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Mães e pais, atenção: Pasta com flúor, só após os 5 anos de idade

Publicado em: 30 de novembro de 2012

por Conceição Lemes

Que imagens veem à sua cabeça quando o assunto é higiene bucal da criança?  Nós apostamos. Quase certamente uma delas é aquela do menininho ou menininha se esforçando para alcançar a pia do banheiro para escovar os dentes. Acertamos?

“Só que a higiene bucal deve ser feita desde o nascimento”, alerta o cirurgião-dentista Marcelo Fava, diretor do Departamento de Odontologia do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da USP. “Deve ser iniciada antes mesmo de aparecerem os dentinhos.”

Com a ponta da fralda ou gaze umedecida, higienize a boca do bebê após cada mamada ou refeição. É para tirar os resíduos de leite e alimentos que, em contato com as bactérias locais, causam cáries.  Limpe gengiva, língua, céu da boca, parte interna das bochechas e dentes, se houver.

Blog da Saúde — Por que fazer a higiene bucal desde o nascimento se os dentinhos só aparecem aos 6 meses de idade?

Marcelo Fava — É para a mãe já ir se acostumando, a fazer a limpeza. Também para evitar a replicação das bactérias que provocam cáries.

Blog da Saúde — Mas os dentinhos podem nascer com cárie caso a mãe não faça a higiene?

Marcelo Fava –Não. As cáries só podem aparecer depois que os primeiros dentinhos (incisivos inferiores, os dois da frente, parte debaixo) despontarem. A higiene bucal é uma questão de hábito. É uma medida educativa. Ela é essencial à promoção da saúde desde o nascimento.

Blog da Saúde –Com que idade deve-se começar a escovar os dentinhos da criança, usando creme dental? 

 Marcelo Fava – A partir de 1 ano de idade. Antes, a higiene bucal é feita com ponta da fralda ou gaze umedecida após cada mamada ou refeição.

Blog da Saúde —  Tem de ser com escova e pasta especiais?

Marcelo Fava – Escova de cerdas macias, pequena, em tamanho adequado à boca da criança. De 1 a 4 anos de idade, a pasta não deve conter flúor.

Blog da Saúde – Por quê?

 Marcelo Fava — A água de muitas cidades – São Paulo, por exemplo, — já contêm flúor.  Mesmo a água mineral, tem certa quantidade. Assim, se juntarmos o flúor da água com o da pasta de dente, já que a criança acaba engolindo sempre um pouco, ela estará exposta duas fontes.  Em conseqüência, pode ter fluorose, ou seja, mancha nos dentes.  Daí a contraindicação de creme dental com flúor onde a água distribuída à população já é fluoretada.

Blog da Saúde – Há pastas infantis sem flúor?

 Marcelo Fava – Sim, mas poucas. Descobrimos duas nacionais (Welleda e Malvatrikids Baby) e uma importada (First Teeth).

Blog da Saúde – Uma criança de 2, 3 anos já pode escovar os seus próprios dentes?

 Marcelo Fava – Como brincadeira, sim. Na frente do espelho, ela imita os pais, aprende os movimentos.  Mas a escovação de verdade, para higienizar mesmo, deve ser feita pelos próprios pais enquanto ela tiver de  1 a 4 anos de idade. A escovação é indispensável após cada refeição.

Blog da Saúde – Com quantos anos a criança pode usar pasta com flúor?

Marcelo Fava – Acima de 5 anos de idade, quando ela já consegue bochechar e cuspir a pasta.

Blog da Saúde – E com quantos anos a criança já pode escovar os seus próprios dentes?

Marcelo Fava – A partir dos 4. Mas sob supervisão dos pais.

Blog da Saúde – Nas propagandas, normalmente a escova fica cheia de pasta. A quantidade mostrada dos anúncios é a recomendada?

Marcelo Fava – Não. Está errada. A quantidade é equivalente a um grão de ervilha. Isso vale todo tipo de creme dental.

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A memória anda falhando? A doutora Eliane Corrêa Chaves alerta: “Pode ser falta de sono e de sonhar”

Publicado em: 2 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Quantas horas você costuma dormir por noite? Habitualmente gostaria de ficar mais tempo na cama? Quando não tem compromisso, acorda mais tarde?

Nada de se culpar se você é daquelas pessoas que, pela manhã, sempre têm vontade de ficar dormir um pouco mais ou que, podendo, aproveitam para acordar mais tarde, por  exemplo, nos fins de semana.

Dormir não é besteira nem perda de tempo. Para algumas pessoas, quatro a cinco horas de sono por dia são suficientes para que se sintam “inteiras”.Outras necessitam de nove a dez. Mas, em média, diariamente o ser humano precisa de sete a oito horas de repouso. Porém, por modismo ou excesso de responsabilidades, mais e mais pessoas dormem menos do que o corpo “pede”. E sono de menos ou de má qualidade faz mal à saúde.

“A falta de sono impede a gente de sonhar e de viver bem, pois desequilibra nossas funções mentais”, alerta Eliane Corrêa Chaves, especialista em promoção da saúde, doutora em Psicologia e professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP). “Os sonhos harmonizam as funções mentais ligadas à memória, à criatividade e até à capacidade de sentir alegria. Também regulam a produção e liberação de substâncias responsáveis pela saciedade alimentar e pela função sexual, entre outras.”

Como assim? Bem, o sono tem cinco ciclos. Cada qual dura cerca de 90 minutos. Cada ciclo, por sua vez, divide-se em cinco fases: indução, ou sonolência; relaxamento muscular e dos sinais vitais; duas etapas de sono profundo; e fase REM, ou do movimento rápido dos olhos.

É principalmente na fase REM que sonhamos. Por noite, temos de completar esses ciclos de quatro a seis vezes. Ou seja, mesmo sem lembrarmos, os sonhos se sucedem. Mas só recordamos deles quando despertamos na fase REM.

Na verdade, o sonho acontece à noite, mas ao longo do dia é que se notam os seus benefícios. Fisiologicamente, equilibra as nossas funções mentais. É durante o sonho, por exemplo, que os conhecimentos adquiridos de dia se fixam na memória. É a memória de curto prazo. Mas é também no sonho que fatos recentes se conectam com antigos registrados na nossa mente. O resultado é o aprendizado. Na esfera afetiva, o sonho contribui para a produção de substâncias ligadas à de sensação de prazer, bem-estar, satisfação consigo próprio.

