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Abaixo a TPM e os preconceitos!

Publicado em: 27 de julho de 2012

por Conceição Lemes

Basta uma mulher mostrar-se nervosa, irritadiça ou explodir para quase automaticamente se ouvir no ambiente: 1) ela está “precisando” de homem; 2) ela está “naqueles” dias (referindo-se à menstruação); ou 3) ela está na TPM (tensão pré-menstrual).

Pois essas três frases são pejorativas, machistas, discriminadoras de gênero,  equivocadas. Chiliques não são exclusividade feminina, concorda? A síndrome da tensão pré-menstrual é um grande distúrbio ligado à menstruação. A TPM repercute em todo o organismo — física e emocionalmente. Atinge cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva.

“Enfim, é uma síndrome democrática”, ressalta a ginecologista e obstetra Fátima Duarte.

De fato, a TPM ocorre em todos os grupos sociais e faixas etárias, podendo se manifestar da primeira à última menstruação. Em geral, as queixas começam sete a dez dias antes da descida do sangue e melhoram durante ou logo depois. Juntando todos os sintomas já descritos na literatura médica, superam — pasme! — 150.

Porém, alguns são mais comuns. Nas esferas emocional e comportamental, diminuição de desejo sexual, mau humor, agressividade, depressão,
insônia, irritabilidade, ansiedade, fadiga, desânimo e falta de energia. Na área cognitiva, dificuldade de concentração e indecisão. Na física, inchaço das mamas e aumento de peso, em razão da retenção de água pelo organismo; dores musculares, nos seios, juntas, pernas,abdome e genitais; cefaleia; prisão de ventre; náusea e vômitos; e problemas de pele, como acne.

“Indubitavelmente, a TPM é uma doença da mulher moderna e está ligada à parte hormonal”, cientifica o ginecologista e professor Edmund
Chada Baracat, titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP.  Há inúmeras teorias a respeito, mas até agora não se sabe a sua causa. Uma das hipóteses é que a mulher sujeita à TPM fabricaria menos progesterona. Em consequência, haveria desequilíbrio de progesterona e estrogênio. Esse desbalanço, por sua vez, faria com que houvesse maior retenção de água no organismo.

Exercícios para todas

O fato é que, até agora, não há um tratamento medicamentoso único capaz de aliviar todos os sintomas da TPM. Vai depender de cada caso.

Mulheres com dores e inchaço nas mamas, por exemplo, melhoram comos diuréticos. Já as com depressão, com antidepressivos. Outras, com a associação de ambos. Muitas vezes o bloqueio da ovulação com contraceptivo
hormonal pode ser a solução. Suplementos de vitaminas B6  e E também podem ajudar. Converse com o seu médico a respeito.

“O importante é que a síndrome tem de melhorar”, fazem coro Fátima e Baracat, no livro Saúde — A hora é agora. Afinal, interfere muito na qualidade de vida. Por isso, eles recomendam a toda mulher com TPM estes quatro cuidados:

1) Exercite-se regularmente — A atividade física aumenta a fabricação de endorfinas (substâncias produzidas pelo cérebro e que têm efeito analgésico). A maior produção de endorfinas, por sua vez, melhora o nível de serotonina, aliviando depressão, irritabilidade e ansiedade.Escolha alguma atividade que lhe dê prazer. Além de amenizar a TPM, beneficia toda a saúde. Estimula inclusive a formação de massa óssea, evitando a osteoporose.

2) Evite chocolate, café, refrigerantes à base de cola e chá preto — Contêm cafeína e substâncias semelhantes, que aumentam a irritabilidade.

3) Diminua o sal — Isso faz o seu organismo reter menos água.

4) Reduza os enlatados e os embutidos (salsicha, presunto, salame e mortadela) — São ricos em cloreto de sódio, que é usado como conservante. Cloreto de sódio é o nome químico do sal de cozinha.

Detalhe: essas medidas ajudam tanto no tratamento quanto na prevenção da síndrome. Portanto, adote-as já. Abaixo a TPM e os preconceitos!

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“Ataques” noturnos à geladeira são sem-vergonhice?

Publicado em: 16 de março de 2012

por Conceição Lemes

A pessoa acorda decidida a manter a luta contra a balança. Durante o dia, se contenta com um bife grelhado e uma folhinha de alface ou não come nada. De repente, porém, no final de tarde, sucumbe à vontade incontrolável de comer, e “assalta” geladeira e despensa. Mesmo sem fome (até após refeições), devora em minutos o que encontra: bombons, tortas, biscoitos, arroz com feijão ou macarrão gelados, sanduíches, banana com refrigerante. Há quem se tranque na cozinha ou no quarto para não ser flagrado.

Aí, vêm os efeitos: empachamento e, pior, frustração, vergonha e culpa. A autoestima abaixa aos calcanhares, com carimbos de autocondenação do tipo “Não tenho jeito”, “Não tenho força de vontade”, “Sou sem-vergonha mesmo”.

“Só que esses ataques de comilança não são sem-vergonhice, não”, absolve a endocrinologista Maria Teresa Zanella, professora titular de Endocrinologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),  no  capítulo sobre obesidade do livro Saúde — A hora é agora.

O culpado — atenção! — é um distúrbio de nome longo e complicado: transtorno de compulsão alimentar periódica. Atinge de 20% a 40% dos pacientes que procuram os serviços de obesidade. O drama é que muitos médicos ainda o ignoram e costumam atribuir o que acontece à velha e injusta falta de força de vontade da pessoa. Logo, não pergunta sobre o assunto e o paciente tem vergonha de contar e levar bronca. Resultado: o diagnóstico correto não é feito e o tratamento da obesidade fracassa.

