Heloisa Villela: Saudável na França, doente nos Estados Unidos

publicado em 3 de agosto de 2011 às 23:26

por Heloisa Villela, de Washington

Acho curioso o altíssimo índice de casos de TDAH, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, nos Estados Unidos. Há tempos me pergunto se a cultura de um país pode influenciar o diagnóstico. Conversando com Stuart Kirk, autor do livro sobre a história do DSM — Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, manual das doenças mentais editado nos Estados Unidos  –, ele me sugeriu procurar o professor Manuel Vallee, da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Manuel Vallee é formado em antropologia, com PhD em sociologia.

Ele se especializou em sociologia médica e está terminando de redigir a tese “Desconstruindo a Epidemia Americana de Ritalina: Contrastando o Uso da Ritalina EUA-França”. Ele decidiu comparar o olhar dos psiquiatras franceses com o dos americanos no que diz respeito ao TDAH.

Até os anos 70, a grande maioria dos psiquiatras americanos praticava a psicanálise e, por isso, olhava sintomas das doenças como sinais que deveriam ser compreendidos e estudados, não como problemas em si. O que antes servia de porta de entrada para conhecer o outro passou a ser o foco do tratamento.

Assim, a tendência dominante hoje, pelo menos aqui, é de tirar o indivíduo de seu contexto social e isolar os sintomas. É uma forma de enquadrar a psiquiatria nas fronteiras bem explícitas da medicina biológica, com doenças claramente reconhecíveis e tratáveis. Com isso, elimina-se a subjetividade, o impacto do meio social sobre o individuo. Daí, o recurso fácil às drogas.

Recentemente, o jornalista Jed Bickman publicou, no site Counterpunch, um artigo alertando que em breve poderemos ter repetido, com as drogas para  esquizofrenia e os antipsicóticos, o fenômeno que aconteceu com a ritalina: receitas em número cada vez maior para jovens e crianças.

Mas, na entrevista com o dr. Manuel Vallee, tratamos apenas do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, o TDAH.

Viomundo – Como o senhor se interessou em estudar o tratamento do TDAH, doença que hoje já se considera uma epidemia nos EUA?

Manuel Vallee – Quando estava na universidade, fiz uma cadeira de antropologia médica e o meu professor, que era espanhol, me perguntou se eu estava trabalhando em algum lugar. Quando disse que estava trabalhando em um agência de publicidade, com a conta de uma empresa farmacêutica, ele ficou doido. Passou meia hora me falando o que eu podia fazer. Fiquei pensando no que fazer.  Comecei a desenvolver uma atitude mais crítica em relação à indústria farmacêutica. Como estudante, fiz análise da CHADD (Children and Adults with ADHD, Organização Americana de Crianças e Adultos com TDAH). Descobri que eles estavam brigando para desregulamentar a venda de Ritalina. Alguns jornalistas descobriram, depois, que a organização tinha financiamento da indústria farmacêutica. Quando essa informação veio à tona, eles pararam de brigar pela liberação da Ritalina.

Quando estava estudando a CHADD, tive a oportunidade de fazer um projeto de pesquisa na França. Primeiro, queria estudar o uso de antidepressivos. Mas era igual nos dois países [Estados Unidos e França].  O meu orientador me disse: “O que você precisa é encontrar um país que seja muito semelhante, mas onde os resultados sejam completamente diferentes”.  Comecei a olhar para outras drogas e percebi que com a Ritalina isso acontecia.

Os franceses adoram um remedinho. É um consumo altíssimo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, os Estados Unidos são os líderes no consumo per capita de remédios. A França vem em terceiro lugar.  Mas, na França, é mais difícil dar Ritalina às crianças.  Na minha visão, isso tem relação direta com quem domina o campo do TDAH. Nos Estados Unidos, a psiquiatria biológica ganhou poder nos anos 80, depois da publicação do DSM III (o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, ou Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais). Mas, na Franca, a psiquiatria biológica não tem o mesmo poder. E os psiquiatras biológicos não são os que lidam com o problema do TDAH.

Na Franca, os psiquiatras são treinados na psicanálise e aqui, são treinados na psiquiatria biológica, o que provoca diferenças fundamentais no conceito do TDAH. Aqui, é uma doença biológica e na França é um distúrbio de efeito psicológico causado por algum trauma ou pelo ambiente social e o tratamento é terapia psicológica, aconselhamento familiar, terapia de grupo, terapia da fala… é um olhar mais holístico.

Viomundo – Antes de começar seu estudo, o senhor tinha alguma conexão pessoal ou acadêmica com a França?

