Memória: O que ocorreu não foi acidente, foi crime

publicado em 28 de fevereiro de 2012 às 0:57

CAOS AÉREO

O que ocorreu não foi acidente, foi crime

FRANCISCO DAUDT (Colunista da Revista Folha)

Na primeira página da Folha, em 19.07.2007

Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, “GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200 PESSOAS”. O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo. O que ocorreu não pode ser chamado de acidente, vamos dar o nome certo: crime.

Remeto-me ao livro de García Marquez, “Crônica de uma morte anunciada”. Todos sabiam e ninguém fez nada. E não me refiro a você, leitor, que se consome em sua impotência diante deste e de tantos descalabros que vimos assistindo semanalmente. Ao ponto de a ministra se permitir ao deboche extremo do “relaxa e goza’? Será esta sua recomendação aos parentes das novas vítimas? Refiro-me às autoridades (in)competentes, inapetentes de trabalho gestor. Refiro-me ao presidente Lula, que, há quantos meses, ó Senhor, disse em uma de suas bazófias inconseqüentes que queria “data e hora para o apagão aéreo acabar”, como se não dispusesse da devida autoridade para tal.

Sinto pena de não ter estado na abertura do Pan, de não ter engrossado aquelas bem merecidas vaias. Talvez o presidente não se importe tanto, afinal, quem viaja de avião não é beneficiário de sua bolsa-esmola, não faz parte do seu particular curral eleitoral cevado com o dinheiro que ele arranca de nós. Devem fazer parte das tais “elites”, que é como ele escarnece da classe média que faz (apesar do governo) o país crescer.

Qual de nós escapou do medo de voar desde o desastre da Gol HÁ NOVE MESES? Qual de nós assistiu confortável o jogo de empurra, “a culpa é dos controladores’; “não, é do ministério da defesa’; “a mídia também exagera tudo’; “é do lobby das empreiteiras que só querem fazer obras inúteis e superfaturadas nos aeroportos”. Qual de nós deixou de ficar perplexo com a falta de ação efetiva para que o problema se resolvesse?

Perdão, acho que a tal falta de ação geral de governo é de tamanho tão extenso e dura tanto tempo que muitos de nós a ela nos acostumamos. Sou psicanalista, e, por dever de ofício, devo escutar o que meus clientes queiram dizer.
Pois nunca pensei que fosse pronunciar no consultório uma frase que venho repetindo há algum tempo, depois de que mensalões, valeriodutos, Land-Rovers, dólares na cueca, dossiês fajutos, renans calheiros, criminalidade, insegurança pública, impunidade, pizzas e tudo isso que o leitor já sabe se despejam fétida, diária e gosmentamente sobre nossas cabeças. A tal frase: “Não quero falar desse assunto”. Os pacientes me respondem com alívio, “Ufa, eu também não!’ É o desabafo da impotência partilhada. “Welcome to Congo’? Talvez seja um insulto ao Congo.

Pois agora quero falar deste assunto. Deram-me a oportunidade de ser menos impotente. Sei que falo por uma enorme quantidade de brasileiros trabalhadores que sustentam essa máquina de (des)governo, muitos mais que os 90 mil do Maracanã, para expressar o nojo e a raiva que esse acúmulo de barbaridades nos provoca. O governo sairá da inação, da omissão criminosa? Alguém será preso, punido por todas essas coisas? Infelizmente, duvido. Talvez condenem a mim, por ter deixado o coração explodir. Pagarei o preço alegremente, lembrando Graciliano Ramos, que, visitado no cárcere, travou com o amigo o seguinte diálogo:

- Puxa, Graça, você, aí dentro, de novo?

- E você, o que faz aí fora? Nestes tempos, lugar de homem honesto é na cadeia.

FRANCISCO DAUDT, 59, é psicanalista e colunista da Revista da Folha

 

25 Comentários para “Memória: O que ocorreu não foi acidente, foi crime”

  1. fábio disse:

    E sobre aquele "acidente" nas obras do metrô em São Paulo? Ah sim, agora entendi, é sessão de humor. Que coisa mais sem graça…!

  2. El Gordo disse:

    Quero o CRP desse Dr. Daudt, só por curiosidade.

  3. Micuim disse:

    Cruz credo! Isso é coisa que se úblique?

  4. maria meneses disse:

    Só tenho umas poucas pergunta s a fazer: nos governos anteriores ao de Lula quantos aviões cairam? E quando isso aconteceu, a mídia também caiu em cima do governo. E durante o governo militar ?

  5. Marcelo de Matos disse:

    Costumo dizer por blague – Estou precisando consultar um psicanalista. Nada de errado com a minha pessoa: é para entender certos personagens por aí. Ontem assisti ao Roda Viva da TV Cultura com o professor e sociólogo Bruno Daniel, um dos irmãos do prefeito assassinado de Santo André que agora é membro do PSOL. Bruno disse que desejava ardentemente ver o “Sombra” condenado pelo júri popular. Aí o redator da Época lembrou-lhe de que ele fora amigo do Sombra, fizeram viagens de turismo junto com as respectivas esposas e fora ele quem apresentara Sombra ao prefeito Celso Daniel. O sociólogo, sem se mostrar atingido, prosseguiu com seus vitupérios contra o PT e seus dirigentes, embora já tenha se retratado em processo judicial em razão dessas acusações sem prova. Vai fazer companhia para o caseiro Francenildo lá no PSOL. Não consigo entender esse moralismo exacerbado de certas criaturas – só consultando um psicanalista (não para mim).

