2

Ligia Bahia: Remuneração por cada procedimento médico, alerta vermelho

Publicado em: 17 de maio de 2013

Ligia Bahia: “O pagamento por cada ação de saúde, na versão sem ou com corrupção, é uma aplicação direta do ensinamento ‘quem parte e reparte e não fica com a maior parte, ou é tolo ou não tem arte'”.

por Ligia Bahia, em O Globo, via blog Saúde Brasil, sugestão de Mario Lobato

Esforços para monitorar serviços de saúde não faltam. Têm câmaras nos hospitais ligadas a monitores no gabinete presidencial, indicadores de eficiência, auditorias e outros métodos de controle. Tanta vigilância deveria no mínimo coibir o tráfico de doentes e medicamentos à luz do dia.

Mas, as fraudes continuam à solta. Cobranças falsas para o SUS e decisões de suprimir tratamentos de pacientes com câncer em um serviço privado localizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, denunciadas no inicio do mês, não foram detectadas por radares da saúde e sim pelas organizações do Ministério Público e Polícia Federal. A acusação é parecida com a da antecipação de mortes de idosos em Curitiba.

Dessa vez a trama teve mais personagens e se desenrolou em vários cenários. Começou com a transferência de pacientes do SUS intermediada por um dono de uma clínica privada. Lá, os pacientes eram tratados ou não de acordo com a racionalidade administrativo-lucrativa. Dependendo de quem era o pagador, remédios caros prescritos eram substituídas por placebos ou se cobrava pelo uso de medicamentos não administrados. Diante da ameaça da investigação, o médico, proprietário, recorreu ao Governador, deixando subentendido que teria poder para pressioná-lo, seu advogado declarou que comprovará que as delações são injustificadas e a promotora do Ministério Público sublinhou a obrigação do poder público de atender a população.

Ambos os episódios, o do CTI de Curitiba e o de tratamento de neoplasias em Campo Grande, parecem ter sido desencadeados por alguns profissionais de saúde impulsionados pela ganância. No entanto, as vias, os atalhos e os jeitos de adulterar ações de saúde precisam ser bem compreendidos para evitar soluções baseadas apenas na introdução de mais controles, que nem sempre são eficazes para deter a banalização de atos de má conduta médica e corrupção.

No Brasil, predomina o pagamento por procedimento, modalidade de remuneração que estimula a decomposição de ações assistenciais e o interesse na realização ou cobrança de exames e tratamentos caros. Países que adotaram o sistema de remuneração per capita ou prospectivo incentivam uma abordagem mais integrada das necessidades de saúde.

A diferença é que aqui o pagamento é realizado para cada remédio prescrito, equipamento utilizado, de forma que esse parcelamento condensa e gera articulações entre os produtores e distribuidores de insumos, hospitais, clinicas e médicos. Além disso, o valor pago pelo atendimento de pacientes do SUS é, em média, menor do que o correspondente a casos idênticos de clientes de planos e seguros de saúde. Portanto, procedimentos melhor remunerados, que permitem a cobrança direta e indireta de medicamentos, e a divisão do tratamento em sessões e os pacientes de planos e seguros, especialmente aqueles com coberturas mais abrangentes, tendem a ser mais atraentes.

Ainda que não exista corrupção, o pagamento por produção de procedimentos descaracteriza a finalidade das atividades de saúde porque a variação dos valores de remuneração tem efeitos imediatos sobre a oferta e demanda. Como os problemas de saúde não podem esperar preços baixarem, quem atua na saúde pode desempenhar um duplo papel: o assistencial propriamente dito e o de vendedor ou intermediador do uso de insumos e medicamentos. Nem sempre as permutas são permeadas pela corrupção. O que choca e confunde é que o uso de um serviço de saúde é trocado pura e simplesmente por um valor ajustado, entre outras circunstâncias, ao risco de vida.

Atualmente, cerca de cem mil brasileiros são renais crônicos (cujos rins deixaram de funcionar) e dependem de máquinas que realizam a filtragem do sangue. O SUS paga quase todos esses tratamentos, incluindo medicamentos. Em 2012, as despesas do Ministério da Saúde com pacientes renais crônicos atingiram R$ 2 bilhões. Cada paciente realiza três sessões por semana e o valor de cada uma é de aproximadamente R$ 200,00. Mais de 90% das clínicas de hemodiálise são privadas.

Os serviços de nefrologia de hospitais universitários e de ensino, foram desativados e, cederam espaço a clinicas privadas, lideradas pelos mesmos médicos que organizaram os serviços públicos. Atualmente, esses estabelecimentos conveniados com o SUS, mediante articulações com fornecedores, portadores de doenças renais e parlamentares, influenciam a definição de preços, quantidade, qualidade do atendimento.

Nem as clínicas de hemodiálise, nem seus usuários estão inteiramente satisfeitos. Os primeiros exigem respostas do governo às mudanças cambiais, valores de pagamento próximos ao de custo, critérios de elegibilidade de novos pacientes, regras para o descarte e reaproveitamento de membranas dialíticas e renovação das máquinas.

Os pacientes, necessariamente reféns dos processos de ajustes de preços não sabem se os aumentos trarão melhor qualidade, demoram a ter acesso ao tratamento porque as “portas de entrada” ainda são as emergências e não a atenção básica (a maioria dos renais crônicos são hipertensos e diabéticos), as “janelas” para o uso de outros serviços, inclusive terapia intensiva, estão fechadas e as “portas de saída” os transplantes, permanecem distantes e estreitas.

O pagamento por cada ação de saúde, na versão sem ou com corrupção, é uma aplicação direta do ensinamento “quem parte e reparte e não fica com a maior parte, ou é tolo ou não tem arte”.

Desde os anos 1970, a compra de atos médicos é criticada por especialistas em saúde pública. Quem telefonava para Carlos Gentile de Mello, médico que inspirou a aprovação do SUS pela Constituição de 1988, ouvia a seguinte mensagem: o pagamento por procedimento é um fator incontrolável de corrupção.