Conseqüentemente, a falta de uma boa noite de sono e de sonhar tem “efeitos colaterais”: memória ruim, falta de atenção, dificuldade para aprender, depressão, irritabilidade, intolerância, pessimismo, falta de motivação e de alegria de viver.

“Com frequência atribuímos esses sintomas a discussões com o parceiro, desentendimentos com o chefe e outras chateações cotidianas”, observa Eliane. “Só que a causa pode ser falta de sono e de sonhar. Claro que os prejuízos à saúde mental não se manifestam após uma, duas, três noites maldormidas. Mas se elas virarem hábito, certamente terão impacto na sua vida.”

DESCUBRA SE VOCÊ DORME O SUFICIENTE

A esta altura muitos devem estar se perguntando se repousam o que necessário para produzir e viver bem.

Em média, já dissemos, as pessoas carecem de sete a oito horas de sono diárias. Para algumas, no entanto, bastam quatro, cinco. Outras exigem nove, dez. É questão de característica individual. Não há nada de errado.

Logo, o X do problema é descobrir se a quantidade de sono habitual é a que seu organismo “pede”.  Observe-se. Vamos supor que, de segunda a sexta, você durma às 24h e acorde às 6h; no domingo se levante às 10h. Esse é um sinal de que sua necessidade de sono é maior. Agora, se junto com essa observação notar dificuldades para desempenhar suas funções, a falta de sono e de sonhar provavelmente estão contribuindo para as “queixas” do seu corpo. Tente respeitar mais as “vontades” dele.

QUALIDADE DO SONO TAMBÉM É IMPORTANTE

Por isso, a professora Eliane Corrêa Chaves dá dicas que podem melhorar o seu sono:

* Pratique atividade física. O exercício libera substâncias que ajudam a sonhar. Prefira o período da manhã ou da tarde. Caso não seja possível, tente fazê-lo até mais ou menos umas duas horas antes de dormir.

* Evite café, chá preto, refrigerantes tipo cola, bebida alcoólica, cigarro e comida gordurosa próximo à hora de dormir; dificultam pegar no sono.

* Leve a televisão para a sala. No quarto, não nos deixa “desligar” do ambiente.

* Cuide para que o quarto esteja escuro e sem ruídos e só vá para a cama quando sentir sonolência. Antes, relaxe — com meditação, banho morno, leitura ou música. Pronto.

O sono, como tudo o que ocorre no nosso corpo, é resultado de complexos processos de substâncias químicas que precisam de um período para a produção. Assim, não espere um sono rápido logo após atividades muito envolventes e estimulantes, um banho e alguns poucos minutos na cama.

É necessário dar um tempo. Vá se “desligando” aos poucos das atividades e responsabilidades do dia e verá como o seu sono será muito mais restaurador. Agora é só dormir gostoso, sonhar e acordar bem amanhã.  Boa noite!

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Mário Scheffer: “Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/Aids”

Publicado em: 27 de julho de 2012

por Conceição Lemes

 

 

 

 

 

 

Mário Scheffer: “A condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância”

 

Terminou nesta sexta-feira, em Washington, Estados Unidos, a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. O Programa Nacional de DST/Aids, que até então era festejado e apontado como modelo para o mundo, sofreu críticas de especialistas durante toda a semana.

“A história de sucesso do programa brasileiro de aids entrou em declínio por fatores como a saída de recursos internacionais e o enfraquecimento da relação entre o governo e a sociedade civil”, avalia Eduardo Gomez, pesquisador da Universidade Rutgers de Camden, em Nova Jersey, EUA. “Historicamente, o programa brasileiro de aids tinha uma conexão forte com as ONGs, mas agora elas estão sem recursos e sem motivação. O governo precisa delas para conscientizar as populações difíceis de atingir.”

“O aumento da pressão de grupos religiosos e a redução das campanhas de prevenção junto às populações de maior risco são a maior ameaça ao programa brasileiro anti-aids”, pondera Massimo Ghidinelli, coordenador de Aids/HIV da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). “Parece que, nos últimos anos, os grupos religiosos ficaram mais fortes e há uma menor intensidade na maneira pela qual o programa lida com questões de homofobia e sexualidade.”

Ontem, quinta-feira 26, ativistas brasileiros presentes à 19ª Conferência Internacional de Aids, em Washington, protestaram em frente ao estande do Ministério da Saúde contra o que definem como “retrocesso na resposta contra a epidemia”. O objetivo, segundo eles, foi mostrar ao mundo que o País “não é mais o mesmo” e “vive do sucesso do passado” no enfrentamento da doença.

“Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs e ativistas brasileiros. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados”, observa Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP. “O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas. Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/aids.”

Ativista há mais de 20 anos e também professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Mário acompanha a epidemia de HIV/Aids desde o seu início nos anos 80. Além do olhar afiado e da expertise em saúde pública, ele conhece bem toda a trajetória do Programa Nacional de DST/Aids. Daí esta nossa entrevista:

Viomundo – Começou no domingo (22) e terminou hoje (27) em Washington a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. No decorrer da semana, foram feitas várias críticas ao momento atual do programa brasileiro de aids. Você concorda com elas?

Mário Scheffer – Com certeza. Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs brasileiras. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados. Elas são a prova maior de que o programa brasileiro não é mais a principal referência internacional, perdemos a liderança e o ineditismo, não ousamos mais nas respostas excepcionais que marcaram nossa história de combate à aids.

Viomundo – As ONGs de aids sempre tiveram boa interlocução com o Ministério da Saúde. O que aconteceu?

Mário Scheffer — As ONGs e os ativistas pioneiros que são obviamente mais críticos não são mais ouvidos. O governo atualmente elege os interlocutores que lhes são mais convenientes e deslegitima muitos daqueles que deram contribuições históricas.

Sinal de que as coisas não vão nada bem por aqui é que tanto a crítica ao programa quanto o reconhecimento às ONGs e aos ativistas brasileiros têm que vir de fora.

Aliás, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em seu discurso na abertura da Conferência Internacional de Aids, domingo passado em Washington, fez um vigoroso elogio aos ativistas e citou especificamente as ONGs brasileiras. Disse que se hoje é possível falar em controle da epidemia e vislumbrar o seu fim, isso se deve fundamentalmente às ações desses ativistas.

Viomundo —  ONGs de aids estão fechando as portas no Brasil. Por quê?

Mário Scheffer – Vários motivos. Crise de pessoal, financeira, de sustentabilidade, não têm sede física, não têm dinheiro para pagar aluguel e telefone, têm que compor diretorias com apenas três pessoas  porque não há mais gente disponível. Também não conseguem mais montar  equipes para executar projetos, para chegar até as populações vulneráveis, o que só as ONGs são capazes de fazer.

