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O CONVÊNIO DA USP COM A MONSANTO

Atualizado e Publicado em 15 de agosto de 2008 às 12:55

Educadores criticam convênio da USP com a transnacional Monsanto

Parcerias dessa natureza mostram a falta de um projeto social e verdadeiramente público para as instituições do país

13/08/2008

Dafne Melo,

da Redação


"Desconcertante". Assim o professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Roberto Leher, classifica o convênio entre a Universidade de São Paulo (USP) e a transnacional estadunidense Monsanto. O professor avalia que, mesmo sem ler o contrato, somente o fato de uma instituição de ensino pública fazer uma parceria com essa empresa já é complicado. "Ela atua num campo de atividades econômicas que está no cerne de uma problemática mundial. Há um vasta bibliografia sobre a forma nefasta, irresponsável, anti-social e anti-ambiental que a Monsanto atua no mundo. Esse convênio soa como uma derrota de projeto da universidade pública pelo fato dela recorrer financeiramente a uma empresa como essa", acrescenta.


A professora de Faculdade de Educação da USP, Lisete Arelaro, mostrou-se bastante preocupada com o projeto. "Não dá para ninguém na USP achar que a Monsanto é benemérita", opina. Ela afirma que ficou surpresa ao ver que foi aceito um convênio com uma empresa tão polêmica: "Normalmente, a USP não faz parcerias com empresas dessa natureza, porque não quer prestar explicações. Não as nega por motivos ideológicos, mas para não ter 'dor de cabeça'. Quando a Shell passou a ter sua ação denunciada em Paulínia [a transnacional produz agrotóxicos na cidade paulista e coleciona inúmeras denúncias de contaminação de lençóis freáticos, a maioria admitidas pela própria empresa], ela buscou a USP para uma parceria, que foi negada", relata a educadora.


Imagem

Lisete conta que diversas transnacionais disputam parecerias com a USP. "Não tenho dúvida de que juntar-se à USP legitima uma empresa. O que se pensa é: se o convênio foi feito com essa transnacional é porque ela é idônea e a proposta é boa", avalia. Entretanto, as empresas não ganham apenas ao se vincularem institucionalmente à USP, mas com a pesquisa propriamente dita.


Leher, que já foi presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) – e é doutor pela USP –, afirma que mesmo já tendo visto inúmeros contratos entre instituições públicas de ensino e empresas, a primeira minuta o surpreendeu. "Fiquei perplexo de ver como a USP – uma instituição respeitada, com excelentes professores e estudantes, com uma contribuição enorme para a educação brasileira – se propõe a assinar um contrato tão neocolonial", analisa. Mais preocupante ainda é que o acordo tenha sido sugerido dentro da própria universidade. "É triste ver que isso surge de dentro, que não é nenhuma imposição de fora", diz. Mesmo com as alterações, Leher pontua que ao referendar o projeto, a USP "abre mão de seus valores mais preciosos e nega a tradição crítica construída a duras penas dentro dessa instituição".


Quanto ao sigilo, o educador afirma que é, infelizmente, algo usual em convênios desse tipo. "A Fundação Universitária José Bonifácio, da UFRJ, tem contratos em sigilo com a Petrobras", cita. Embora comum, Leher condena a prática, oposta aos deveres da universidade, "que deve ser um espaço de livre circulação do conhecimento, liberdade, criação, socialização e crítica dos conhecimentos estabelecidos, atenta à repercussão negativa da ciência para a sociedade e o meio-ambiente", conclui.


Adolescentes

Outro ponto problemático é o público-alvo do convênio: estudantes do ensino médio. "Como uma empresa que tem esse perfil pode ser uma fonte reconhecida como legitima de apoio a uma atividade educativa? De formação sobretudo de jovens?", questiona Leher, para quem esse caso mostra como a universidade pública tem perdido seus referenciais de valores, princípios e ética.