Até hoje, o sistema público de qualidade não foi implementado. Batalhas voltadas exclusivamente ao monitoramento de indicadores de produtividade agravam o problema ao habilitar credenciais falsificadas de conservadores que se proclamam modernizantes. Os alertas vermelhos indicam objetivamente a necessidade de democratização das decisões e investimentos na rede pública para permitir mudanças na essência atrasada e ineficiente da fragmentação de seres humanos e mercantilização da saúde.

Ligia Bahia é professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro

 Leia também:

Entidades pedem fim de dinheiro público para planos de saúde

Cebes denuncia: Pacote de estímulo a planos privados de saúde é mais um golpe no SUS

Abrasco: Proposta do governo para ampliar planos privados de saúde é engodo e extorsão

12

Seu filho tem Down? Exija que seja atendido conforme as diretrizes do Ministério da Saúde, recomenda Patrícia Tempski

Publicado em: 23 de abril de 2013

Patrícia Tempski: “A inclusão social é muito maior com a estimulação e a melhoria do atendimento, que tem de ser multiprofissional”

por Conceição Lemes

Faça um esforço de memória, tente voltar no tempo – 10, 15, 20 anos atrás. Compare com os dias atuais. Hoje certamente você vê nos espaços públicos — rua, escola, transporte coletivo — mais crianças, jovens e adultos com síndrome de Down.

Down não está aumentando, não, na população brasileira. A cada 700 nascimentos, um caso ocorre. Por ano, 10 mil crianças nascem com a síndrome no País.

— Por que então vemos mais pessoas com Down hoje em dia no Brasil? — muitos devem estar se perguntando.

Elas vivem mais e melhor devido a uma combinação de fatores: inclusão social, estimulação e atendimento multidisciplinar.

Explico. Antigamente, as pessoas com Down ficavam mais isoladas. Era comum mãe e pai esconderem a sua criança do mundo: vizinhos, amigos e familiares. Outras vezes eram os vizinhos, amigos e até familiares que evitavam chegar perto.

“Aos poucos, felizmente, isso está mudando”, observa a pediatra Patrícia Tempski.  “Eu, você e os leitores do Blog da Saúde podemos ajudar a fazer a diferença nessas histórias de vida, desmistificando ideias erradas e estimulando a inclusão.”

Down não é uma doença, como muitos pensam, mas condição humana geneticamente determinada, que acontece principalmente na fecundação. Em vez de 46 cromossomos (unidade que contém nossas informações genéticas) em cada célula (23 do pai e 23 da mãe), a criança com Down possui 47; há um cromossomo21 amais, e isso a distingue das demais.

Down não tem preferência por sexo, raça, classe social, religião. A incidência é igual para qualquer raça, nível socioeconômico, religião, entre homens e mulheres.

Muitas pessoas com Down estudam, namoram, trabalham. Outras têm mais dificuldades, logo menos autonomia.

“Essa desigualdade de desenvolvimento depende de problemas associados, estimulação, educação e cuidados dispensados à criança”, explica a médica. “A inclusão social é muito maior com a estimulação e a melhoria do atendimento, que tem de ser multiprofissional.”

A doutora Patrícia trabalha com síndrome de Down desde o início da década de 1990, quando quase não se falava em equipe multidisciplinar. Mais precisamente há 21 anos. Ela foi responsável por organizar o primeiro ambulatório multidisciplinar no Paraná e um dos primeiros no Brasil. O do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em convênio com a Associação Reviver Down, em Curitiba.

Atualmente, trabalha no Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – o IMREA–, que faz parte da rede Lucy Montoro.

Em 2012, integrou o grupo de especialistas que elaborou as Diretrizes para a Atenção à  Pessoa com Síndrome de Down (na íntegra, no final). Pela primeira vez, o Ministério da Saúde se mobilizou para estabelecer condutas para atendimento desse grupo populacional. Uma vitória da sociedade que há muito demandava isso.

[Conceição Lemes quer investigar a invasão dos planos de saúde vagabundos no Brasil. Colabore!]

Blog da Saúde – Na prática, qual o significado das Diretrizes?

Patrícia Tempski – Pela primeira vez a gente tem um padrão de condutas para atender a pessoa com síndrome de Down em todas as faixas etárias – desde o recém-nascido até o idoso. Antes não se tinha. Cada serviço fazia o melhor que achava possível. Agora, qualquer serviço pode se guiar pelas Diretrizes, principalmente aqueles ligados ao SUS.

Blog da Saúde – O que elas trazem?

Patrícia Tempski – As melhores práticas de cuidado para atendimento das diferentes idades. Por exemplo, exames necessários em cada idade, especialistas que têm de consultar, vacinas indicadas além das previstas no calendário nacional, cuidados extras…

Importante: não só os profissionais e os serviços têm de segui-las, o cidadão tem o direito de exigi-las.

Em português claro. A partir de agora, você, mãe, e você, pai, podem exigir que o serviço de saúde atenda  melhor o seu filho com Down conforme as recomendações previstas nas Diretrizes. É um marco. Um avanço nos cuidados da pessoa com Down. Uma vitória da sociedade.

Blog da Saúde – De onde partiu essa ideia?

Patrícia Tempski – É uma reivindicação antiga de pais e profissionais que trabalham com a síndrome de Down. Antes, o fato de não haver diretrizes fazia com que cada  serviço ou profissional fosse por um caminho. Às vezes a família tinha sorte em encontrar um profissional com mais experiência de atendimento nessa população, mas às vezes não.

Agora, as Diretrizes permitem que os profissionais de todas as especialidades  que trabalham com Down  possam atender  melhor os seus pacientes.   As Diretrizes foram escritas para profissionais, mas a sua linguagem, bastante acessível à população geral, permite que sejam utilizadas também pela família.

Blog da Saúde – De quem foi a iniciativa?  