Em outras palavras: algumas ONGs estão fechando as portas, como você disse. Mas está havendo também retração das atividades de todas elas.

Viomundo – Mas as críticas não se devem apenas à crise financeira e de pessoal das ONGs de aids?

Mário Scheffer – Essa é apenas uma das pontas da crise sem precedentes da resposta brasileira à epidemia, que também perdeu tecnicamente. Além disso, não há sensibilidade nem determinação do governo para perceber e para contribuir com a superação da crise das ONGs. Pelo contrário. Atualmente há uma crise política de relacionamento e mesmo de desprezo pela história das ONGs. O governo federal tem feito a opção — e isso não é só na área de aids — pela relação paroquial com a sociedade civil, uma política de cooptação e quebra-galho. Não ha mais crítica nem debate qualificado de ideias. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas.

Viomundo – Quais?

Mário Scheffer – Primeiro, perdemos a força do trabalho voluntário por meio do qual as pessoas participavam de nossas ONGs, exprimiam sua solidariedade, doavam tempo, trabalho e talento para a luta contra a aids. Não é mais uma causa mobilizadora e isso tem a ver com a imagem trabalhada pelo governo de que temos o melhor programa do mundo e que por aqui está tudo resolvido.

Segundo, com a ascensão das ONGs picaretas e bandidas, criadas para alimentar a corrupção em vários ministérios, cresceu o preconceito e foram impostas mais barreiras para as organizações sérias, que já tinham dificuldade em acessar recursos públicos.

Desde que realizado com critério, transparência, concorrência pública e rigorosa prestação de contas, as ONGs deveriam ter o direito de acessar fundos públicos para exercer o controle, a fiscalização e a participação nas políticas públicas, como acontece em várias democracias.

Terceiro, diante da imagem de que o Brasil hoje é um país rico e resolveu o problema da aids (o que não é verdade), acabou o apoio internacional às ONGs brasileiras de aids.

Resultado: sem ajuda de comunidades e empresas e com uma causa que não toca mais o coração de doadores e voluntários, passamos a viver a dificuldade crescente de assegurar recursos institucionais para a manutenção das ONGs. Com isso, arrefeceu o nosso ativismo e controle sobre as políticas públicas.

Viomundo – E os financiamentos governamentais vinculados a projetos?

Mário Scheffer – Eles fazem parte de um modelo esgotado em que as ONGs de aids foram reduzidas a mão de obra barata para prestação de serviços que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde não conseguem realizar. Não bastasse isso, muitas vezes estados e municípios não repassam esse recursos às ONGs e quando o fazem, não há continuidade nem avaliação da eficácia das ações financiadas.

Viomundo – Um pouco atrás você falou que o programa brasileiro de aids perdeu tecnicamente. Em que medida? 

Mário Scheffer — Não houve renovação nem atualização dos quadros técnicos. Os desafios hoje são outros, mas a condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância. Sem a força e a autonomia de outrora, os programas de aids —  o nacional e vários estaduais e municipais — estão isolados e enfraquecidos politicamente dentro dos governos.

Em São Paulo, por exemplo, muitos serviços municipais de aids estão sem médicos,   os estaduais, superlotados, sendo privatizados, fechando leitos, e os programas de aids sem nenhuma governabilidade sobre isso.

Já o programa nacional nem sequer dá mais as fichas sobre a produção nacional de antirretrovirais genéricos. Hoje é um processo sem transparência. O Ministério da Saúde não dá um passo sem o amém da Casa Civil e dos fundamentalistas religiosos que integram a base governista, o que emperra programas de prevenção de aids.

Viomundo – O que ONGs e ativistas da área de aids querem?

Mário Scheffer — Queremos ser respeitados e ouvidos mas em novos patamares de relacionamento. Ninguém desistiu da luta. Nossas ONGs querem continuar atuando nas diversas frentes, na prevenção, na assistência das casas de apoio, nas assessorias jurídicas, na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV. Queremos continuar fazendo o mesmo ativismo que nos levou a conquistar o acesso universal aos medicamentos, derrubar patentes, lutar contra a exclusão de coberturas pelos planos de saúde privados, acessar os vulneráveis e alçá-los à condição de cidadãos.

O mesmo ativismo que nos leva a apontar que, diferentemente do que dizem, o acesso aos antirretrovirais no Brasil não é universal, pois o diagnóstico tardio é altíssimo e ainda existem desabastecimentos ocasionais. Que nos leva a dizer que não existe política de prevenção adequada a um perfil de epidemia concentrada em certas populações, como os homossexuais, atualmente os maiores negligenciados de prevenção em aids no Brasil.

Hoje estão ameaçados princípios essenciais que forjaram o combate à aids no Brasil, que um dia chegou a quebrar barreiras e tabus. Essa ousadia necessária deu lugar a um programa sem vida, covarde, que promove autocensura, se alinha com forças retrógradas, como no caso recente da campanha dirigida aos gays.

Um programa que se debruça sobre glórias do passado e exibe uma real incapacidade , lentidão e perda da capacidade técnica e política . Não tem conseguido dar respostas à altura das novas dinâmicas e desafios da epidemia e a comunidade internacional passou a perceber isso.

Neste momento de grandes mudanças, com esperança concreta da cura e controle da aids, novas armas para prevenção, necessidade de ampliarmos a oferta de testagem e tratamento a todos os infectados, o Brasil está paralisado, com seus indicadores de mortalidade e de novas infecções pelo HIV estacionados. O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional.

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Abaixo a TPM e os preconceitos!

Publicado em:

por Conceição Lemes

Basta uma mulher mostrar-se nervosa, irritadiça ou explodir para quase automaticamente se ouvir no ambiente: 1) ela está “precisando” de homem; 2) ela está “naqueles” dias (referindo-se à menstruação); ou 3) ela está na TPM (tensão pré-menstrual).

Pois essas três frases são pejorativas, machistas, discriminadoras de gênero,  equivocadas. Chiliques não são exclusividade feminina, concorda? A síndrome da tensão pré-menstrual é um grande distúrbio ligado à menstruação. A TPM repercute em todo o organismo — física e emocionalmente. Atinge cerca de 40% das mulheres em idade reprodutiva.

“Enfim, é uma síndrome democrática”, ressalta a ginecologista e obstetra Fátima Duarte.

