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Cartas de Minas
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Marco Piva: Mão do mercado esbofeteia soberania

26 de abril de 2013 às 19h20

EDUCAÇÃO

Mão do mercado esbofeteia soberania

Considerada gigante mundial, Kroton consolida tendência de concentração no ensino superior privado brasileiro

por Marco Piva*

Guardada a sete chaves como todo negócio que envolve ações na Bolsa de Valores, a aquisição da Anhanguera pela Kroton foi tratada pela grande imprensa como “fato relevante”, o que é, e como “fusão”, o que não é. Numa só canetada, ditada pelo interesse econômico, a educação brasileira foi elevada à mesma categoria de distribuidora de combustíveis e produtos alimentícios.

A Kroton é o braço educacional da Adviser, um dos maiores fundos globais de investimento, especializado no ditado popular “quem pode, manda, quem tem juízo, obedece”.

A operação está avaliada em R$ 5 bilhões, o que faz da Kroton uma empresa de R$ 12 bilhões em ações na BM&FBovespa. Dinheiro em espécie mesmo, nenhum. Para que?

Somente o anúncio do fato relevante, que é, elevou em 8% o valor das ações do grupo. Mas, para quanto será elevada a qualidade do ensino proporcionado aos estudantes das classes C e D que frequentam as faculdades da dupla Kroton/Anhanguera?

Esse é um problema do MEC, dizem os comentaristas econômicos da grande mídia. Cabe às autoridades da educação fiscalizar e exigir seus critérios de qualidade.

Simples assim. Os alunos, por sua vez, poderão dizer se estão satisfeitos ou não com os seus cursos mudando de faculdade, se for o caso. Mais simples ainda.

Entretanto, o que está por trás de um negócio dessa dimensão ultrapassa as fronteiras da economia para alcançar o terreno da soberania.

Vejamos. O Brasil, ao contrário de vizinhos mais pobres da América do Sul, possui proporcionalmente menos estudantes universitários.

São 6,7 milhões de estudantes no ensino superior. Desse total, 4,9 milhões frequentam instituições privadas e 1,8 milhão estão na rede pública nos três níveis: federal, estadual e municipal.

Somente a Kroton terá, de saída, 1,2 milhão de alunos. Na escala decrescente dos maiores grupos educacionais privados estão New Oriental, Estácio, DeVry, Apollo, Abril Educação, Apei, Strayer e Megastudy. Um doce para quem adivinhar qual desses grupos tem capital exclusivamente brasileiro.

Nos últimos dez anos, o Governo Federal tem incrementado políticas públicas de estímulo ao ingresso no ensino superior. O Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e o Programa Universidade Para Todos (Prouni) são exemplos de políticas bem sucedidas, mas que por resistências ideológicas de variados matizes, ainda não deslancharam como poderiam.

A distribuição da renda e a política de aumento real dos salários proporcionaram a consolidação de uma nova classe média, disposta a comprar, num primeiro momento, aqueles bens que a cultura do consumo torna necessários.

No segundo momento da onda de consumo, a juventude dessa nova classe média poderá comprar bens de educação.

Por isso, numa conta de chegada o Brasil pode colocar para dentro da faculdade algo em torno de 10 milhões de jovens entre 18 e 24 anos no próximo quinquênio . Nada mal para as estratégias empresariais de larga escala.

Mas, qual será a formação que esses jovens terão? Serão treinados na doutrina do “pode quem manda, obedece quem tem juízo” ou poderemos sonhar com um Brasil mais justo, soberano e solidário? O que acontecerá com os últimos grupos educacionais 100% brasileiros? Brandirão uma resistência heroica ao lado da sociedade em aliança com os movimentos sociais ou vão sucumbir aos apelos sedutores de uma conta bancária gorda e individual?

Certos comentaristas da grande mídia insistem em dizer que política não se mistura com economia, que é a pegadinha ideológica para passar gato por lebre. No caso da educação, a concentração nas mãos de poucos grupos privados sustentados por fundos globais de investimento coloca, no mínimo, uma questão estratégica para o futuro: qual a educação que queremos para o Brasil? O CADE e o MEC tem a palavra.

*Marco Piva é jornalista especializado em educação.

Leia também:

Diane Ravitch, no New York Review of Books: As corporações atacam a educação pública

 

8 Comentários escrever comentário »

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Carta Maior revisita as previsões sombrias de Kenneth Rogoff - Viomundo - O que você não vê na mídia

29/04/2013 - 14h46

[…] Marco Piva: Mão do mercado esbofeteia soberania […]

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João-PR

28/04/2013 - 00h48

Alguns setores da sociedade, como saúde e educação, NÃO PODERIAM SER PRIVADOS!
Na saúde, não se pode economizar, sob pena de matar alguém porque “tal remédio é caro, e o paciente não pode pagar”. E, educação não é algo que tenha que gerar lucros, sob pena de ficarmos gerando eternamente analfabetos funcionais.

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antonio mota

27/04/2013 - 17h22

Essa indignação foi levantada nos anos 50/60 pelo jornalista Genival Rabelo, que fez duras críticas, em vão, a entrada de empresas jornalísticas no Brasil(Editora Abril, Vision C. Reader’s digest, time-life, etc.), pois transgredia o artigo 160 da constituição da época, que vedava “…a propriedade de empresas jornalistas,[…] e de radiodifusão, as sociedades anônimas por ações ao portador e a estrangeiras…” impedido-as de serem acionistas em empresas nacionais.
O poder das empresas americanas estabeleceu uma cruel e injusta concorrência, que levou ao fechamento de várias revistas e jornais brasileiros.Fixando de uma vez por todas em nossa sociedade o “american way of life”

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Paulo Figueira

27/04/2013 - 12h49

Economia é política

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Julio Silveira

27/04/2013 - 12h15

Marco Piva, voce tem toda a razão.
Eu ainda não consegui compreender essa propensão da cidadania brasileira a ingenuidade.

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José Albino Zacharias da Silva

27/04/2013 - 07h52

A reação é justa, porém entendo que falta a mesma indignição quando tratamos da educação básica.Abandonada num discurso que acentua o descompromisso de governantes das tres esferas e que nós da sociedade civil assistimos atônitos sem que movimento nenhum se insurja.No estado de são paulo temos a greve dos professores como referência: a discrença de jovens que fogem da profissão e de adolescentes alunos que não visualizam um futuro além do espaço exigido da carteira escolar.Enquanto isso Mercadante afronta vitimas da ditadura…

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renato

26/04/2013 - 21h16

Como Requião diz, ponha um poderoso no
Mercado, e ele dá um jeito de destruir
o entorno,( no caso dos Portos).
Muito cuidado com a Educação. ATENÇÃO!
Na saúde, o Mercado ou Capitalismo (estou mais
para Capitalismo, me lembra bem a direita)
fez uma lambança do tamanho de um bonde, infelizmente,
os homens que conseguiam visualizar o que a
falta da CPMF fazia, também não conseguiram convencer
o Povo,quem sabe por falta de Educação.
Sem saúde o Povo enfrenta fila.
Sem educação o Povo…..Como bem lhes convier!

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renato

26/04/2013 - 21h09

Mercadante afronta vítimas da ditadura
Mão do mercado esbofeteia soberania.
As vezes me dá um nó na cabeça!Azenha.

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