Atualizado em 23 de julho de 2008 às 10:24 | Publicado em 16 de janeiro de 2008 às 21:52

A foto acima é do tempo em que eu poderia ser confundido com um ativista islâmico, por causa da barba rala e nariz de árabe. Estamos na Praça Vermelha, diante do Kremlin, em Moscou. Atrás do muro de tijolos vermelhos ficava a sede do poder soviético - agora, é de onde governa Vladimir Putin.
O dono da Rede Manchete, para a qual eu trabalhava, aparece na foto durante a entrevista que fiz com ele. É observado pela mulher, Ana Bentes. Visitávamos a União Soviética, em 1988, nos tempos das reformas propostas por Mikhail Gorbatchev.
O doutor Adolpho Bloch acompanhava o presidente José Sarney, em visita oficial a Moscou. Bloch estava emocionado, de volta ao país em que nasceu. A família Bloch, de origem judaica, mudou-se da Ucrânia para o Brasil. A Ucrânia logo seria engolida pela União Soviética (hoje voltou a ser um país independente). Foi minha segunda visita à extinta União Soviética. Apesar da abertura política, promovida então por Mikhail Gorbatchev, o aparato de repressão da ditadura do proletariado estava praticamente intacto.

O visto que tiramos para entrar no país incluía um aviso: "Toda pessoa ao entrar na URSS deve proceder diretamente para o ponto de destino indicado no visto, onde deve registrar seu local de permanência no país no máximo em 24 horas."
Ainda assim, Adolpho Bloch estava esperançoso no futuro. Como integrante da comitiva oficial, pôde conversar em russo com Gorbatchev, no Kremlin. O folclore que cerca a vida de Adolpho é vasto. Conto o que me contaram. O dono da Rede Manchete teria notado que um funcionário freqüentemente pendurava o paletó na cadeira e sumia.
Decidiu demití-lo. O chefe imediato do funcionário reagiu: "Adolpho, o cara nem é contratado". "Então contrata e demite", teria respondido Bloch. A história faz parte do folclore da televisão e é constantemente repetida com outros personagens no papel de patrão: Boni e Silvio Santos, entre outros.
Bloch tinha amigos importantes em todo o mundo, entre eles o cientista Albert Sabin, o escritor Elie Wiesel - ganhador do prêmio Nobel - e o cineasta e cenógrafo italiano Franco Zefirelli.

Fiz parte da equipe da Rede Manchete que cobriu a Copa do Mundo da Itália, em 1990. Bloch conseguiu uma entrevista com Zefirelli na mansão do cineasta, na via Ápia (na foto, ele veste camisa azul clara). O cãozinho que aparece no colo de um colega era tratado por Zefirelli como se fosse um filho.
O cineasta fez as vinhetas usadas para promover a Copa italiana. Ele previa uma final entre Brasil e Itália (a Alemanha bateu a Argentina na final por 1 a 0). Terminada a entrevista, continuou o bate-papo com Zefirelli.
Ele nos contou que, a pedido de Bloch, decidiu montar uma ópera no Rio de Janeiro. A Manchete bancaria parte dos custos. Uma cena específica exigiria a presença de centenas de figurantes, atravessando o palco atrás dos personagens principais. Cada um deles receberia um cachê.
Ao visitar o teatro, Bloch ficou encantado com a produção, mas espantado com o número de figurantes. Com tanta gente, ia custar caro à emissora. Zefirelli disse que foi chamado de lado para ouvir uma sugestão: "Dispensa metade desses figurantes", teria dito Bloch. E sugerido: "Bota as mesmas pessoas passando várias vezes, de um lado para o outro, que o efeito será o mesmo".
Zefirelli fez que não era com ele. E Bloch desembolsou o dinheiro.
Publicado originalmente em 2005
Que eu me lembre, só houve uma ocasião em que a TV Manchete não colocou no ar um trecho de reportagem que fiz. Foi quando eu, o cinegrafista Domingos Mascarenhas e a então repórter da Folha de S. Paulo em Nova York, Renata Lo Prete, flagramos um caminhão de mudança sendo carregado com as malas da comitiva do então presidente José Sarney, que estava hospedado no hotel Waldorf Astoria, de onde sairia para retornar ao Brasil. As imagens eu incluí na reportagem, mas elas foram cortadas no Rio de Janeiro. A Folha noticiou.
CORREÇÃO:
do leitor Carlos Reiff Miranda:
A Ucrânia não foi engolida pela URSS. Ela se incorporou novamente à Rússia, em 1919, depois de uma sangrenta Revolução, em que comunistas, socialistas-revolucionários de esquerda e anarquistas lutaram contra a ocupação alemã e seu governo ditatorial naquele país. Os comunistas venceram e eram majoritariamente provenientes da classe operária, assim como na Rússia. Caso você não conheça, há um livro excelente sobre a Revolução Russa, que se chama O Ano Um da Revolução Russa, cujo autor é Victor Serge. Foi relançado, no ano passado, pela Editorial Boitempo. Nesse livro há dois capítulos dedicados à Revolução na Ucrânia. É um livro riquíssimo em informações, que nos ajuda muito a entender os erros e acertos ocorridos na URSS. É também uma das raras informações sobre a Revolução Russa escritas por alguém que participou dos fatos e que não tem o "dedo" do Stalin, nem da CIA. Victor Serge, após três anos de prisão, foi expulso da URSS em 1936. Morreu na miséria, no México.