De fato, a TPM ocorre em todos os grupos sociais e faixas etárias, podendo se manifestar da primeira à última menstruação. Em geral, as queixas começam sete a dez dias antes da descida do sangue e melhoram durante ou logo depois. Juntando todos os sintomas já descritos na literatura médica, superam — pasme! — 150.

Porém, alguns são mais comuns. Nas esferas emocional e comportamental, diminuição de desejo sexual, mau humor, agressividade, depressão,
insônia, irritabilidade, ansiedade, fadiga, desânimo e falta de energia. Na área cognitiva, dificuldade de concentração e indecisão. Na física, inchaço das mamas e aumento de peso, em razão da retenção de água pelo organismo; dores musculares, nos seios, juntas, pernas,abdome e genitais; cefaleia; prisão de ventre; náusea e vômitos; e problemas de pele, como acne.

“Indubitavelmente, a TPM é uma doença da mulher moderna e está ligada à parte hormonal”, cientifica o ginecologista e professor Edmund
Chada Baracat, titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina da USP.  Há inúmeras teorias a respeito, mas até agora não se sabe a sua causa. Uma das hipóteses é que a mulher sujeita à TPM fabricaria menos progesterona. Em consequência, haveria desequilíbrio de progesterona e estrogênio. Esse desbalanço, por sua vez, faria com que houvesse maior retenção de água no organismo.

Exercícios para todas

O fato é que, até agora, não há um tratamento medicamentoso único capaz de aliviar todos os sintomas da TPM. Vai depender de cada caso.

Mulheres com dores e inchaço nas mamas, por exemplo, melhoram comos diuréticos. Já as com depressão, com antidepressivos. Outras, com a associação de ambos. Muitas vezes o bloqueio da ovulação com contraceptivo
hormonal pode ser a solução. Suplementos de vitaminas B6  e E também podem ajudar. Converse com o seu médico a respeito.

“O importante é que a síndrome tem de melhorar”, fazem coro Fátima e Baracat, no livro Saúde — A hora é agora. Afinal, interfere muito na qualidade de vida. Por isso, eles recomendam a toda mulher com TPM estes quatro cuidados:

1) Exercite-se regularmente — A atividade física aumenta a fabricação de endorfinas (substâncias produzidas pelo cérebro e que têm efeito analgésico). A maior produção de endorfinas, por sua vez, melhora o nível de serotonina, aliviando depressão, irritabilidade e ansiedade.Escolha alguma atividade que lhe dê prazer. Além de amenizar a TPM, beneficia toda a saúde. Estimula inclusive a formação de massa óssea, evitando a osteoporose.

2) Evite chocolate, café, refrigerantes à base de cola e chá preto — Contêm cafeína e substâncias semelhantes, que aumentam a irritabilidade.

3) Diminua o sal — Isso faz o seu organismo reter menos água.

4) Reduza os enlatados e os embutidos (salsicha, presunto, salame e mortadela) — São ricos em cloreto de sódio, que é usado como conservante. Cloreto de sódio é o nome químico do sal de cozinha.

Detalhe: essas medidas ajudam tanto no tratamento quanto na prevenção da síndrome. Portanto, adote-as já. Abaixo a TPM e os preconceitos!

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Professor Mílton: Para prevenir anencefalia, ácido fólico nas gestantes

Publicado em: 17 de abril de 2012

por Conceição Lemes

É definitivo. A mulher grávida de feto anencéfalo pode  interromper a gestação ou levá-la adiante, sem ter de entrar na Justiça.  Na semana passada por 8 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal (STF), num julgamento histórico,  decidiu que, nesses casos, não é crime a antecipação terapêutica do parto.

A anencefalia resulta de um defeito do tubo neural (estrutura embrionária que dá origem ao cérebro e à medula espinhal). O feto não tem cérebro, calota craniana e couro cabeludo.

É uma doença multifatorial. Os cientistas não sabem exatamente a causa. O que sabem é que resulta da interação de componente genético com ambiente. Em outras palavras: existem alguns genes que predispõem à doença e algum fator ambiental faz com que ela se manifeste.

“A ingestão insuficiente de ácido fólico, ou folato, é um dos fatores ambientais”, informa o professor Mílton de Arruda Martins, titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP. “Gestante com deficiência dessa vitamina do complexo B tem maior risco de gerar bebê com defeitos graves do tubo neural, entre os quais anencefalia e espinha bífida [fechamento incompleto da coluna vertebral].”

A boa notícia. Várias pesquisas já demonstraram que existe diminuição de defeitos do tubo neural em bebês cujas mães tomam suplementação de folato na gravidez. O ácido fólico ajuda a prevenir esses graves problemas congênitos.

O ácido fólico é encontrado em castanhas, vegetais de folhas escuras, cereais integrais, levedo, fígado e leguminosas, como feijão e lentilha. Portanto, em mulheres que desejam engravidar, o consumo de alimentos ricos em folato é fundamental. Suplementação significa ingerir comprimidos dessa vitamina do complexo B.

“Além de uma dieta rica em alimentos contendo ácido fólico, é indispensável a gestante fazer de suplementação dessa vitamina”, orienta o professor Mílton de Arruda Martins. “A suplementação deve ser iniciada três meses antes da gestação”.

A razão é simples. Como os defeitos do tubo neural aparecem nas primeiras semanas de desenvolvimento do feto, o ideal é a mulher estar tomando ácido fólico — atenção! — antes de engravidar. Converse  com o seu médico a respeito.

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Doutora Evelyn Eisentein: Palmadas fazem mal à saúde

Publicado em: 26 de outubro de 2011

por Evelyn Eisentein

Crianças e adolescentes estão em fase de crescimento e desenvolvimento corporal, mental, emocional, social. Necessitam, portanto, de apoio e proteção social.  Uma simples questão de Direitos à Saúde e Vida, mas que se tornou bastante complexa no Brasil de hoje. A violência diária, estrutural e cultural vai sendo banalizada e se tornando um ciclo vicioso entre gerações.

É isso o que queremos? Saúde ou doença? Em quais escolhas investiremos para nossos filhos, os escolares, os universitários em cada canto do país? Castigar e maltratar? Ou proteger e prevenir todos os tipos de violência e abusos?

A “punição corporal”, que vem sendo justificada como uma “disciplina familiar”, é na realidade, um abuso “silencioso” que vai humilhando e traumatizando a criança. Isso trará conseqüências em seu aprendizado e rendimento escolar, na sua (des)integração social e no uso de drogas/álcool, aumentando os dados estatísticos de mortes por causa externa ou “fatalidades” (homicídios, suicídios e acidentes), perigos que poderiam ter sido prevenidos, se a atitude de construção para a vida fosse outra, de educação para a paz e a saúde!