Patrícia Tempski – Do Ministério da Saúde, compondo o programa Viver sem limites, lançado pela presidenta Dilma em 2011. O programa traça algumas metas para o atendimento de pessoas com todo tipo de deficiência. A população com Down se encaixa aí. Uma das metas do Viver Sem Limites é justamente melhorar o atendimento da síndrome de Down. Para isso, era indispensável construir diretrizes para o cuidado dessa população.

Portanto, havia, sim, uma demanda antiga da sociedade e surgiu o Viver Sem Limites. Foi nesse contexto histórico que surgiu a possibilidade de se construir as Diretrizes.

Blog da Saúde – Como isso se deu?

Patrícia Tempski – O Ministério da Saúde reuniu, em Brasília, profissionais experientes dos diferentes programas. Participaram também representantes de APAEs, da Federação Nacional de Síndrome de Down e de outras organizações não governamentais do movimento Down.

Esse grupo fez uma revisão de suas práticas, consultando a literatura mundial. Discutimos como cada serviço fazia aqui e o que era feito nas melhores instituições do mundo.

Aí, chegamos a um consenso sobre qual a melhor forma de cuidar da população Down nas diferentes idades. Este consenso passou por uma consulta pública, onde a sociedade teve acesso e possibilidade de sugerir aprimoramentos. As Diretrizes não são nada mais do que como cuidar de forma adequada a população Down nas diferentes idades.  Elas já estão valendo e à disposição da sociedade.

Blog da Saúde – A quem se destinam?

Patrícia Tempski – Prioritariamente aos profissionais que atendem no SUS, mas também aos atuam nos serviços privados e à população em geral.

Blog da Saúde – A senhora trabalha há 21 anos com a síndrome de Down. Olhando para trás, o que mudou? 

Patrícia Tempski – Quando eu comecei a trabalhar com Down no Ambulatório de Atendimento à Pessoa com Síndrome de Down do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), quase não se falava em equipe multidisciplinar.  O nosso serviço foi um dos primeiros a trabalhar nesta modalidade. Foi feito um convênio entre o Hospital de Clínicas e a Associação Reviver Down. Foi algo inovador, porque uma mesma criança era atendida por vários profissionais de saúde, portanto vista sob diferentes olhares que eram complementares.  Também a inclusão social e a autonomia são maiores hoje.

Blog da Saúde – Quais os ganhos do atendimento multidisciplinar?

Patrícia Tempski – Os pacientes ganham em autonomia, qualidade de vida, a inclusão é muito melhor.

Antigamente, eles ficavam muito isolados do convívio social. Hoje frequentam o ensino regular, os que têm condições estão inseridos no mercado de trabalho. Têm uma vida muito mais próxima do normal do que aquelas pessoas com Down que tinham a mesma idade há 20 anos.

A gente percebe também que a postura da própria sociedade hoje é bem diferente; há um melhor entendimento em relação às pessoas com Down.

A inclusão – é importante que todos saibam — não é benéfica apenas para as crianças, adolescentes e adultos com Down, mas também para a sociedade que os acolhe.

Blog da Saúde – Em que se beneficiam?

Patrícia Tempski – Na área da afetividade, as crianças com Down são superiores a nós. Ensinam-nos a ser mais carinhosos, perseverantes e tolerantes. Respeitando a deficiência do outro, aceitamos mais as nossas próprias. Além disso, são muito otimistas e bem humoradas.  Alguns pais me perguntam se isso é mesmo verdade, pois algumas vezes seus filhos não são assim tão afetuosos. Respondo que essa afirmação não é uma regra, mas é uma característica bastante comum no Down.

Assim, aprendemos desde cedo a tolerância, a aceitar e respeitar o diferente, os diferentes ritmos de levar a vida, de aprendizagem…

Blog da Saúde – Ou seja, é bom, mesmo, para os dois lados.

Patrícia Tempski — Com certeza. A minha filha menor — na época, ela tinha 11 anos,  agora, 14 — está numa escola que pratica a inclusão. Ela tem um coleguinha com Down. Outro dia perguntei: Como é quando vocês têm de fazer uma atividade em grupo? Vocês têm algum problema de tê-lo no grupo?

Ela me respondeu: “Não, todo mundo quer ficar com ele. A gente briga pra ver quem vai ficar com ele, de tanto que a gente gosta dele”. Nessa escola não existe segregação, porque há todo um trabalho no sentido de desmistificar ideias equivocadas.

Blog da Saúde – Por exemplo.

Patrícia Tempski — A síndrome de Down é uma condição humana geneticamente determinada. Não é uma doença em si. Doenças são as patologias associadas à síndrome de Down. Dentro desse entendimento, fica muito mais fácil entender e aceitar as pessoas com Down, pois essa síndrome é uma condição humana.

Nesse sentido, as Diretrizes são muito importantes. Além de ser um documento de cuidado,  elas são um documento político, que firma essa posição de aceitação, direitos, equidade no tratamento e respeito. Pais e mães têm agora um paradigma para brigar pelos direitos de seu filho com Down, qualquer que seja a idade dele.

Blog da Saúde – Eu li as Diretrizes e elas salientam muito o momento em que o diagnóstico é dado à família. Gostaria que falasse um pouco sobre isso.

Patrícia Tempski – Com base no acompanhamento de quase mais de 2.500 pacientes de zero a 67 anos, eu garanto: a forma como o médico dá a notícia aos pais sobre o diagnóstico faz tremenda diferença, pode determinar o desenvolvimento da criança,  pois tem impacto muito grande na aceitação, disposição e adesão ao tratamento adequado.

Tem ainda profissional que chega e diz: “Mãe, teu filho tem Down, não vai andar, não vai se vestir sozinho, não vai…”.

Além de desrespeitosa, a postura é equivocada. Ninguém tem condições de afirmar até que ponto uma criança progredirá. Além disso, tira a esperança da família, desencorajando-a a buscar tratamento adequado. Resultado: rouba desse filho o direito de desenvolver toda a sua potencialidade. Um crime.