Manuel Vallee – Sou franco-canadense, falo francês fluentemente. Isso ajudou muito no trabalho. Foi um dos motivos e tive oportunidade de levantar financiamento para a pesquisa lá.  Fazia mais sentido do que ir para a Itália ou um país escandinavo.

Viomundo -E quais são os resultados desses tratamentos diferentes nos dois países?

Manuel Vallee – Países diferentes adotam estatísticas diferentes. Na França, eu consegui dados sobre o uso da Ritalina, mas não sobre os diagnósticos, por exemplo. Olhando os resultados aqui [nos Estados Unidos], eles também não são claros.

Por exemplo, dizem que as crianças têm um rendimento melhor com a Ritalina. Mas todo mundo tem. Ela foi usada, originalmente, para manter pilotos [da aviação] focados e acordados. Então, o que você quer dizer com resultados? Qual é o resultado em três meses? Bom, mas… e depois? Não encontramos estudos de longo prazo. A indústria farmacêutica é que financia os estudos e não tem nenhum interesse em estudar isso. A não ser que seja obrigada.

Alguns estudos mostram que as drogas perdem a eficácia depois de seis meses. É preciso descobrir se ajudam as crianças mesmo. E depois de dois anos, dez anos? Existem resultados negativos para a saúde? Existem vários. O FDA (Food and Drug Administration, agência federal que regulamenta o consumo de remédios e alimentos nos Estados Unidos) teve que botar uma tarja preta na caixa do remédio, alertando que ele pode provocar alucinações, problemas cardíacos, derrame e até a morte. Para algumas crianças que têm disposição genética, a Ritalina foi apontada como causa de problemas cardiovasculares, houve casos de crianças que morreram.

Viomundo – Recentemente, foi divulgado um estudo dizendo que a Ritalina não provoca problemas cardiovasculares. Mas o pé da reportagem dizia que o estudo tinha sido financiado pela indústria farmacêutica.

Manuel Vallee – Sob o olhar crítico da Ciência, esses estudos não têm valor. Eu recomendo a você o livro do John Abramson, “Overdosed America: The Broken Promise of American Medicine”.  Ele é da Universidade Harvard e foi treinado para analisar pesquisas. Ele encontrou vários problemas com os artigos publicados no Lancet, no Journal of the American Medical Association (JAMA), no New England Journal of Medicine [jornais médicos que são referência mundial]. Deu-se conta de que as conclusões eram fraudulentas, afirmações feitas sem base. E acabou descobrindo a indústria farmacêutica por trás, financiando as pesquisas. Ele deixou claro que os estudos financiados pela indústria não são confiáveis.

O psiquiatra britânico David Healy também fez muita pesquisa sobre a indústria farmacêutica e foi consultor do grupo que processou os fabricantes do Prozac e de outros antidepressivos. Por isso, teve acesso a todos os dados e descobriu que o antidepressivo não tem nenhum benefício significativo, quantitativamente, quando usado para crianças. E, com adolescentes, na verdade aumenta o risco de suicídios. Ele descobriu que quando as indústrias mandam pesquisas à FDA pedindo a aprovação de remédios, elas escolhem apenas o que tem de positivo no resultado, para promover. Ele provocou um furor e muitos protestos na FDA.

Viomundo – Começando pelo diagnóstico do TDAH, ele difere muito nos Estados Unidos e na França?

Manuel Vallee – O DSM (manual de diagnósticos adotado nos Estados Unidos), o sistema da França e a classificação da Organização Mundial de Saúde deveriam ser bastante similares, mas existe uma grande diferença entre estes sistemas de classificação.

Viomundo – O dos Estados Unidos é mais abrangente?

Manuel Vallee – Para a classificação do TDAH é bem mais abrangente que o sistema da Organização Mundial de Saúde. Os americanos dizem que o sistema da OMS tem muitos defeitos. Enquanto isso, os britânicos dizem que os americanos estão completamente loucos. Você conhece a Lynn Payer? Ela é jornalista americana da área médica e escreveu um livro chamado “Medicine and Culture”, onde mostra o preconceito etnocêntrico de cada país. Todos acham, sendo os fundadores da Medicina moderna, que têm o monopólio da maneira certa de fazer as coisas. O que eu achei interessante entre os americanos e os franceses é que o DSM-IV leva a um diagnóstico de TDAH em 5% das crianças do país, enquanto o método da França atinge 1%. Então, a versão americana leva a um volume de diagnósticos cinco vezes maior.

Viomundo – Que outras diferenças existem na hora de fazer o diagnóstico?

