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CONCEIÇÃO LEMES: ALDO VICENTIN, MAIS UMA VÍTIMA DO AMIANTO

Atualizado em 05 de julho de 2008 às 11:42 | Publicado em 01 de julho de 2008 às 10:49

Aldo Vicentin, entrevistado por Conceição Lemes antes da cirurgia, não resistiu e faleceu na quinta-feira, dia 3 de julho.

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Aldo Vicentin, antes da cirugia, com o colega Eliezer de Souza

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Aldo, na UTI do Incor, após a cirurgia; quinta-feira, 3 de julho, às 9h30, ele faleceu

por Conceição Lemes

A Organização Internacional do Trabalho – a OIT, órgão das Nações Unidas –alerta: o amianto, ou asbesto, mata por ano no mundo 100 mil trabalhadores. No Brasil, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), 1 milhão de pessoas podem estar em contato direto com a fibra assassina ou do diabo, como é conhecido esse mineral. Ele é cancerígeno. Está banido em 49 países, incluindo Argentina, Chile, Uruguai e União Européia. Aqui, é proibido no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco e mais recentemente São Paulo. No dia 4 de junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por 7 votos a 3 que a lei 12.684, que veda o uso do amianto no Estado, é constitucional.  Em bom português: está proibido no Estado de São Paulo.

O aposentado Aldo Vicentin, 66 anos, secretário-geral da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea), não pôde comemorar esta vitória. Enquanto a lei era julgada no STF, ele internava-se no Instituto do Coração de São Paulo, o Incor, para a batalha da sua vida: extirpar o mesotelioma – tumor maligno de pleura, membrana que reveste o pulmão. É muito agressivo, incurável, praticamente intratável, causado pela exposição ocupacional ou ambiental ao amianto. A quase totalidade dos portadores morre em um ano; a expectativa de vida é de, no máximo, 2 anos.  Aldo é casado com dona Gisélia, tem duas filhas e um neto.

 "De 1964 a 1968, trabalhei no depósito de materiais da Eternit, em Osasco; ajudava a carregar caminhões com tubos, caixas d’água, telhas”, relembra à repórter antes da cirurgia. “Tinha 22 anos, nem sabia o que era amianto. Só ao requerer a aposentadoria, em 1994/1995, descobri que havia trabalhado em condições insalubres, perigosas."

Aldo já perdeu a conta dos amigos que o amianto levou. “Agora, sou eu que estou com esse passivo”, diz, indignado, referindo-se ao tumor, que se manifestou 44 anos depois. “Foi de repente. Comecei a sentir canseira, sem fôlego para subir uma rampa... Na radiografia de um ano e meio atrás não havia nada. A que fiz há três meses mostrou meu pulmão esquerdo inteiramente tomado.” Dona Gisélia está arrasada: “O mesotelioma parece furacão; destrói tudo pelo caminho”.

 “No início, não sabíamos que o amianto fazia mal e tivemos alguns casos de disfunção respiratória na fábrica de Osasco, já desativada. Usávamos principalmente o anfibólio”, diz Élio Martins, presidente do Grupo Eternit, o maior do País no setor de amianto . “Por volta de 1980, passamos a trabalhar só com a crisotila, fizemos altos investimentos em medidas de proteção e eliminamos todos os riscos da atividade profissional. De lá para cá, não temos nenhum trabalhador doente nas nossas fábricas nem na nossa mineradora.” A mineradora é a SAMA, responsável pela única mina de amianto em exploração; fica em Minaçu, Goiás. Anfibólio é um outro grupo de amianto, no qual estão inseridos o amianto marrom e o azul, já banidos no mundo inteiro; têm maior poder de agressividade que a crisotila, ou amianto branco.

 “Não são apenas alguns casos, mas milhares de pessoas com doenças pulmonares graves, entre as quais o mesotelioma”, afirma Fernanda Giannasi, engenheira de segurança do trabalho e auditora fiscal do MTE, em São Paulo. “Como é possível garantir que a partir de 1980 ninguém ficou doente? É futurologia. Nós trabalhamos com epidemiologia, e os estudos demonstram que as doenças do amianto levam 20, 30, 40 anos para se manifestar. O mesotelioma do Aldo levou 44!” 

 “Ainda por cima, há enorme subnotificação; tem muita gente morrendo de mesotelioma sem saber”, revela o pneumologista Hermano Albuquerque de Castro, professor da Escola Nacional de Saúde Pública e coordenador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. Há falta de acesso à saúde e despreparo dos médicos para fazer o diagnóstico adequado. Nos anos 90, o mesotelioma provocava, em média, 100 mortes por ano; em 2000, perto de 200. “A tendência é crescer o número de casos e o de óbitos”, enfatiza.

Adilson Santana, funcionário da SAMA há 22 anos, diretor do Sindicato dos Mineiros de Minaçu e vice-presidente da Comissão Nacional dos Trabalhadores do Amianto (CNTA), desconversa:  “Diferentemente de até 1980, hoje não há risco algum nem para os trabalhadores da mina nem para os das fábricas. É totalmente seguro trabalhar com a crisotila”.

“O vice-presidente da CNTA falta com a verdade!”, declara Eliezer João de Souza, 67 anos, presidente da Abrea e funcionário da Eternit de 1967 a 1981.  A crisotila também é cancerígena. Em 2007, quando esteve em Minaçu para organizar o movimento local, viu duas pessoas morrerem por causa do amianto. Lá também descobriu que há vários casos de câncer de pessoas que começaram a trabalhar com amianto depois dos anos 80. Em Minaçu, a população não tem noção dos perigos que corre. Além disso, a CNTA atua a favor dos interesses da indústria e não a favor do trabalhador.

“Quem trabalha com amianto está com a corda no pescoço”, vaticina Eliezer. “O atestado de óbito está pronto. É só questão de tempo para ser assinado.” Em 2000, ele teve que extrair nódulos no pulmão. Agora, está com suspeita de asbestose, mais conhecida como “pulmão de pedra”. A doença provoca o “endurecimento” do pulmão, levando pouco a pouco à perda progressiva da capacidade respiratória; pode evoluir para a morte -- a chamada morte lenta.

DE MINERAL “MÁGICO” À FIBRA ASSASSINA
Amianto é o nome comercial adotado para um conjunto de minerais constituídos basicamente de silicato de magnésio, rocha presente na natureza. Dependendo da região, é só tirar a camada vegetal, você a encontra. Em forma bruta, não prejudica a saúde se o ser humano deixá-la quieta.  Em geral, as fibras que libera naturalmente no ar por ação de ventos e chuvas são grandes e não inaladas; os próprios pêlos do nariz barram a entrada delas no aparelho respiratório.