O castigo corporal é a força física empregada com intuito de castigar, disciplinar, silenciar, ameaçar ou controlar o comportamento ou a conduta impulsiva da criança/adolescente em qualquer situação ou local de moradia. É considerado como abuso físico e emocional, pela Organização Mundial de Saúde, porque a intenção é “punir” em vez de “dialogar”. Muitos atos considerados “disciplinares” são punitivos e abusivos em vez de serem construtivos e preventivos. Às vezes envolve palavras, xingamentos ou ameaças como, “não vai jantar” (quando a alimentação é vital para o crescimento saudável e dormir com fome se torna um castigo de negação do amor!) ou “vai ficar preso em casa” (quando a moradia deveria representar espaço de abrigo e refúgio prazeroso em vez de prisão domiciliar!).

Mas o pior é que começa com uma “palmada” ou “palmatória” e vai se intensificando em atos e castigos cada vez mais violentos e humilhantes. Muitas crianças ao serem atendidas, dizem chorando, baixinho: “deixei de sentir a dor!”

Geralmente os castigos acontecem por causa de raiva, tensão ou desespero da pessoa que deveria cuidar e ser mais responsável. Alguém estressado por outras razões e que desconta seu furor na criança, como se fosse um “saco-de-pancadas” pois “não quer perder tempo, explicando o por quê das coisas” para essa criança “teimosa” e “pirralhenta”.

A punição usa controles externos e revela abuso do poder coercitivo, da força ou da dominância patriarcal ou de gênero.  Além disso, o uso de qualquer objeto no intuito de punir, bater, castigar, torturar é inaceitável e inapropriado em qualquer idade e em qualquer cidade dos países que assinaram e ratificaram acordos internacionais das Nações Unidas, como é o caso do Brasil.

A Declaração Universal dos Direitos da Criança, a Convenção dos Direitos da Criançae o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente de Outubro  são contra a violência e a favor da dignidade, do respeito e da proteção social da criança, na família, na sociedade e no Estado.

Isso significa que “bater” na criança não é permitido em nenhuma circunstância e sempre é injustificável: “maltratar” significa prejudicar alguém e “maus tratos” são todos os tipos de abuso, negligência, abandono ou exploração.

Segundo o projeto de Lei 7672/2010, o Brasil se prepara para rever alguns dos artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, que responsabilizam os pais e integrantes da família ampliada, assim como quaisquer outras pessoas encarregadas de cuidar, tratar, educar ou vigiar crianças e adolescentes, por utilizarem o castigo corporal ou tratamento cruel ou degradante como forma de correção, disciplina, educação ou a qualquer outro pretexto. Todos estarão sujeitos às medidas previstas e sanções cabíveis em lei. E também, a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios atuarão de forma articulada na ampliação das políticas públicas e na execução de ações preventivas destinadas a coibir o castigo corporal ou qualquer tratamento cruel ou degradante.

Precisamos refletir também sobre as justificativas da frequente “falta de recursos”, pois o Brasil é um “país de todos” e crianças e adolescentes são “prioridade absoluta” na lei. Portanto, está mais do que na hora de as políticas públicas de prevenção e educação em saúde saírem do papel e serem implementadas e executadas!

A violência não é só contra-indicada como remédio para controlar comportamentos, mas também como droga de uso letal, pois causa danos, lesões e mortes e ainda repercussões mentais na vida adulta, da mesma forma como o abuso de tantas outras drogas por parte da população doente. Isso inclui a que se encontra em prisões, delegacias ou traumatizadas e atendidas nas emergências e nos serviços psiquiátricos. São pessoas que não tiveram a chance de crescer sem palmadas e com o afeto que necessitavam quando crianças e adolescentes! Proteção social e prevenção da violência são as melhores vitaminas da receita para o crescimento saudável do Brasil!

Evelyn Eisentein é médica pediatra e clínica de adolescentes, professora adjunta da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e membro da International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect (ISPCAN) , representando o Brasil.

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Orientação sexual não se inverte

Publicado em: 11 de abril de 2011

por Conceição Lemes

Independentemente da cultura, quase 10% da população é homossexual, sendo 7% homens e 3% mulheres. Menos de 1% é bissexual. Os 90% restantes são heterossexuais. Isso ocorre em todo o mundo, inclusive no Brasil.

“Ninguém se torna homo, bi ou heterossexual por opção ou escolha”, afirma a psiquiatra e especialista em medicina sexual  Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (Prosex) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.  “O que nos conduz para esta ou aquela orientação sexual é um conjunto de fatores biopsicossocioculturais.”

Hoje os especialistas acreditam que o indivíduo nasce com uma carga genética sobre a qual se assentam fatores educacionais, sociais e emocionais, que o vão moldando para a heterossexualidade, a homossexualidade ou a bissexualidade. Muitos estudos demonstram que alguns fatores que vão determinar a orientação sexual estão presentes muito cedo na vida, talvez até já ao nascimento.

E mais. Teoricamente, o que define a orientação sexual de todos nós não é a nossa prática, mas a nossa atração. Ou seja, fazer sexo com alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto não é, por si só, determinante de homo ou de heterossexualidade. Por outro lado, sentir-se atraído por pessoa(s) do mesmo sexo ou do sexo oposto é indicativo de orientação homo ou heterossexual, respectivamente.

“Orientação sexual não se inverte”, avisa Carmita. As tentativas para “corrigir” a homossexualidade, “tratando-a” por meio de psicoterapia, técnicas comportamentais e de convencimento, resultaram em depressões profundas, surtos psicóticos gravíssimos e até suicídios.

DE ISMO PARA ADE

Os primeiros passos rumo à visão atual da medicina se deram na década de 1960, nos Estados Unidos. A Associação Psiquiátrica Americana decidiu estudar o assunto a fundo. Em 1980, baseada em evidências científicas, retirou o homossexualismo da lista de transtornos de preferência sexual, como a pedofilia (práticas e fantasias sexuais com crianças) e a zoofilia (sexo com animais). O sufixo ismo, que significa “doença”, foi então substituído por ade, que indica atividade, comportamento.

Em 1992, a Organização Mundial de Saúde (OMS), igualmente embasada em centenas de estudos, pôs a pá de cal sobre a questão: homossexualidade não é doença. Logo, é incorreto o termo homossexualismo; o certo é homossexualidade.