Blog da Saúde – Como a notícia deveria ser dada aos pais?

Patrícia Tempski – Receber a notícia de que o seu bebê tem síndrome de Down é duro, sim. É algo que não se espera. Mas o médico pode ajudar a família a dar um novo significado à vinda desse filho e a ir à luta.

O diagnóstico nunca deve ser transmitido à mãe na sala de parto, mas sempre em ambiente tranquilo, idealmente apenas com o pai ou outro parente junto. É preciso deixá-la extravasar o sofrimento. Não há script, mas, com jeito e carinho, é vital abordar os seguintes pontos na primeira conversa:

— Mãe, examinamos seu bebê e ele tem características especiais. Já percebeu que o narizinho é chato, as orelhas pequenas, o pescoço gordinho atrás, as sobrancelhas juntinhas, o corpo mais mole e os olhinhos puxados? O nome disso é síndrome de Down. Síndrome é conjunto de sintomas. E Down, o nome do médico que descreveu a síndrome.

— A síndrome de Down não tem cura, mas tem tratamento e a família terá um papel muito importante.

— Down é a principal causa de déficit intelectual. Em cada 700 nascimentos,  ocorre um caso. Por ano, são 10 mil no Brasil. A desigualdade de desenvolvimento das crianças que nascem com essa síndrome depende de doenças associadas, estimulação, educação e manutenção da saúde. Portanto, desde já, precisamos trabalhar juntas: quanto mais investirmos hoje em seu filho, mais qualidade  e autonomia terá no futuro.

— Ninguém tem culpa por isso; nem você, mãe, nem você, pai. Down é um acidente genético.

Blog da Saúde – Até agora a senhora não usou a expressão portador de Down, que muita gente utiliza…

Patrícia Tempski —  No meu entendimento, síndrome de Down não é algo que se carrega nas costas como mochila. Portanto, ela não é portadora  de algo mas é um pessoa com características próprias.

Blog da Saúde – Voltando às Diretrizes. O atendimento multiprofissional deve envolver o quê?

Patrícia Tempski — Cada fase da vida precisa de cuidados específicos. Para que sejam adequados, não podem ser feitos por um só profissional. Cada serviço tem uma formação. Alguns têm na equipe fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo. Outros, equipe mais ampliada, incluindo ondontólogo, educador físico, psicólogo, nutricionista, assistente social. Em qualquer formato, médicos e enfermeiros compartilham o cuidado com a equipe.

Blog da Saúde – A senhora menciona o educador físico e o assistente social. Por que os incluiu?

Patrícia Tempski — O assistente social é muito importante para assegurar e manter o atendimento, que demanda recursos financeiros. É quem apoiará a família no sentido de verificar o que eventualmente ela tenha e aqueles que virão da comunidade.

Quanto ao educador físico nós o incluímos porque a gente tem a ideia de que ele faça a promoção da saúde, mostrando a importância da atividade física na qualidade de vida das pessoas com Down e suas famílias. Tanto no desenvolvimento delas como um todo como na manutenção do peso.

Eu gosto de pensar em uma equipe multiprofissional cada vez mais expandida que inclua veterinário, pois  os relatos de terapia com animais — a “pet-terapia” —  são animadores. Defendo também a presença dos pedagogos na equipe multiprofissional por acreditar na visão de integralidade do ser humano.

Blog da Saúde – Quando começa o atendimento da criança com Down?

Patrícia Tempski – Já ao nascimento, quando a gente dá a notícia à família.

Blog da Saúde – Toda criança com Down apresenta algum atraso no desenvolvimento. Atualmente é possível medir a sua extensão?

Patrícia Tempski – Não. Nós nunca sabemos aonde cada paciente chegará, porque a potencialidade humana não pode ser medida num único olhar.

O que eu tenho como certeza é que todo o trabalho e investimento feitos na saúde e na educação da criança com Down geram no futuro mais autonomia, mais potencialidade.

Os jovens que tiveram estimulação global, cuidado mais integral, participaram da inclusão desde cedo, possivelmente estão melhores do que aqueles que não tiveram.

Por isso é fundamental aproveitar cada momento do dia para ensinar e a criança aprender. A boa mãe e o bom pai, além de não se envergonharem de mostrar o filho ao mundo, mostram o mundo ao filho, como afirmava o psicanalista Winicott.

Blog da Saúde – O que gostaria de dizer mais à mãe e ao pai com um filho Down?

Patrícia Tempski — Quanto mais você fizer hoje, melhor será a qualidade de vida dele no futuro. Estimule-o. Pratique inclusão social, tolerância e solidariedade. Todos nós sairemos ganhando.

Blog da Saúde – E aos profissionais de saúde e à própria sociedade?

Patrícia Tempski – Nós, profissionais de saúde,  podemos fazer a diferença, desmitificando ideias erradas e estimulando a inclusão. Já as escolas regulares que aceitam crianças com Down merecem meus aplausos: vocês estão praticando inclusão, cidadania, tolerância e solidariedade de verdade.Apenas  o discurso, se vem não acompanhado da prática, fica vazio.

Quanto a vocês, pai e mãe, não é porque seu filho é diferente e tem dificuldades que não será querido e feliz. Arregacem as mangas. Lutem pelos direitos dele. Todos nós — profissionais, pais e sociedade — devemos ser  facilitadores de vivências e oportunidades que permitam  que as pessoas Down atinjam o seu melhor potencial. Vale a pena!