CONTRA A VONTADE MESMO

Antes que alguns gordinhos se incluam nesse diagnóstico, que fique claro: beliscar o dia inteiro ou exagerar em todas as refeições não é transtorno de compulsão alimentar periódica. Também não sofre do transtorno quem, de raro em raro, tem um ataque de comilança. Isso pode ocorrer com qualquer pessoa em momentos de tristeza ou estresse intensos. É doença quando as investidas se tornam frequentes: no mínimo, dois episódios de compulsão alimentar por semana, durante seis meses consecutivos.

“Trata-se de compulsão no sentido de ser algo que o indivíduo faz contra a vontade”, explica o psiquiatra Arthur Kaufman,  coordenador do Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato), do Instituto de Psiquiatriado Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da USP.

Em outras palavras: a pessoa quer evitar mas não consegue controlar. Come além do que pretendia, quando não precisava ou não queria mais. A medicina ainda não sabe bem por que isso acontece. Nesses obesos, aparentemente há diminuição no cérebro de serotonina, substância produzida pelas terminações nervosas das células do sistema nervoso central, e que é uma das “donas” do humor. A sua baixa no cérebro causa depressão. Do ponto de vista psicológico, já foram detectados vários outros fatores associados: ansiedade, estresse, raiva, tédio, frustração e solidão. Mas os ataques noturnos de comilança também podem ser apenas devido à insônia.

HORÁRIOS E COMIDAS PREFENCIAIS

Na verdade, os estudos sobre o transtorno de compulsão alimentar periódica são recentes. Os primeiros datam de 1994. Desde então, pesquisadores já descobriram, por exemplo, que os assaltos a geladeiras e despensas ocorrem a partir do final da tarde, e seguem noite adentro.

Há várias hipóteses para a preferência por esse horário. Talvez todas atuem em conjunto:

* É o momento em que a pessoa deixou o trabalho, está em casa e com mais condições para o ataque. Principalmente há a proteção oferecida pela privacidade, já que a “invasão” à geladeira costuma ser escondida por vergonha do exagero.

* Com frequência, o obeso tenta jejuar o dia inteiro (é errado, não faça isso!). Então, no fim do dia, através de mecanismo regulador, o organismo “cobra” mais alimento.

*No final da tarde, baixa a taxa de “açúcar” no sangue (porque a pessoa fica sem comer!). Idem o nível de serotonina, que segue um ritmo de produção no decorrer do dia e normalmente diminui nesse horário. A serotonina está envolvida em inúmeros comportamentos e funções: humor, sono, saciedade, ansiedade, agressividade, impulsividade, entre outros.

“Provavelmente disfunções na regulação da serotonina também ajudam a explicar por que comidas ricas em carboidratos são o principal alvo”, cogita a endocrinologista.

Curiosamente, as invasões a geladeiras e despensas nunca são em busca de tomates, alfaces, cenouras, certo? São sempre por alimentos ricos em carboidratos, como doces, massas, pães, biscoitos, cereais, chocolates. “De pronto, os alimentos ricos em carboidratos aumentam a serotonina no cérebro”, justifica Kaufman. Assim, ao menos temporariamente, melhoram o humor, aliviando depressão e ansiedade.

MÉDICO PODE PIORAR

Desconhecer, portanto, o que acontece no transtorno de compulsão alimentar periódica é derrota quase certa na balança. “Em vez de melhorar, o médico pode até agravar a obesidade”, constata Maria Teresa.

Explica-se: o médico (por desinformação) e o obeso (por vergonha ou medo de levar bronca) raramente trocam informações sobre a compulsão alimentar. Em consequência, o transtorno não é tratado, a pessoa dificilmente perde peso e entra num círculo vicioso. Como não emagrece, cresce a ansiedade, até porque tem de apresentar resultados também ao médico. E ansiedade, como se sabe, predispõe a ataques de comilança, que aumentam a ansiedade, e assim vai. Como não sabe que se trata de distúrbio, o paciente se responsabiliza pelo fracasso. O médico, por diagnóstico errado, reforça a culpa.

Não é o único equívoco. Os médicos às vezes prescrevem inibidores de apetite à base de anfetamínicos, que não funcionam nos casos de compulsão alimentar já que o problema não é o apetite.

“Além disso, esses remédios exacerbam a depressão e a ansiedade, aumentando os ataques”, alerta o médico Simão Lottenberg, médico Simão Lottenberg, do Serviço de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP.

E o paciente piora, inclusive psicologicamente. O retrato é esta cruel autocondenação, repetida com frequência: “Se nem com remédio consigo parar de comer, eu não tenho solução mesmo”.

TEM SOLUÇÃO, SIM!

A obesidade associada ao transtorno de compulsão alimentar periódica tem solução. Além de atividade física regular e da mudança de hábitos alimentares — indicadas para todo mundo que deseja ter pesosaudável —, são indicados psicoterapia e/ou uso de certos antidepressivos.

A psicoterapia ajuda a pessoa a aprender a identificar o que causa a compulsão alimentar. Logo, se você suspeita dos seus ataques de comilança, não se envergonhe: discuta-os às claras com o médico. Abra o jogo, mesmo que tenham frequência inferior a dois episódios semanais e há menos de seis meses.