Manuel Vallee – Na França, eu ouvi repetidas vezes que o TDAH é uma das doenças mais difíceis de diagnosticar porque tem tantos aspectos diferentes. É muito importante ter um extensivo e rigoroso processo. Analisar todas as opções para ter certeza de que foram eliminadas todas as possíveis explicações alternativas. Você só pode chegar ao diagnóstico depois de eliminar toda e qualquer outra explicação. Os franceses dizem que esse processo, em geral, leva entre oito e 24 horas.  E eles preferem dar de 8 a 24 horas de avaliação, com psicoterapeuta, assistente social e tudo mais. Mesmo os que defendem com força o uso da Ritalina nunca chegam ao diagnóstico com menos de 8 horas de avaliação.

Aqui nos Estados Unidos, o tempo gasto para se chegar a um diagnóstico de TDAH para criança é de 45 minutos. Fica entre 22 a 72 minutos. É claro que existem exceções… Nos Estados Unidos, o campo do TDAH é dominado pelos pediatras. Eles lidam com a grande maioria dos casos. E prescrevem 70% dos remédios consumidos pelas crianças.

Viomundo – Nem mandam a criança para um psiquiatra?

Manuel Vallee – Não. E quando você começa a olhar para isso mais profundamente, fica complicado, porque existem muitos fatores contribuindo para o resultado final. Nos Estados Unidos, você pode encontrar médicos que gostariam de passar mais tempo com a criança. Mas eles são avisados pelo HMO [health maintenance organization, organização que sob a lei americana pode oferecer atendimento em certos hospitais e com certos médicos] ou pela empresa de seguro de saúde que serão reembolsados apenas por uma visita de 45 minutos. Qualquer tempo extra que eles investirem no caso vai ter que sair do bolso deles. Temos um sistema que conspira para essa abordagem completamente diferente de tratamento.

Viomundo – Que outras diferenças o senhor encontrou, nos dois países, com relação ao tratamento do TDAH?

Manuel Vallee – Além do tratamento mais holístico, que envolve a escola e a família, os franceses ensinam os pais a reconhecer melhor os pontos fracos e fortes dos filhos. Também levam a Ritalina em conta, mas apenas como último recurso. Nunca como tratamento único. Fiz questão de procurar os médicos que defendem o uso da Ritalina na França. E até mesmo eles disseram que jamais usam apenas o remédio. Enquanto isso, nos EUA, 70% das crianças diagnosticadas com TDAH tomam Ritalina, ou um outro estimulante. E em 50% dos casos, é tudo que recebem. Então, é um tratamento completamente diferente nos Estados Unidos e na França.

Agora, existem pais, nos Estados Unidos, que buscam um tratamento mais holístico. Terapia, aconselhamento, mas têm que montar o pacote sozinhos.  E é mais caro. Um dos motivos pelos quais o sistema francês pode oferecer esse tratamento mais holístico é porque é pago pelo governo; 85% do custo são pagos pelo governo.

Viomundo – Esse é outro aspecto que influencia as decisões, o tipo de sistema de saúde que existe nos EUA?

Manuel Vallee – Ou a falta de um sistema de saúde… Outra coisa que acontece nos Estados Unidos está ligada ao treinamento de professores. Quando a criança chega ao consultório do pediatra ou do psiquiatra, ele já tem todo um dossiê, informações sobre aquela criança, fornecidas pela escola. O sistema produz incentivo na direção de um diagnóstico. Eu sei que houve muita resistência quando a indústria farmacêutica tentou treinar os professores na França. O ministro da Educação combateu veementemente, dizendo que esse não é o papel dos professores. Eles têm que ensinar e não diagnosticar. Para isso existem os médicos.

Viomundo – O professor olha apenas para o comportamento da criança, mas não sabe qual é o contexto. E a impressão que eu tenho do sistema, aqui, é que na maior parte do tempo, todo mundo é retirado do seu próprio contexto e analisado com base apenas nos chamados sintomas, que podem ser apenas uma reação a isso ou aquilo. Por isso acho difícil entender um psiquiatra pegar um questionário sobre o comportamento da criança, preenchido pelo professor, outro dos pais, olhar a criança por 25 minutos e chegar a um diagnóstico sem saber de onde vem essa criança, qual é a história da vida dela.

Manuel Vallee – Exato. É a descontextualização do indivíduo.

Viomundo – Isso também leva os profissionais a se apoiarem mais em remédios?