O problema começa no processo de mineração. A rocha é moída; 5% se transformam em fios que lembram cabelo. São as fibras. As graúdas têm alto valor comercial. Quanto mais diminutas elas se tornam, mais invisíveis ficam a olho nu. Chegam a ponto de só poderem ser observadas ao microscópio. Viram poeira muito fina.

O amianto é um produto barato, durável, altamente resistente – o fogo não o destrói --, capaz de se transformar em fios e tecidos. Daí, durante muito tempo, ter sido considerado um mineral “mágico”. Fazem-se centenas de coisas com ele. Combinado com cimento, por exemplo, forma uma massa, como a de bolo, fácil de moldar. O resultado são telhas, painéis acústicos, forros, pisos, divisórias de ambiente, caixas d’água, tubulações. Já ligado a certas resinas dá origem a pastilhas de freio, revestimento do disco de embreagem, lona de fricção.

Não à toa está por todo canto.  Da reserva indígena de São Marcos, em Roraima, à coxia do Theatro São Pedro, em São Paulo. E esteja você em casa, escola, local de trabalho, parque, carro, ônibus, é bem provável que aí ou nas proximidades haja algo com amianto.

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Reserva São Marcos

 

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Theatro São Pedro

 “Porém, desde 1906, se sabe que o amianto é danoso à saúde”, adverte Fernanda Giannasi. Na ocasião, uma pesquisa na Inglaterra demonstrou que trabalhadores que manipulavam amianto tinham “entupimento” nos pulmões, que provocava limitação respiratória progressiva e incapacitante. 

Na década de 1940, estudos começaram a ventilar a possibilidade de o amianto ser cancerígeno. Na década de 1950, não restavam mais dúvidas. Uma doença chamada mesotelioma estava relacionada a ele. Os estudos subseqüentes só aprofundaram essa correlação. Na década de 1980, já se conheciam praticamente todas as doenças decorrentes da exposição ao amianto e os grupos atingidos. A Agência Internacional para Pesquisa de Câncer, a IARC (sigla da instituição em inglês), coloca então o amianto na lista de substâncias reconhecidamente cancerígenas para o ser humano. A IARC é órgão ligado à Organização Mundial de Saúde (OMS), sediado em Lyon, na França. A partir daí, o amianto passa a ser denominado a fibra assassina ou do diabo.

AS VÁRIAS DOENÇAS CAUSADAS PELO AMIANTO
O amianto está associado a vários problemas de saúde.

 “No curto prazo, um ou dois anos, pode desencadear doenças que reduzem a capacidade respiratória”, informa o pneumologista Hermano de Castro. “Isso acontece devido a um processo inflamatório.”

O pulmão é como uma grande “esponja” ligada a “canos” que transportam ar para o seu interior. A traquéia e os brônquios são os “canos”. A “esponja”, ou parênquima pulmonar, são os milhares de alvéolos: “saquinhos”, onde o oxigênio respirado, essencial à vida, é trocado pelo gás carbônico, “lixo” produzido pelo organismo. “A ‘esponja’ representa 90% da área dos pulmões”, explica a médica Iolanda Calvo Tibério, professora livre-docente de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. “O amianto inflama justamente o parênquima pulmonar, podendo causar granuloma.”

A “esponja” é bem elástica, para que os pulmões se encham de ar e se esvaziem adequadamente. A inflamação, porém, altera esse tecido, tornando-o fibroso.  É como a cicatriz que se forma na pele quando a gente leva um corte. O local fica mais duro, com menos elasticidade.  Inflamado cronicamente pode dar origem a nódulos – os granulomas.  “Ainda, gradativamente, o pulmão, perde a sua capacidade de se expandir de modo adequado”, prossegue Castro. “A pessoa tem falta de ar, canseira, tosse e muco.”

Em geral, depois de 10, 15 anos de exposição ao amianto, a fibrose altera a própria estrutura do pulmão. É a asbestose, ou fibrose pulmonar. O pulmão “endurece”, perdendo progressivamente a sua capacidade de se expandir. Provoca falta de ar, dor nas costas, cansaço, emagrecimento. “Não tem cura, mesmo que a pessoa nunca mais entre em contato com amianto”, avisa Castro. “Leva lentamente à morte.”

No longo prazo, o amianto pode promover alterações nas células, causando câncer de pulmão. Leva 25 a 30 anos para se manifestar. A pessoa exposta ao amianto e, ao mesmo tempo, fumante tem 57 vezes mais probabilidade de ter esse tumor maligno do que quem não está nessas duas situações. É que o  amianto e o tabaco têm efeito sinérgico: um potencializa o malefício do outro.

Também, no longo do tempo, pode induzir ao mesotelioma de pleura (membrana que reveste o pulmão), de peritônio (membrana que reveste a cavidade abdominal) e de pericárdio (membrana que recobre o coração). É  um tumor maligno e extremamente agressivo, incurável e fatal e pode aparecer 35, 40 e até 50 anos após o primeiro contato com o amianto. De 1983 a 2003, há contabilizado no SUS 2.414 óbitos de brasileiros por mesotelioma. O número real, porém, é certamente bem maior. Os dados oficiais são apenas a ponta de um imenso iceberg.

MESOTELIOMA NÃO É DOSE-DEPENDENTE
“Mas a crisotila não é cancerígena, ao contrário do anfibólio”, diz Marina Júlia de Aquino, presidente do Instituto Brasileiro do Crisotila (IBC). “A legislação fixa limite de fibras no ambiente de trabalho, que nossas associadas [11] cumprem. Hoje, com certeza, os trabalhadores não têm risco.” O IBC é uma instituição criada nos moldes do Instituto da Crisotila, no Canadá, com o qual mantém estreitas relações. O objetivo principal é fazer lobby a favor dos interesses da indústria.

O site da Eternit, na seção Perguntas mais freqüentes, reforça o discurso da presidente do IBC: Somente os trabalhadores expostos, durante longos períodos, a altas concentrações de fibras, fazem parte do grupo de risco. Os trabalhadores das indústrias que seguem as regras do uso controlado estão totalmente seguros. Diz mais: Hoje, os riscos do amianto crisotila se constituem não em uma questão de saúde pública, mas de saúde ocupacional. Na entrevista a esta repórter, o presidente Élio Martins repisa: “O amianto é apenas problema de saúde ocupacional. Não temos nenhum caso no Brasil de pessoa que usou telha ou caixa d’água com amianto e teve problema de saúde”.