Na prática, se eles atrapalham o andamento da sua vida, merecem atenção e cuidado. A propósito: vários grupos ligados a universidades tratam gratuitamente o transtorno de compulsão alimentar periódica.

Quer umas dicas agora? Pois guarde bem estas dos doutores Maria Teresa, Kaufmann e Lottenberg, no livro  Saúde — A hora é agora:

* Não faça dietas muito restritivas. Aparentemente, a pessoa que passa por muitos períodos de jejum e fome está mais sujeita ao transtorno de compulsão alimentar periódica.

* Não fique o dia inteiro sem comer. Esse hábito errado facilita os ataques de comilança.

*  Não adianta aumentar a quantidade de carboidratos da dieta. O importante é ter uma alimentação o mais balanceada possível, incluindo os carboidratos.

* Fracione as refeições, com intervalos de aproximadamente três horas entre elas. Dietas muito restritivas, como você já sabe, favorecem os ataques de comilança.

* Pratique alguma atividade física regularmente — caminhada, por exemplo. Ela aumenta o nível de serotonina no cérebro, diminui a ansiedade, relaxa e reduz a compulsão alimentar.

* Se, apesar dessas medidas, sentir que o bicho começa a pegar, experimente dar uma volta no quarteirão, andar na esteira, telefonar para algum amigo ou tomar um banho de água fria. São truques que para alguns “ladrões” de geladeira funcionam. Vale a pena tentar.

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Aids: As aparências enganam, o HIV é democrático

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Atividade física: Dores e doooooooooooooooores

Publicado em: 12 de agosto de 2011

por Conceição Lemes

Se, na caminhada, corrida ou qualquer outra atividade física, sentir doooooooooooor, não force a barra, pare. Ou você fez algum movimento inadequado – por exemplo, pisou ou se abaixou errado – ou exagerou na dose – resolveu tirar o atraso de anos num dia ou malhou demais para ficar sarado. Em bom português: foi além da sua capacidade naquele momento.

“A dor durante ou logo após a atividade física é anormal”, alerta o médico Arnaldo José Hernandez, chefe do grupo de Medicina do Esporte do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de São Paulo, no  livro “Saúde — A hora é Agora”.“É sinal de superdesgaste metabólico, que é coisa de atleta, ou lesão muscular por sobrecarga mecânica, que ocorre tanto em atletas como na população em geral.”

Mas existe um segundo tipo. É a chamada dor muscular de início tardio: é tolerável, todo mundo a tem em certo grau quando aumenta a atividade física, e aparece de 24 a 48 horas após o exercício. “Provavelmente decorre de microlesões na musculatura causadas pela sobrecarga da atividade, e não por acúmulo de ácido láctico nos músculos, como muitos imaginam”, observa Hernandez. “É esse processo que lhe permite hoje andar um quarteirão, amanhã, dois, depois de amanhã, três, e assim sucessivamente.”

Explica-se:

* Toda vez que se aumenta a intensidade da atividade física em relação ao que se fazia, há sobrecarga sobre os músculos.

* Tal estímulo causa nos músculos microlesões, que produzem pequena reação inflamatória.

* A reação inflamatória, por sua vez, faz as microlesões “cicatrizarem”. E, aí, ocorre a dor, que demora de 24 a 48 horas para se manifestar. Tudo isso é absolutamente normal e fisiológico.

* Ao fazer o reparo, porém, os músculos sempre “cicatrizam” um pouco a mais. É essa reserva que os torna mais fortes e permite a você ir aumentando gradativamente a intensidade da atividade.

Agora, se a dor persistir por mais de 48 horas e for extremamente localizada, ela não é dor muscular de início tardio”, alerta Hernandez. “Pode ser lesão no tendão, fratura por estresse. Procure um médico.”

Portanto, há dores e dooooooooooooores. O melhor jeito de evitar as anormais é ir devagar na atividade física. É a receita para toda a vida.

Contra depressão, use atividade física regularmente

Ômega 3, proteção contra doenças cardíacas

Sexo, distribua carícias à vontade

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Vovó e vovô sem sede? Eles precisam de água!

Publicado em: 23 de janeiro de 2011

de Conceição Lemes*

Sempre que a vovó ou o vovô têm confusão mental, duas hipóteses atemorizam os familiares: será tumor na cabeça ou mal de Alzheimer?

Na imensa maioria dos casos não é nem um nem outro”, afirma  o clínico geral Arnaldo Lichtenstein, do Hospital das Clínicas de São Paulo, professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP e um dos especialistas entrevistados no livro Saúde — A hora é Agora (leia no pé deste texto).  “Os principais responsáveis são diabetesdescontrolado, infecção urinária e família que passa o dia inteiro no trabalho, no shopping ou no clube, fora de casa.”

Parece brincadeira, mas não é. Constantemente vovó e vovô não têm sede e deixam de tomar líquidos. Como não há gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez. E a desidratação no idoso tende a ser grave, afetando todo o organismo. Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos (“batedeira”), angina (dor no peito), coma e até mesmo morte.

Impossível?! Não. Ve ja por quê:

• Ao nascermos, 90% do nosso corpo é constituído de água. Na adolescência, isso cai para 70%. Na fase adulta, para 60%. Após os 60 anos, temos pouco mais de 50% de água. Isso faz parte do processo naturalde envelhecimento. Portanto, de saída, os idosos têm menor reserva hídrica.

• Mas há outro complicador. Mesmo desidratados, eles podem não sentir vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno funcionam menos.

