Vi o Mundo, por Luiz Carlos Azenha
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CONFRONTO DE EGOS

Atualizado e Publicado em 18 de janeiro de 2008 às 17:59

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Raisa observava. Quando falava, Mikhail Gorbatchev ouvia. Foi a mulher mais poderosa na história da extinta União Soviética. Em maio de 1988, entrevistei Raisa em Moscou. Perguntei, entre outras coisas, se ela acreditava em astrologia. "Eu, não!", respondeu. "Acredito na prática marxista".

A pergunta que fiz foi mera provocação, uma vez que, na época, a imprensa ocidental especulava sobre os hábitos estranhos da primeira-dama americana Nancy Reagan - um deles o de não sair de casa sem antes ouvir uma astróloga.

Na entrevista, Raisa também desmentiu os boatos de que não se entendia com Nancy Reagan, a mulher de Ronald Reagan. As fofocas faziam a felicidade da imprensa ocidental. Nancy era tão poderosa quanto um ministro. Mandava prender e soltar na Casa Branca.

Formada em Sociologia e professora de Filosofia, Raisa era considerada pedante por Nancy. Era a primeira vez que a mulher de um líder soviético aparecia em público, ao lado do marido. Raisa era elegante e inteligente. Em minha primeira viagem a Moscou, Ronald Reagan e Mikhail Gorbatchev se encontravam pela segunda vez.

Os dois países estavam armados até os dentes. O nuclear arsenal combinado poderia destruir a Terra várias vezes. Reagan e Gorbatchev já tinham tido um encontro na Islândia, que também acompanhei.

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Assessores de Reagan odiavam Nancy. Diziam que a ambição dela era tamanha que levou o marido a concorrer à Casa Branca, depois de ter sido governador da Califórnia. A imprensa americana especulava que Nancy consultava a astróloga até para definir a agenda do marido. Ela negava. Anos depois, no livro de memórias que escreveu, Nancy confessou: de fato, passou a consultar com frequência a astróloga Joan Quigley, depois da tentativa de assassinato de Reagan, em Washington, no dia 30 de março de 1981.

"Fui criticada e ridicularizada por procurar a astrologia", escreveu Nancy. "Eu fazia qualquer coisa para proteger meu marido e mantê-lo vivo", continuou. Nancy mandou instalar linhas especiais de telefone para falar diretamente com Quigley. Recebia uma lista de dias bons ou maus para as aparições públicas do marido.

Forçava subordinados de Reagan a decidir a agenda dele de acordo com os palpites da astróloga. Quando se encontrou com Raisa pela primeira vez, em Moscou, Nancy se sentiu desconfortável com a conversa da anfitriã, carregada de observações históricas e filosóficas. Entre alguns jornalistas americanos, a mulher de Reagan era vista como uma víbora. A revista "Time" dedicou a ela uma capa com a pergunta: "Será que ela é tão má assim?"

Depois que Reagan deixou o poder, Nancy demonstrou o mesmo gênio controlador que exibiu na Casa Branca. Quando o ex-presidente morreu, em 2004, foi admirada pela lealdade ao marido, tanto no poder quanto na doença. Raisa morreu de leucemia, na Alemanha, em 1999, aos 67 anos de idade. O marido demonstrou por ela lealdade parecida com a de Nancy.

A vigília que Gorbatchev manteve no hospital e a emoção que expressou depois da morte de Raisa comoveram os russos. No encontro que testemunhei, em Moscou, Raisa e Nancy chegaram de mãos dadas a uma das cerimônias. Assessores disseram que era mera formalidade. Para as duas mulheres de gênio forte, a guerra fria nunca acabou.

Publicado originalmente em 2005


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Dulce Leão (19/01/2008 - 12:14)
Azenha, :) Raisa ainda nos deixou de "herança" uma legião de "Raissinhas" pelo mundo...todas com 20 anos de idade, hoje. Foi uma grande mulher, que marcou seu tempo, e certamente contribuiu para que olhássemos o Gorbi, de uma maneira mais simpática.



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