E sexo natural, que antes de 1992, era sexo com adulto, vivo e do gênero oposto, passou a ser aquele aquele que você pratica com ser humano adulto, vivo e cuja finalidade é o prazer e/ou a reprodução. Hoje, a homossexualidade é considerada uma forma natural de expressão da orientação sexual, assim como a hétero e a bissexualidade.

TREJEITOS ENGANAM

Por falar nisso, tem gente que afirma: Pelos trejeitos do homem ou da mulher sempre é possível saber se a pessoa é homossexual. Você concorda?

“Pois essa frase é mais uma das muitas ideias equivocadas sobre sexualidade”, alerta a professora Carmita, que frequentemente atende pais aflitos, achando que pelos trejeitos o filho ou a filha é homossexual. “Não é bem assim.”

Trejeito é um modo de se comportar diferente daquele adotado pela maioria do seu gênero. Numa criança de 5 ou 6 anos, pode ser apenas dificuldade de se identificar com o gênero ao qual ela pertence devido à ausência de modelos suficientemente claros na família. Mas isso não significa homossexualidade.

Como assim? Por exemplo, às vezes o pai é muito “machão” e esse excesso de virilidade pode inibir o filho de manifestar a sua fórmula máscula de ser. Por não se sentir tão poderoso, o menino acaba tendo então comportamento menos exuberante do que é esperado do ser masculino.

Já no caso de a menina parecer mais máscula, outras circunstâncias podem estar em jogo. Às vezes, por exemplo, a mãe é muito bonita e não sobra espaço para a filha como figura feminina. Aí, para não contrariar a expectativa materna ou mesmo paterna, a garota passa a querer ser diferente.

“Na faixa dos 5 ou 6 anos, é muito cedo para se alarmar”, antecipa Carmita. “O melhor é aguardar que a criança entre na escola.” Em geral, o simples contato com amiguinhos, amiguinhas, professor, professora, pai e mãe de colegas faz com que ela se identifique com modelos não oferecidos em casa e a questão se resolva. Porém, há casos em que os pais são bem resolvidos e mesmo assim a criança tem mais dificuldade para se identificar com o seu gênero. “Portanto, nada de precipitações”, insiste Carmita. “O mais adequado é acompanhar o desenvolvimento dessa criança.”

RESPEITE AS DIFERENÇAS

A adolescência é outra ocasião em que filhos são literalmente arrastados para os consultórios de especialistas por conta de “dúvidas” sobre sua sexualidade. Em geral, o raciocínio da família é o seguinte: Esse rapaz está com 16, 17 anos e não iniciou a sua vida sexual. Então, antes que comece a fazer bobagens, tem de resolver essa vergonha. Só que, em conversa reservada, frequentemente se descobre que ele tem namorado e não vê nada em si para ser corrigido. Porém, não tem ambiente em casa para revelar a sua preferência sexual.

Aí, o caminho é trabalhar a família para entender o que está se passando. É até possível que a orientação sexual não esteja ainda totalmente definida. Às vezes por medo, insegurança ou inabilidade, o jovem inicia a sua vida sexual na homossexualidade, depois percebe que era uma fase de experimentação e parte para a heterossexualidade. Outras vezes se dá o contrário. Devido à expectativa familiar e social, ele tenta, primeiro, a heterossexualidade. Posteriormente, aos 25, 30 ou 35 anos, se dá conta de que forçou a barra e assume a sua real preferência. O mesmo pode acontecer com as meninas.

“Pais e mães não devem se sentir culpados”, enfatiza Carmita. Primeiro, porque a homossexualidade não é uma opção. Segundo, a influência familiar é apenas parcela de uma situação muito mais ampla, que envolve inclusive carga genética. Terceiro, vocês não têm tanto poder quanto imaginam a ponto de definir a orientação sexual dos seus filhos.

Aliás, cabe exatamente aos pais de homossexuais combater o preconceito, dando-lhes força para que sejam respeitados e exijam o respeito pela sua condição. Só assim diminuiremos a necessidade que muitos ainda têm de viver escondidos. Guarde sempre isto: homossexualidade não é doença, é uma orientação sexual. Respeite as diferenças.

*A doutora Carmita Abdo é professora livre-docente da  Faculdade de Medicina da USP e  um dos 70 profissionais de saúde entrevistados por esta repórter para o livro Saúde — A Hora é agora, do qual é coautora.

Leia aqui o que falar com filhos, sobrinhos…sobre troca-troca. É uma entrevista com a doutora Carmita Abdo.

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Drogas: O que falar com os filhos

Publicado em: 11 de março de 2011

por Conceição Lemes

O consumo de drogas, inclusive álcool, cresce na maior parte dos países. No Brasil, mais da metade das pessoas já experimentou alguma droga ilícita e a iniciação é cada vez mais precoce. Daí a importância da prevenção.

No seu entender, qual destes discursos deve ser adotado por uma mãe ou um pai:

a) Meu filho, evite as drogas.

b) Meu filho, o problema não é a droga; é a polícia, o bandido. Então venha usar aqui em casa.

c) Meu filho, eu sei lidar, você saberá lidar também. Como você é um bom garoto, a questão está em suas mãos.

“A longo prazo, filhos de pais que lançam mão do discurso a usam menos drogas do que os dos que recorrem ao b ou c, que são ambíguos. É difícil o adolescente entender que drogas fazem mal se o uso é permitido em casa”, alerta o psiquiatra e professor André Malbergier, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da Faculdade de Medicina da USP. Ele avisa: “O cérebro dos adolescentes não está preparado para lidar com situações de prazer envolvidas no uso de cigarro, álcool e drogas ilícitas, o que aumenta o risco de se tornarem usuários”.

Existem no cérebro regiões que medeiam a relação de prazer que temos com as coisas da vida. Algumas substâncias nele produzidas estão envolvidas nessas sensações. Uma delas é a serotonina, ligada à tranquilidade e ao bem-estar. Outra é a dopamina, associada ao prazer. Em adultos saudáveis, a produção de serotonina e de dopamina é relativamente equilibrada. Já os adolescentes produzem normalmente menos serotonina e mais dopamina. Porém, a partir do momento em que começam a usar drogas, têm o circuito cerebral de prazer alterado.

“As drogas potencializam o efeito da dopamina. Funcionam como reforçador do prazer que dificilmente se obtém nas atividades comuns”, explica Malbergier. “Por isso o risco de o adolescente perder o controle sobre o consumo de drogas é consideravelmente maior do que o de alguém que inicia aos 30, 40 anos.”