• Explicamos. Nós temos sensores de água em várias partes do organismo. São eles que verificam a adequação do nível. Quando o nível cai, esses detectores acionam automaticamente o “alarme”. Pouca água significa menor quantidade de sangue, de oxigênio e de sais minerais circulando nas nossas artérias e veias. De imediato, então, o corpo “pede” água. Essa informação é passada ao cérebro, a gente sentesede e sai em busca de líquidos. Nos idosos, porém, esses mecanismos atuam menos.

A detecção de falta de água corporal e a percepção de sede estão diminuídas. Alguns ainda, devido a certas doenças, como artrose avançada, evitam se movimentar até para tomar água.

• Resultado: os idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque sentem menos sede. Além disso, para ter desidratação grave, eles não precisam de grandes perdas — por exemplo, diarreias, vômitos ou exposição intensa ao sol. Basta o dia estar bastante quente ou a umidade do ar baixar muito. Nessas situações, perde-se mais água pela respiração e suor e, se não houver reposição adequada, é desidratação na certa. Mesmo que o idoso seja saudável, essa perda prejudica o desempenho das reações químicas e das funções de todo o organismo.

“Por isso, vovós e vovôs, se habituem a beber líquidos”, alerta Lichtenstein. Por líquido entenda-se água, sucos, chás, água de coco, leite. Sopa, gelatina e frutas ricas em água (melão, melancia, abacaxi, laranja e mexerica) também funcionam como líquido. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!

O segundo alerta de Lichtenstein é para os familiares. Ofereçam constantemente líquidos aos idosos da casa. Lembre-lhes de que isso é vital. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que eles estão rejeitando líquidos e, de um dia para outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção. É quase certo que esses sintomas sejam decorrentes de desidratação. Líquido neles e rápido para um serviço médico.

****

*  O doutor Arnaldo Lichtenstein é clínico geral, médico do Hospital das Clínicas de São Paulo, professor colaborador da  Faculdade de Medicina da USP e  um dos 70 profissionais de saúde entrevistados por esta repórter para o livro Saúde — A Hora é agora, do qual é coautora.

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Aids: As aparências enganam, o HIV é democrático

Publicado em: 2 de dezembro de 2010

por Conceição Lemes

Você diria que o uso de camisinha, ou preservativo, é dispensável quando:

* Parceiro (a) é de boa família?

* Parceiro (a) teve poucas (os) namoradas (os)?

* Garoto (a) é de boa família, bem-educado (a)?

*  Garoto (a) tem alto nível social, cultural e econômico?

*  Garoto (a) é “supergato(a)” sofisticado(a)?

*  É amigo (a) da turma, colega de trabalho?

*  Se tem parceiro (a)  fixo (a)?

Pois nessas circunstâncias – atenção! –, o homem, ao não usar camisinha, a mulher, ao não pedi-la, se arriscam a pegar doenças sexualmente transmissíveis (DST), inclusive o HIV, o vírus da aids. É como se fizessem o “teste” de aids e demais DST pelo olho. Isso não existe!

Paradoxalmente, quase todo brasileiro sabe que a camisinha é a melhor maneira de evitar a infecção pelo HIV.

Diferentes pesquisas nas diferentes faixas etárias comprovam isso.  Uma delas, a Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas da População Brasileira 2008. Ela revelou que 97% dos jovens de 15 a 24 anos de idade sabem que o preservativo é a melhor maneira de evitar a infecção pelo HIV, mas o uso cai à medida que a parceria sexual se torna estável. O percentual de uso do preservativo na primeira relação sexual é de 61% e chega a 30,7% em todas as relações com parceiros fixos.

Outra pesquisa, divulgada nessa quarta-feira pelo Departamento DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde (MS), aponta tendência de crescimento do HIV entre os jovens, embora eles tenham elevado conhecimento sobre prevenção da aids e outras DST.

O estudo foi feito com 35.432 jovens de 17 a 20 anos de idade alistados no serviço militar. A prevalência do HIV nessa população passou de 0,09% para 0,12% em cinco anos. O estudo também revela que quanto menor a escolaridade maior o percentual de infectados pelo HIV.

“Os jovens não se veem em risco”, alerta o infectologista Dirceu Greco, diretor do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do MS. “É preciso que percebam que a prevenção é uma decisão pessoal e não estarão seguros se não se conscientizarem da necessidade do preservativo em todas as relações sexuais.”

DESCUBRA POR QUE O “TESTE” VISUAL É FURADO

Em tempos de aids, transar com camisinha não significa chamar o outro de infiel, promíscuo, nem de se apresentar como tal. Ao contrário. É pessoa antenada com os tempos modernos. É sinal de ética, responsabilidade, solidariedade, delicadeza, respeito, prova de amor. Quem ama cuida e se cuida.

E por que fazer o “teste” de DST e aids pelo olho não existe?!

Na verdade, ele é feito aos montes. Só que é furadíssimo.

O livro Saúde — A hora é agora, capítulo Relacionamento,  explica por quê. Atentem :

1) As aparências enganam. Bastaria ficar na sala de espera da Casa da Aids para atestar isso: garotas lindas, que poderiam ser modelos, e donas de casa exemplares; professores(as), engenheiros(as), advogados(as) e executivos(as), que diariamente cruzamos em bares, festas, cinema, reunião familiar, encontro de negócios; vovôs e vovós – eles têm vida sexual, sim! –, que volta e meia vemos contando histórias para os netos.

