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Veja pergunta: "De onde veio essa dinheirama?"

Atualizado em 31 de janeiro de 2009 às 17:10 | Publicado em 31 de janeiro de 2009 às 17:09

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O novo show do milhão

Descoberta de 26 800 notas de 50 reais num cofre de Murad leva à pergunta que não quer calar: afinal, de onde veio essa dinheirama?

Policarpo Junior

Na devassa nos escritórios das empresas de Jorge Murad em São Luís, os agentes federais encontraram duas portas de armário trancadas. Foram informados de que ali havia dois cofres e requisitaram as chaves e os segredos. Num deles, encontraram pilhas de documentos. No outro, de 1 metro de altura, acharam ouro em forma de papel: dezenas de maços de dinheiro e um envelope pardo, onde havia mais dinheiro, 150.000 reais. Por quase duas horas, dois delegados e seis agentes da Polícia Federal se ocuparam em contar a dinheirama toda, nota por nota. No fim, somaram 26.800 notas de 50 reais, o que totalizava 1,34 milhão de reais. A maioria dos maços estava amarrada com alças bancárias. O dinheiro foi acondicionado em duas caixas de papelão, lacradas pelos policiais. Encerrada a apreensão da grana, emergiram duas questões elementares: de onde veio o dinheiro e para onde ia. Supondo-se que ninguém esquece 1 milhão de reais num cofre, é impressionante o festival de versões que se ouviu até agora. É o novo show do milhão.

A primeira manifestação veio da governadora Roseana Sarney, afirmando que era normal ter dinheiro vivo no início do mês, quando em geral são feitos os pagamentos de salários dos funcionários. Depois, Roseana disse que não sabia a razão do dinheiro, já que estava afastada do cotidiano das empresas. Em seguida, um advogado da família, Vinícius César de Berredo Martins, declarou que o dinheiro não era da Lunus, empresa em que Roseana e Murad são sócios, mas de uma companhia que funciona no mesmo local, a Pousada dos Lençóis Empreendimentos Turísticos, da qual apenas Murad é sócio. E que essa empresa guardava a dinheirama no caixa para comprar madeira com a qual ergueria 100 chalés num complexo turístico na bela região dos Lençóis Maranhenses – o Parque dos Lençóis Eco Resort. Diante de versões tão díspares, escalou-se o sócio-gerente da Pousada dos Lençóis, Luís Carlos Cantanhede Fernandes, que se encarregaria de dar todas as explicações. Mas o show apenas continuou. Abaixo, as explicações de Fernandes a VEJA:

Fernandes – A maior parte do dinheiro seria usada para comprar o madeirame dos chalés.

Veja – De quem?
Fernandes – De um pessoal do sul do Pará.

Veja – E por que em dinheiro vivo?
Fernandes – É que lá é usual, o pessoal só trabalha com pagamento em espécie.

Veja – Quanta madeira seria comprada?
Fernandes – Isso eu não sei.

Mais tarde, numa nova conversa com VEJA, Fernandes foi questionado sobre o fato de sua empresa se encarregar de comprar madeira "de um pessoal do sul do Pará", considerando que havia uma empreiteira responsável pela construção dos chalés, a Pleno. Fernandes contou que a idéia era repassar o dinheiro para a construtora, tudo em cash, e depois a Pleno faria o pagamento à madeireira, também em cash. "Era para evitar o pagamento de CPMF." Nos termos da explicação de Fernandes, pode-se concluir então que entre o Maranhão e o Pará só se compra madeira carregando malas de dinheiro de um lado para o outro. Quanto ao resto do dinheiro, o sócio-gerente da Pousada dos Lençóis diz que se destinava ao pagamento de funcionários.

Veja – Quantos funcionários a empresa mantém na região do complexo turístico?
Fernandes – Por enquanto nenhum.

Veja – Nenhum?
Fernandes – O dinheiro era para pagar o salário de nossos funcionários em Balsas, onde temos um hotel.

Veja – Quantos funcionários são?
Fernandes – Uns cinqüenta.

Veja – Quanto seria gasto em salários?
Fernandes – Isso eu não sei.