Manuel Vallee – Com certeza! Mas não é apenas isso. Eu dou aula de sociologia médica e sempre peço aos meus alunos que olhem para a individualização das doenças. Não apenas das psiquiátricas, mas de todas elas. Quando a pessoa aparece no consultório por causa de asma ou diabetes, o que fazem é individualizar a doença. Encontrar algo errado com o comportamento do paciente. Ver se pode haver algo errado com os genes da pessoa. Mas ninguém fala do quadro geral.

Por que as crianças que vivem perto de um porto têm vinte vezes mais casos de asma que as outras? Então, ninguém fala do contexto social, ninguém discute porque as pessoas que vivem nas áreas mais pobres de Richmond [cidade da Virginia, Estados Unidos], com menos acesso a comida de qualidade, têm índices de câncer mais elevados? Para cada incidência de doença vamos encontrar que as classes mais baixas têm menos acesso a recursos e têm índices maiores de doenças. Esta tem sido a tendência nos Estados Unidos, nos últimos 50 anos. E desde a publicação do DSM-III a psiquiatria parece estar tentando seguir essa tendência de descontextualizar as doenças. Fomos relegados a esse tipo de solução, que tem como alvo o nível biológico das coisas. Ninguém olha para as causas sociais. E eu acho que a descontextualizarão das doenças é ainda mais importante para as doenças mentais, me parece.

Viomundo – No resumo do seu trabalho, que ainda vai ser publicado, o senhor diz que os países do Terceiro Mundo devem ficar alertas. Por quê? Em algumas escolas brasileiras já existem programas de cooperação com psiquiatras, para treinar professores no reconhecimento de crianças com TDAH na sala de aula…

Manuel Vallee – Isso também acontece aqui. Você conhece o Peter Breggin? Em um dos livros dele, ele fala dos seminários para professores que são organizados pela indústria farmacêutica. Não foquei nessa área. Ainda quero pesquisar o papel da escola na produção dessa epidemia. Não tive oportunidade ainda e decidi focar primeiro na comunidade médica, para ver quem lida com TDAH e qual é a predisposição deles para analisar isso. Quando terminar, vou olhar mais detalhadamente para o papel que a educação desempenha nessa história de medicalizar as crianças com Ritalina.

 

47 Comentários para “Heloisa Villela: Saudável na França, doente nos Estados Unidos”

  1. [...] Saiba, aqui, porque uma pessoa saudável na França pode estar gravemente enferma nos Estados Unidos   [...]

  2. Adriana disse:

    No RJ algumas escolas de elite vêm tentando resolver o comportamento de crianças agitadas de uma forma bem sinistra: os professores chamam os pais para conversar e sugerem a eles que levem a criança ao médico para que ele prescreva ritalina a elas. As professoras chegam a suprir o estoque de ritalina de uma criança (cujo remédio acabou) com as pílulas de outra criança, até que as novas doses cheguem… será possível que 70, 80% de uma turma de uma escola de elite seja formada por crianças com deficit de atenção? Qual o efeito do uso diário de anfetaminas sobre cérebros em desenvolvimento?
    Ninguém quer ter o trabalho de educar. Nem quem ganha pra isso.

  3. antonio carlos disse:

    Comparação válida: Alguns paises como a França previlegiam a medicina clinica, portanto visam o doente.Já nos EEUU e infelizmente o nosso pais, o lucro (laboratorios medicamentosos e de exames -laboratorio, tomografia ressonancia etc) prevalece e a clinica foi substituida por protocolos que assujeitam os médicos e, são as base em possíveis casos judiciais Deste modo visam a doença e não o doente. Esta é a causa da diferença e da impotencia dos médicos.

  4. Elton disse:

    Todos sabemos que quando algo é criado, inventado tem de ser lançado e seu uso tem de ser estimulado, seja através do marketing disponível a "todos" nos meios de comunicação, seja quando se trata dos médicos (ATENÇÃO: NÃO ESTOU DEMONIZANDO os médicos!!!!) através das campanhas realizadas pelos laboratórios farmacêuticos, interessados única e exclusivamente em quê????
    Ganhar, ganhar, ganhar.
    Não sejamos ingênuos (profissionais da área médica ou não)…..

    • sreis disse:

      A Ritalina tem mais de 50 anos. Estudos sobre TDAH (sem relação com medicamentos) indicam que o indice é o mesmo no Brasil, Japao, EUA e Europa.

  5. operantelivre disse:

    Psicanálise não é ciência no "stricto sensu". Os psicanalistas sabem disto e isto não os impede de entender e trabalhar no meio científico, incluindo pesquisa na área de ciências da saúde (isto é muitíssimo mais que medicina). Eu não sou "mais um" psicanalista, antes que o digam.