Vamos por partes:
1) O fato de o amianto crisotila ser menos nocivo não significa ser inócuo ou que faça bem à saúde.

2) Todas as formas e tipos de amianto são cancerígenos, inclusive a crisotila pura. É a posição da IARC (Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer), da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Organização Internacional do Trabalho (OIT), da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, o famoso INSERM, da França. Também a da Fiocruz, no Brasil.

3) A asbestose, realmente, é dose-dependente. Quanto mais o trabalhador fica exposto ao amianto, maior a probabilidade de ele desenvolver a doença.

4) Já o mesotelioma não é dose-dependente. “É mentira que exista dose segura para o câncer; a única quantidade que protege é a exposição zero”, alerta o médico Hermano de Castro. “Mesmo que você se exponha por curto período e sob baixa dose ao amianto, pode vir a ter mesotelioma no futuro”.

5) Não é verdade que é um problema apenas de quem trabalha com o mineral. “Familiares e moradores próximos às minas estão em risco, assim como quem se submete à exposição ambiental”, avisa Fernanda Giannasi. Por exemplo, operários de oficinas mecânicas, da construção civil (cortam telhas, divisórias), colocadores de telha, pessoas que moram em casas com telhas de amianto que estejam degradadas, liberando fibras para o ambiente.

 “Acompanhamos aproximadamente 100 esposas de ex-empregados; cinco já têm placas pleurais”, corrobora o médico do trabalho Vilton Raile, do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador de Osasco. Placas na pleura podem acarretar falta de ar, cansaço, dores nas costas e tosse com catarro. As cinco se contaminaram, lavando as roupas dos maridos. “Há um caso, confirmado, de mesotelioma de pleura”, acrescenta Eliezer, presidente da Abrea. “Essa senhora já morreu e se contaminou como as outras cinco esposas.”

PROBLEMA DE SAÚDE OCUPACIONAL E DE SAÚDE PÚBLICA
“O amianto não é apenas questão de saúde ocupacional”, sustenta Hermano de Castro, coordenador do Centro de Estudos  da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fiocruz. “É problema de saúde pública, sim.”

O próprio Hermano justifica:

1) Estudos epidemiológicos indicam que parte das pessoas atingidas pelo mesotelioma tem história de exposição direta, explícita. Mas outra parcela, não; neste caso, as evidências são de exposição ambiental. Os mais suscetíveis, mesmo expostos em baixas doses, correm o risco de ter esse tumor maligno. 

2) Uma vez que há pessoas que têm mesotelioma vinculado à exposição ambiental ao amianto, ele torna-se problema de saúde pública.

3) Problema ocupacional é também problema de saúde pública.

4) Quando trabalhadores ou ex-empregados expostos ao amianto adoecem, vão para o SUS em busca de tratamento e para o INSS à procura de seguridade social. Aí, todos os seus custos passam a ser pagos pela sociedade em geral. Logo, mais um motivo para ser considerado problema de saúde pública e não só de saúde ocupacional.

PROVA DO PERIGO ESTÁ IMPRESSA NO PRÓPRIO PRODUTO
A esta altura, sabemos que algumas perguntas são inevitáveis. Pedimos a Fernanda Giannasi, que também coordena a Rede Virtual-Cidadã pelo Banimento do Amianto na América Latina, para respondê-las.

-- Ninguém na minha família trabalha com amianto. Por que deixar de usar esse tipo de telha, que é mais barata, resistente e vários vizinhos têm?
Porque o amianto, mesmo em baixas doses, é cancerígeno. Vá até uma loja de materiais de construção e descobrirá que na telha ou qualquer produto de cimento-amianto, por exemplo, está escrito: ao cortar ou furar não respire a poeira gerada, pois pode prejudicar gravemente a saúde. É porque, ao se cortar ou furar uma telha, centenas de fibras de amianto são liberadas no ar. E inala essa “poeira” não só quem faz o serviço, mas todo mundo que está no ambiente. Além disso, o material, com o tempo, se degrada e, ao ser manipulado, se desfaz, liberando fibras de amianto na sua casa, no meio ambiente. Logo, é um risco a ser considerado e temido.

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-- Se eu respirar uma fibra, posso ficar doente?
Pode, dependendo de onde ela se alojar.

-- Mas tem tanta gente que trabalhou com amianto e não tem nada... Tem tanta gente que mora em casa com telha de amianto e não tem nada...
Não tem nada hoje. Mas é impossível garantir que não venha a ter no futuro.
Se as doenças mais graves levam, no mínimo, 25 anos para se manifestar, às vezes até 50, como é o caso do mesotelioma, e nós estamos em 2008, como é possível garantir que as pessoas que trabalharam a partir de 1980 não ficarão doentes? Isso é uma irresponsabilidade...uma leviandade.  Quem foi exposto nos anos 80, só vai ter o seu mesotelioma a partir de 2015, 2025.

RISCO ESCONDIDO, OMISSÕES E AMEAÇA DE MORTE
Se o amianto é cancerígeno e desde os anos 80 se conhece todos os seus malefícios, por que ainda não foi banido no mundo inteiro? 

“É um dos lobbies mais eficazes jamais visto. Me faz lembrar o do tabaco”, diz Joan Kuyek, da Mining Watch, organização não-governamental do Canadá, no documentário francês A morte lenta pelo amianto, de Sylvie Deleule. “O mesmo tipo de mito, mesmo tipo de ciência, mesmo gênero de cumplicidade entre industriais, trabalhadores e governo na forma de agir, para minimizar os riscos.”

“Eu fui da Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes] da Eternit, fiz cursos de doença do trabalho, mas só em 1995 descobri que o amianto era cancerígeno”, conta Eliezer de Souza. “A cada dois anos, nós fazíamos raio X de pulmão. Nunca soubemos do resultado. O doutor Wagner sabia o que estava acontecendo e escondia da gente. Eu tinha muita  pneumonia e não sabia o porquê.” 

O doutor é Wagner José Meirelles. Foi o médico responsável da Eternit  de 1974 (aproximadamente) a 1993, quando a fábrica de Osasco fechou. Depois, atuou na Associação Brasileira do Amianto (Abra). Hoje mora em Ubatuba, litoral norte de São Paulo: “Eu me lembro do Eliezer, mas eu me aposentei e não quero mais falar sobre o assunto. Os trabalhadores me viam como pessoa da empresa, o que não era verdade. Fui eu quem instituiu todos os controles não só de saúde como de ambiente do trabalho na empresa”.