Diretrizes Cuidados Sindrome Down by Conceição Lemes

10

Túlio Franco: “Sou contra a internação compulsória a usuários de crack”

Publicado em: 18 de dezembro de 2012

por Túlio Batista Franco, no blog do Cebes

“Se eu tivesse elevado a minha voz desde o começo em vez de me calar em todas as línguas do mundo…” (Van Gogh)

O título na primeira pessoa é para atribuir o caráter de um texto-manifesto, é meu grito. As cenas de barbárie cometidas contra usuários de crack veiculadas na mídia quase diariamente nos invade com sua prepotência de uma moral hipócrita, associada a uma política equivocada de combate às drogas. É na propositura do resgate de uma humanidade perdida em algum lugar, em uma sociedade que banaliza o sofrimento alheio que pretendo fazer esta discussão.

O consumo do crack tem sido apresentado como um problema social, mas não é o único, convivemos ainda com altos índices de violência, exclusão e abandono. E estas questões estão associadas ao alto consumo de crack, que aparece no cenário das existências humanas como a possibilidade de se obter um rápido momento de prazer proporcionado pelo seu consumo. Frente a uma realidade cruel como a sociedade atual se apresenta, busca-se um instante de não-realidade, a desruptura do meio violento, carente, habitado por afetos negativos.

Geralmente quando alguém se vê diante de um outro que consome o crack não pergunta pra ele e pra si mesmo:

— Q!ual e a sua história de vida?

Histórias de vida são coisa de humanos, e o usuário de crack está sendo despido de sua humanidade, algo parecido com o “homo sacer” mencionado porAgamben no seu livro “Homo Sacer: o poder soberano e a vida nua” , aquele que só tinha a própria vida, e nada mais se inscrevia sobre ela, aparecendo como uma “vida nua”, desprovida de tudo, inclusive das representações do humano. O usuário de crack está sendo desumanizado pelo julgamento moral, pela intolerância social, pela generalizada criminalização.

Apesar do enunciado de que o crack é um problema de saúde pública, o tratamento da questão ainda tem um forte caráter repressivo, que opera sobre dois planos. O primeiro agenciado pela política de combate às drogas, que resulta em intolerância, repressão, demonstrada pelo aumento da população carcerária relacionada às drogas desde que a nova Lei de Drogas foi aprovada em agosto de 2006. De 2007 a 2010, essa população aumentou 62,5%, um acréscimo que se deu justamente sobre pessoas que eram rés primárias e não tinham envolvimento com o crime organizado . Os usuários sofrem com abordagens repressivas e violentas.

Descriminalizar é o passo fundamental para políticas mais efetivas de combate às drogas, por parâmetros humanitários e de cidadania.Experiências de controle de uso do crack e outras drogas, onde seu uso foi descriminalizado, os usuários perderam o medo de buscar ajuda, aumentando em muito aqueles que ingressavam nos programas de apoio, cuidado e redes de serviços de saúde. O segundo plano de intervenções se faz pelo recolhimento compulsório e a internação por período de tempo determinado, caracterizando assim uma intervenção e tutela sobre as pessoas, realizada de modo violento e ilegal.

A política de combate ao crack no Rio de Janeiro

O Rio de Janeiro é atualmente uma das cidades de maior visibilidade no mundo, tendo à frente a realização de dois grandes eventos, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Isto resulta em grandes intervenções urbanas que preparam a cidade para os eventos. Os efeitos desta intervenção na população mais vulnerável socialmente em geral, e especificamente nos usuários de crack, caracteriza uma política violenta, autoritária, militarizada e anti-cidadã.

O recolhimento compulsório usado como dispositivo para impor o tratamento aos usuários tem por base o argumento de que essas pessoas “perderam o governo da sua própria vida”, fazendo com que o estado intervenha sobre elas. Com esse discurso, o governo do Rio de Janeiro legitima junto à população o “arrastão oficial”, que rouba os corpos da sua vida por meio violento, os tira da rua encarcerando-os para um suposto projeto terapêutico que comprovadamente é precário e ineficaz.

A prática de internação compulsória é ilegal porque restringe o direito constitucional de ir e vir, ineficaz socialmente, porque o isolamento reforça a descriminação, e, tecnicamente, pois se sabe que o índice de recaídas para os que passaram por tratamento compulsório é em torno de 96 a 97% , o que faz com que a internação compulsória seja condenada de modo geral, inclusive por programas de combate às drogas de comprovado sucesso, como o de Portugal.

A estratégia usada no Rio de Janeiro parte de uma análise simplista da realidade, visa apenas o curtíssimo prazo, e tem um forte agenciamento moral. A política atual no Rio de Janeiro trata o usuário de drogas como algo que deve ser simplesmente removido da paisagem urbana.

A boa notícia no cenário é a perspectiva de criação da Rede de Atenção Psicossocial proposta pelo Ministério da Saúde, que propõe dispositivos de cuidado à população de rua, usuários de crack e outras drogas. Mas a iniciativa encontra-se em estágio inicial, ainda com dificuldades de responder à extensão e urgência do problema. Associa-se no Rio de Janeiro à não-vontade política de construção de uma rede ampla, com capilaridade social e no território que permita intervenções em larga escala através de dispositivos de cuidado.

É possível cuidar sem reprimir

O cuidado aos usuários de crack deve eliminar qualquer hipótese repressiva e parte da diretriz da descriminalização do uso, reconhecimentodo usuário como cidadão pleno de direitos, merecedor de atenção, respeito, afeto. Vários dispositivos têm sido usados para o cuidado como os consultórios na rua, formados com equipes multiprofissionais e atividade diária junto à população;estratégias de redução de danos com vistas a gerar confiança e criar vínculos entre profissionais da saúde e usuários, tendo em vista projetos terapêuticos mais duradouros e eficazes. Ter uma variada oferta de ações assistenciais e apostar na criação da Rede de Atenção Psicossocial e qualificar o seu funcionamento.