  6. amerika.

    sucursal do inferno.

    ..

  7. Floripes Falcão disse:

    Uma assunto interessante, uma entrevistadora gabaritada e entrevistado, idem. Pena que não sejam médicos. Daí tanta ratada. TDAH, o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade é uma doença. Evidente que precisa ser cuidada. E bem.
    De que adianta essa birra de querer tampar a chuva com a peneira? Doença é doença em qualquer lugar do mundo e meio ambiente. O tratamento é que difere muitas vezes, mas no básico é praticamente igual. Concordo com a crítica da medicalização. De resto, vamos parar de falar bobagem, minha gente. Médicos também fazem bobagens, cientistas também. Mas daí a uma jornalista e um antropólogo quererem saber mais que médicos é dose pra leão, mesmo considerando que há médicos abaixo da crítica.

    • Iconoclasta disse:

      tampar a chuva com a peneira?? nao seria: carregar agua na pedra dura que cedo madruga? ou tampar o sol que nasceu para todos com a barriga??? ou agua mole em peneira dura tanto bate até que acaba a pedra???
      ou deus ajuda quem cedo vai buscar agua na fonte para regar a pedra??? ou algo por aí….

    • pouco disse:

      A jornalista e o antropólogo não estão querendo "saber mais que médicos". Eles estão comparando as atitudes de médicos de dois países diferentes e, ao perceber as diferenças, as explicando com base nos diferentes contextos.

      Além disso, pra apontar que a indústria de medicamentos faz lobby não precisa ser médico.

    • @gusbru disse:

      Uma médica brasileira, do programa de pós graduaçao em saúde da infância da faculdade de medicina da Unicam, Maria Aparecida Affonso Moyses, vem afirmando basicamente o mesmo que se critica na entrevista. Se você quiser conhecer a opiniao de uma médica sobre o assunto http://www.crprj.org.br/documentos/2006-palestra-

    • Lucas Brasil disse:

      O comentário do dr Floripes só reforça a tese de que os médicos são limitados e superficiais.

      A matéria, porém, não toca no tema da máfia de branco e da indústria de fármacos, que fatura blhões e investe outro tanto comprando médicos dóceis e opiniões favoráveis.

    • Elton disse:

      A história se repete. Meses atrás em um debate envolvendo questão quase idêntica a essa eu disse que "médicos são corporativos" e tomei "pancada" de alguns.
      Quer prova melhor?

  8. Iconoclasta disse:

    a sociedade industrial nao pode curar os males que ela mesma produz…se algum dia os médicos forem honestos desconstroem todo modo de organização social instituido em todo o mundo.
    quer dizer..isso nao vai acontecer não é?

  9. Julio Silveira disse:

    Interessante a abordagem desse tema. Coincidentemente minha esposa em seu curso de pós graduação faz um trabalho exatamente com essa temática, a utilização do medicamento "Ritalim" como refugio de muitos pais para o chamado deficit de atenção do filhos aqui no RS, pelo menos nas camadas mais vulneráveis economicamente, é uma tendência em alta. Ao que me parece esse é um fenômeno mundial que provavelmente surge pela falta de tempo para dedicação aos filhos que ocorrem nas famílias atuais, aí o Ritalim vira um dispositivo magico.

  10. Historinha ilustrativa:

    João Paulo e Viviane são um casal de classe média alta. Eles têm um filho, Eduardo, de 10 anos.

    O menino está descobrindo o mundo. Tudo é excitação, tudo é alegria. Ele pula, brinca, ri.

    Mas isso incomoda seus pais. João Paulo é executivo de uma grande empresa e não tem tempo para o filho. Além do mais, ele acha que cuidar de criança "é coisa de mulher". Viviane está mais preocupada em manter sua cintura fina na academia e se preparando para uma cirurgia (ela vai colocar silicone nos seios).

    João Paulo usa cocaína. Mas não é por diversão, não. É que ele precisa trabalhar cerca de 14 horas por dia. Tem que dormir pouco, pois há vários executivos de olho no cargo dele. Assim, ele funciona à base de cocaína. Viviane sabe, mas finge que não sabe.

    Eles levaram o menino a um médico. Mas ele disse que o garoto precisava extravasar essa energia, brincando, fazendo natação, etc. Os pais não gostaram nem um pouco. "Médico incompetente", reclamou Viviane.

    Procuraram outro médico. Em 32 minutos, Dr. Conrado diagnosticou ADHD(") e receitou um "sossega leão". O casal gostou. "Muito competente esse médico", opinou João Paulo.