A repórter voltou a contatar o médico Wagner José Meirelles:
-- Além do Eliezer, outros ex-empregados disseram que só souberam que o amianto era cancerígeno por volta de 1995...
Desde 1984/85, eles já sabiam dos riscos do amianto. Agora, se acham que foram prejudicados, que procurem os seus direitos. É legítimo.

-- Soube que num debate na Assembléia Legislativa de São Paulo, quando se discutia a primeira lei do banimento do amianto em São Paulo [só aprovada em 2001], o senhor pediu a palavra e chorou quando viu ex-empregados da fábrica. É verdade?
Eu não chorei. A Fernanda Giannasi me chamou de omisso. Achei injusto e pedi para falar. Com a voz embargada, convoquei os trabalhadores para que, se tivessem alguma coisa contra mim, falassem. Todos calaram.

-- Segundo a Fernanda, em 1987, o senhor tinha conhecimento de seis casos de doenças pelo amianto, que não foram comunicados ao INSS por decisões superiores. Em 1996, o senhor teria lhe dito que muitos casos passaram por suas mãos, foram relatados à matriz, na Suíça, e a ordem foi de que não fizesse nenhum alarde; que cada um, quando descobrisse, procurasse os seus direitos na Justiça. O senhor confirma?
Não é verdade.

“O Wagner disse que negaria tudo se um dia eu revelasse essas informações”, manifesta-se Fernanda. “Tenho a consciência tranqüila, até porque o alertei. Infelizmente, alguns médicos ainda contribuem para a invisibilidade social das doenças do amianto no Brasil --  o chamado silêncio epidemiológico. Fazem isso quando atendem os casos e não geram informações nem para o INSS nem para o Ministério da Saúde, apesar de muitas vezes serem profissionais da rede pública de saúde. Será isso ético ou moral?”

Nem uma ameaça de morte calou Fernanda. Em janeiro de 2004, três auditores fiscais do trabalho e o motorista do Ministério do Trabalho e Emprego foram assassinados em Unaí, Minas Gerais. Cinco dias depois da chacina, uma carta anônima, intimidatória, lhe foi enviada. 

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Foto: Raphael Falavigna

Fernanda dedica-se à causa do amianto desde 1985. É a maior referência na área no Brasil.  Incomoda, aqui e lá fora. Em abril de 2001, Denis Hamel, diretor do Instituto da Crisotila do Canadá mandou uma carta ao então Ministro do Trabalho e Emprego do Brasil, Francisco Dornelles, pedindo “para repreendê-la e enquadrá-la”. Fernanda é auditora fiscal do MTE, lotada na Superintendência Regional do Trabalho em São Paulo. No documentário A morte lenta pelo amianto, Hamel justifica a retaliação: “Ela dá declarações mentirosas, exageradas, que prejudicam enormemente os esforços da indústria”.

USO CONTROLADO É IMPOSSÍVEL; É UMA ILUSÃO TOTAL
Fernanda Giannasi e os “velhinhos da Abrea”, como os defensores do amianto se referem malevolamente aos ex-empregados e membros da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto, começam a colher os frutos de mais de uma década de batalha. No dia 4 de junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou que a lei 12.684, que proíbe o uso do amianto no Estado de São Paulo, é constitucional.

“Uma vitória histórica do direito à saúde, à prevenção de doenças e ao meio ambiente equilibrado”, avalia Mauro Menezes, advogado da Abrea e da Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho (ANTP). 

Até essa decisão, segundo o advogado da Abrea e da ANPT, o argumento usado pelos defensores do amianto para derrubar as leis municipais e estaduais de banimento era de que elas violavam um princípio federativo, pois existe uma lei federal sobre o assunto. E, com base nesse raciocínio formal, havia a superveniência da lei federal sobre a estadual. Só que havia – e há! – uma discussão muito mais significativa, também constitucional, que é avaliar se o uso do amianto, ainda que controlado, ofende ou não o direito à saúde, à redução do risco de doença, à valorização social do trabalho, à dignidade da pessoa humana e ao meio ambiente equilibrado. 

“Pela primeira vez o STF eliminou as questões preliminares e foi ao cerne do problema, tomando por base trabalhos científicos idôneos”, afirma Menezes. “O STF considerou de forma muito convicta que todo tipo de amianto, em função da lesividade ao ser humano, não se compatibiliza com uma questão maior que está garantida na nossa Constituição, que é o direito à saúde e à vida.”

Essa foi a segunda tentativa de se banir o amianto no Estado de São Paulo. A primeira lei, aprovada em 2001, foi revogada pelo STF por uma ação direta de inconstitucionalidade (ADIN). A relatora foi a ministra Ellen Gracie. Mato Grosso do Sul teve também sua lei estadual derrubada no STF. O relator foi o então ministro Maurício Correa; na ocasião, era presidente do Supremo Tribunal Federal.

Atualmente, Maurício Correa encabeça como advogado as ADINs  ajuizadas pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI), que visam derrubar as leis do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Pernambuco.  A CNTI abriga a Comissão Nacional dos Trabalhadores do Amianto (CNTA), financiada pela indústria do amianto, através do Instituto Brasileiro do Crisotila. “Há nove ADINs aguardando julgamento”, informa  Menezes. “A indústria do amianto está com os seus dias contados no Brasil. O problema é que, nesses dias contatados, vidas serão sacrificadas e isso não é plausível numa sociedade democrática, que tem a Constituição que tem. Afinal, é considerada a Constituição Cidadã!”

Talvez alguns questionem: será que não é mesmo possível o uso controlado do amianto crisotila?

“No máximo, as indústrias conseguem reduzir a dose de contaminação dentro das fábricas. Não conseguem controlar depois que o produto sai das fábricas e vai para o público”, esclarece Hermano de Castro, da Fiocruz. Por exemplo, na própria construção civil, onde é freqüente a instalação de telhados. Devido à alta rotatividade de mão-de-obra do setor, os operários não têm noção de que aquele produto, que estão furando e cortando, tem amianto. E acabam respirando suas fibras sem qualquer proteção. O mesmo pode acontecer nas suas casas.

Talvez alguns ainda rebatam: mas isso é de responsabilidade da construção civil, do Ministério do Trabalho e não da indústria do amianto...

