Atualizado e Publicado em 20 de março de 2008 às 00:28

James Carville

Doug Schoen

Dick Morris
Se você encontrar um desses caras por aí, vou para o exílio. Fazem as vezes de marqueteiros, analistas políticos e gurus de candidatos. Pertencem à mesma geração de Karl Rove, o homem que elegeu Bush governador do Texas e duas vezes presidente dos Estados Unidos. Rove é partidário do vale-tudo nas campanhas eleitorais.
É o homem que apresenta um candidato do bem (George Bush e seu compassionate conservatism, conservadorismo com compaixão) enquanto vaza dossiês e faz o serviço sujo com a mão alheia. Quem quiser saber mais de Rove leia Bush's Brain. Assim como os americanos exportam cinema e música pop, também exportam suas técnicas de marketing.
Globalizaram o marketing da crise e do ódio. Lá eles chamam isso de soft power, o poder mole, em contraposição ao poder das armas. Viram o filme Our Brand is Crisis? Altamente recomendável. Conta os bastidores da campanha que James Carville, democrata que ajudou a eleger Bill Clinton, conduziu desde Washington para eleger Gonzalo Sánchez de Lozada, o Goni, presidente da Bolívia.
Goni viveu a maior parte da vida nos Estados Unidos. Fala espanhol com sotaque. Numa disputa envolvendo três candidatos, Carville promoveu uma campanha devastadora contra os oponentes. Na eleição de 2002, Goni recebeu 22,5% dos votos, contra 20,9% de Evo Morales, que por sua vez teve 700 votos a mais que o terceiro colocado.
Goni, que havia presidido a Bolívia de 1993 a 1997, promovendo as privatizações, voltou ao poder num país amaldiçoado pelas sobras de campanha. Foi tanto veneno que tornou impossível uma saída negociada. Carville e seus assessores estavam em Washington quando o governo que ajudaram a instalar sem base social e política ruiu, em 17 de outubro de 2003, depois de confrontos com a oposição que deixaram dezenas de mortos.
Goni fugiu para os Estados Unidos. Evo Morales, eleito depois com mais de 53% dos votos, já pediu aos Estados Unidos a extradição de Goni, acusado pela matança de manifestantes.
Vimos o mesmo filme no México, no ano passado. Quem assinou a campanha de Felipe Calderón foi Dick Morris, outro ex-assessor de Bill Clinton. Como no México empresas são banidas de participar da campanha eleitoral e o financiamento público tem um teto, entidades apartidárias ou da sociedade civil torraram milhões de dólares em comerciais que associavam o candidato da oposição, López Obrador, à violência, a Hugo Chávez e ao demônio.
Depois de denúncias de fraudes e de uma longa polêmica, a Justiça confirmou a vitória de Calderón. Quais foram as sobras da campanha? As mesmas da Bolívia. Até hoje López Obrador não reconheceu a derrota e percorre o país como parte de um "governo paralelo". A sociedade está fraturada, com rebeliões em dois estados e um grupo guerrilheiro atacando instalações petrolífera.
Mais uma vez, o marketing do ódio causou danos muito além das eleições. E esse tal de Doug Schoen, quem é? É um dos sócios da empresa Penn, Schoen & Berland Associates, baseada em Washington. A empresa é especializada em pesquisas de opinião.
Quando Hugo Chávez enfrentou um referendo revogatório, em 2004, a Penn, Schoen & Berland divulgou uma pesquisa de boca-de-urna dizendo que o resultado seria 59% a 41% contra Chávez. Mas quando os votos foram contados Chávez venceu por 58% a 42%.
Em 2006, a Penn, Schoen & Berland voltou à Venezuela. Na reta final da campanha, divulgou uma pesquisa mostrando um repentino avanço do candidato de oposição, Manuel Rosáles. Resultado da eleição? Deu Chávez, fácil. Na Itália, a Penn, Schoen & Berland fez a única pesquisa prevendo a vitória de Silvio Berlusconi nas eleições que levaram Romano Prodi ao poder.
Aí você me pergunta: esses caras são loucos? E a credibilidade deles? Em minha opinião, representam a fraude terceirizada paga em dólares.
Na Venezuela, o resultado da pesquisa que deu derrota de Chávez no referendo permitiu à oposição gritar fraude. Com essa manobra, a mobilização contra o presidente venezuelano ganhou fôlego. O marketing do nós contra eles impregnou a política venezuelana. No caminho ficaram duas dúzias de mortos.
Nos Estados Unidos, Karl Rove desenvolveu a exploração do medo, do pânico e da degeneração moral para "mobilizar" os ativistas que levaram Bush ao poder. Setenta mil civis mortos no Iraque? Rove pediu o boné e foi para casa.
Dick Morris, James Carville e Doug Schoen rezam pela mesma cartilha do guru de Bush. Republicanos? Democratas? O partido dos marqueteiros chama-se Partido do Dinheiro.
Para a política externa americana, essa turma teoriza que é melhor usar o soft power, através da mídia e das campanhas publicitárias - desde que eles fiquem com uma boa gorjeta. Todos estão faturando muito com esse novo produto de exportação. Promovem a terra arrasada em campanhas e depois deixam para os eleitores a tarefa de recolher os cacos.
Candidatos apartidários ou que governem acima dos partidos estão na moda em todo o mundo. Com quem Doug Schoen trabalhou na Venezuela?
Com as entidades da sociedade civil Súmate e Primero Justicia. As duas entidades foram parcialmente financiadas com dinheiro público dos Estados Unidos. Agora o Primero Justicia saiu do armário. Assumiu que é um partido, o partido dos jovens, o partido dos caras-pintadas.
Publicado originalmente em 14 de agosto de 2007
É exatamente o que Clinton fez no Texas com o já famoso comercial do telefone tocando na Casa Branca de madrugada e que aparentemente surtiu efeito.