Ou seja, o “teste” visual é completamente furado. Portadores do HIV podem ficar dez anos, em média, sem sintomas, muitas vezes desconhecendo a própria contaminação e passando o vírus para os seus parceiros sexuais.

2) O HIV, como os germes causadores das demais DST, é absolutamente democrático. Ele não tem preconceitos de classe socioeconômica, raça, religião, idade, sexo, nível cultural, educacional ou padrão estético.

3) O HIV também não se importa se a pessoa gosta ou não da outra. O que o vírus da aids quer é continuar vivo. Para isso, passa de um parceiro a outro, e em poucos segundos. Basta um estar infectado e transar sem camisinha. O amor não protege ninguém desse risco.

4) O HIV é transmitido de homem para mulher, de mulher para homem, de homem para homem e de mulher para mulher. Atualmente a proporção de novas infecções em mulheres e homens é quase igual. “A aids hoje tem a cara da população do Brasil”, compara Castilho. Portanto, quem ainda acha que aids é doença de homossexuais, prostitutas e usuários de drogas corre o risco de ser “atropelado” pelo HIV a qualquer instante.

5) Embora vivamos numa sociedade que prega a monogamia, a vida é diferente. Bom seria que as pessoas fossem eternamente apaixonadas e felizes com um(a) único(a) parceiro(a). Mas isso é irreal. Assim como é impossível o Ministério da Saúde decretar: está proibido “pular a cerca”! Quem vai seguir a recomendação? Você pode falar por você. E pelo(a) parceiro(a)? Quem tem certeza de que o(a) seu (sua) nunca vai traí-la(o)?

6) Quando você faz amor, o(a) parceiro(a), mesmo que seja fixo(a), não é a sua única “companhia”. Transam junto os ex e as ex de ambos. Ou seja, o passado e o presente. E, aí, como ter certeza de que nenhuma dessas pessoas viveu situações que possam ter facilitado a transmissão do HIV, como drogas injetáveis, transfusão de sangue e sexo com portador do vírus?

“Na verdade, não existe mais grupo de risco”, garante a assistente social Susan Marisclaid Gasparini, do grupo de prevenção da Casa da Aids do HC-SP. “Atualmente, todos nós que temos vida sexual ativa somos vulneráveis ao HIV e às outras DST se não usarmos preservativo. Inclusive quem só ‘fica’.”

Tem mais. Não dá para tapar o sol com a peneira. A experiência de psicólogos, psiquiatras e terapeutas sexuais mostra que parte dos casais, incluindo as mulheres, tem relações extras. Assim, supondo que você ou seu (sua) parceiro(a) dê uma escapada com uma (um) colega de trabalho – que, por sua vez, tenha outro(a) parceiro(a). No mínimo, já são quatro transando.

“Logo, o ideal é usar camisinha em todas as relações sexuais – oficiais e extraoficiais”, assegura a médica Eliana Battaggia Guttierrez, diretora da Casa da Aids do Hospital das Clínicas de São Paulo e infectologista da Divisão de Moléstias Infecciosas da mesma instituição. “É mais eficaz e seguro para todos. De quebra, ajuda a reduzir a epidemia.”

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Check up: Conversa é a parte mais importante da consulta

Publicado em: 29 de setembro de 2010

por Conceição Lemes

Check ups com maior número de exames laboratoriais e inovações tecnológicas são a preferência nacional. Quanto mais testes realizados, mais valorizados. Porém, ao contrário do que muitos imaginam, exames de laboratório não previnem doenças.

A advertência é do médico Mílton de Arruda Martins, professor titular de Clínica Médica da Faculdade da USP, no livro Saúde – A hora é agora. Ele é um dos autores.

“Prevenção e promoção de saúde só se conseguem com estilo de vida saudável: exercícios regulares, não fumar, sexo seguro, cinto de segurança, entre outros cuidados”, afirma o professor Martins. “Consequentemente, as orientações dos profissionais de saúde envolvidos no atendimento fazem a diferença. Sem elas, o check-up não serve para nada.”

O MÉDICO DEVE PERGUNTAR MUITO E OUVIR MAIS AINDA

A prática do check-up de saúde começou na década de 1960 e tomou fôlego nos anos 1970. O termo foi emprestado da revisão de material da engenharia mecânica e incorporado à medicina como avaliação periódica de saúde.

A finalidade é avaliar a sua saúde no momento em que é realizado. Mais precisamente, rastrear determinadas doenças, visando ao diagnóstico precoce em pessoas assintomáticas, ou seja, que não sentem nada e estão muito bem, obrigada.

Ele não precisa ser em serviço especializado ou no ambulatório da empresa; pode ser com o seu próprio clínico geral. É recomendável a homens e mulheres. Para um adulto sem doença e com menos de 50 anos, basta pelo menos uma avaliação de saúde a cada dois anos; acima de 50, uma por ano.

“A conversa, para saber sua história pessoal e familiar de doenças, queixas atuais e antigas, é a parte mais importante da consulta”, ressalta Martins. “Associada ao exame físico, fornece os principais dados para o médico ir atrás das doenças de cada pessoa.”

Por isso, a conversa deve ser demorada: o médico deve perguntar muito e ouvir mais ainda. Eis algumas das perguntas obrigatórias e os respectivos motivos:

* Qual é a sua atividade profissional? É para, se necessário, indagar sobre possíveis problemas de saúde que decorrem do seu tipo de trabalho.