 “É problema das indústrias que trabalham com amianto, sim”, volta à carga Hermano de Castro.  “Elas têm responsabilidade por toda a cadeia: mineração, produção, colocação no mercado. E, aí, como é que elas vão controlar o manuseio desses produtos pela população? É impossível. O uso controlado é uma ilusão total. Uma falácia!”

“Agora, se a sociedade decidir pela substituição do amianto por fibras sintéticas, terá que pagar por isso”, diz Élio Martins. “Além de eventual desabastecimento, o nosso produto vai custar 30% a 60% mais caro do que hoje.”

Por curiosidade, checamos na London, uma loja de materiais de construção situada na avenida Vicente Rao com o viaduto da Washington Luís; é o segundo após o aeroporto de Congonhas, em São Paulo. No sábado, dia 28 de junho, uma telha de amianto de 2,44m x 1,10m x 6 mm saía por R$27,80. “A outra, de fibra sintética, custa o mesmo preço”, frisou a vendedora.
  
“O banimento do amianto vai representar o desemprego de 170 mil a 200 mil trabalhadores,” apela Adilson Santana, da CNTA. “Desde quando as lojas de material de construção vendem apenas produtos com amianto?”, rebate Fernanda Giannasi. “Nesses 170 mil a 200 mil estão computados todos os trabalhadores do comércio varejista, que trabalha com centenas de itens, do setor de transportes e da construção civil. Hoje em dia a indústria do amianto, incluindo fábricas e mineradora, emprega cerca de 3 mil trabalhadores.” 

“O amianto é uma bomba de efeito retardado; a única saída é o banimento completo”,  Aldo Vicentin, da UTI do Incor, onde estava internado após a cirurgia do mesotelioma, pediu para reforçar a esta repórter na semana passada. Junto veio outra solicitação, a de mostrar a sua foto: “Quero que o mundo saiba o sofrimento que o amianto causa”.

Aldo teve extirpados o pulmão esquerdo, o diafragma, o pericárdio e a pleura. Ele ainda não sabia, mas o colega José Roncadin, 74, outro diretor da Abrea, tinha acabado de receber também a confirmação do diagnóstico de mesotelioma de pleura. Isso Aldo nunca saberá. Quinta-feira, 3 de julho, às 9h30, a fibra assassina fez o restante do seu maldito “serviço”: levou-o de vez.


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
AMILSON SEABRA (26/11/2008 - 15:17)
AZENHA, CONTINUA NEUTRO OUVINDO OS DOIS LADOS, PORQUE VOCÊ É CONHECIDO PELO BRASIL TODO, E ATÉ AGORA PERCEBO QUE VOCÊ É IMPARCIAL, NÃO DEIXA ESTA MÁFIA ESTRANGEIRA TE COMPRAR NÃO, PORQUE VOCÊ É REALMENTE UM REPORTER, INCLUSIVE, TE CONVIDO PRA VISITAR A MINA DE CRISOTILA AQUI EM MINAÇU, PRA VOCÊ CONHECER A VERDADE.

GRATO.


AMILSON SEABRA (MINAÇU/GO, 26/NOVEMBRO/2008)

AMILSON SEABRA (20/11/2008 - 15:00)
FERNANDA GIANNASI, OLHA OQUE VOCÊ FALOU NESTE SITE ", rebate Fernanda Giannasi. "Nesses 170 mil a 200 mil estão computados todos os trabalhadores do comércio varejista, que trabalha com centenas de itens, do setor de transportes e da construção civil. Hoje em dia a indústria do amianto, incluindo fábricas e mineradora, emprega cerca de 3 mil trabalhadores." REALMENTE VOCÊ QUER BANIR O AMIANTO A CUSTA DE MENTIRAS, SABE POR QUE? PORQUE SÓ A MINERADORA MAIS OS SERVIÇOS TERCEIRIZADOS AQUI NA MINA, DÁ QUASE 3000 FUNCIONÁRIOS, VOCÊ ESQUECEU DA PRECON, DA ETERNIT, VOCÊ ESQUECEU QUE 60% DA RENDA DE MINAÇU VEM DA SAMA; ÊH FERNANDA JOGA LIMPO, SEJA HONESTA COM VOCÊ MESMA E COM A NOSSA CIDADE, AH SE VOCÊ IMPARCIAL E SOUBESSE JULGAR AS COISAS COMO ELAS SÃO, SERIA TÃO BOM.


AMILSON SEABRA
20/NOV/2008

AMILSON SEABRA (20/11/2008 - 10:17)
Fernanda Giannasi, O AMIANTO CRISOTILA COMEÇOU A SER EXTRAÍDO AQUI EM MINAÇU/GO FOI EM 1964 E NÃO EM 1980, E EU ESTOU AQUI DESDE 1969, MORANDO AQUI NA MINA, RESPIRANDO O AR DAQUI, POR QUE QUE ESTOU SADIO? MEU PULMÃO NÃO TEM DOENÇA DO DIABO COMO VOCES DIZEM POR AÍ, QUASE TODOS OS DIAS CORRO 6 KM (ATLETISMO). VOCE ESTÁ CONFUNDINDO CRISOTILA COM ANFIBÓLIO, ATÉ AGORA SÓ TIVE INFORMAÇÃO DE 02 PESSOAS QUE MORRERAM COM CANCER NO PULMÃO, MAS TODAS AS DUAS FUMAVAM APROXIMADAMENTE 4 CARTEIRAS DE CIGARROS POR DIA E TODAS AS 02 PESSOAS JÁ TRABALHARAM COM O AMIANTO ANFIBÓLIO (EX.:ENTRA TODOS OS DIAS DENTRO DE UMA SALA AREJADA SEM FIBRA SEM POEIRA E FUMA 4 CART. DE CIGARRO POR DIA, VOCÊ NÃO VAI PRECISAR DE 50 ANOS, 40 ANOS, 30 NEM ANOS NÃO, VOCÊ PODE TER CERTEZA QUE ANTES DISSO VOCÊ JÁ BATEU AS POTAS), DIANTE DESTA EXEMPLIFICAÇÃO, POR QUE VOCÊ NÃO TENTA BANIR O CIGARRO FERNANDA? AGORA SE VOCÊ TIVESSE BRIGANDO PARA BANIR O ANFIBÓLIO QUE DEMORA 48 ANOS PARA SER EXPELIDO DO PULMÃO , SENDO QUE O CRISOTILA SÓ DEMORA 24 HORAS, OU SEJA, 01 DIA; A DIFERENÇA ENTRE AS DUAS FIBRAS É GRANDE: O ANFIBÓLIO É DURO QUASE IGUAL A UMA AGULHA, SE VOCÊ FECHAR A MÃO COM ELE DENTRO E APERTAR, ELE FURA A SUA MÃO; JÁ O CRISOTILA É COMO SE FOSSE ALGODÃO, NÃO FAZ NENHUM MAL.