A batida no escritório de Murad rendeu, na semana passada, a divulgação de uma imagem chocante, com o cofre arrombado e as pilhas de notas enfileiradas sobre a mesa. É absolutamente incomum, quase inédito, que uma empresa tenha tanto dinheiro vivo em seu caixa. Na semana passada, VEJA consultou executivos dos principais bancos do país. Segundo eles, só agências matrizes nas praças de São Paulo e do Rio de Janeiro abrem seu caixa com tanto dinheiro. Em três instituições, os executivos nem sequer se recordavam de ter recebido depósitos dessa magnitude algum dia. Numa quarta instituição, ressalvaram-se apenas os casos de grandes redes de supermercados, como Carrefour e Pão de Açúcar, que recebem muitos pagamentos à vista. Mesmo assim, as grandes empresas não guardam tanto dinheiro no próprio caixa. Uma companhia que fatura 3 bilhões de reais por ano, por exemplo, informou a VEJA que o maior valor que já ficou em seu cofre foi de 5.000 reais – e isso cinco anos atrás.

 
Fotos Eduardo Queiroga/Ag. Lumiar
    O Parque dos Lençóis Eco Resort na vida real e na propaganda: nem parece o mesmo lugar

E de onde a empresa de Jorge Murad teria tirado tanto dinheiro e guardado em um cofre instalado num edifício que nem tem esquema especial de segurança, apenas dois vigias que se revezam em turnos de oito horas? Seu sócio-gerente afirma que, inicialmente, tentou um financiamento oficial para tocar o complexo turístico em Lençóis Maranhenses, mas não obteve sucesso. Então, ele e Murad tiveram a idéia de vender lotes e chalés antecipados, antes mesmo de fincar a primeira estaca. A isca seria apenas um folheto em que se faz propaganda do empreendimento e se descrevem os chalés. Com isso, em apenas duas semanas, em fevereiro passado, conseguiram atrair oito compradores, que, juntos, adquiriram vinte chalés, segundo o sócio-gerente. A empresa embolsou 770.000 reais nessa operação. A outra parte da dinheirama, 650.000 reais, teria vindo de um empréstimo da Atlântica Segurança Técnica.

Veja – Houve muita publicidade para atrair os compradores para os chalés?
Fernandes – Não, escolhemos alguns amigos.

Veja – Quem são? O senhor pode dar uma relação dos compradores?
Fernandes – Consultei o advogado e não posso revelar.

Veja – Todos pagaram em dinheiro vivo?
Fernandes – Era a única condição, tinha de ser em dinheiro vivo por causa da CPMF.

Veja – Como era feito o pagamento?
Fernandes – Eles mandavam para o escritório ou levavam pessoalmente.

Veja – A Atlântica Segurança Técnica também fez o empréstimo em dinheiro vivo?
Fernandes – Sim.

Veja – Quando foi feito o empréstimo?
Fernandes – No dia 14 de fevereiro. Está tudo registrado na contabilidade.

Veja – De quem é a Atlântica?
Fernandes – É minha.

Veja – De quem?
Fernandes – Minha.

Além do empréstimo feito por uma empresa do próprio Fernandes, conclui-se que, numa cadeia inquebrável de semelhanças, oito compradores concordaram em investir num empreendimento que não saiu do papel, todos chegaram a essa conclusão em fevereiro, todos aceitaram pagar tudo em dinheiro vivo e, mais ainda, só usando notas de 50 reais. Há apenas um hiato. No ano passado, e não agora, a Pousada dos Lençóis contratou uma imobiliária de São Luís para comercializar os lotes. As planilhas da imobiliária, examinadas por VEJA, contam uma história diferente. Ali, verifica-se que 83 chalés foram vendidos – e não vinte. E o auge dos negócios foi em dezembro passado – e não em fevereiro. Pior: os vinte lotes que, segundo Fernandes, teriam sido vendidos em fevereiro a oito amigos já constavam como comercializados em dezembro, segundo a planilha mantida pela imobiliária. "Vendemos quase tudo quando as dunas da região apareceram na novela O Clone", diz um corretor. Além disso, as pessoas que compraram lotes em negociação com a imobiliária puderam pagar como o habitual: em cheque, não em cash.