É preciso “parar de perseguir o doente e perseguir a doença”, “trocar prisão por tratamento”, são alguns dos preceitos do programa de Portugal, que já está sendo replicado para Argentina, México, República Checa e mais recentemente a Noruega e é considerado um dos maiores sucessos do mundo . Próximo da nossa cultura, o modelo de Portugal nos serve bem como subsídio. A maior evidência de que o controle do uso de crack e outras drogas pode ser feito sob diretrizes de cidadania, respeito, cuidado, é este programa desenvolvido em Portugal. Abaixo um extrato do relatório “Descriminalização da droga em Portugal: lições para criar políticas justas e bem sucedidas sobre a droga”, elaborado pelo constitucionalista norte-americano Glenn Greenwald e publicado no jornal português Econômico, em 26/07/2010.

“Desde 1 de Julho de 2001, altura em que a aquisição, posse e consumo de qualquer droga estão fora da moldura criminal e passaram a ser violações administrativas, o consumo de droga em Portugal fixou-se ‘entre os mais baixos da Europa, sobretudo quando comparado com estados com regimes de criminalização apertados’. A explicação, segundo Greenwald, reside nas oportunidades de tratamento. ‘As pessoas deixaram de ter medo do sistema judicial e perderam o receio de procurar ajuda. Por outro lado, mesmo as que continuam a consumir são merecedoras da ajuda do Estado’, diz o presidente do IDT. Em 2009, 45 mil pessoas integravam uma das fases de tratamento, incluindo pessoas com problemas de alcoolismo, um número ‘recorde’, segundo João Goulão. E destas 45 mil pessoas, 40% trabalham ou estudam, acrescenta o presidente do IDT”.

Dados de 2006 mostram que a prevalência do consumo de drogas em Portugal desceu de 14,1% para 10,6% face a 2001 nas idades entre os 13 e os 15 anos, e de 27,6% para 21,6% na faixa etária entre os 16 e os 18 anos.

Propostas de cuidado ao crack

Para elaborar um plano de controle ao uso do crack é necessário eliminar qualquer julgamento moral sobre o uso de drogas, considerar como diretrizes gerais a descriminalização do uso, programas de redução de danos, equipes multiprofissionais organizadas em consultórios na rua, estabelecimento de vínculo entre profissionais e usuários, programas de apoio e ajuda para estabelecimento de vínculos sociais, construção de projetos de futuro, sonhos e tudo o que alimenta a existência humana.

Há uma mobilização nacional contra a internação compulsória e medidas repressivas em geral, entre outras, a Frente Nacional de Drogas e Direitos Humanos (FNDDH), tem orientado para várias propostas de cuidado como por exemplo:

• A ampliação e o fortalecimento da rede de atenção psicossocial;

•  O incremento das equipes da Estratégia de Saúde da Família e dos Consultórios na Rua, bem como dos NASF (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), como estratégia prioritária no trabalho com os usuários de drogas, diretamente nos seus territórios;

•  A ampliação da rede de serviços da assistência social, em cumprimento à Tipificação Nacional dos Serviços Socioassistenciais instituída na Resolução 109 do Conselho Nacional de Assistência Social.

•  Garantia de financiamento de políticas públicas nas áreas de cultura, educação, esporte e lazer com a criação de projetos e programas que tratem a questão de forma transversal em parceria com escolas, universidades, Pontos de Cultura, Segundo Tempo, entre outros.

Este é o ponto de partida para o debate mais amplo em torno da construção de um plano de ação para o combate às drogas.

Niterói, 12 de dezembro de 2012.

Túlio Batista Franco é membro do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes) e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

5

Fátima Oliveira: A judicialização da doença mental é uma praga; em geral, trata as famílias como bandidas!

Publicado em: 16 de outubro de 2012

por Fátima Oliveira, no Jornal O TEMPO

Médica – [email protected] @oliveirafatima_

Dia 10 de outubro é Dia Mundial da Saúde Mental, data em que, em 2012, aconteceu a abertura do 30º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, cujo tema foi “Psiquiatria, ciência e prática médica”.

Pelo que acompanhei no site da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), foi um momento de avaliação da atenção à saúde mental em nosso país e, sobretudo, um espaço para reafirmar a continuidade da campanha “A sociedade contra o preconceito” e o apoio ao projeto de lei “Psicofobia é um crime”.

De iniciativa do senador Paulo Davim (PV-RN), esse emenda o novo Código Penal, criminalizando a psicofobia, o preconceito contra pessoas com transtorno ou deficiência mental, “punindo com pena de dois a quatro anos de prisão ações motivadas pelo preconceito, como impedir a nomeação em cargo público, demitir de empresa ou vetar acesso a transporte ou estabelecimentos comerciais”.

Sou uma curiosa da psiquiatria, área do saber médico sobre a qual aprendi a gostar de ler por necessidade familiar, com o intuito de saber mais para não peregrinar à toa nas estradas da vida. Todavia, até hoje peregrino. No entanto, tenho estofo intelectual e científico para discutir, divergir e concordar – uma situação privilegiada, em comparação com o mundaréu de gente que tem de conviver, sem lenço e sem documento, com familiares com transtornos mentais e ainda tem de ouvir de juízes que “as famílias não querem cuidar dos seus doidos”, quando busca uma internação necessária. Afirmo, a judicialização da doença mental é uma praga que, em geral, trata as famílias como bandidas!

Com a palavra, quem entende do assunto por dever de ofício: “Duas em cada dez pessoas em todo o mundo têm ou já tiveram algum transtorno mental. No Brasil, não é diferente. Apesar disso, não há no país políticas públicas satisfatórias em saúde mental (…).

Segundo dados do Ministério da Saúde, 3% dos brasileiros sofrem com transtornos mentais severos e persistentes, e mais de 6% da população tem transtornos psiquiátricos graves decorrentes do uso de álcool e drogas: 12% da população necessita de algum atendimento em saúde mental. O problema é que o sistema de atendimento ao doente mental não atende às expectativas dos especialistas e às necessidades dos pacientes.