    • Marcelo de Matos disse:

      Já que falei em TV Cultura e o assunto aqui é psiquiatria e crime, vou contar mais uma. Ontem, antes do Roda Viva, no Jornal da Cultura, que teve a participação de uma psiquiatra, do advogado e consultor da Infraero Airton Soares (ex-pt e hoje apoiador da candidatura Serra) e do historiador tucano Marco Antonio Villa, esse último falou sobre o crime Aracelli. Antes que ele começasse a apresentadora Maria Cristina Poli o advertiu – você já conversou com seu advogado sobre o que vai falar? Villa começou meio reticente, falando sobre um personagem com exitosa carreira política, hoje senador da República, mas, acabou desfiando nomes como Collor, Buzaid e outro que não me recordo. O assunto foi evoluindo do caso da menina morta pelo Jet ski até outros crimes contra crianças, ganhando, ao fim, ao que parece, contornos políticos.

  6. Miguel disse:

    e o cretino tem a cara de pau de citar Graciliano Ramos… Sera que ele ao menos desconfia o motivo da prisao do escritor?

  7. dukrai disse:

    maigódi, o cara se compara a Graciliano Ramos, comunista na ditadura Vargas e autor de Memórias do cárcere, mas se espelha em Joseph Goebells, "Toda a mentira é mais crÌvel quanto maior for". http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/369/9/16
    Orador brilhante, comediante assumido, cÌnico, homem de política, cruel,vingativo e sem escrúpulos eis com se poderia descrever este homem." Lembra mais alguéns desse jornaleco além de Goebells?

  8. Mateus_Beatle disse:

    "Sou psicanalista, e, por dever de ofício, devo escutar o que meus clientes queiram dizer."

    Somente pela palavra em negrito, já se torna possível compreender um pouco da concepção de mundo do Sr. Francisco Daudt, o Psicanalista reaça.
    Além de subsidiar o entendimento do porquê deste texto raivoso contra um governo trabalhista… Pode estar certo de que se fosse no governo FHC o cidadão não vociferaria deste modo.

    • Renato disse:

      E qual o problema de uma pessoa querer ser médico ou psicanalista para ganhar $$$?
      Ou é mais bonito ganhar U$ 15,00 por ês e ver a comida racionada?

      • Amira disse:

        Não há problema. Mas nosso vocabulário está encurtando, e as idéias idem… quem vai à psicanalista e o analisando, o paciente… Assim como quem estuda é um estudante. No hospital, somos também pacientes. Mas a linguagem de mercado está dominando tudo. Hoje somos todos clientes em todo e qualquer lugar. Não me sinto feliz ao ser tratada assim, como uma fornecedora de capital, e que por isso devo ser bem tratada. Todos temos o direito de sermos bem tratados por sermos seres humanos, independente do pontecial consumidor que representamos. Falei sua língua?

      • Mateus_Beatle disse:

        Pefeito, Amira.
        Complementou e explicitou exatamente o que eu quis dizer na minha mensagem acima.

      • Amira disse:

        É, quando as pessoas falam a mesma língua, flui a comunicação ;)
        Mas tem gente que está deixando de saber o português pra falar mercadês… ai a gente tem que desenhar.

  9. Dom Pedrito disse:

    Avião quando cai, tem que ter um culpado no governo. Ônibus de passageiros que se estrebucha quase todo o dia nas estradas é uma fatalidade. E o cara é psicanalista e ainda não entendeu nada disso.

    • angela disse:

      Acho que estou ficando burrinha….que assunto é esse Azenha?????

      • Jairo_Beraldo disse:

        É o seguinte sra. Angela: O DR. FRANCISCO DAUDT, 59,psicanalista e colunista da Revista da Folha, desabafa por ser governado por um ex-metalurgico, 4 dedos e que fora à época, ovacionado nos 4 cantos do mundo, como um gênio politico, que tirou da miséria extrema 15 milhões de brasileiros, e levou outros 15 milhões ao consumo que não permitiu que o país quebrasse. Pra que o Azenha colocou isso? Bom, eu entendi, que é para lembrar a nossa presidente, que fez parte daquele governo, a quem ela deveria estar seguindo e copiando, ou seja seu antecessor, e não o ante-antecessor.

    • leandro disse:

      Quando é o motorista do ônibus que erra, é falha humana. Quando a causa são as péssimas estradas, a culpa é do governo, sim.

    • Christian Schulz disse:

      Ônibus acidentado, quando o motorista morre, a culpa é deste. Quando sobrevive, aí, veja bem, vamos ver as possíveis causas.

      Idem com trem.

      Com avião também era assim, com a "vantagem" de que a fatalidade é de quase 100%. Até, claro, o Nizan Guanaes inventar o caosaéreo e o PiG e até o Lula comprarem essa ideia fajuta. Aí os pilotos não tem mais culpa. Nem as companhias. Só o Lula é culpado!

      E tem gente que acredita e quer ser levado a sério!

  10. Valdeci Elias disse:

    Pegue, uma pessoa, cansada e com medo. Depois mande escrever um texto. O resultado está ai em cima, é ler.

  11. Gerson Carneiro disse:

    "O que ocorreu não foi acidente, foi crime"

    Ao ler o título imaginei que fosse sobre a tragédia do jet ski; Pinheirinho; Cracolândia; incêndios em favelas em São Paulo (ontem teve mais um).

    "O assassino não é só aquele que enfia a faca, mas o que, sabendo que o crime vai ocorrer, nada faz para impedi-lo."

    Aliás, sobre Pinheirino: Governo, Justiça e Polícia estaduais é que são os autores, não é que se omitiram não.

    Vamos lá Folha, atenda ao apelo do seu eleitor. O que não falta é oportunidade.

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