Mas não é só. Outros fatores contribuem para que adolescentes e até pré-adolescentes se tornem usuários quando entram em contato com drogas: a tendência à impulsividade e a dificuldade de esperar pelo prazer – ele tem de ser imediato; pressão do grupo social; vulnerabilidade genética devido ao tipo de personalidade – há garotos e garotas que nascem com maior propensão à busca de sensações de grande impacto; história familiar de conflitos importantes; falta de um dos pais ou distanciamento de ambos; abuso sexual; violência; acessibilidade.

– Mas eu sempre soube lidar com droga, meu filho saberá também. Isso é coisa da adolescência…

O fato de você ter o consumo sob controle não significa que seu garoto ou sua garota terá, por melhor que eles sejam. Deixar essa questão só nas mãos dos jovens é um risco. Promover saúde é tentar evitar o contato.

– Ah… Mas eu usei drogas dos 18 aos 25 anos, hoje tenho 40, sou um executivo bem-sucedido, trabalho numa boa…

Por mais careta que pareça, o discurso de evitação colabora para que os filhos usem menos drogas. Aliás, mesmo que você consuma, há coisas ligadas ao prazer que não precisam ser ditas aos filhos. Da mesma maneira que você não lhes conta como é sua atividade sexual, certo?

– Mas, se eu disser para evitar, será que ele não vai usar só para me contrariar?

Independentemente de dizer sim ou não, é imensa a probabilidade de os adolescentes experimentarem, pois o acesso é muito fácil. Afinal, em boa parte das festas rolam drogas ilícitas. Agora, se eles introjetaram que os pais preferem que as evitem, diminui a possibilidade de continuarem o consumo.  “A sensação de risco é muito maior do que se simplesmente ouvissem dos pais ‘Isso é fase, faz parte da vida’, justifica Malbergier.

– E se, apesar do discurso de evitação, meu filho continuar usando drogas?

Não é porque ontem seu filho ou sua filha provou álcool ou alguma droga ilícita que amanhã ele ou ela será dependente, irá mal na escola, terá atritos com familiares. Em geral, a dependência é desenvolvida gradativamente. Portanto, fique atento(a) ao processo lento de mudança de comportamento social e  notará tão logo ele ou ela comece a ficar “diferente”. Caso positivo, converse. Se necessário, busque ajuda.

“É claro que vocês, pais, são os primeiros responsáveis pela orientação dos filhos quanto ao uso de cigarro, álcool e drogas ilícitas”, salienta Malbergier, no livro Saúde – A hora é agora. “Mas não os únicos. Como questão de saúde coletiva, a prevenção é responsabilidade também de professores, profissionais de saúde, autoridades governamentais e dos próprios adolescentes. Cada um tem de fazer a sua parte. ”

Para quem já é usuário, a discussão é parar ou reduzir danos. Aqui, tratamos desse aspecto.

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Vovó e vovô sem sede? Eles precisam de água!

Publicado em: 23 de janeiro de 2011

de Conceição Lemes*

Sempre que a vovó ou o vovô têm confusão mental, duas hipóteses atemorizam os familiares: será tumor na cabeça ou mal de Alzheimer?

Na imensa maioria dos casos não é nem um nem outro”, afirma  o clínico geral Arnaldo Lichtenstein, do Hospital das Clínicas de São Paulo, professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP e um dos especialistas entrevistados no livro Saúde — A hora é Agora (leia no pé deste texto).  “Os principais responsáveis são diabetesdescontrolado, infecção urinária e família que passa o dia inteiro no trabalho, no shopping ou no clube, fora de casa.”

Parece brincadeira, mas não é. Constantemente vovó e vovô não têm sede e deixam de tomar líquidos. Como não há gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez. E a desidratação no idoso tende a ser grave, afetando todo o organismo. Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos (“batedeira”), angina (dor no peito), coma e até mesmo morte.

Impossível?! Não. Ve ja por quê:

• Ao nascermos, 90% do nosso corpo é constituído de água. Na adolescência, isso cai para 70%. Na fase adulta, para 60%. Após os 60 anos, temos pouco mais de 50% de água. Isso faz parte do processo naturalde envelhecimento. Portanto, de saída, os idosos têm menor reserva hídrica.

• Mas há outro complicador. Mesmo desidratados, eles podem não sentir vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno funcionam menos.

• Explicamos. Nós temos sensores de água em várias partes do organismo. São eles que verificam a adequação do nível. Quando o nível cai, esses detectores acionam automaticamente o “alarme”. Pouca água significa menor quantidade de sangue, de oxigênio e de sais minerais circulando nas nossas artérias e veias. De imediato, então, o corpo “pede” água. Essa informação é passada ao cérebro, a gente sentesede e sai em busca de líquidos. Nos idosos, porém, esses mecanismos atuam menos.

A detecção de falta de água corporal e a percepção de sede estão diminuídas. Alguns ainda, devido a certas doenças, como artrose avançada, evitam se movimentar até para tomar água.

• Resultado: os idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque sentem menos sede. Além disso, para ter desidratação grave, eles não precisam de grandes perdas — por exemplo, diarreias, vômitos ou exposição intensa ao sol. Basta o dia estar bastante quente ou a umidade do ar baixar muito. Nessas situações, perde-se mais água pela respiração e suor e, se não houver reposição adequada, é desidratação na certa. Mesmo que o idoso seja saudável, essa perda prejudica o desempenho das reações químicas e das funções de todo o organismo.

“Por isso, vovós e vovôs, se habituem a beber líquidos”, alerta Lichtenstein. Por líquido entenda-se água, sucos, chás, água de coco, leite. Sopa, gelatina e frutas ricas em água (melão, melancia, abacaxi, laranja e mexerica) também funcionam como líquido. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!

O segundo alerta de Lichtenstein é para os familiares. Ofereçam constantemente líquidos aos idosos da casa. Lembre-lhes de que isso é vital. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que eles estão rejeitando líquidos e, de um dia para outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção. É quase certo que esses sintomas sejam decorrentes de desidratação. Líquido neles e rápido para um serviço médico.

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*  O doutor Arnaldo Lichtenstein é clínico geral, médico do Hospital das Clínicas de São Paulo, professor colaborador da  Faculdade de Medicina da USP e  um dos 70 profissionais de saúde entrevistados por esta repórter para o livro Saúde — A Hora é agora, do qual é coautora.