    Temos um final feliz, em vários sentidos:

    - Eduardo deixou de bricar, rir e pular. Ele chega a ficar 3 horas em frente à TV, com um olhar perdido no nada. Tornou-se uma criança que não dá trabalho.

    - João Paulo foi promovido na empresa. Seus ganhos aumentados. Lamentavelmente ele teve um ataque cardíaco (leve, segundo o médico) e agora toma 9 comprimidos por dia.

    - Viviane tem mais tempo de ir à academia. Seu instrutor de musculação, o Marcão, é bonito e "sarado". Ele fornece uma "bomba" a Viviane para ela ficar mais "sarada". Mas, de qualquer forma, sempre que vão ao motel ele diz a ela que ela já é "um tesão" e que os anabolizantes são só para ela ficar ainda melhor. Marcão não vê a hora de ter a Viviane com os seios "turbinados".

    - Dr. Conrado gahhou um prêmio do laboratório multinacional que produz o "sossega leão". O médico foi o campeão de vendas na região dele. Ganhou uma viagem de 10 dias para a riviera francesa para ele, a esposa e os dois filhos. Maravilha!

    - O laboratório ganhou um processo que uma associação de defesa da saúde movia contra ele. O juiz argumentou que os médicos não são obrigados a nada pelo laboratório. O filho desse juiz trabalha no laboratório, no setor de vendas.

    Assim caminha a humanidade sob o capitalismo. Pessoas viraram coisas. Tá tudo dominado…
    _____________
    * attention deficit hyperactivity disorder. Dr. Conrado adora siglas em inglês e detesta o Brasil. Ele votou em Serra e acha que o tucano foi o melhor ministro da saúde que o Brasil já teve. Na sala de espera do consultório dele, sobre a mesinha, exemplares da Veja.

  11. Parabéns pela entrevista. De alto nível. Existe um abuso claro no diagnóstico da TDAH, esta entrevista serve para ajudar na reflexão sobre o diagnóstico e tratamento da patologia.
    Faltou apenas algo importante: qual o índice de melhora na França?

    Regis Mesquita http://www.psicologiaracional.com.br/

  12. Ana Cruzzeli disse:

    A industria farmaceutica estadunidence já cometeu outros crimes no passado contra seu povo contra outros povos, agora são contra as crianças. Até naquele desenho animado da Fox , os Simpsons, era retratada essa postura medicamentosa da hiper ou hipo atividade infantil. Antigamente era só botar uma crianças brincando no parque que essa energia era canalizada hoje por interesses que eles não escondem de jeito nenhum, isso tudo mudou. Essa é mais uma vertente do capitalismo selvagem. As crianças são vitimas, agora as maiores vitimas nos EUA, são crianças negras ou de origem espânica. Vai ver se um filho de classe media tem deficit de atenção ou hiperatividade com tantos indices de ocorrencia como na classe mais pobre. Eu aposto meu quindim que os resultados são gritantes.

    Isso deve ter algum propósito…

    Nos EU coisa é braba mesmo. Como muitos dizem e defendem, eu também sou daquelas que faço coro que tão perigosa quanto a indústria belica estadunidense são as indústrias farmacêuticas que se associaram às empresas de seguro de saúde. Quem manda hoje naquele pais é esse triunvirato do mal de maneira prática e com subterfugios, os bancos é claro.

    Das coisas que eu não entendo nos Democratas é não terem percebido a oportunidade de desmontar esse poder paralelo, lógico, de uma tacada só não. Na verdade está acontecendo o contrário, o reforçamento. Eu realmente não entendo.

    As industrias farmaceuticas são tão perigosas que há decadas vem roubando nossas descobertas cientificas no campo da medicina. Os nossos indios são nosso maiores cientistas, aquela historia do Belo Monte é só o primeiro capitulo de uma briga que se tornará muito violenta. Essas pessoas tem muito medo do Brasil se apropriar da Amazônia como um todo. Isso seria terrivel para os negocios. A coisa é tão braba que nossos medicos PARTICULARES, fazem testes como medicamentos estadunidenses no Brasil. Minha mãe por exemplo foi uma das vitimas. Seu ginecologista prescreveu um hormonio sintético adesivo para reposição hormonal, 5 anos depois ele chamou minha mãe as pressas para abandonar o adesivo, pois os resultados da pesquisa foram assustadores e aconselhou repor com suplemento de soja. Meu Deus se o suplemento já existia por que essa não foi a primeira opção? Na verdade era só misturar soja com feijão no almoço e jantar e usar molhos de soja que a reposição se faria de maneira satisfatoria.

