Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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Eleições nos EUA Utilidades

PASTOR TENTA TRAZER DE VOLTA "BLACK POWER" E COLOCA BARACK OBAMA NA ENCRUZILHADA

Atualizado em 29 de abril de 2008 às 15:37 | Publicado em 29 de abril de 2008 às 15:01

WASHINGTON - Os americanos nos "venderam", culturalmente, uma série de bobagens. Muitas foram entregues no pacote do politicamente correto, que aqui está sendo, graças aos céus, destruído pela turma do South Park, pelo comediante (negro) Chris Rock e pela turma cética em relação ao moralismo da patrulha comportamental.

Nós somos compradores da "auto-estima". Qualquer coisa no Brasil, hoje, é reduzida a um problema de auto-estima. Câncer? Auto-estima. Não passou no vestibular? Auto-estima. Atropelado no trânsito? Auto-estima. Essa enganação é uma forma de atribuir, ao indivíduo, a responsabilidade pela resolução de problemas que são sociais e que ele, sozinho, jamais vai conseguir resolver. É uma forma perversa de desmobilizar a sociedade, como se os indivíduos pudessem tudo, como se a força deles não estivesse na organização que se pretende esvaziar.

Não devemos, porém, confundir o self-service, o self-esteem e o self-help com o que as igrejas negras americanas chamam de self-reliance. Essa palavra  é chave para entender o renascimento, nos Estados Unidos, da Teologia da Libertação Negra, a vertente do cristianismo que foi trazida de volta ao debate depois do escândalo envolvendo o reverendo Jeremiah Wright e a igreja da qual faz parte o candidato Barack Obama.

Podemos dizer que, dentro do protestantismo americano, as igrejas negras hoje estão divididas entre aquelas que propõem respostas pessoais para problemas comunitários e outras que promovem a organização social, a exemplo do que fez a Teologia da Libertação na América Latina. Essas igrejam adotam a Teologia da Libertação Negra.

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NAS OLIMPÍADAS DE 1968, NO MÉXICO, OS ATLETAS AMERICANOS TOMMIE SMITH E JOHN CARLOS FIZERAM UM PROTESTO SILENCIOSO, GESTO QUE SE TORNOU SÍMBOLO DO BLACK POWER

Self-reliance, nesse contexto, é a responsabilidade que cada fiel tem de assumir para transformar o mundo em que vive, através de ações políticas e sociais. É a independência do governo, o cuidado com os seus e com a comunidade. O pastor Wright decidiu que não vai mais ficar calado. Abandonou a aposentadoria para dar uma série de entrevistas nos últimos dias. É, de longe, o assunto com o maior potencial para afetar a campanha presidencial de Barack Obama.

Posando ao lado de dirigentes da Nação do Islã - num ecumenismo que os brancos foram incapazes de promover -  o reverendo Wright defendeu a afirmação que fez de que os atentados de 11 de setembro de 2001 foram "a volta das galinhas para ciscar em casa", ou seja, uma resposta terrorista à violência terrorista praticada pelo estado americano em outros países.

Os colunistas americanos - inclusive os negros - logo correram para sentar a pua no reverendo, que taxaram de extremista. Jeremiah Wright foi além: disse que Obama só assumiu a postura que assumiu por ser político, ou seja, fez o que todo político faria em campanha eleitoral. Isso é um golpe pesado em um candidato que diz fazer política "diferente" dos outros.

Obama ficou (sem intenção de trocadilho) entre a cruz e a calderinha. Ele tem pela frente, no dia 6 de maio, duas prévias em estados bastante distintos. Na Carolina do Norte, depende de apoio maciço dos negros para vencer. Em Indiana, não pode embarcar na polarização racial. Se Obama atacar o reverendo que oficiou seu casamento e batizou suas filhas perde votos na Carolina. Mas, se não se distanciar de Wright, corre sério risco de perder votos de eleitores brancos, sem os quais não consegue vencer em Indiana.

Wright parece convencido de que o mais importante agora é reviver o movimento negro americano, apostar no Black Power do século 21. Desde o episódio do Katrina a classe média negra americana está em ebulição. Foi a "descoberta" concreta de que as leis mudaram, sim, os negros avançaram como nunca, mas ainda hoje são a grande maioria entre os pobres, os presos, os assassinos e os assassinados.

 


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
agostinho (06/05/2008 - 08:03)
Sinuca de bico, eleitoralmente falando sim. OBama porem em sendo eleito, tem como escolher entre direcionar, cooptar ou liderar uma mudança positiva no ´front´da luta afro e latina. E tranforma-la como aconteceu com a geraçao de 68. Mesmo porque pode vir no bojo de outras mudanças dentro dos USa, em cujo bojo pode vir o avanço racial, sem lhe dar o nome. É uma fuga, mas em politica voce sabe.. Nao aprovo isso inteiramente nao. Mas aposto de certa forma que é nisso que ele esta pensando.

Isabel (30/04/2008 - 20:39)
Conceição, a lógica é a mesma daquela que diz que pobre é pobre porque é vagabundo. Como diz o Azenha, é a anulação do coletivo pelo individual. Se a desgraça bate á sua porta, olhe pro outro lado, afinal o infeliz é o outro, não voce. É uma coisa sórdida. Abraços.

