Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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De volta à URSS Utilidades

SERGEI SUBIU NA VIDA

Atualizado em 11 de abril de 2008 às 16:46 | Publicado em 19 de dezembro de 2007 às 17:22

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Foram dez anos de intervalo entre as duas fotos. Na de cima aparece Sergei Dorenko, nosso guia na visita que fizemos à União Soviética, em 1988. Relembro: a URSS, ou União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, antes de desmoronar, era formada pela Rússia, países da Ásia Central - como o Casaquistão - Ucrânia, Bielorússia e os três países Bálticos - Estônia, Latvia e Lituânia.

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Em 1998, Sergei já era o comentarista político mais temido da Rússia. Era capaz de construir ou destruir reputações. O programa dele tinha tanta audiência que Dorenko era bajulado abertamente pelos poderosos do Kremlin.

Quando Sergei nos acompanhou, servindo de guia e tradutor, era funcionário do Ministério da Informação. A União Soviética ainda existia. A tarefa dele, ao nos servir de guia, também era a de ficar de olho em nós, que o chamávamos pelas costas de "o nosso KGB" - a temida polícia política soviética e agora russa.

Sergei tinha aprendido português em Angola. Como sempre acontece, de início ficou desorientado com as nossas piadas e brincadeiras. Depois, relaxou. Ainda assim acredito que toda noite escrevia um relatório sobre as atividades de nossa equipe, para encher o escaninho de algum burocrata comunista.

O jornalista José Arbex Jr. foi correspondente da Folha de S. Paulo em Moscou. Ele me contou que evitava até olhar para mulheres soviéticas na rua. Arbex tinha ouvido de colegas que a KGB costumava plantar prostitutas para atrair correspondentes estrangeiros. Era uma forma de poder chantageá-los, se caíssem na armadilha e fossem filmados com as mulheres.

O Sergei parecia simpatizar com as reformas de Mikhail Gorbatchev, que resultaram na dissolução da União Soviética. Ironicamente, foi o que abriu caminho para a incrível ascensão de Dorenko.

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Sergei viveu conosco um momento que, do ponto de vista dele, certamente foi histórico. Nossa equipe mambembe, da TV Manchete, driblou a KGB e entrevistou Gorbatchev na marra, dentro do Kremlin. Sergei não estava presente no momento da entrevista. Havíamos dispensado o trabalho dele, alegando que passaríamos o dia no hotel.

Quando soube de nossa façanha, ficou tão empolgado quanto nós. Correu para o hotel e ajudou a traduzir as palavras de Gorbatchev. "Vocês não têm idéia do que conseguiram", disse Sergei. Ele estava acostumado ao comportamento bovino dos jornalistas soviéticos e com o isolamento dos líderes do país.

Dez anos depois, foi a minha vez de tomar um susto. Descobri que Sergei tinha se tornado o comentarista mais influente da Rússia, durante o governo de Boris Ieltsin. Definido pelos críticos dele como um cão de ataque, Sergei se defendia dizendo não existir campanha política limpa. "Se eles lerem os Dez Mandamentos, vão descobrir que é pecado matar e roubar. Não existe campanha limpa se os candidatos são sujos", afirmou Sergei.

Nos anos 90, nosso ex-guia se associou ao barão da mídia russo Boris Berezovsky, que ficou bilionário durante as privatizações que aconteceram depois da queda do regime comunista. Berezovsky, em parceria com o governo, controlava a mais importante rede de TV da Rússia. Sergei Dorenko era a principal estrela da emissora.

Quando Vladimir Putin surgiu na cena política, com o apoio de Berezovsky, Sergei fez o trabalho de destruir a reputação dos adversários políticos de Putin. Usava um estilo agressivo, polêmico, irônico, mordaz - tudo isso era novidade para os telespectadores russos. O que aconteceu em seguida é tradição da história política russa. Uma vez instalado no Kremlin, Putin já não precisava mais de Berezovsky. Tentou atrair Sergei para o lado dele.

Dorenko afirma que teve quatro encontros com Putin no período de um ano. Diz que nas reuniões, no Kremlin, recebeu propostas para mudar de lado. Putin forçou Berezovsky a vender as ações da emissora estatal e a buscar exílio, sob a ameaça de ser processado. O magnata continua vivendo fora da Rússia. O programa de Sergei Dorenko foi tirado do ar.

Ele continuou fiel a Berezovsky. Caiu em desgraça no Kremlin, mas promete voltar à TV. "Eu vou voltar. Agora, em vinte ou em dois mil anos", prometeu numa entrevista.

Publicado em 2005

Do "G1":

"Alexander Litvinenko, que morreu na noite desta quinta-feira (23) em um hospital de Londres por suposto envenenamento, acusou o presidente russo Vladimir Putin de ser o responsável por sua morte. A acusação foi feita em uma carta póstuma deixada pelo ex-espião russo, lida nesta sexta-feira (24) por Alex Goldfarb, amigo e porta-voz do espião.

