Atualizado em 14 de maio de 2008 às 23:46 | Publicado em 12 de maio de 2008 às 19:13
Entrevista com Antonia Melo, da Fundação Viver, Produzir e Preservar, de Altamira, no Pará. Ela também faz parte do Movimento de Mulheres. É militante contra a construção de usinas hidrelétricas no rio Xingu:
Viomundo - A construção das hidrelétricas do Xingu é vista como uma solução para as questões da falta de energia no país e não como uma questão ambiental. Por que vocês são contra a construção das hidrelétricas?
Hoje nós temos energia aqui. Bastante energia, pagamos caro por essa energia, que está aqui na nossa região. Então o benefício, não é que melhore. Nós pagamos talvez a energia mais cara do Brasil. Tem essa grande hidrelétrica, tem outras hidrelétricas que já estão sendo feitas nos rios - mesmo no rio Tocantins - e outras mais que estão sendo já pensadas.
Nós temos aqui no Pará várias empresas mineradoras que estão implantadas, como a Alcoa, a Alunorte, Albras, a Vale do Rio Doce. E são essas empresas de alumínio que precisam de muita energia, você está entendendo? Não é o consumidor residencial que precisa de muita energia, são essas empresas. Então elas estão instaladas no nosso estado retirando recursos naturais e a gente não vê melhoria da qualidade [de vida] do povo do estado do Pará, da região, com a instalação dessas grandes empresas e que utilizam muita energia.
Então, depois, no Rio Xingu, esse empreendimento, esse projeto de barragem do Xingu... Está certo que essa energia do Xingu é exatamente para mover as grandes indústrias de alumínio do país, grandes empresas.
E aí a gente sabe, tem certeza que esse projeto de barragem do Xingu é inviável. É um projeto muito caro e com pouca viabilidade [de produção] de energia. Isso já foi estudado pelos cientistas, pelos especialistas que vêm estudando esse projeto há muitos anos, como o professor Oswaldo Sevá, que recentemente coordenou um estudo de um documentário chamado “Tenotã mõ” [leia o texto completo do estudo que leva o mesmo nome ou salve o arquivo em PDF no pé desta página].
Tem na página da UNICAMP, no site da UNICAMP tem esse documento, que mostra tudinho, pelas pesquisas, a inviabilidade desse projeto de barragem do rio Xingu. Por que não é apenas uma barragem, ô Luiz, são várias barragens. O projeto é de várias barragens. O difícil é fazer uma, depois que fizer, eles têm que fazer outra e outra porque o rio Xingu é um rio de vazão, é um rio que seca seis meses no verão, praticamente, a água fica muito baixa.
Então os estudos mostram que com a diminuição da água do rio vão ter que fazer mais lagos, mais lagos, pra poder ter água nos reservatórios pra funcionar as turbinas de Belo Monte. Então são essas questões que até hoje não ficaram explicadas para nós. Nem para os indígenas que habitam quase 70% da bacia do rio Xingu, quanto para nós, moradores da região também. Não sei se você sabe mas agora está suspenso por uma liminar judicial. Agora, novamente. O projeto está suspenso, as empresas que estavam fazendo os estudos aqui já saíram.
Nós queremos enquanto movimento social fazer uma aliança mais forte com os povos indígenas em defesa do rio Xingu porque nós estamos percebendo que também as águas dos nossos rios, um recurso natural, elas estão sendo, aos poucos, privatizadas para serem vendidas em forma de energia, nossas águas.
Então é uma grande mobilização, com esse sentimento, sensibilização da população, da importância de estar lutando para garantir a defesa do rio Xingu. Por que se nós deixarmos que nele sejam feitas as hidrelétricas, é uma porta para depois nós perdermos o controle, o domínio e o patrimônio, nós vamos perder esse patrimônio.
Quem defende a construção de barragens desconhece o enorme impacto ambiental que provocam, com efeitos destrutivos de âmbito regional e global, comprovados por estudos como o da Comissão Mundial de Barragens.