A Política Nacional de Saúde Mental foi instituída com o objetivo de consolidar um modelo que garantisse o convívio do doente com a família e a comunidade. As diretrizes procuraram evitar as internações em hospitais psiquiátricos. Com isso, unidades foram fechadas, equipes desestruturadas e leitos desativados. Entre 2002 e 2011, quase 20 mil leitos psiquiátricos foram extintos no SUS. Um dos instrumentos utilizados para promover a reforma foram os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), até hoje insuficientes e sem estrutura física e/ou equipes profissionais de atendimento.

Ao fim de 2011, o Brasil possuía 1.742 Caps. Segundo o Ministério da Saúde, essa quantidade atende 72% da população, mas o que vemos na realidade é bem diferente.

Os números trazem outros agravantes. Apenas cinco unidades do total de Caps em funcionamento, em todo o país, estão abertas 24 horas, sete dias por semana, para receber pessoas que fazem uso de álcool e drogas; é precário o tratamento do doente mental na rede de atenção básica à saúde, e poucos são os hospitais que oferecem atendimento ambulatorial” (ABP,  9 de outubro de 2012).

Com a palavra, o ministro da Saúde, que precisa dar uma resposta à altura do caos.

4

Mário Scheffer: “Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/Aids”

Publicado em: 27 de julho de 2012

por Conceição Lemes

 

 

 

 

 

 

Mário Scheffer: “A condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância”

 

Terminou nesta sexta-feira, em Washington, Estados Unidos, a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. O Programa Nacional de DST/Aids, que até então era festejado e apontado como modelo para o mundo, sofreu críticas de especialistas durante toda a semana.

“A história de sucesso do programa brasileiro de aids entrou em declínio por fatores como a saída de recursos internacionais e o enfraquecimento da relação entre o governo e a sociedade civil”, avalia Eduardo Gomez, pesquisador da Universidade Rutgers de Camden, em Nova Jersey, EUA. “Historicamente, o programa brasileiro de aids tinha uma conexão forte com as ONGs, mas agora elas estão sem recursos e sem motivação. O governo precisa delas para conscientizar as populações difíceis de atingir.”

“O aumento da pressão de grupos religiosos e a redução das campanhas de prevenção junto às populações de maior risco são a maior ameaça ao programa brasileiro anti-aids”, pondera Massimo Ghidinelli, coordenador de Aids/HIV da Organização Panamericana da Saúde (OPAS). “Parece que, nos últimos anos, os grupos religiosos ficaram mais fortes e há uma menor intensidade na maneira pela qual o programa lida com questões de homofobia e sexualidade.”

Ontem, quinta-feira 26, ativistas brasileiros presentes à 19ª Conferência Internacional de Aids, em Washington, protestaram em frente ao estande do Ministério da Saúde contra o que definem como “retrocesso na resposta contra a epidemia”. O objetivo, segundo eles, foi mostrar ao mundo que o País “não é mais o mesmo” e “vive do sucesso do passado” no enfrentamento da doença.

“Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs e ativistas brasileiros. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados”, observa Mário Scheffer, presidente do Grupo Pela Vidda-SP. “O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas. Vivemos uma crise sem precedentes na resposta à epidemia de HIV/aids.”

Ativista há mais de 20 anos e também professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Mário acompanha a epidemia de HIV/Aids desde o seu início nos anos 80. Além do olhar afiado e da expertise em saúde pública, ele conhece bem toda a trajetória do Programa Nacional de DST/Aids. Daí esta nossa entrevista:

Viomundo – Começou no domingo (22) e terminou hoje (27) em Washington a 19ª Conferência Internacional sobre Aids. No decorrer da semana, foram feitas várias críticas ao momento atual do programa brasileiro de aids. Você concorda com elas?

Mário Scheffer – Com certeza. Até agora, as críticas eram principalmente de ONGs brasileiras. Agora, são de especialistas estrangeiros renomados. Elas são a prova maior de que o programa brasileiro não é mais a principal referência internacional, perdemos a liderança e o ineditismo, não ousamos mais nas respostas excepcionais que marcaram nossa história de combate à aids.

Viomundo – As ONGs de aids sempre tiveram boa interlocução com o Ministério da Saúde. O que aconteceu?

Mário Scheffer — As ONGs e os ativistas pioneiros que são obviamente mais críticos não são mais ouvidos. O governo atualmente elege os interlocutores que lhes são mais convenientes e deslegitima muitos daqueles que deram contribuições históricas.

Sinal de que as coisas não vão nada bem por aqui é que tanto a crítica ao programa quanto o reconhecimento às ONGs e aos ativistas brasileiros têm que vir de fora.

Aliás, o presidente do Banco Mundial, Jim Yong Kim, em seu discurso na abertura da Conferência Internacional de Aids, domingo passado em Washington, fez um vigoroso elogio aos ativistas e citou especificamente as ONGs brasileiras. Disse que se hoje é possível falar em controle da epidemia e vislumbrar o seu fim, isso se deve fundamentalmente às ações desses ativistas.

Viomundo —  ONGs de aids estão fechando as portas no Brasil. Por quê?

Mário Scheffer – Vários motivos. Crise de pessoal, financeira, de sustentabilidade, não têm sede física, não têm dinheiro para pagar aluguel e telefone, têm que compor diretorias com apenas três pessoas  porque não há mais gente disponível. Também não conseguem mais montar  equipes para executar projetos, para chegar até as populações vulneráveis, o que só as ONGs são capazes de fazer.

Em outras palavras: algumas ONGs estão fechando as portas, como você disse. Mas está havendo também retração das atividades de todas elas.

Viomundo – Mas as críticas não se devem apenas à crise financeira e de pessoal das ONGs de aids?

Mário Scheffer – Essa é apenas uma das pontas da crise sem precedentes da resposta brasileira à epidemia, que também perdeu tecnicamente. Além disso, não há sensibilidade nem determinação do governo para perceber e para contribuir com a superação da crise das ONGs. Pelo contrário. Atualmente há uma crise política de relacionamento e mesmo de desprezo pela história das ONGs. O governo federal tem feito a opção — e isso não é só na área de aids — pela relação paroquial com a sociedade civil, uma política de cooptação e quebra-galho. Não ha mais crítica nem debate qualificado de ideias. Tivemos uma sucessão de perdas acumuladas.