Às portas do University College Hospital, de Londres, Goldfarb afirmou que Litvinenko decidiu deixar uma nota no último dia 21, quando se deu conta de que corria risco de morte. "Você pode conseguir calar um homem (...), mas isso terá conseqüências, senhor Putin, sobre o resto de sua vida", afirma Litvinenko na nota, acrescentando que o presidente russo é "indigno" de seu posto.

Amigos culpam "forças malignas russas" pela morte de Litvinenko. O ex-espião russo, conhecido por suas críticas ao presidente Vladimir Putin, chamou de "brutal" e "impiedoso" o responsável por sua morte, no comunicado. O suposto envenenamento está sendo investigado pela Scotland Yard.

Litvinenko, que, em 2001, recebeu asilo político na Grã-Bretanha - para onde tinha fugido após denúncias e a perseguição das autoridades russas -, foi internado em estado grave em uma clínica em Londres com sintomas de intoxicação de tálio, um metal incolor e inodoro altamente tóxico, usado para matar ratos e formigas. A autópsia que será feita no corpo do ex-coronel da KGB trará, possivelmente, provas mais fortes sobre o suposto envenenamento.

Nascido em 1962, em Voronezh, cerca de 300 quilômetros ao sul de Moscou, Litvinenko foi convocado para as Forças Armadas em 1980 e, em menos de 20 anos, passou de soldado a coronel de um dos departamentos mais prestigiosos do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB, antiga KGB): subchefe do Departamento 7, encarregado da luta contra o terrorismo e o crime organizado.

Sua carreira veio abaixo em novembro de 1998, quando ele deu uma entrevista coletiva em Moscou para denunciar toda uma série de ações ilegais dos dirigentes do FSB, então liderado por Vladimir Putin - que, na época, iniciou sua ascensão ao poder na Rússia.

Naquele momento, o alto oficial de Segurança havia dito que, na presença de vários de seu colegas, tinha recebido a ordem de seu superior de assassinar o então secretário do Conselho de Segurança da Rússia e empresário Boris Berezovski, hoje asilado em Londres e inimigo declarado de Putin. Pouco depois, o então chefe do serviço secreto e hoje chefe do Kremlin anunciou oficialmente que as denúncias de Litvinenko "não podiam ser comprovadas" e, em março de 1999, o então coronel foi acusado de "abuso de poder", retirado do cargo e detido.

Como conselheiro de Berezovski - quando era secretário do Conselho de Segurança -, o ex-coronel deveria ter gozado de imunidade. No entanto, ele foi enviado para a prisão de segurança máxima Lefortovo, sob controle direto do FSB. Berezovski tentou evitar a prisão e, para isso, até se encontrou com Putin, na época já primeiro-ministro.

A tentativa, contudo, foi inútil. No entanto, em novembro de 1999, um tribunal declarou Litvinenko inocente das acusações que pesavam contra ele. Contudo, ele foi preso novamente pelo FSB na própria sala de julgamento, sob uma nova falsa acusação. Em 2000, foi a Promotoria que se viu obrigada a encerrar o caso e libertar Litvinenko.

Ao mesmo tempo, entretanto, foi feita uma terceira acusação contra ele, e o ex-coronel ficou proibido de abandonar sua residência. Pouco depois, Litvinenko conseguiu fugir da Rússia e apareceu com sua família em Londres, onde pediu asilo político devido à "incessante perseguição por parte do serviço secreto russo".

O ex-coronel da KGB revelou pouco depois que, uma vez exilado na capital britânica, ele, sua esposa e sua filha recebiam ameaças freqüentes. Desde que chegou ao Reino Unido, Litvinenko não parou de denunciar os excessos do regime russo. O ex-espião afirmou em Londres que o serviço secreto tinha explodido dois edifícios residenciais em Moscou três anos antes, embora o Kremlin tenha atribuído o caso a terroristas chechenos.

Esses atentados ocorreram um dia antes do início da segunda guerra da Chechênia, que serviu de cenário para a campanha eleitoral de Putin à Presidência. No final de 2001, foi publicado em Nova York seu livro "Blowing up Russia", que serviu de base para o roteiro de um filme produzido pela França. Empenhado na defesa dos direitos humanos na Rússia, o ex-coronel trabalhava em contato estreito com a jornalista Anna Politkovskaya.

Em outubro, quando a jornalista foi assassinada a tiros na porta de sua casa em Moscou, Litvinenko iniciou sua própria investigação. Pouco depois de ter conseguido o asilo político na Grã-Bretanha, Litvinenko escreveu: "Tenho certeza de que chegará o dia em que minha família e eu poderemos retornar à Rússia".

MEU COMENTÁRIO:

Sergei Dorenko que se cuide. Vladimir Putin não está para brincadeira. Montado num surto de nacionalismo que acompanha o cerco estratégico americano à Rússia, Putin reina hoje como um czar.

Publicado originalmente em 2005 e atualizado em 24 de novembro de 2006


 


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Luiz Augusto Barroso (16/07/2008 - 10:43)
Eu vi o filme, no Festival de Cinema do Rio: chocante.



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