Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha

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BARRETO, O REI DA ÍNDIA QUE O BRASIL NÃO CONHECEU

Atualizado em 13 de março de 2008 às 06:39 | Publicado em 11 de março de 2008 às 11:11

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Derrubado pelo zagueiro, o camisa dez foi pisoteado bem diante do juiz.

Poucos brasileiros já ouviram falar em José Luiz Ramirez Barreto.

Baretô, na pronúncia local, foi deus da bola na Índia. "Um gênio por suas espetaculares finalizações", descreveu um jornal local.

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O detalhe mostra quando o zagueiro do Salgoacar pisa com maldade na perna direita de Barreto, depois de cometer a falta. Nem cartão amarelo recebeu.
Estávamos em Goa, a região da Índia colonizada pelos portugueses. Fica na costa Oeste da Índia, no mar da Arábia. É um lugar turístico de praias lindas.

O time de Barreto, o Mohun Bagan, vinha de Calcutá - que os indianos chamam de Kolkata - para tentar garantir o título nacional de 2002.

Kolkata fica do outro lado da Índia, na baía de Bengala.

Eu e o cinegrafista Sherman Costa fazíamos reportagens especiais que foram mostradas no Jornal Nacional antes da Copa do Mundo daquele ano, disputada na Coréia do Sul e no Japão. Do lado de fora do estádio, a multidão disputava à tapa os ingressos para ver Barreto. A Federação Indiana nos proibiu de filmar a partida, alegando uma questão burocrática qualquer. As imagens foram feitas com a câmera digital amadora que sempre carrego comigo.

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O estádio estava apinhado de gente. Havia até freiras na platéia. O time de Barreto era o favorito. O goleador brasileiro mostrou categoria. Aos 15 minutos do primeiro tempo, já tinha feito dois gols. Num deles, driblou toda a defesa adversária.

Barreto é gaúcho. Como centenas de jogadores brasileiros, deixou o país feito cigano, para desbravar novos mercados do futebol.

No Brasil, jogou em times pequenos do Rio Grande do Sul. Na Índia, ganhava cerca de dez mil dólares por mês. A porta da casa dele, em Calcutá, vivia cheia de gente esperando por um autógrafo. As vacas, bichos sagrados na Índia, passavam diante da casa de Barreto. O gaúcho salivava, pensando no churrasco proibido.

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No estádio, dezenas de torcedores vestiam a camisa do Brasil. Barreto nos contou que, durante a Copa da França, cada vitória da Seleção Brasileira era festejada como se a Índia tivesse sido campeã do mundo. A maior dificuldade de filmar em Calcutá eram as multidões que se formavam à nossa volta.

A casa de Barreto era permanentemente cercada por torcedores. Ficava num bairro de classe média, mas o mal cheiro de um rio poluído era insuportável.
Nunca vi tanta miséria numa cidade. Em ruas centrais, famílias de sem-teto esperavam na saída de água de empresas para tomar banho.

Não importava a cor da água que saía, eles se ensaboavam assim mesmo.

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Mas agora estávamos no estádio de Goa, só esperando pelo título de Barreto. De pênalti, o Salgoacar diminuiu a diferença. Nem Barreto, nem nós e garanto que nenhum torcedor naquele estádio de Goa estava preparado para o que aconteceu em seguida.

No segundo tempo, baixou o santo no time da casa. Depois de perder por 3 a 0, o Salgoacar virou a partida e venceu por 4 a 3. Delírio igual eu nunca vi num estádio de futebol. Os indianos berravam, pulavam, se abraçavam. Vencer o time de Barreto é tudo o que queriam.

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Com o apito final, um torcedor do Salgoacar tirou a camisa, correu para perto do alambrado e se ajoelhou. Fez o sinal da cruz e agradeceu a Deus. Na rodada final do campeonato, uma semana depois, o Mohun Bagan, comandado por Barreto, venceu fora de casa e foi campeão indiano de 2002. Barreto, com 16 gols em 22 partidas, foi recebido como herói em Calcutá. Ele continuou a grande estrela do futebol indiano até 2003, quando recebeu uma oferta melhor e foi jogar na Malásia.

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Para nós, tinha sido um dia exaustivo. A temperatura bateu nos 42 graus. Terminado o jogo, seguimos para o aeroporto de Goa. O cinegrafista Sherman Costa fez exatamente como a defesa do time de Barreto, naquela tarde inesquecível: dormiu.

Publicado originalmente em 2006


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Abreu (12/03/2008 - 00:38)
Esse cara tá com saudade da Globo.

Conceição Oliveira (11/03/2008 - 16:36)
Já tem uma série de crônicas de futebol aqui e vistas por aspectos inusitados e interessantes, vale publicação, vai pensando em organizá-las e publicar para a copa de 2014...
Se fizer enquete a gente ajuda com o título



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