* Onde nasceu, viveu e mora? Determinadas doenças são preocupação apenas em certas regiões do Brasil. A resposta, portanto, pode fornecer pistas para o médico investigar problemas específicos.

* Tem alguma doença? Que medicamentos toma? Por exemplo, hipertensão, diabetes e colesterol elevado aumentam o risco de infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC), popularmente conhecido como derrame cerebral. Alguns remédios também podem colocar a sua saúde em risco, devido aos efeitos colaterais.

* Tem sentido ou observado algo diferente no corpo nos últimos tempos? Essas questões visam a identificar sintomas iniciais de eventual distúrbio.

* Tem antecedentes familiares de câncer, doença cardíaca ou diabetes? Quando existem casos na família, principalmente pais e irmãos, cuidados especiais são indispensáveis, inclusive avaliações de saúde e testes laboratoriais mais precoces.

* Está em dia com as vacinas? Adultos devem tomar algumas, e muitos não sabem disso.

* Tem praticado atividade física? Qual, quantos minutos diariamente, quantas vezes por semana? É para, dependendo do caso, indicar uma atividade física mais adequada.

* Fuma cigarro (industrializado, de palha, indiano ou de Bali), cigarrilha, charuto ou cachimbo? Quantos por dia? Há quanto tempo? Já pensou em largar? Qualquer que seja a sua idade, sempre é tempo para parar, e o médico pode orientá-lo sobre as melhores estratégias ou encaminhá-lo a serviços especializados.

* Consome bebida alcoólica todo dia? Quanto bebe por semana? Muitas vezes a pessoa passa da conta, sem ter consciência do abuso, e o consumo excessivo põe em risco a sua saúde e até a sua própria vida.

* Usa maconha, cocaína, crack ou ecstasy? Além de esclarecer sobre os riscos à saúde dessas drogas, o médico tem condições de indicar onde buscar ajuda para a pessoa dar um basta.

* Usa preservativo nas relações sexuais? A camisinha é um método eficaz para a prevenção da aids e outras doenças sexualmente transmissíveis.

* Como é o seu sono? Qualidade e quantidade são essenciais para uma vida saudável. Existem problemas que a orientação adequada resolve.

* Como é sua alimentação? Alimentação mais saudável ajuda a prevenir infarto do miocárdio, AVC, diabetes e vários tipos de câncer, entre outras doenças.

* Como anda seu humor? Tem se sentido para baixo, sem prazer, interesse ou disposição para as tarefas do dia a dia? O objetivo é descobrir quem tem depressão. O problema é frequente e piora muito a qualidade de vida, mas tem tratamento.

* Experimenta situações de risco de acidente ou violência no trabalho ou em casa? A identificação delas permite estabelecer estratégias de prevenção.

* Quantas vezes por dia escova os dentes? A higiene bucal adequada é essencial em todas as fases da vida.

* No lazer ou no trabalho, fica muito no sol? A exposição excessiva à luz solar aumenta o risco de câncer de pele, especialmente em quem tem pele clara. Uso de protetor solar é uma das maneiras de reduzir a ameaça.

* Está enxergando bem? E a sua audição, como anda? Para detectar problemas de visão e/ou audição.

– Ah, é pergunta demais! Demora muito, não tenho tempo a perder…

Acredite: não é invasão de privacidade nem tempo perdido ou exagero. A avaliação periódica de saúde só acontece uma vez a cada um ou dois anos, dependendo da sua idade. Logo, a conversa aprofundada é vital.

Fornece as principais pistas para rastrear sintomas e sinais que possam indicar doença em fase inicial e mereçam investigação. “Portanto, não minta nem omita”, aconselha Martins. “Pistas erradas muitas vezes atrasam diagnósticos, tratamentos e até impedem prevenções adequadas.”

A etapa seguinte ao check up é o exame físico. É importante sempre verificar: peso, altura e circunferência abdominal (devido à obesidade, que aumenta o risco de diabetes, infarto do coração, AVC e alguns tipos de câncer, entre outras doenças), pressão arterial e visão.

EXAMES INDISPENSÁVEIS A TODOS OS ADULTOS

A combinação da conversa com o exame físico é que determina o passo seguinte: os testes laboratoriais. Eles são importantes para pesquisar distúrbios que possam estar presentes, mas ainda não dão sintomas ou sinais.

O Centro de Promoção da Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo,  o CPS do HC-SP, recomenda de rotina para adultos apenas os seguintes exames:

1) Colesterol total e frações – É fator de risco importante para doenças nas coronárias (artérias que irrigam o coração) e AVC.

2) Glicemia – Verifica se a pessoa tem diabetes, que é o aumento do “açúcar” no sangue.

3) Densitometria óssea – Para saber se a mulher tem osteoporose.

4) Mamografia – Destina-se ao diagnóstico precoce do câncer de mama.

5) Papanicolau – Visa a diagnosticar câncer do colo do útero bem no início.

6) Pesquisa de sangue oculto nas fezes – Objetiva a detecção precoce de câncer no intestino grosso ou colorretal (cólon e reto).

“Esses testes são obrigatórios na avaliação periódica de saúde, mesmo que você esteja muito bem”, frisa o professor Martins.

Mas se pela avaliação clínica houver suspeita de algum problema, o médico pode solicitar mais exames. É igualmente necessário a pessoas em situações que implicam maior perigo à saúde.