Luís Carlos Cantanhede Fernandes acha que tanto a origem quanto o destino do dinheiro estão explicados. Chama a atenção, porém, que demonstre pouca intimidade com os detalhes do grande negócio de sua empresa. Fernandes não consegue sequer fazer uma descrição do escritório que divide com a Lunus. "Tem uma mesa, um computador e um cofre", diz ele. Na verdade, são dois cofres. No escritório da Lunus, há algum funcionário da Pousada dos Lençóis? "Talvez tenha um." Não há nenhum. No cofre da empresa havia só reais? "Não sei direito. Além dos reais, talvez houvesse uns dólares do Jorge, mas coisa pequena." Não havia dólar. A empresa de segurança, a Atlântica, que fez o tal empréstimo, tem negócios com o governo do Estado do Maranhão? "Acho que não." A empresa tem um contrato de vigilância. É estranho que o sócio-gerente esteja tão mal informado sobre os negócios. Quem sabe Jorge Murad pudesse ter explicações mais consistentes, mas, na semana passada, ele não quis falar. Se diz assustado com tudo e acha que seus telefones estão grampeados. Enquanto nada se explica, balança perigosamente a candidatura de Roseana Sarney à Presidência da República. Mas, afinal, quem vai responder à pergunta que vale 1 milhão? De onde veio o dinheiro?

A apreensão do dinheiro

A Polícia Federal apreendeu 1,34 milhão de reais encontrados no cofre da Lunus, empresa de Roseana Sarney. O dinheiro estava dividido em 268 maços de 5 000 reais, todos formados por notas de 50 reais

E as versões para explicá-lo

Primeira versão
O dinheiro estava lá pois seria usado para comprar madeira

Curiosidade
1,34 milhão de reais compram cerca de 600 metros cúbicos de madeira de lei, suficientes para encher vinte carretas. O vendedor teria certo aborrecimento ao receber o pagamento, pois precisaria de nove horas para contar as 26 800 notas de 50 reais

Segunda versão
O dinheiro estava lá pois outra empresa da qual Jorge Murad é sócio vendeu vinte chalés na praia para outras pessoas e todos os compradores pagaram em dinheiro.

Curiosidade
Oito pessoas decidiram adquirir a um só tempo vinte chalés e cada uma delas desembolsou 167.500 reais à vista e em dinheiro. Todas também pagaram a conta usando apenas notas de 50 reais.

Terceira versão
O dinheiro estava lá pois seria usado para o pagamento de cinqüenta funcionários de uma empresa de Jorge Murad no interior do Maranhão.

Curiosidade
1,34 milhão de reais é dinheiro suficiente para pagar um salário mínimo a 7.400 empregados. Se o dinheiro seria entregue a apenas cinqüenta funcionários, cada um deles teria de ganhar 26.800 reais, salário de executivo de multinacional.

Com reportagem de Felipe Patury

O ORIGINAL ESTÁ AQUI


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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
the tallk of the town (02/02/2009 - 17:30)
Caro Mauricio,

Definitivamente, nos honestos, sempre sabemos qto dinheiro tem na carteira.

Agora, não deixa de ser salutar, perceber que dentre a classe politica, nunca se viu o dinheiro dos tucanos. Nem da Alstom, nem do "Valerioduto", nem do Banestado, nem do Daniel Dantas, nem da Máfia das Sanguessugas (ou ela tb é petista?).

É só isso que incomoda.

No mais, quero que todos os corruptos, E PRINCIPALMENTE os CORRUPTORES, sejam presos ou linchados em praça publica.


Mauricio (31/01/2009 - 18:08)
Eles mostraram a grana da Roseana na imprensa, eu me lembro... o que eu não me lembro é de petistas protestando contra a exibição do dinheiro, como fizeram quando pegaram aquela quadrilha de "aloprados" com a mão na massa, sem que nenhum deles conseguisse declinarm origem e destino de 1,5 milhão. Nunca vi nenhum pessoa honesta que não saiba dar esse tipo de resposta.



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