Conceição Oliveira (30/04/2008 - 14:06)
Oi Bel, pois é. A tal da regra de que temos obrigação de sermos felizes 24 horas por dia é de doer. Depois para aguentar (quando nos damos o trabalho de olhar) as cenas esparsas de crianças vitimadas em Darfur ou aquelas ali nos faróis, separadas de nós apenas pelos vidros dos carros, muitos entopem o corpo de tranqüilizantes (a novela das 8 tem até uma personagem caricata desse tipo). Eu prefiro viver essas dores e ver se ao menos com o meu trabalho faço alguma diferença. Caramba! Como é insuportável ver a ampliação de uma literatura de quinta 'auto-ajuda' onde a noção de história, o engendramento de processos de exclusão simplesmente não existem. As pessoas andam com grande dificuldades de se lembrar que faz parte do viver também se frustrar, sofrer, sentir dores, além de amar, sorrir, brincar. Abraços Ontem de

Isabel (30/04/2008 - 13:13)
São muito poucas as vezes que concordo integralmente com alguem, mas no caso da "auto-estima" é verdade. Desde revistecas tipo Claudia e Nova (lixo puro, são a Veja cor de rosa) até os nova -eras da vida, nos enchem com essa besteira, jogando o mesmo jogo do individualismo exacerbado, dividindo e "criminalizando" as pessoas por problemas muito além do seu alcance. Ter depressão hoje em dia é pecado. O que lhe dizem é que se voce tem alguma doença, o problema é seu, se voce é pobre, o problema é seu, o mundo é bom, voce é que não presta. Li no blog da Conceição uma matéria sobre hormonios femininos, muito boa por sinal. Agora é assim, ter menopausa é crime. Sofre a mulher que quer. O homem fica velho, não tem mais interesses sexuais? É crime, tem que tomar Viagra e fazer filho até os 200 anos. Quanto ao Pastor, é um homem lúcido, um lutador. Mas ele podia parar pra perceber que pela primeira vez na história os EUA podem ter um candidato negro á presidencia. Se isso não é um avanço, não sei o que é. Eleito Obama, por pior que ele possa vir a ser, haverá espaço pra cobranças, e o que é mais importante: o exemplo vivo já estará lá.

O Chris Almeida - BH (29/04/2008 - 20:12)
O desafio do Obama é ser sincero, não ficar sobre o muro, tomar partido, isso traz votos. Que ele convença que fez a escolha certa. Mas continuo com a posição de que eu não votaria nessas eleições. Nenhum deles me apetece.

Conceição Oliveira (29/04/2008 - 19:28)
PASTOR WRIGHT PARA PRESIDENTE! ô sujeito lúcido, sô! Agora, Azenha, eu acho que Obama tem de ir pras cabeças, apostar que uma parcela branca estadunidense realmente mudou e também se horroriza com os episódios recentes da extrema e perversa violência praticada por agentes como os detetives Michael Oliver, Gescard Isnora e Marc Cooper que abateram com 50 tiros Sean Bell, de 23 anos, no dia 25 de novembro de 2006, na saída de uma boate do Queens horas antes do casamento da vítima. Caraca! Os detetives foram inocentados no último domingo! Isso depois dos depoimentos dos sobreviventes Joseph Guzman (11 tiros) e Trent Benefield (3 tiros), hospitalizados durante meses! Como um juiz em sã consciência e não contaminado por racismo pode inocentar esses policiais? 50 tiros!!!!!????? É brincadeira. Se essa brutalidade policial não for racista e se os brancos americanos pensarem como o juiz Arthur Cooperman, eles não merecem mesmo respeito nem do pastor nem de Obama e se não der pra coibir isso pelo meio democrático, que aguentem novas e mais avassaladoras lutas pelos direitos civis e desta vez, engrossadas pelos latinos. Ah! Faça me um favor quem quer pôr panos quentes neste quadro, depois de domingo o discurso do pastor se atualizou como nunca.

Maria das Graçcas Bandeira (29/04/2008 - 18:17)
Obama 'escandalizado' com as últimas declarações de seu ex-pastor WASHINGTON (AFP) - Barack Obama disse nesta terça-feira estar "escandalizado" com as últimas declarações e o "espetáculo" oferecido na véspera por seu polêmico ex-pastor Jeremiah Wright, que reabriu uma polêmica ao se aproximar o final das primárias democratas para a eleição presidencial de novembro nos Estados Unidos. PUBLICIDADE "Estou escandalizado com os comentários pronunciados e entristecido com o que vimos ontem" (segunda-feira), durante uma entrevista à imprensa concedida em Washington por Jeremiah Wright, afirmou Obama, em duras declarações contra o homem que o casou e batizou sus filhas. O pastor Jeremiah Wright fez ontem um discurso no National Press Club, em Washigton, qualificando as críticas de Obama a seus sermões como um "ataque à igreja americana".

Marco Vitis (29/04/2008 - 18:08)
Seria Barak Obama um "boneco" a fim de anestesiar e entorpecer o crescente movimento negro nos EUA ?

vanda (29/04/2008 - 16:22)
Ainda bem que "DESCOBRIRAM"...nem um pouco diferente do que acontece em nosso Brasil varonil, o que nos falta é DESCOBRIR e AGIR, ainda chegaremos lá.

Gustavo Eduardo Paim Pamplona (29/04/2008 - 16:00)
self-service = auto-serviço / self-esteem = auto-estima / self-help = auto-ajuda / self-reliance = auto-confiança. E você realmente tem razão ao dizer que até mesmo problema de câncer é falta de auto-estima, a revista Seleções (Reader's Digest), muito boa por sinal, até porque é conhecida praticamente no mundo todo. Ela adora falar de auto-estima. Algo assim, se sua estima estiver baixa você tem seu sistema imunológico enfraquecido já que realmente as emoções nos afetam. Se uma pessoa já está toda "deprê" ela com toda certeza preferirá falecer (acabar com a dor) do que lutar contra a doença.



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