— Ah, mas há médicos que não gostam de dar muitas explicações…A gente pergunta, eles não dão bola… Eles não gostam de ouvir…Se respondem, a gente não entende…

Verdade. Verdade. Verdade. Verdade. Mas não se intimide. Você tem direito a esclarecimentos não só sobre as questões levantadas acima, mas também sobre os exames que ele solicitar.  Por exemplo: Qual o objetivo do teste? Tem risco? Qual?  Informe-se antes de fazer os exames. Pese os prós e os contras e tome a decisão.

“Juntando o que foi detectado na conversa, no exame físico e nos testes, o médico deve orientar sobre o que é necessário para diminuir ou evitar riscos futuros à sua saúde”, arremata  o professor Martins. “As orientações do médico e dos demais profissionais de saúde envolvidos no check up são mais importantes do que os exames de laboratório solicitados.”

Nota do Viomundo: Esta repórter é um dos três autores do livro Saúde — A hora é agora. O professor Mílton de Arruda Martins e o médico Mario Ferreira Jr, coordenador do CPS-HC-SP, são os outros.

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Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim!

Publicado em: 9 de julho de 2010

por Conceição Lemes

Janeiro. O ex-marido de Maria Islaine de Morais, 31 anos, a executa  diante das câmeras de vídeo do seu salão de beleza em Belo Horizonte (MG).

Abril. Orestina Soares, 53 anos, de Duque de Caxias (RJ), é assassinada a pedradas pelo namorado. Engenho de Dentro (RJ): Dayana Alves da Silva, 24 anos, morre devido a queimaduras dois meses de o ex-marido atear-lhe fogo no corpo. Mônica Peixinho, 28 anos, é morta com um tiro na nuca em Lauro de Freitas (BA); seu companheiro é o principal suspeito é seu companheiro.

Maio. Mércia Nakashima, 28 anos, é assassinada em Nazaré Paulista (SP); seu ex-namorado é o principal suspeito.

Junho. Eliza Samudio, 25 anos,  é  assassinada em Vespasiano (MG) porque tentava provar que Bruno, ex-goleiro do Flamengo, era pai do seu filho.

A imensa maioria, porém, dessas estúpidas tragédias femininas não sai nos jornais. No Brasil, agressões contra as mulheres ocorrem a cada 15 segundos. Quanto mais machista a cultura local, maior a violência contra a mulher. Os responsáveis por seus assassinatos são principalmente os atuais ou antigos maridos, namorados ou companheiros.

O Mapa da Violência no Brasil 2010, feito com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSUS), revela:  entre 1997 e 2007, 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio, o que significa dez mulheres assassinadas por dia no país.

“As mulheres são menos vítimas de assassinatos do que os homens”, explica Julio Jacobo Wiaselfisz, autor do estudo. “Porém, o nível de assassinato feminino no Brasil fica acima do padrão internacional. Enquanto aqui ocorrem 4,2 assassinatos femininos por 100 mil habitantes, na maioria dos países europeus, os índices não ultrapassam 0,5 caso por 100 mil.”

CRESCE PROCURA PELO DISQUE 180; MAIORIA MORA COM AGRESSORES

Essa semana a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), divulgou o número de atendimentos de janeiro a maio de 2010. Somaram 271.719, um aumento de 95,5% em relação aos primeiros cinco meses de 2009 (138.985).

Nesse período, a Central 180 registrou 51.354  relatos de violência. Foram  29.515 casos de violência física, 13.464 de violência psicológica, 6.438 de violência moral, 887 de violência patrimonial, 1.060 de violência sexual, 42 situações de tráfico e 207 casos de cárcere privado.

“A procura pelos serviços da Central 180 aumentou nos primeiros cinco meses de 2010 devido à campanha nacional ‘Uma vida sem violência é um direito de todas as mulheres’, realizada no final de 2009”, acredita a ministra Nilcéa Freire, da SPM. “Também por causa da maior divulgação da Lei Maria da Penha.”

O  relatório SEPM deste ano traz informações inéditas:

* 39,8% declararam que sofrem  violência desde o inicio da relação.

*  38% disseram que a relação com o agressor tem mais de 10 anos de duração.

* 71,7%  residem com o agressor.

* 68,9% relataram que os filhos presenciam a violência; 15,6 dos filhos sofrem também violência.

* 58, 2% das mulheres que buscam o Disque 180 têm entre 20 e 45 anos, 68,3% estão casadas ou em união estável e 28,9% possuem nível médio de escolaridade.

E VOCÊ, JÁ FOI VÍTIMA DE VIOLÊNCIA MASCULINA?

Pense um pouco na convivência com seu marido, companheiro, noivo, namorado. Alguma vez ele:

1) Xingou-a ou fez com que você se sentisse mal a respeito de si mesma?

2) Depreciou ou humilhou você diante de outras pessoas?

3) Ameaçou machucá-la ou alguém de que você gosta, como pessoas queridas ou animais de estimação?

4) Deu-lhe um tapa ou jogou algo em você que poderia machucá-la?

5) Empurrou-a ou deu-lhe um tranco/chacoalhão?

6) Deu-lhe um chute, arrastou ou surrou você?

7) Ameaçou usar ou realmente usou arma de fogo, faca ou outro tipo de arma contra você?

8) Forçou-a fisicamente a manter relações sexuais quando você não queria?

9) Você teve relação sexual porque estava com medo do que ele pudesse fazer?

10) Forçou-a a uma prática sexual degradante ou humilhante?