(INFELIZMENTE TEM MUITO DINHEIRO ROLANDO NESSA JOGADA DE BANIR O CRISOTILA)


AMILSON SEABRA

MINAÇU/GO 20/NOV/2008

NERI VICENTIM (29/10/2008 - 21:59)
NOTA DE FALECIMENTO ALDO VICENTIM EU FIQUEI MUITO TRISTE DE SABER DO FALECIMENTO DESTE DE ALDO VICENTIM EU FIQUEI MUITO TRISTE POR SABER QUE EU TAMBEN SOU DA FAMILIA VICENTIM MORO EM BALNEARIO CAMBORIU SANTA CATARINA

Everton, de Belo Horizonte (08/07/2008 - 19:14)
É um absurdo lidar com um produto quando só depois de anos poderá ser observado o seu mal. Por falar em pulmão, é bom lembrar que o maior causador de câncer pulmonar e que é muito pouco combatido, apesar de comprovadamente ser o mais mortal, o cigarro, é fabricado, vendido e divulgado tranquilamente. E pior, é divulgado no mundo inteiro associado às mais variadas imagens sedutoras, consumido por ídolos, formadores de opinião em todos os setores da sociedade. Os fabricantes de cigarros têm permissão de fabricar, divulgar e vender um produto que não traz nenhum benefício e que mata. Não serve nem para guardar água como as caixas d'água de amianto. Devemos nos escandalizar com o amianto, mas devemos erradicar é o cigarro. Vender um veneno e incentivar seu consumo por causa da geração de receita com os impostos, é uma das coisas mais hipócritas e vergonhosas desse país.

Lenita Ninow Pamplona (07/07/2008 - 11:47)
Caros leitores: vivi 28 anos (1968 - 1996) na mina de AMIANTO em MINAÇU - GO e posso afirmar que existe um grande exagero em tudo o que está sendo dito sobre o uso do amianto. O maior de todos os absurdos refere-se ao uso da caixa d´água, apenas para citar um exemplo. Não existe relação entre armazenar água em recipientes de amianto e qualquer doença provocada pelo pó do amianto. Os interessados devem procurar informações científicas e verificar que o pó do amianto (tipo anfibólio, principalmente) pode ser prejudicial caso seja inalado e tenha um determinado comprimento de fibra muito específico, numa faixa de alguns "micra" ou micrômetros (milésima parte do milímetro). As demais fibras são eliminadas naturalmente, tal e qual as demais poeiras que aspiramos no dia-a-dia.
O uso controlado do amianto crisotila está amplamente pesquisado e é passível de ser realizado.
As pessoas que lutam pelo banimento do amianto têm por base os problemas surgidos na Segunda Guerra Mundial com o jateamento de navios e o uso indiscriminado do amianto anfibólio e azul, comprovadamente prejudiciais.
É preciso haver bom senso em tudo e pensar que as fibras sintéticas que estão sendo usadas para substituir o amianto também são fibras. Lembrem-se também da grande quantidade de pessoas que morrem em decorrência do jateamento de areia e do trabalho nas minas de carvão. Nunca vi alguém sair em defesa destas pessoas com a veemência usada pela auditora fiscal do MTE - SP,Fernanda Giannase.Reflitam!

Renê Forster (06/07/2008 - 01:17)
Parabéns pela divulgação. Não sabia que o risco do amianto era tão grande.

Conceição Oliveira (05/07/2008 - 11:12)
Estima-se em 100 mil o número de mortes em todo mundo, milhares de casos de câncer de pulmão, mesotelioma e asbestose, decorrentes da exposição à poeira do amianto. Intervenções em fábricas brasileiras revelaram dezenas de trabalhadores doentes que desconheciam os seus diagnósticos. O Brasil é o terceiro maior produtor do mundo, superado apenas pela Rússia e pelo Canadá, produzindo cerca de 250 mil toneladas por ano. A professora de Sociologia no Trabalho Lucila Scavone, autora da pesquisa Amianto e suas conseqüências sócio-familiares, um trabalho realizado no Brasil entre os anos de 1995 a 1997 e financiado pelos institutos Inserm (França) e CNPQ (Brasil), revelou: "Um cidadão americano se expõe ao amianto, em média, a 100 gramas ao ano, enquanto um canadense a 500 g/ano e um brasileiro, mais ou menos a 1.400 g/ano"
Fonte dos dados sobre o Japão: A polêmica do amianto continua, por Mônica Carvalho Costa, Exodus Press

Conceição Oliveira (05/07/2008 - 11:10)
Gabriel, como vc deve ter lido na matéria da minha xará verá que ela diz:
'Em forma bruta, não prejudica a saúde se o ser humano deixá-la quieta. Em geral, as fibras que libera naturalmente no ar por ação de ventos e chuvas são grandes e não inaladas; os próprios pêlos do nariz barram a entrada delas no aparelho respiratório. O problema começa no processo de mineração.'
Logo, não é possível que vc ignore o que já foi comprovado: as micropartículas desta poeira matam e dado ao grande uso do abesto em nosso país, uma boa parte da população corre riscos e não apenas os trabalhadores como seu Aldo. Metade dos telhados no Brasil possuem telhas com abesto que ao serem perfuradas, ou no processo de deteriorização soltam essas micropartículas.