    No mundo hoje há duas grandes vitimas dessas industrias, as mulheres e mais recentemente as crianças de baixa-renda…

    Nossa sorte é que Lula cuidou e agora Dilma está cuidando da base medica e cientifica do nosso país. Nossos futuros médicos são hoje doutrinados na pratica solidária da medicina. Estamos a salvo do que Collor e FHC construiram na decada de 90. Se observamos foi nesse periodo que planos de saúde se tornaram moda. Levaremos mais tempo para descontruir o mal que tantos presidentes fizeram ao país, mas é acalentador que pelo menos o bom rumo foi retomada.
    Minha alma está tranquila sei que caminhamos para um pais mais justo e mais irmão que jamais deixará nossas crianças serem vitimas da ganancia das corporações capitalistas. Ainda bem que tem cientistas como esse canadense que já se perguntam sobre essa ¨ epidemia¨ que hoje ocorre nos EU.

  13. FrancoAtirador disse:

    .
    .
    MEDICINA EUGENISTA: DO GARDENAL AO PROZAC (Parte 1)

    Entre 1934 e 1945 o fenobarbital (Gardenal) foi usado pelos médicos alemães da Alemanha nazista para matar os garotos que nasciam doentes ou com deformidades físicas, dentro do programa de eugenía que havia sido iniciado pelo Partido Nazista.

    Na Operação T4, através da qual foram assassinados todos aqueles garotos que não cumpriam o padrão ariano, grande quantidade de pessoal médico que esteve implicado neste programa foi logo transferida para campos de concentracão nazista, onde colocaram em prática todo o conhecimento científico que haviam aprendido anteriormente.

    <img src="http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/12/EnthanasiePropaganda.jpg/250px-EnthanasiePropaganda.jpg"&gt;

    Propaganda exibida no "Neues Volk", a revista mensal do Escritório de Políticas Raciais do Partido Nazista.

    Esse poster, de 1938, diz:

    "60 000 Reichsmarks é o que essa pessoa portadora de defeitos hereditários custa ao Povo durante sua vida. Companheiro, é o seu dinheiro também".

    O fenobarbital foi utilizado, no mundo inteiro, como sedante e hipnótico até 1950, quando apareceram as benzodiazepinas.

    <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Aktion_T4” target=”_blank”>http://pt.wikipedia.org/wiki/Aktion_T4

  14. O meio que você vive é óbvio que influência seu comportamento e o seu comportamento influência o mesmo meio.

    Documentário – MPB dos Tempos da Repressão http://fwd4.me/07mW

  15. Roberto disse:

    Sobre o surgimentos de epidemias psiquiátricas, o uso indiscriminado de medicamentos, a aliança entre indústria farmacêutica e psiquiatras amparada nos Manuais Diagnósticos e Estatístico de Transtornos Mentais e a consequente recusa a subjetividade: há um movimento envolvendo pesquisadores, clínicos e instituições da Espanha, Argentina e Brasil chamado STOP-DSM que defende que não se use somente esse Manual como critério diagnóstico, mas que se recupere a função clínica e a subjetividade na prática clínica do sofrimento psíquico. Para acessar os textos dos manifestos que tocam em questões correlatas a essa entrevista: http://stopdsm.blogspot.com/

  16. João PR disse:

    Tenho uma amiga, Doutora em educação e Professora de uma Universidade Pública que trabalha com a questão da hiperatividade.

    Um dia ela me disse: ainda vai chegar o dia em que vão colocar Ritalina líquida na caixa d'água das escolas, tamanho é o uso deste medicamento hoje em dia.

    O que a criança precisa, muitas vezes, é colocar a energia para fora: jogar bola, brincar, correr, enfim, ser criança. Com muitas crianças morando em apartamentos, e com os pais cada dia mais atarefados, sobra pouco tempo e espaço para as crianças brincarem. O Manuel Vallee tem razão: não se deve descontextualizar a doença.

    Esta discussão precisa ser feita no Brasil, urgentemente. Do contrário, muitas crianças que necessitam apenas brincar vão ser dopadas com Ritalina.

    • @gusbru disse:

      Joao, me coloca em contato com essa professora! Sou pesquisador da área de educaçao também e tenho estudado a relaçao entre os novos modos de regulaçao da educaçao com as questoes que tem aparecido no campo da educaçao especial. Estou voltando de um posdoc no Québec para o Brasil e quero me aprofundar no estudo destas questoes no contexto brasileiro.