“Se respondeu afirmativamente a pelo menos uma dessas perguntas, você já foi ou está sendo submetida à violência por parte do parceiro”, alerta a médica Lilia Blima Schraiber, professora do Departamento de Medicina Preventiva da  Faculdade de Medicina da USP, no capítulo Relacionamento do livro Saúde – A hora é agora. As questões 1, 2 e 3 indicam violência psicológica; 4, 5, 6 e 7, violência física; e 8, 9 e 10, violência sexual. Freqüentemente, os três tipos estão sobrepostos.

No livro, a professora Lilian Blima Schraiber, que pesquisa a violência contra a mulher, responde algumas dúvidas muito comuns:

— Mas essas situações não seriam apenas agressão ou abusos?

— Uma fala rude, um tapinha, um empurrão ou um beliscão não são normais entre casais?

Não. E não. Todas essas vivências são formas de violência e causam prejuízos à saúde física e mental. Só que as próprias mulheres nem sempre as percebem como violência, pois provocam uma dor sem nome. Pior. Por desinformação, desconhecimento dos seus direitos, vergonha, medo, insegurança econômica, amor pelo agressor, falta de apoio familiar e social, entre outras dificuldades, freqüentemente agüentam caladas. É como se esse fosse o único destino.

O preço do silêncio é alto: a escalada da violência doméstica e a busca tardia de saídas, quando às vezes vidas – da mulher, dos filhos ou do parceiro – estão em risco. Agudos ou crônicos, sinais e sintomas dos sofrimentos e abusos se distribuem por todo o corpo: desde diarréias, sangramentos vaginais, doenças sexualmente transmissíveis, dores de cabeça, musculares, abdominais e no peito, até depressão, ansiedade, negligência dos autocuidados, abuso de álcool e outras drogas e suicídio.

— Então, o que fazer?

Violência à mulher é problema de saúde pública. Se pintar briga, discussão, desentendimento, ciúmes, sente-se para conversar com o parceiro. O ideal é resolver tudo por meio do diálogo, inclusive a eventual separação. Agora, se for difícil lidar sozinha com a situação, busque ajuda de amigos, familiares, organizações não-governamentais, delegacias da mulher. A violência pode aumentar de intensidade e colocar em risco você e sua família. Aja enquanto ela ainda não descambou para a tragédia.

“Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim”, avança Lilia Schraiber, pondo abaixo um velho e arraigado ditado popular.  Bruno, ex-goleiro do Flamengo, usou-o em março para defender Adriano,  então colega de time, que havia batido na noiva.

“Muitas vezes a própria mulher não tem consciência da ameaça”, observa Lilia Schraiber.    Se é  você amiga, vizinha ou parente, dê-lhe um toque. Se perceber que a situação está fora de controle, não hesite em chamar a polícia. O silêncio e o imobilismo são cúmplices da violência. Os comportamentos agressivos transgridem os direitos humanos. Questão de respeito ao direito e à dignidade da pessoa.

— Mas os homens também não são vítimas de violência doméstica, não são?

Com certeza, são. Mas as grandes vítimas da violência doméstica são as mulheres, as crianças (os meninos, mais a física; e as meninas, mais a sexual) e os idosos. Tanto que, segundo estudos feitos no Brasil e no exterior, mais de 90% das violências perpetradas contra a mulher ocorrem no ambiente familiar, e o agressor é pessoa conhecida – freqüentemente, o parceiro. Já entre os homens é o inverso. Mais de 90% dos atos de violência são cometidos por outros homens, geralmente desconhecidos, e em espaços públicos.

“Apesar dessas diferenças de taxas, toda e qualquer violência deve ser prevenida: no espaço público e privado, contra mulheres, homens, crianças e idosos”, frisa Lilia. “De novo, uma questão de respeito ao direito e à dignidade humana.”

COMO SE PROTEGER MAIS: USE ESTAS ARMAS A SEU FAVOR

Conheça a Lei Maria da Penha na íntegra – Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

Central Disque 180 –  É o disque-denúncia para violência contra a mulher. Vale para todo o território nacional, e a ligação é gratuita. Atende todos os dias, inclusive finais de semana e feriados, durante as 24 horas.

A Central funciona com atendentes capacitadas em questões de gênero, nas orientações sobre o enfrentamento à violência contra a mulher e, principalmente, na forma de receber a denúncia e acolher as mulheres.

Além de encaminhar os casos para os serviços especializados, a Central fornece orientações e alternativas para que a mulher se proteja do agressor. Ela é informada sobre seus direitos legais, os tipos de estabelecimentos que pode procurar, conforme o caso, dentre eles as delegacias de atendimento especializado à mulher, defensorias públicas, postos de saúde, instituto médico legal para casos de estupro, centros de referência, casas abrigo e outros mecanismos de promoção de defesa de direitos da mulher.

Cfemea – Oferece informações sobre legislação e direitos da mulher.

Secretaria de Políticas para Mulheres – Entre outros assuntos, contém uma relação de serviços de atendimento específicos para a mulher.

Reiteramos. Em briga de marido e mulher, namorado e namorada, companheiro e companheira,  se mete a colher, sim! É por todas nós, mulheres. É também por todos vocês, homens.

Nota do Viomundo: O livro Saúde — A hora é agora, publicado pela editora Manole, tem como autores a repórter Conceição Lemes, o médico Mílton de Arruda Martins, professor titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP, e o médico Mario Ferreira Junior, responsável pelo Centro de Promoção de Saúde do Hospital das Clínicas de São Paulo.