Mais de 40 países já proibiram o uso geral de toda forma de amianto como França, Itália e Alemanha. No Japão, o grande número de pessoas contaminadas nos últimos anos forçou o governo a anunciar o banimento total do amianto para até este ano. Lá, somente nos seis primeiros meses de 2005, foram registrados mais de 370 óbitos e quase um milhão de pessoas foi qualificado para receber benefícios do governo por causa das doenças do amianto. Casos de não-trabalhadores contaminados, ou seja, pessoas que eram apenas moradores em áreas de grande concentração de amianto, também deixaram os órgãos governamentais japoneses em alerta.
Continua

Conceição Oliveira (05/07/2008 - 10:33)
Gabriel lobby é lobby, corporações são corporações, Estados deveriam defender os interesses dos cidadãos e só o fazem a partir da nossa mobilização.
Se o amianto fosse tão inofensivo o senhor Aldo estaria vivo e os países desenvolvidos (não apenas economicamente, mas porque o acesso a cidadania não é uma falácia) não teriam proibido o seu uso.
Continuo achando que somos cidadãos meia-boca, que naturalizamos o desrespeito aos direitos e pouco nos sensibilizamos com o que efetivamente é importante: o direito à vida, à dignidade para todos, sem exceção.
Vivemos em uma era onde a seguridade alimentar está ameaçada e assistimos ao retrocesso da conservação do meio ambiente, mesmo assim, vemos até mesmo a esquerda defender os interesses do agronegócio, agro-indústria, especialmente dos biocombustíveis cuja produção e relações de produção são continuadas aos moldes do trabalho escravocrata; resgatamos ao bel prazer discursos da direita nacionalista ou coloniais ou ainda dos tempos da ditadura militar (depende da ocasião, o casuísmo varia)sobre os povos indígenas e os sem terra para defender os direitos dos latifundiários; registramos mais carros para circular do que bebês (e já estamos na faixa de déficit populacional)...
Sua fala cria uma falsa dicotomia pra justificar esta indústria assassina. Existem pesquisadores sérios e comprometidos com a cidadania, quem disse que uma fibra assassina tem de ser substituída por outra?

marcosomag (05/07/2008 - 02:19)
Se existe o risco para quem usa caixa de d'água de cimento amianto, ocorrerá uma epidemia de câncer no Brasil, pois existe milhões de caixas de cimento amianto nas resid%u1EBDncias brasileiras.

Fernando Mauro (05/07/2008 - 01:53)
Parabéns pela matéria! Aproveito também para me desculpar pela forma ríspida que a atendi quando estava apenas ligando para demonstrar o seu sentimento pelo falecimento da grande pessoa que foi e sempre será "em memória" meu sogro "Aldo". Infelizmente não tinha conhecimento do seu acompanhamento do caso e imaginei que fosse alguém querendo se aproveitar com a notícia e, ao invés disso, você está sim é reconhecendo o grande trabalho e a luta incessante dele contra esta "peste". Espero que você possa continuar abrindo os olhos e a mente dessas pessoas que ainda não acordaram para este fato ou que tem outros interesses "$$$". Obrigado.

Nota de Falecimento 03/07- Aldo Vicentin (03/07/2008 - 22:05)
Amyra El Khalili acaba de informar a triste notícia.
Que o sr.Aldo descanse desse imenso sofrimento que foi conviver com esta doença devastadora. Que sua família encontre algum conforto após a sua despedida e que nós deixemos de ser tão omissos e passemos a agir com mais cidadania. Informação, mobilização e pressão para imperdirmos que esta indústria da morte continue a fazer vítimas.
Conceição Oliveira

Carlos Augusto Fogaça (03/07/2008 - 18:18)
Quero Deixar um depoimento sobre o descaso das industrias e do "sindicato".
Há dez anos atrás, aproximadamente, a Brasilit (Esteio,RS) estava sendo precionada por deputados estaduais do PT para trocar o uso do amianto por outro tipo de fibra, pois o estado gaúcho proibiria por lei a produção de derivados de amianto. O Sindicato da construção civil, ligado à Força Sindical, fazia "lob" junto aos legisladores gaúchos para não deixarem a lei ser aprovada, sob a alegação de que a Brasilit teria que fechar suas portas e demitir seus funcionários gerando, assim, desemprego.
Hoje, o presidente do Sindicato da época é o mesmo e, além disso, é vereador. Suas campanhas (2ª reeleição) foram financiadas por, entre outras empresas,a Brasilit, através de doações de telhas de amianto, caixas d'água de amianto e por aí vai.
Não só a corrupão de um dirigerente sindical faz mal à população como suas atividades legislativas reiteram o descaso com a saúde.

Ao Rodrigo (03/07/2008 - 12:55)
O risco para quem usa caixa d´agua de amianto é zero. O resto é conversa fiada.

Dulce Leão (02/07/2008 - 22:16)
Conceição, já que voce gosta de EMOÇÕES FORTES sugiro que o seu próximo trabalho seja : PVC - CLORETO DE POLIVINILA. Em alguns países já é proíbido o seu uso em instalações hidráulicas. È um OSSO DURO DE ROER...com uma retaguarda PODEROSSÍSSIMA. Apenas como amostra : "O nonilfenol foi detectado na água comercializada em garrafas feitas de PVC e de polietileno de alta densidade (PEAD), no leite comercializado em embalagens contendo PEAD, 28 e em amostras de copos descartáveis, pratos e outros materiais plásticos à base de poliestireno ou polipropileno que entram em contato com alimentos. 23 Agentes estrogênicos provenientes da degradação dos APEs também foram detectados na água de consumo e em efluentes de estações de esgoto, em concentrações suficientes para causar a FEMINIZAÇÃO de peixes." Parabéns pelo seu trabalho sobre o amianto. Espero que o STF realmente proíba seu uso no Brasil.

Rodrigo (02/07/2008 - 21:33)
Quem usa caixa d'água de amianto corre risco?

Julio (02/07/2008 - 19:04)
Muito bom o texto... Assustador!
O que faltou foi mais dados sobre RS, RJ e PE e desde quando essa lei está valendo. Está banido todo e qualquer produto que contenha amianto? Se é isso, é uma farsa essa proibição, pois aqui no RS vendem-se telhas com amianto em qualquer esquina!

Gabriel (02/07/2008 - 18:16)
E só para finalizar, é um absurdo relacionar as mortes dos fiscais aqui em Minas, que envolvia um problema com coroneis latifundiários, com a ameaça à doutora citada.

Gabriel (02/07/2008 - 18:01)
Caríssima Conceição, uma vez lí, e talvez nem seja uma verdade histórica, mas Lênin teria dito que "há pelo menos duas coisas que a sociedade burguesa nos deu, e não podemos negar: Bons modos e boa educação." Sequer nos conhecemos, que tal um pouco de respeito pela opinião diversa? Acho difícil duvidar que o que de fato mata é o dedo no gatilho, mas concordo plenamente que se tivessem menos gatilhos disponíveis aos dedos, teríamos um mundo melhor, por isso votei pelo sim no referendo. Mas olha que engraçado, defendo a legalização das drogas, do direito ao aborto... Para você ver que não consigo ser maniqueísta nas coisas que penso. Não me trate por ganancioso, coisa que não sou. Mas você já pensou sobre o lobby da industria dos substitutos do amianto? Quem são essas multinacionais? Mas o mais sério de tudo, é que sabe como se chama o substituto da fibra de amianto? Fibra sintética. Isso significa, que você quer substituir uma fibra que já se tem consciência do seu uso, por outra que ninguém sabe o que pode causar. Fibra é fibra. Água em caixa d´água não faz mal. Parte do Canadá é abastecido por rios que passam por dentro de minas de amianto. O que existe sobre o amianto é desconhecimento. Não nego que teve problemas, mas a perspectiva de um uso seguro me parece uma realidade.

