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AGÊNCIA DO GOVERNO AMERICANO GASTOU MILHÕES DE DÓLARES PARA CAPACITAR GOVERNOS REGIONAIS DA BOLÍVIA

Atualizado em 04 de maio de 2008 às 15:17 | Publicado em 04 de maio de 2008 às 13:44

WASHINGTON - "Promover a democracia" parece ser um objetivo nobre. Que tipo de democracia? Aí é que começam os problemas. O conceito do Office of Transition Initiatives (OTI), ou Escritório de Iniciativas de Transição, foi adotado pelo governo dos Estados Unidos em 1994, como parte da United States Information Agency (USAID).

"Com a queda do muro de Berlim e a desintegração da União Soviética, países em todo o mundo entraram em um período de mudança dramática", diz a justificativa apresentada pela USAID para adotar o programa. "Seja na Europa central, África, Ásia ou América Latina, governos autoritários sucumbiram diante das forças da democracia, grupos étnicos e religiosos lutaram por controle de estados e antigos rivais saíram do campo de batalha para a mesa de negociação. Logo se tornou aparente que as escolhas feitas durante estes períodos de transição tinham enorme influência no futuro de um país. Ainda assim, também estava claro que as formas tradicionais de ajuda humanitária e de desenvolvimento não eram adequadas a esses novos desafios. Não havia mecanismo para as necessidades de resposta rápida da nova era, como a de estabilizar as transições democráticas, mitigar conflitos e reconstruir nações destruídas pela guerra", explica a USAID.

Fica implícito, portanto, que o importante seria influenciar "as escolhas" durante os "período de transição." Que escolhas? Isso não fica explícito. Mas é pouco provável que o governo dos Estados Unidos tenha financiado escolhas distintas dos objetivos da política externa do país.

"Portanto, o Office of Transition Initiatives (OTI) foi criado dentro do bureau humanitário da USAID em 1994 para dar assistência rápida, flexível e de curto prazo para tirar vantagem das janelas de oportunidade para construir democracia e paz. Ele constrói as fundações para o desenvolvimento de longo prazo ao promover a reconciliação, dar a partida na economia e ajudar a democracia estável a se firmar", explica a USAID.

Hoje os Estados Unidos mantém OTIs em seis países: Colômbia, Líbano, Nepal, Paquistão, Sudão e Venezuela. O escritório funciona dentro da Embaixada americana.

O OTI da Bolívia foi fechado.

Mas, enquanto funcionou, uma das tarefas foi a de fortalecer os governos departamentais do país.

De acordo com o próprio site da USAID:

"Durante o segundo semestre de 2007, o OTI continuou a construir o seu portfólio de atividades voltadas para fortalecer a capacidade institucional dos governos departamentais. Desde março de 2006, o OTI aprovou 116 empréstimos num total de U$ 4.451,249 para ajudar governos departamentais a operar mais estrategicamente, para melhorar a qualidade dos serviços e atingir tanto as comunidades locais urbanas e rurais, e para ajudar os prefeitos [nota do site: é como se chamam os governadores] a se tornarem bem sucedidos promotores do desenvolvimento econômico regional. Os projetos ofereceram apoio técnico e treinamento para funcionários das prefeituras em planejamento estratégico, orçamento e gerenciamento de projetos, gerenciamento financeiro, transparência administrativa, comunicações e administração do setor educacional."

Há, aí, um eco do passado. No golpe de 1964, no Brasil, os Estados Unidos se articularam com governos regionais (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais) para enfrentar o governo federal. Na Venezuela, que terá eleições regionais no segundo semestre, a estratégia é a mesma: fortalecer lideranças regionais que se opõem a Hugo Chávez.

Na Bolívia, entre março de 2004 e junho de 2007 o Escritório de Iniciativas de Transição da USAID financiou 379 projetos, investindo cerca de U$ 13,3 milhões através da empresa Casal Associates.

Essa, aliás, é uma nova característica da diplomacia americana: a terceirização dos serviços. No caso da Bolívia, a Casal Associates foi a empresa prestadora de serviços. que gerenciou o dinheiro público americano entregue a parceiros locais, que incluíram governos, ONGs e entidades da chamada sociedade civil.

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De acordo com a USAID, a agência gasta cerca de U$ 85 milhões por ano na Bolívia, em diversas parcerias. O embaixador americano no país, Philip Goldberg, que aparece na foto acima, tem um papel público de destaque.

Num país pobre como a Bolívia qualquer dólar faz diferença.

É óbvio que toda "ajuda externa" é condicional. Se "ajuda externa" resolvesse o problema de algum país, não teríamos mais pobreza nem subdesenvolvimento no mundo. O Banco Mundial "ajuda" desde que os países que recebem dinheiro sigam determinadas regras. É assim, também, com o dinheiro do Fundo Monetário Internacional. Quando o país A "ajuda" o país B ele pode condicionar essa "ajuda" a que o país B gaste o dinheiro comprando produtos do país A.

Aqui mesmo, em Washington, todo país que tem grandes interesses no mercado dos Estados Unidos contrata uma empresa lobista para atuar junto ao Congresso e ao governo americano. Esses lobistas são devidamente registrados e cumprem regras de transparência ditadas por autoridades locais.

A pergunta que cabe fazer é: e se o governo da China decidisse "promover a democracia proletária" nos Estados Unidos, financiando as atividades de ONGs, da sociedade civil e treinando americanos em várias atividades ligadas à política e à economia do país? Qual seria a reação do Congresso americano? E a da Casa Branca? E a dos próprios americanos?


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
fabiana, de muito muito longe (05/05/2008 - 07:56)
ateh hoje eu tento entender o que os estados unidos entendem por "democracia"...

Mateuz (04/05/2008 - 22:42)
Cada vez mais os EUA se assemelha ao Grande Irmão do livro 1984, aquele que vê e controla o mundo todo.

Gérson (04/05/2008 - 20:47)
Promover a democracia , deveria ser promover o respeito às constituições dos países e a vontade da maioria de cada país. Acontece que nem todas as constituições são legítimas. E aí dá pano pra manga, pois vai muito do "ponto de vista" de cada um. Queria ver os USA, promovendo democracia na Arábia Saudita,Kuwait,Emirados Árabes, por exemplo.

Leider Lincoln (04/05/2008 - 15:32)
Boa pergunta, Azenha, boa pergunta...



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