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Aids: As aparências enganam, o HIV é democrático

Publicado em: 2 de dezembro de 2010

por Conceição Lemes

Você diria que o uso de camisinha, ou preservativo, é dispensável quando:

* Parceiro (a) é de boa família?

* Parceiro (a) teve poucas (os) namoradas (os)?

* Garoto (a) é de boa família, bem-educado (a)?

*  Garoto (a) tem alto nível social, cultural e econômico?

*  Garoto (a) é “supergato(a)” sofisticado(a)?

*  É amigo (a) da turma, colega de trabalho?

*  Se tem parceiro (a)  fixo (a)?

Pois nessas circunstâncias – atenção! –, o homem, ao não usar camisinha, a mulher, ao não pedi-la, se arriscam a pegar doenças sexualmente transmissíveis (DST), inclusive o HIV, o vírus da aids. É como se fizessem o “teste” de aids e demais DST pelo olho. Isso não existe!

Paradoxalmente, quase todo brasileiro sabe que a camisinha é a melhor maneira de evitar a infecção pelo HIV.

Diferentes pesquisas nas diferentes faixas etárias comprovam isso.  Uma delas, a Pesquisa de Comportamento, Atitudes e Práticas da População Brasileira 2008. Ela revelou que 97% dos jovens de 15 a 24 anos de idade sabem que o preservativo é a melhor maneira de evitar a infecção pelo HIV, mas o uso cai à medida que a parceria sexual se torna estável. O percentual de uso do preservativo na primeira relação sexual é de 61% e chega a 30,7% em todas as relações com parceiros fixos.

Outra pesquisa, divulgada nessa quarta-feira pelo Departamento DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde (MS), aponta tendência de crescimento do HIV entre os jovens, embora eles tenham elevado conhecimento sobre prevenção da aids e outras DST.

O estudo foi feito com 35.432 jovens de 17 a 20 anos de idade alistados no serviço militar. A prevalência do HIV nessa população passou de 0,09% para 0,12% em cinco anos. O estudo também revela que quanto menor a escolaridade maior o percentual de infectados pelo HIV.

“Os jovens não se veem em risco”, alerta o infectologista Dirceu Greco, diretor do departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do MS. “É preciso que percebam que a prevenção é uma decisão pessoal e não estarão seguros se não se conscientizarem da necessidade do preservativo em todas as relações sexuais.”

DESCUBRA POR QUE O “TESTE” VISUAL É FURADO

Em tempos de aids, transar com camisinha não significa chamar o outro de infiel, promíscuo, nem de se apresentar como tal. Ao contrário. É pessoa antenada com os tempos modernos. É sinal de ética, responsabilidade, solidariedade, delicadeza, respeito, prova de amor. Quem ama cuida e se cuida.

E por que fazer o “teste” de DST e aids pelo olho não existe?!

Na verdade, ele é feito aos montes. Só que é furadíssimo.

O livro Saúde — A hora é agora, capítulo Relacionamento,  explica por quê. Atentem :

1) As aparências enganam. Bastaria ficar na sala de espera da Casa da Aids para atestar isso: garotas lindas, que poderiam ser modelos, e donas de casa exemplares; professores(as), engenheiros(as), advogados(as) e executivos(as), que diariamente cruzamos em bares, festas, cinema, reunião familiar, encontro de negócios; vovôs e vovós – eles têm vida sexual, sim! –, que volta e meia vemos contando histórias para os netos.

Ou seja, o “teste” visual é completamente furado. Portadores do HIV podem ficar dez anos, em média, sem sintomas, muitas vezes desconhecendo a própria contaminação e passando o vírus para os seus parceiros sexuais.

2) O HIV, como os germes causadores das demais DST, é absolutamente democrático. Ele não tem preconceitos de classe socioeconômica, raça, religião, idade, sexo, nível cultural, educacional ou padrão estético.

3) O HIV também não se importa se a pessoa gosta ou não da outra. O que o vírus da aids quer é continuar vivo. Para isso, passa de um parceiro a outro, e em poucos segundos. Basta um estar infectado e transar sem camisinha. O amor não protege ninguém desse risco.

4) O HIV é transmitido de homem para mulher, de mulher para homem, de homem para homem e de mulher para mulher. Atualmente a proporção de novas infecções em mulheres e homens é quase igual. “A aids hoje tem a cara da população do Brasil”, compara Castilho. Portanto, quem ainda acha que aids é doença de homossexuais, prostitutas e usuários de drogas corre o risco de ser “atropelado” pelo HIV a qualquer instante.

5) Embora vivamos numa sociedade que prega a monogamia, a vida é diferente. Bom seria que as pessoas fossem eternamente apaixonadas e felizes com um(a) único(a) parceiro(a). Mas isso é irreal. Assim como é impossível o Ministério da Saúde decretar: está proibido “pular a cerca”! Quem vai seguir a recomendação? Você pode falar por você. E pelo(a) parceiro(a)? Quem tem certeza de que o(a) seu (sua) nunca vai traí-la(o)?

6) Quando você faz amor, o(a) parceiro(a), mesmo que seja fixo(a), não é a sua única “companhia”. Transam junto os ex e as ex de ambos. Ou seja, o passado e o presente. E, aí, como ter certeza de que nenhuma dessas pessoas viveu situações que possam ter facilitado a transmissão do HIV, como drogas injetáveis, transfusão de sangue e sexo com portador do vírus?

“Na verdade, não existe mais grupo de risco”, garante a assistente social Susan Marisclaid Gasparini, do grupo de prevenção da Casa da Aids do HC-SP. “Atualmente, todos nós que temos vida sexual ativa somos vulneráveis ao HIV e às outras DST se não usarmos preservativo. Inclusive quem só ‘fica’.”

Tem mais. Não dá para tapar o sol com a peneira. A experiência de psicólogos, psiquiatras e terapeutas sexuais mostra que parte dos casais, incluindo as mulheres, tem relações extras. Assim, supondo que você ou seu (sua) parceiro(a) dê uma escapada com uma (um) colega de trabalho – que, por sua vez, tenha outro(a) parceiro(a). No mínimo, já são quatro transando.

“Logo, o ideal é usar camisinha em todas as relações sexuais – oficiais e extraoficiais”, assegura a médica Eliana Battaggia Guttierrez, diretora da Casa da Aids do Hospital das Clínicas de São Paulo e infectologista da Divisão de Moléstias Infecciosas da mesma instituição. “É mais eficaz e seguro para todos. De quebra, ajuda a reduzir a epidemia.”

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