Roberto Rosário (02/07/2008 - 16:34)
Pra quem quiser saber sobre o amianto no porta-aviões, aqui esta o link:
http://www.areamilitar.net/noticias/noticias.aspx?nrnot=503

Roberto Rosário (02/07/2008 - 16:10)
E, apesar de todo esse histórico, o governo brasileiro compra o porta-aviões São Paulo da França com toneladas de amianto usados para equilibrar o navio. Será que ninguém nos governos brasileiro e francês sabia disso?

Para o Gabriel (02/07/2008 - 11:24)
O Gabriel e 'quem mata é o dedo no gatilho e não o revólver', 'não é a lâmina da faca, mas a mão', 'detergente pode matar' e o que mais?
Cara, este argumento foi a ponta de lança que o grupo Veja/Glock e todo o lobby da indústria armamentista usou no referendo sobre o item do comércio de armas. De lá pra cá a segurança pública ficou ótima, né? Nenhum energúmeno que guarda armas de fogo em casa teve o filho morto por acidente ou foi morto por sua própria arma quando resolveu reagir em um assalto...
Curioso que todos aqueles que reproduziram este seu argumento equivocado tinham porte de arma ilegal, tal qual os bandidos que eles tanto odeiam, mesmo sendo as 'tais pessoas de bem'. Nunca vi tanta gente hipócrita no mundo, preferem a morte de trabalhadores do que se opor ao lucro das corporações.
Pois saiba que seria bom ter menos carros circulando nos grandes centros caóticos e mais transportes coletivos de qualidade; saiba que com o lucro abusivo que as indústrias que espalham a morte por aí, se houvesse lei e cidadãos menos imbecis elas seriam obrigadas a investir um pouco do dinheiro que ganham com a exploração e morte de trabalho semi escravo em pesquisas para descobrir produtos que substituam o amianto e outras substâncias assassinas.
Eu espero que vc não tenha esse câncer corrosivo ou alguém querido seu.
Haja, viu, não é possível que a truculência mental emburrecedora nos leve a este nível de insensibilidade diante da vida e da morte.
Conceição Oliveira

Hélio de Jesus (01/07/2008 - 23:56)
Parabéns à Conceição, precisamos, e muito de jornalistas como você. Nesta matéria, você mostrou como se deve agir diante de uma questão polêmica, buscando informações de todos os envolvidos.
Creio que o lobby é um dos piores cânceres do Brasil. Levando em consideração que temos políticos que, na sua maioria, são como bonecos de fantoche nas mãos dos financiadores de campanhas. Portanto, a aprovação de leis como estas são quase impossíveis. Mas, pelo que vemos, estamos evoluindo.
Abraços fraternais!!!

Thais Helena Lippel - Médica do Trabalho (01/07/2008 - 23:25)
Parabéns pela excelente matéria! Esta importante denúncia sobre os malefícios que o amianto provoca na saúde faz um alerta geral para nós todos. Os nossos digníssimos legisladores (deputados federais e senadores ) precisam urgentemente aprovar Lei que determine o imediato banimento do amianto no país. Em nome de uma vida com qualidade e digna para todos. Que cada um faça sua parte exigindo dos deputados de seu estado o banimento desta fibra cancerígena. O envio desta matéria para todos os cantos já elucidaria muito.

mara sallai (01/07/2008 - 21:02)
Conceicao. Voce tem a essencia do jornalismo e uma inconformada por natureza.

Gabriel (01/07/2008 - 17:35)
Quando se fala em lobby da industria, a referência pode ser sobre a industria do amianto ou sobre a industria que produz o substituto do amianto. Quanto a Saint Gobain investe nesses grupos que lutam pelo banimento??? E será que tem alguém propondo que se pare de produzir carros? Anos passado quantos morreram no Brasil por acidente? E a industria de pólvora? Ouvi dizer que até manteiga, usada sem cuidado pode matar.

Cristhian dos Santos Camilo (01/07/2008 - 16:04)
Incrível a promiscuidade de nossa justiça (assim mesmo, com "j" minúsculo) com advogados renomados. Os mesmos tribunais que deveriam interpretar a lei da maneira mais benéfica à sociedade se curva ante o desejo de lucro de meia dúzia de assassinos em ternos de marca. Nojento.

Romão e blogueiros, vamos ecoar fazer esta denúncia (01/07/2008 - 15:41)
Romão, precisamos fazer ecoar e em alto e bom som este contundente artigo de minha xará Conceição Lemes, não? Que tal fazer chamadas na mama terra, espalhar entre os ambientalistas daí? Se não nos mobilizarmos e usar nossos canais democráticos para dar visibilidade a este gigantesco problema de saúde pública e de poder corporativo continuaremos assistindo impassíveis o doloroso fim de muitos Aldos, Josés.....
PS. Amigos blogueiros que freqüentam o vi o mundo também acho que devam abrir espaços em seus blogs para chamar a leitura para este artigo.
Abraços
Conceição Oliveira

Leider Lincoln (01/07/2008 - 14:55)
AAzenha: realmente, um texto muito bom; Marcos Romão, pode ficar tranquilo, que o amianto só é nocivo para quem entra em contato com o pó dele. Em tese, pode-se comê-lo, se estiver úmido. Aqui em Goiás o representante político dos endurecedores de pulmão é o deputado Carlos Leréia, do PSDB e que tem base política em Minaçu. Queria ver se ele aconselha algum filho dele a trabalhar na SAMA...

Marcos Romao (01/07/2008 - 13:33)
Aqui na Alemanha até o antigo parlamento em Bonn teve seu prédio saneado, ou seja todas as fibras de amianto retiradas. Quando nao dá para tirar o arbesto de um prédio ele é simplesmente demolido.
Quando me lembro das caixas dágua que comprei há 20 anos para resistir à seca no em Santa Teresa -Rio. imagino quando é que vai se manifestar em meu puulmoes esta peste.

Luiz Carlos Azenha (01/07/2008 - 12:00)
Desde a Africa, parabens a Conceicao. Uma denuncia da maior gravidade!



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