Atualizado e Publicado em 17 de março de 2008 às 23:22

Perfilados em uma base aérea ao sul de Paris, os integrantes da Esquadrilha da Fumaça recebem uma homenagem. É tradição francesa dar aos aviadores que chegam de fora os pães tradicionais do país: a baguete e o croissant.
Os brasileiros tinham acabado de completar a primeira fase da viagem, de mais de nove mil quilômetros, voando de Pirassununga, no interior de São Paulo, à capital francesa. Eu e o cinegrafista Fernando Ferro fomos juntos, fazer reportagens para o Fantástico e o Jornal Nacional.
Fizemos várias escalas por causa da autonomia dos Tucanos. Pirassununga, Salvador, Fernando de Noronha, ilha do Sal, ilhas Canárias, Sintra (Portugal), Bordeaux e Paris. Os oito Tucanos T-27 tiveram uma ótima performance na rota Pirassununga-Paris-Pirassununga.
O Tucano, fabricado pela Embraer, tem uma versão de ataque, o Super-Tucano. Os caças são usados, por exemplo, nas patrulhas das fronteiras do Brasil na região amazônica.
O Tucano, versão básica, é utilizado em catorze países do mundo para treinamento de pilotos. É barato, de fácil manutenção e confiável, uma espécie de Fusca da aviação.
Os tubos colocados sob as asas que muita gente confunde com mísseis, na verdade são tanques de combustível para aumentar a autonomia dos Tucanos. Eles podem voar pouco mais de dois mil quilômetros sem reabastecer. A velocidade máxima é de 450 quilômetros por hora, mas na viagem até a França voaram em média a 300 km/h, para não forçar o único motor.
Depois da bem sucedida travessia entre Fernando de Noronha e a ilha do Sal, que durou oito horas, seguimos para as ilhas Canárias, território espanhol no oceano Atlântico. O vento na região é tão forte que em torno do aeroporto da Gran Canaria, a principal ilha, estão fincadas dezenas de torres para produzir energia eólica.

Tivemos uma noite agradável em Las Palmas, apesar do preço salgado do jantar. Estávamos num grupo de oito pessoas e, para nossa surpresa, as paellas regadas a vinho local custaram a cada um de nós cerca de 40 euros - mais de 120 reais.
No dia seguinte, chegamos ao continente europeu por Sintra, na costa de Portugal. Ao todo, os Tucano haviam completado 18 horas de vôo sobre o mar.

Da sacada do bar do hotel tirei a foto acima. A praia estava cheia de turistas. Nunca enfrentei um mar tão gelado. Foram trinta segundos dentro d'água e zarpei para a areia.
O lugar é bonito, mas ficamos debatendo uma realidade da qual poucos brasileiros se dão conta: a não ser em alguns lugares do Caribe e em ilhas do Pacífico sul, não há no mundo praias como as do Brasil. A essa altura, já estávamos acostumados à rotina dos vôos.
Uma escala por dia, deslocamento até o hotel, jantar e poucas horas de sono. No dia seguinte, o único verdadeiramente de lazer, nos separamos do pessoal da Esquadrilha e dos tripulantes do Hércules C-130.
Havíamos chegado a Paris e a reportagem estava completa. Fizemos turismo diante do Moulin Rouge e na Torre Eiffel. Em cinco dias de viagem, tínhamos feito amizade com pilotos, mecânicos e especialistas da Força Aérea Brasileira. Passei a admirar a perícia e a dedicação daqueles militares. Apesar do trabalho duro, são muito bem humorados.
Pela tradição dos aviadores, os pilotos da Força Aérea carregam consigo medalhas que são símbolos dos esquadrões a que pertencem. Se algum deles joga a medalha no chão, o último a fazê-lo paga a rodada de cerveja para a turma toda.
Publicado originalmente em 2005