Atualizado e Publicado em 11 de março de 2008 às 19:38

Em Pirassununga, no interior de São Paulo, fomos visitar a base aérea que é sede da Esquadrilha da Fumaça. Vesti o macacão e experimentei o aperto que os pilotos enfrentam no cockpit do T-27, o Tucano de fabricação da Embraer (acima eles são vistos cruzando a cordilheira dos Andes)
A Esquadrilha começou a atuar em 1952. Hoje é mais do que um show aéreo. É marketing brasileiro para o Tucano, um produto nacional que ganha mercado no mundo como avião de treinamento militar.
Imagine oito aviões, de uma tonelada e meia cada, com 400 litros de querosene nos tanques, voando a dois metros um do outro numa velocidade de 450 quilômetros por hora. Isso dá uma idéia da perícia exigida dos pilotos.
Eles são os top guns brasileiros. Conseguir uma vaga de piloto na Esquadrilha não é fácil. Além de cerca de 14 anos de formação profissional, é preciso ter 800 horas de instrução e 1.500 de vôo - para se ter uma idéia, é como se o piloto voasse 60 dias sem parar.
A esquadrilha estava diante de um desafio especial. No dia 14 de Julho, data nacional da França, faria manobras sobre um desfile militar em Paris. Dois mil e cinco foi o ano do Brasil na França. Por isso, os brasileiros foram convidados a tingir o céu da capital francesa de verde e amarelo.
Chegar à França exigiria uma longa viagem. A autonomia do Tucano é de quatro horas e meia. Com tanques sobressalentes, sobe para nove horas e meia de vôo sem abastecimento.

O roteiro seria o seguinte: Pirassununga, Recife, Fernando de Noronha, Ilha do Sal (Cabo Verde), Gran Canária (Espanha), Sintra (Portugal), Bordeaux (França) e Paris.
Boa parte da viagem seria feita sobre o Oceano Atlântico. Um avião Hércules, da FAB, tinha a missão de acompanhar a Esquadrilha, para fazer o resgate em caso de acidente. Os Tucano dispõem de assentos ejetáveis. Se perder o controle da aeronave, o piloto dispara um sistema que vai ejetá-lo a cerca de 65 quilômetros por hora.
É tudo tão rápido que o piloto pode perder a consciência por uma fração de segundo. O sangue sai da cabeça e se concentra do tronco para baixo.
Se não puder ser resgatado imediatamente, o piloto tem um kit salva-vidas. Além do colete e de um pequeno bote inflável, dispõe de anzóis para pescar, de um rádio que emite sinal de socorro e de alimentação. O kit-comida é curioso: além de jujubas - o açúcar dá energia ao náufrago -, inclui chicletes. A goma de mascar estimula a salivação e reduz a sede.
O piloto também conta com um sistema para coletar água de chuva. Já houve um náufrago que resistiu mais de 100 dias no mar, antes de ser resgatado.
Depois de visitar a base da Esquadrilha, em Pirassununga, para filmar o treinamento e ouvir orientações sobre a viagem, eu e o cinegrafista Fernando Ferro ficamos mais tranqüilos. É que iríamos a bordo do Hércules, muito mais seguro para encarar a travessia do Oceano Atlântico.
Publicado originalmente em 2006 e reeditado em 10 de março em 2008
O náufrago em questão era da esquadrilha?