Marcos Coimbra: O bombardeio midiático em 2006 | Viomundo - O que você não vê na mídia
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Entrevistas
20 de abril de 2010 às 20:34

Marcos Coimbra: O bombardeio midiático em 2006

Marcos Coimbra, em entrevista a Paulo Henrique Amorim, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição de presidencial de 2006, quando Lula foi fortemente bombardeado pela mídia:

Paulo Henrique Amorim: Como você explica que o presidente Lula tenha subido e, sobretudo, por que Geraldo Alckmin caiu, porque, normalmente, quando as pessoas vão para o segundo turno, observação que você próprio fez na Carta Capital, raramente tem menos votos no segundo turno do que tinha no primeiro?

Marcos Coimbra: Nesse momento Alckmin está apenas repetindo, por assim dizer, os votos que ele teve no segundo turno. Quando a gente faz o cálculo do voto válido, vemos que, em termos relativos ele vem diminuindo a participação. Mas em termos de votação ele está preservando. É claro que pode acontecer alguma mudança. Mas no momento, o que me parece que ocorre, é que Alckmin está preservando o voto que recebeu no primeiro turno, não parece que está conseguindo agregar um voto novo e é o presidente Lula que está ganhando voto de eleitores que no primeiro turno votaram em branco e nulo e que votaram em outros candidatos.

Paulo Henrique Amorim: Você diria que Lula hoje absorve quanto de Heloísa Helena e de Cristóvam Buarque?

Marcos Coimbra: Quando você faz o cruzamento do voto no primeiro turno com a intenção de voto no segundo, nas pesquisas, o que se está vendo é que a maioria dos eleitores dos dois candidatos tende a ir para Lula. No começinho do segundo turno, os eleitores da Heloísa Helena tendiam a ir um pouco mais para Alckmin. Agora, passados já quinze dias depois da votação no primeiro turno, está acontecendo um outro fenômeno: os eleitores da Heloísa Helena migrando para Lula. Isso pode ser inclusive resultado da estratégia que o PT e a campanha Lula estão adotando que é marcar muito a candidatura Alckmin com o tema da privatização que, claro, não é algo que o eleitor da Heloísa Helena, que tende a ser um eleitor, digamos, mais próximo das teses de esquerda, não é um tema que esse eleitor valoriza. Então, pode ser que estejamos vendo agora um resultado de uma ação do ponto de vista estratégico correta que a campanha de Lula tomou de fazer essa confrontação do ponto de vista, digamos, ideológico.

Paulo Henrique Amorim: Nessa pesquisa que você divulga hoje, o que acontece de mais relevante com relação, por exemplo, à geografia, ao Nordeste, ao Sudeste, ao Sul? O que aconteceu do primeiro para o segundo turno e que se observa agora?

Marcos Coimbra: De uma maneira geral, houve uma melhora da candidatura Lula, coerente com esse crescimento que ele tem e isso se espalha de uma maneira mais ou menos parecida com o que aconteceu no primeiro turno: no Nordeste aumenta ainda mais a vantagem que ele já teve no primeiro turno; no Nordeste aumenta ainda mais a vantagem que ele já teve no primeiro turno, chegando a mais de 70%, 75%; em termos de votos válidos passando de 80%. No Centro Oeste e no Norte tende a haver um equilíbrio porque ele está pior no Centro Oeste, mas melhor na região Norte. No conjunto das duas, Lula está na frente. Mas a grande mudança é na região Sudeste, aonde no primeiro turno o Alckmin superou sozinho a votação do Lula e somados os votos de Heloísa Helena e Cristóvam Buarque nós temos o Lula tendo um desempenho bastante ruim no conjunto da região Sudeste porque foi mal em São Paulo e tendo uma decepção em Minas Gerais, onde esperava-se uma votação melhor para Lula. Agora no segundo turno o Lula passa com folga o Alckmin no conjunto do Sudeste porque ele recuperou uma vantagem muito ampla em Minas, está recebendo os votos da Heloísa Helena no Rio e mesmo em São Paulo continua atrás, mas menos que no primeiro turno. Na região Sul Alckmin continua na frente, mas com uma vantagem pequena.

Paulo Henrique Amorim: Você diz na sua análise que está na Carta Capital, se eu reproduzo corretamente, que o que se tem que explicar do primeiro para o segundo turno é basicamente por que o Lula caiu. Qual a sua explicação?

Marcos Coimbra: Se a gente olhar a intenção de voto da maioria do eleitorado desde muito cedo este ano é que o Lula mantinha uma vantagem de 20 pontos sobre o Alckmin em qualquer cenário de segundo turno. O único momento em que essa diferença caiu muito foi a partir de 20 de setembro, quando o Alckmin cresceu e o Lula caiu. Em parte por conta daquela tríplice influência da ausência no debate e as fotos (do dinheiro) nas últimas 48 horas. Foi um bombardeio que atingiu o eleitor fazendo com que muitos ficassem assustados e recuassem na intenção de voto. O eleitor não tinha uma opinião formada. Tanto é que logo após o primeiro turno não se passaram nem (…) e Lula voltou a ter uma folga significativa e voltou ao patamar “histórico” de 20 pontos de vantagem. O que eu creio é que tivemos um período em que o eleitor foi fortemente bombardeado com um noticiário negativo contra o Lula, claro que o noticiário quem causou em última instância foi o próprio PT, mas ele foi muito amplificado pela grande imprensa, fazendo com que se tornasse quase impossível ao eleitor votar tranqüilo e fazer uma opção de voto que ele já tinha feito há muito tempo.

Paulo Henrique Amorim: Você disse que esse bombardeio foi nunca visto, nem mesmo em 1989?

Marcos Coimbra: Eu acho (…) uma eleição muito disputada no segundo turno como Lula e Collor acho que a gente nunca tinha visto uma atuação tão intensa da mídia quanto esta semana que terminou, quando o eleitor foi atingido de todos os lados, o tempo todo, por emissoras de televisão, revistas, que foram não vou dizer nem críticos, foram fortemente negativos, mais do que críticos até.

Paulo Henrique Amorim: Você acha que a eleição foi para o segundo turno por causa da mídia?

Marcos Coimbra: Eu não tenho muita dúvida não, Paulo, eu acho que se o eleitor não tivesse sido atingido com tanta intensidade naqueles três ou quatro dias provavelmente teria confirmado a vitória de Lula, tanto é que ele não ganhou por um e pouco, foi muito perto. E logo após ele recuperou a vantagem. Houve uma coisa excepcional naquele final de semana. Houve o debate, sexta houve as fotos, sábado o noticiári
o, quando ele ( o eleitor) entrou para votar no domingo ele estava muito assustado com tudo que ele tinha ouvido e visto.

Paulo Henrique Amorim: Você acha que o eleitor reagiria da mesma maneira a um fato novo?

Marcos Coimbra: Depende da intensidade do fato. (..) e às vezes, como nós sabemos, não é nem a importância do fato e sim a versão. Aliás, é o que eu acho que aconteceu na reta final do primeiro turno. Eu não sei se os fatos tiveram a mesma importância que a versão acabou assumindo.

 

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