Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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Visita ao berço do talebã, na Índia

Atualizado em 18 de agosto de 2008 às 01:44 | Publicado em 01 de dezembro de 2005 às 14:20

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Chegamos até lá, eu e o cinegrafista Sherman Costa, levados pelo guia que nos acompanhou na Índia, Rajan. Ele trabalhava para a rede britânica BBC e tinha intimidade com um dos funcionários da escola. É uma cidade murada em Deoband, norte de Nova Delhi. Ocidentais, infiéis e jornalistas raramente são autorizados a entrar na fortaleza.

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Muitos estudantes nos olharam com desconfiança. Eles não estão acostumados a ver gente de fora. São três mil e quinhentos alunos. Filhos de gente pobre, de camponeses da Índia, que buscam uma educação islâmica tradicional. Darul-Uloom é uma referência para os muçulmanos de todo o mundo. Mulheres não entram. Amigos andam de mãos dadas pelo campus, o que é tradição entre muçulmanos.

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Tijolos vermelhos, parecidos com os que cercam o Kremlin, em Moscou, formam o muro que isola a universidade. Nela estudaram líderes espirituais que fundaram as madrassas, escolas religiosas, na região fronteiriça entre o Paquistão e o Afeganistão. Eles pregam o purismo religioso praticado pelos seguidores do Talebã.

Não há fotos no campus. Qualquer tipo de representação gráfica do ser humano é considerada uma ofensa ao profeta Maomé. Não há espelhos nos quartos, porque poderiam incentivar os alunos à vaidade. Os estudantes dormem em tatames.

A água, de poço, é retirada através de bombas manuais, porque a eletricidade é considerada um luxo. Curiosamente, há um departamento de informática em Darul-Uloom. A universidade tem um site através do qual tira dúvidas de fiéis de todo o mundo. Eles são conhecidos como deobandi. Se têm alguma dúvida sobre a interpretação do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos, podem fazer a consulta pela internet.

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Entrar em Darul-Uloom me deixou empolgado e aflito. Alguns dos estudantes nos olharam como se estivessem diante de inimigos cristãos.

Se eu tivesse passaporte americano, não mostraria ali. Existe ódio aos Estados Unidos, depois da guerra que derrubou o governo do Afeganistão e da ocupação do Iraque. O funcionário que nos recebeu foi cordial, mas reservado. Repetiu o que ouvimos em outros países muçulmanos: que o governo Bush declarou guerra contra o islamismo.

O governo da Índia, país de maioria hindu (onde vivem cerca de 300 milhões de muçulmanos), proibiu a frequência de estudantes estrangeiros em Darul-Uloom. Teme que os alunos alimentem dali uma guerra santa contra o próprio governo do país. Os confrontos entre hindus e muçulmanos já mataram milhares de pessoas na Índia.

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Ao lado da universidade, uma gigantesca mesquita estava em construção. Segundo nosso guia, Rajan, o investimento era do governo da Arábia Saudita.
Os sauditas investem em escolas e mesquitas em países muçulmanos, como forma de difundir a sua versão do islamismo, o wahabismo, que é bastante conservador.

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Tivemos várias restrições para trabalhar dentro da universidade. Demos um drible na segurança usando uma câmera amadora. Enquanto eu e Rajan (à esquerda na foto), conversávamos com o professor que nos recebeu, o cinegrafista Sherman Costa (de camisa verde) sumiu.

Pediu carona a um ciclista e deu uma volta no campus filmando com a câmera digital. Na porta da universidade, quebramos o gelo com a garotada falando sobre futebol. Apesar de viverem praticamente isolados, os estudantes sabiam os nomes de craques da Seleção Brasileira, mas com alguns anos de atraso. Falavam em Sócrates, Falcão e Zico, quando Ronaldo e Ronaldinho eram as estrelas.

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Enquanto falávamos com a garotada, na porta da escola, éramos vigiados de longe. Por que tanta desconfiança? Os muçulmanos de Deoband acreditam que estão cercados. Ao ocupar o Iraque, a linha-dura do governo Bush disse que pretendia espalhar democracias de modelo ocidental no Oriente Médio.

McDonald's, Starbucks e Wal-Marts ao alcance de árabes e muçulmanos. McDonald's em Darul-Uloom? Duvido. É mais provável que saiam de lá homens-bomba do que consumidores de Big Mac.

Publicado em 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Jean (19/08/2008 - 21:45)
Como é bom ser ateu... Você não quer matar nem fazer guerra santa contra ninguém...

viva as diferenças (19/08/2008 - 15:08)
Pois é, não sei pra que carregar tanto ódio... por acaso não é nessas universidades que, freqüentemente, alunos vão ao supermercado e compram armas automáticas, afim de promover um massacre sem o menor sentido? Esses fundamentalistas são um terror!

Luiz Henrique Gomes Moraes (18/08/2008 - 15:17)
É muito triste, esta universidade em vez de formar os grandes pensadores da cultura islâmica, formam propagadores do ódio ao mundo ocidental. Lembro-me desta rteportagem, foi para o Fantástico não é.



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