Maria Izabel Azevedo Noronha, presidente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), vê positivamente projetos que procurem a aproximação do ensino médio e superior públicos, mas condena a busca por financiamento privado. "Algum retorno a iniciativa privada vai querer. Como será estruturado o curso, o currículo?", questiona. Para Maria Izabel, se a Secretaria de Educação propôs o projeto à USP, deveria também ter garantido seu financiamento. A medida, entretanto, não chegou a surpreender a educadora. Ao seu ver, essas iniciativas se inserem dentro do modelo de gestão educacional do governo estadual tucano. "Não há um projeto educacional, não se pergunta qual tipo de estudante queremos formar. Essa união com a iniciativa privada acelera a perda da autonomia da escola pública", finaliza.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Roberto (04/11/2008 - 07:05)
Que história é esta de "não vi e não gostei"? Do que se trata o convêncio mesmo?
Convênios deste tipo são feitos no mundo todo com resultados muito positivos. Por estas bandas, convênio "bão memo" é feito com, por exemplo, o MST, cuja competência nas áreas de pesquisas e desenvolvimento é amplamente conhecida...
Francamente...

Fernando Silva (01/10/2008 - 15:48)
Nao acho errado tal acordo.
Nao cabe a uma universidade levantar bandeiras desta ou daquela ideologia,.....
Muito menos é papel da universidade julgar as açoes de multinacionais.....
Seu papel e desenvolver a ciencia e estimular a educação...
Se para as pesquisas ela precisa de apoio financeiro, agora só o que nao pode, a meu ver, seria tornar esse conhecimento e tecnologia adquiridos em vantagem comercial pra determinada empresa.

Maria Cecília P Binder (14/09/2008 - 10:51)
Costuma-se pensar as universidades como inovadoras, progressistas e críticas. É preciso não esquecer tratar-se de instituições conservadoras, com sigificativa parcela de membros - alunos, funcionários e docentes - extremamente conservadores.
Claro que choca saber que a USP, instituição, faz convênio com a Monsanto. Geralmente são professores e ou departamentos que acabam por selar esse tipo de colaboração macabra. O relacionamento USP - Monsanto confirma, entretanto, o que se espera de uma instituição que integra os aparelhos ideológicos do Estado.
Ainda que conservadora, entretanto, a USP não merece esse tipo de achaque - fazer parceria com a Monsanto.

Guilherme Dearo (11/09/2008 - 09:41)
Caro, Azenha:
veja a reportagem sobre essa parceria no Jornal do Campus 342, da USP. A Secretaria de Educação mostrou-se bem despreocupada sobre esse caso.
Abraços!
guidearo@gmail.com

Christian Schulz (21/08/2008 - 20:18)
Educação "Serrada"!

Edson Almeida (16/08/2008 - 10:32)
Uma vez quando viajava de ônibus sentei com uma estudante de agronomia da Esalq-Piracicaba/SP e ela me dizia que a Monsanto já patrocinava as pesquisas desta universidade. Os alunos já saiam "doutrinados" em receitar as soluções da Monsanto para os agricultores.

Lucas Cardoso (15/08/2008 - 16:41)
E a Halliburton, principal beneficiária da guerra do Iraque, está ANP. Não sei se essas notórias transnacionais estão apenas buscando lucro e propaganda imediata, ou têm planos mais funestos para o futuro. Mas eu aprendi que com transnacionais é sempre bom esperar o pior. Agora é só esperar pra ver o que os universitários brasileiros tendo suas cabeças enchidas com os "fatos" do mundo segundo Mosanto vão fazer, e o que fará a Halliburton com os dados a que eles têm acesso na ANP.

Jose Oswaldo Bosso (15/08/2008 - 14:35)
Caro Azenha, Temos como imagem, à "Mão Santa" do Oscar em 1987, com o basquete brasileiro ganhando dos americanos na casa dele, em Indiana. Vemos que a USP não esta brincando quando diz que quer estar entre as 50/60 maiores escolas do mundo, de acordo com a lista das "agências" do norte, com o deus das "agências" do norte, com o pensamento das "agências" do norte.
A USP, a universidade que tem peso e referência no Brasil, não consegue se livrar de um certo incômodo, talvez um certo complexo de inferioridade "listônico", estaria ela, nesse lance, partindo para o "não importa os meios e sim os fins", que venha a rendição?
Uma coisa parece claro, ainda não entendeu a lógica (ou entrou de vez nela?) sobre as agências de classificação feita por eles, como a recente queda do mito da lógica das agências de classificação de riscos.
Quem viver verá!
Jose Oswaldo Bosso

Mateus Nascimento (15/08/2008 - 14:31)
Mais uma vez o Brasil caminha na direção contraria, primeiro a raposa serra do sol, depois caso dantas e escutas telefonicas, agora isso. Sinceramente ultimamente estou com medo de abrir o noticiário.



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