Atualizado e Publicado em 18 de janeiro de 2008 às 19:32

Em 1988, quando ainda existia a União Soviética, tive a chance de ficar diante do todo-poderoso Mikhail Gorbatchev. A entrevista exclusiva, gravada para a extinta Rede Manchete, teve grande repercussão. Era a prova definitiva dos novos tempos no país até então governado com mão de ferro pelo Partido Comunista. O encontro com Gorbatchev foi resultado de uma coincidência.
Visitávamos o Kremlin, a sede do poder em Moscou, quando o líder soviético apareceu com a comitiva dele. Atendeu a nosso pedido, parou e deu uma entrevista espontânea e improvisada. A entrevista só saiu por conta do homem que aparece na foto acima, falando ao microfone. Alexander Yakovlev, ex-embaixador da União Soviética no Canadá, serviu de tradutor improvisado. Ele traduziu minhas perguntas do inglês para o russo, assim como as respostas de Gorbatchev.
Só depois descobri o privilégio que tinha tido. Yakovlev, na época, era o braço direito do líder soviético. Era para Gorbatchev o que foi José Dirceu para Lula - mas no bom sentido. Propunha as reformas radicais, na política e na economia, que acabaram acelerando o colapso da URSS, uma superpotência combalida que disputava poder com os Estados Unidos.

Durante a entrevista, houve um momento bastante curioso. Yakovlev deixou cair os óculos. Os homens da segurança de Gorbatchev, sem entender porque olhávamos para o chão, ficaram agitados. Ao agachar, quase bati cabeça com o Yakovlev.
Depois do colapso da União Soviética, Gorby - como era conhecido pela imprensa ocidental - tornou-se mais querido fora do que dentro da Rússia. Em 1996, disputou a presidência com Boris Ieltsin. Teve apenas 0,5% dos votos, ficou em sétimo lugar e não passou do primeiro turno. Ainda assim, preservou a dignidade e até hoje se dedica a causas humanitárias.
Alexander Yakovlev morreu em Moscou, aos 82 anos, no dia 18 de outubro de 2005. Continuava envolvido em esforços para democratizar a Rússia, agora governada com mão forte por Vladimir Putin. Segundo o obituário publicado pelo diário eletrônico russo Kommersant, as paixões despertadas pela atuação de Yakovlev não foram desfeitas com a morte dele.
Adversários políticos nem quiseram falar sobre a morte de Yakovlev. Assim como Mikhail Gorbatchev, ele é visto como traidor por muitos russos - ao desmantelar a União Soviética, teria provocado a perda de poder e prestígio do país e permitido a expansão do imperialismo americano.

Eu me lembro dele como um sorridente e afável diplomata. Sem ajuda de Alexander Yakovlev, eu não teria conseguido conversar com Gorbatchev naquela tarde ensolarada de 1988. Sem ele, é provável que a União Soviética tivesse tido um fim muito mais traumático e violento.
Também inusitado nessa história é que Hélio Alvarez, então operador de videotape da TV Manchete, teve a presença de espírito de sacar a máquina fotográfica e fazer registros da entrevista.
Publicado originalmente em 2005 e atualizado em 17 de janeiro de 2008
Gorbchov é o responsável pelas máfias que surgiram depois da queda do comunismo. Um canalha que conseguiu o que nem os EUA tentaram durante décadas: exterminar com o socialismo real.