleiro, ora o atacante.

Repórter cheio de certezas, certa vez fui escalado para investigar dona Ederlazil, médium da região de São José do Rio Preto que se dizia capaz de materializar objetos. Num galpão, dentro de um tanque – como aqueles de lavar roupa -, ela depositava uma gigantesca bola de algodão. Passava a molhar o troço, enquanto fazia orações.

Aos poucos, do meio do algodão, começava a retirar pregos, cacos de vidro, velas, cruzes e objetos normalmente encontrados em cemitérios. Cheguei ao lugar absolutamente convencido de que era puro charlatanismo. Dona Ederlazil concordou em participar da reportagem. Sim, faria uma sessão especialmente para nossa equipe, com gravação e tudo.

Eu mesmo ficaria ao lado do tanque, para que ela limpasse o meu caminho, retirando do algodão patuás plantados por quem tivesse tentado atrapalhar minha vida. Seguimos, eu e três colegas da TV Globo, todas as recomendações da médium. Fizemos, juntos, uma oração. Fechamos os olhos brevemente.
Em seguida, me aproximei do tanque.

Dona Ederlazil molhava o aldogão, logo transformado em uma imensa bola. Ela fazia orações contínuas durante o ritual. Logo, de dentro do algodão, a médium começou a retirar objetos. Até uma calcinha preta, amarrada, dona Ederlazil me mostrou, dizendo que era mau olhado de alguma ex-namorada.
Nada havia me surpreendido até então.

Eu estava certo de que a médium tinha usado algum truque. De repente, senti uma forte dor no umbigo. Doía mesmo – e eu suava frio. Botei o dedo no umbigo, assustado. Dona Ederlazil pediu para olhar e, de lá de dentro, tirou um besouro vivo. A câmera, sempre ligada, registrou aquele momento.

Era um inseto mesmo, vivinho da silva. A câmera também gravou vozes estranhas. Repórter não acredita em nada até prova em contrário. Fomos embora com uma pontinha de dúvida, certos de que o exame detalhado das imagens revelaria os golpes da médium.

O áudio foi para o laboratório de um perito em Campinas. Ele atestou que os gritos de outro mundo eram, na verdade, variações do timbre de voz de dona Ederlazil. Ou seja, ela mesma poderia ter gravado os sons sobrenaturais.

Como havíamos fechado os olhos durante a oração, ainda que por apenas alguns segundos, concluímos que os objetos retirados do algodão poderiam ter sido plantados ali pela médium. Mas nunca conseguimos uma explicação razoável para a história do besouro. O inseto poderia ter entrado por um vão, entre os botões de minha camisa. Mas não havia sinal disso nas imagens.

No Rio de Janeiro, durante a edição da reportagem, fui chamado pelo editor-chefe da Rede Globo. Era a minha primeira visita à sala do diretor, o falecido Evandro Carlos de Andrade. Ele queria ter certeza absoluta do que havia se passado. Contei tudo, em detalhes. Jamais poderíamos promover o charlatanismo, disse ele. Concordei prontamente.

Decidimos incluir no texto uma frase, no trecho que tratava do besouro: “Pode ter sido um truque. Se foi, não descobrimos qual”. Resolvido o assunto, ele fez uma confissão surpreendente.

Também havia testemunhado um episódio inexplicável: a premonição de um médium sobre uma doença que depois seria confirmada. Ficamos ali, os dois, incertos de nossas certezas. Não, não acreditávamos em bruxas. Mas botávamos fé no Sobrenatural de Almeida.

Texto reproduzida pelo jornal Bom Dia Bauru no dia 4 de dezembro de 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Mauro Mansini (28/08/2008 - 13:58)
Poderiam convidar o Pe. Oscar Quevedo, que é paranormal para presenciar este fato de perto. Acredito que ele explicaria o fato, como sendo "um poder da mente" e não um poder do espírito. Mauro

Marcelo (06/07/2008 - 13:40)
Eu vi esta reportagem também, mas o cara que fez o desafio era um mágico, não sei bem, desmascarou a coitada. Ela não conseguiu tirar nada.

Silvia (23/06/2008 - 22:32)
Vi esta matéria no Fantástico mas nãosabia que era sua. Chamou-me a atenção porque esta senhora esteve , certa vez, na casa do meu irmão em São Paulo fazendo todo esse ritual. E realmente, ninguém saiu de lá achando que era charlatanismo. Todods ficamos muito impressionados pois viamos tudo ali, bem pertinho com a maior simplicidade.



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