      • João PR disse:

        @Gusbru:

        Não tenho a autorização dela, agora, para passar o e-mail da mesma.
        Assim que eu conversar com ela vejo se ela autoriza colocar o e-mail dela em um ambiente público como o viomundo.
        Envio notícias por aqui.

  17. @gusbru disse:

    A discussao acadêmica sobre a medicalizaçao do comportamento humano começa lá na década de 70 nos EEUU. Tenho aqui um artigo de 1975 de Peter Conrad em que ele explica da descoberta do TDAH por um viés sociológico mostrando o papel fundamental da industria farmaceutica, do governo dos EEUU e de corporaçoes profissionais. Mas o mais interessante aqui é pensar o que ocorre no Brasil. Acredito que, como o canadá frances, ele encontra-se entre os dois modelos estudados por Manuel Vallee

  18. NELSON NISENBAUM disse:

    As teses discutidas são válidas, não há dúvida. A questão é que o tema é por demais complexo, e para quem está fora do meio médico ou científico, as generalizações são sempre perigosas. Continuo defendendo: Há casos e casos, mas jamais deve-se descartar por princípio o tratamento medicamentoso, e jamais deve-se prescrever medicamento por princípio. A individuação do paciente e a avaliação clínica por profissional experimentado.

    • Jussara disse:

      No meu entendimento ele não generalizou e nem se colocou contra o uso do medicamento. O problema na América do Norte é muito sério quanto à abordagem e diagnóstico do problema. São os pediatras ou os clínicos gerais que prescrevem Ritalina, Concerta ou congêneres. A avaliação é, sim, feita muitas vezes em menos de uma hora, baseada em relatos dos familiares e de educadores.
      continua…

    • Jussara disse:

      continuação…
      Mais: os professores e outros profissionais das escolas ficam sugerindo aos pais que leve a criança ao médico, para que seja prescrito um medicamento com o objetivo de acalmar a criança.
      Pior: muitas crianças diagnosticadas com ADD – Attention Deficiency Disorder, portanto sem a hiperatividade, estão sendo medicadas com Ritalin.
      Testemunho isso constantemente aqui no Canadá, pois trabalho com vítimas de violência doméstica. Infelizmente as crianças não são encaminhadas para psicólogos ou psicoterapeutas para um adequado tratamento antes do uso do medicamente ou num tratamento conjunto. O máximo que se faz é encaminhá-las para sessões de aconselhamento que deixam muito a desejar pela própria natureza do trabalho e as limitações dos profissionais.
      E quando os pais se recusam a usar o medicamento, eles ainda são rotulados de negligentes.
      Você fala do que é ideal, com o que concordo, mas a realidade por aqui é muito diferente e assustadora.

    • operantelivre disse:

      Há médicos e Médicos. Difícil distinguir. Eu mesmo nunca consegui distinguir porque ambos passam medicação. Os primeiros não descartam "por princípio o tratamento medicamentoso" e os outros, …, bem…os outros… são Médicos. Nem tão complexo. Uns trabalham clinicamente e outros trabalham cinicamente. A diferença? É apenas o "L" de Laboratório.

      • NELSON NISENBAUM disse:

        Operantelivre, você publica excelentes comentários, e me é estranho este que escreveu agora. Deixe um bipolar sem medicação para você ver o que acontece. Deixe um hipertenso sem remédio. Deixe um diabético sem insulina. Deixe a varíola sem vacina. Se a tua opção é viver em um mundo sem "L" tudo bem, deixe isto bem claro. Ao contrário do que se publicou acima em outro comentário, o mundo sem "L" é o ideal eugenista dos nazistas, pois os doentes morrerão.

    • Elton disse:

      E se eu lhe dissesse que há (por exemplo) temas ligados á educação que toda a sociedade discute, generaliza, opina mesmo sem ser "da área". Por que com a medicina não pode ser do mesmo modo? Ou é um campo "impenetrável", como o de uma sociedade secreta?

      • NELSON NISENBAUM disse:

        Elton, há conhecimentos e experiências que não são compartilháveis. Vá discutir direito com um jurista; vá discutir mecânica quântica com um físico experimentado; vá discutir pipoca com um pipoqueiro… Há coisas que estão acima até mesmo da ciência. As experiências vividas no campo empírico fazem parte das verdades, mas somente de quem as tem. Não sei de onde vem esse teu complexo de vira lata.

      • PehAraujo disse:

        Excelente colocação.

      • Elton disse:

        Não tenho nenhum "complexo de vira lata" mas também não entro em debates como se fosse superior a todos os demais. Humildade não se compra em supermercado. Nem acompanha o diploma de médico…….

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