Atualizado e Publicado em 24 de março de 2008 às 19:49

Fiquei surpreso, feliz e assustado. Surpreso ao descobrir que um brasileiro está entre os 20 cientistas mais promissores do mundo, segundo avaliação da revista Scientific American. Sei lá como eles escolhem, me parece bastante subjetivo, mas qualquer um que esteja entre os 20 melhores de seja-lá-o-que-for vale a pena entrevistar.
Fiquei feliz de ter matado minha curiosidade com um palmeirense bastante dedicado às coisas do Brasil. E fiquei assustado com o que o futuro nos reserva.
Cyborgs e robôs: é apenas uma questão de tempo. E como posso perder o amigo, mas não a piada, fica a perspectiva de que teremos repórteres teleguiados de carne e osso, com chips de computador implantados no cérebro, dizendo tudo o que vossa majestade mandar.
O doutor Miguel Nicolelis trabalha na Universidade de Duke, em Durham, Carolina do Norte. Brasileiros costumam ficar embasbacados quando se diz o nome de uma universidade americana. Eu repito minha teoria: algumas universidades americanas ficam em cidades tão chatas que a saída para não enlouquecer é se trancar num laboratório ou numa biblioteca
O doutor Nicolelis faz parte da equipe que ensinou macacos a conscientemente controlar o movimento do braço de um robô em tempo real, usando apenas sinais emitidos pelo cérebro. É uma pena que eu não tenha comigo o vídeo que o cientista me mostrou na tela do laptop.
Na primeira experiência, um macaco foi treinado para jogar videogame. Cada vez que conseguia "pegar" uma bolinha virtual, recebia como recompensa uma gota de suco de laranja. Sinais emitidos pelo cérebro do macaco eram captados e transmitidos para um computador que, através de modelos matemáticos, os transformava em sinais digitais que comandavam o movimento do braço robótico.
Na segunda parte da experiência, o controle do videogame foi tirado da mão do macaco. Mas ele continuou assistindo ao videogame. E como macaco ama suco de laranja, o bicho continuou tentando pegar a bolinha virtual. Repetiu os padrões de pensamento de quando tinha o controle na mão.
Os sinais do cérebro continuavam sendo transmitidos para o braço robótico, através do computador. Ou seja, só com a força do pensamento o macaco continuou acertando no videogame e ganhando gotas de suco de laranja.
O que um leigo diria disso? Que os macacos são capazes de matar a mãe por algumas gotas de suco.
"Cientistas e engenheiros disseram que a experiência foi um passo importante a caminho da tecnologia que poderia ajudar pessoas paralisadas a controlar 'neuropróteses' e mesmo 'neurorobôs' usando os sinais do cérebro", anunciou a universidade.
O resultado mais impressionante, segundo o doutor Nicolelis, é que depois de alguns dias de jogo usando o robô como intermediário o macaco de repente percebeu que não precisava fazer qualquer movimento para jogar. E mais: "Nossa análise dos sinais do cérebro demonstrou que os animais assimilaram o braço do robô como se fosse parte do corpo deles".
Também impressionante, de acordo com o brasileiro, é que os circuitos do cérebro do macaco parecem ter se reorganizado, comprovação de que o cérebro adulto é maleável - pelo menos no caso do macaco. Falamos sobre aplicações práticas da experiência. A longo prazo, segundo o doutor Nicolelis, quadriplégicos poderão usar os sinais do cérebro para mover objetos, conversar com um computador, controlar a cadeira de rodas...
Num futuro mais distante ainda, segundo o cientista, os sinais do cérebro poderão ser amplificados em tal magnitude que será possível a um homem operar um robô só com a força do pensamento. Saí do encontro maravilhado, mas ao mesmo tempo preocupado. Já imaginaram um personagem como o George W. Bush controlando um Godizilla robótico à distância?
O prof. Nicolelis já apareceu em reportagem da Carta Capital mais de uma vez e o Jornal da Ciencia(da SBPC) apresentou a polêmica que envolve o ilustre cientista com outros cientistas brasileiros. Em questão, como é comum no meio, discutiam a quem atribuir os méritos iniciais da pesquisa desenvolvida pelo Nicolelis. De fato ele é o idealizador e diretor do Instituto Internacional de Neurociência de Natal que, acho, tem o nome de Lily Safra. O projeto é audacioso e promissor e conta com grande apoio do governo federal. Aliás, outro dia, Nicolelis foi recebido pelo Presidente da República.