Viomundo – Quais?

Mário Scheffer – Primeiro, perdemos a força do trabalho voluntário por meio do qual as pessoas participavam de nossas ONGs, exprimiam sua solidariedade, doavam tempo, trabalho e talento para a luta contra a aids. Não é mais uma causa mobilizadora e isso tem a ver com a imagem trabalhada pelo governo de que temos o melhor programa do mundo e que por aqui está tudo resolvido.

Segundo, com a ascensão das ONGs picaretas e bandidas, criadas para alimentar a corrupção em vários ministérios, cresceu o preconceito e foram impostas mais barreiras para as organizações sérias, que já tinham dificuldade em acessar recursos públicos.

Desde que realizado com critério, transparência, concorrência pública e rigorosa prestação de contas, as ONGs deveriam ter o direito de acessar fundos públicos para exercer o controle, a fiscalização e a participação nas políticas públicas, como acontece em várias democracias.

Terceiro, diante da imagem de que o Brasil hoje é um país rico e resolveu o problema da aids (o que não é verdade), acabou o apoio internacional às ONGs brasileiras de aids.

Resultado: sem ajuda de comunidades e empresas e com uma causa que não toca mais o coração de doadores e voluntários, passamos a viver a dificuldade crescente de assegurar recursos institucionais para a manutenção das ONGs. Com isso, arrefeceu o nosso ativismo e controle sobre as políticas públicas.

Viomundo – E os financiamentos governamentais vinculados a projetos?

Mário Scheffer – Eles fazem parte de um modelo esgotado em que as ONGs de aids foram reduzidas a mão de obra barata para prestação de serviços que o Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde não conseguem realizar. Não bastasse isso, muitas vezes estados e municípios não repassam esse recursos às ONGs e quando o fazem, não há continuidade nem avaliação da eficácia das ações financiadas.

Viomundo – Um pouco atrás você falou que o programa brasileiro de aids perdeu tecnicamente. Em que medida? 

Mário Scheffer — Não houve renovação nem atualização dos quadros técnicos. Os desafios hoje são outros, mas a condução é conservadora, defasada. A criatividade, a ousadia e o diálogo permanente com a sociedade civil  cederam lugar à arrogância. Sem a força e a autonomia de outrora, os programas de aids —  o nacional e vários estaduais e municipais — estão isolados e enfraquecidos politicamente dentro dos governos.

Em São Paulo, por exemplo, muitos serviços municipais de aids estão sem médicos,   os estaduais, superlotados, sendo privatizados, fechando leitos, e os programas de aids sem nenhuma governabilidade sobre isso.

Já o programa nacional nem sequer dá mais as fichas sobre a produção nacional de antirretrovirais genéricos. Hoje é um processo sem transparência. O Ministério da Saúde não dá um passo sem o amém da Casa Civil e dos fundamentalistas religiosos que integram a base governista, o que emperra programas de prevenção de aids.

Viomundo – O que ONGs e ativistas da área de aids querem?

Mário Scheffer — Queremos ser respeitados e ouvidos mas em novos patamares de relacionamento. Ninguém desistiu da luta. Nossas ONGs querem continuar atuando nas diversas frentes, na prevenção, na assistência das casas de apoio, nas assessorias jurídicas, na defesa dos direitos das pessoas que vivem com HIV. Queremos continuar fazendo o mesmo ativismo que nos levou a conquistar o acesso universal aos medicamentos, derrubar patentes, lutar contra a exclusão de coberturas pelos planos de saúde privados, acessar os vulneráveis e alçá-los à condição de cidadãos.

O mesmo ativismo que nos leva a apontar que, diferentemente do que dizem, o acesso aos antirretrovirais no Brasil não é universal, pois o diagnóstico tardio é altíssimo e ainda existem desabastecimentos ocasionais. Que nos leva a dizer que não existe política de prevenção adequada a um perfil de epidemia concentrada em certas populações, como os homossexuais, atualmente os maiores negligenciados de prevenção em aids no Brasil.

Hoje estão ameaçados princípios essenciais que forjaram o combate à aids no Brasil, que um dia chegou a quebrar barreiras e tabus. Essa ousadia necessária deu lugar a um programa sem vida, covarde, que promove autocensura, se alinha com forças retrógradas, como no caso recente da campanha dirigida aos gays.

Um programa que se debruça sobre glórias do passado e exibe uma real incapacidade , lentidão e perda da capacidade técnica e política . Não tem conseguido dar respostas à altura das novas dinâmicas e desafios da epidemia e a comunidade internacional passou a perceber isso.

Neste momento de grandes mudanças, com esperança concreta da cura e controle da aids, novas armas para prevenção, necessidade de ampliarmos a oferta de testagem e tratamento a todos os infectados, o Brasil está paralisado, com seus indicadores de mortalidade e de novas infecções pelo HIV estacionados. O programa brasileiro de aids parou no tempo e não é mais motivo de orgulho nacional.

Leia também:

ONGs denunciam desmonte do programa brasileiro de Aids

ABGLT e 257 entidades aliadas repudiam veto a filme para jovens gays

Carnaval 2012: O obscurantismo vence a saúde pública

13

Adiada vacinação do idoso contra gripe comum; Butantan falha

Publicado em: 19 de abril de 2010

por Conceição Lemes

A Campanha Nacional de Vacinação do Idoso deveria começar em todo o Brasil na próxima segunda-feira, 24 de abril, e iria até 7 de maio. Era o previsto desde janeiro no calendário estabelecido pelo Ministério da Saúde. Porém, o ministério teve de adiar o início para 8 de maio nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste.

Motivo: o Instituto Butantan não entregou no prazo estipulado os 18,6 milhões de doses necessárias para a campanha da vacinação do idoso contra a gripe comum. O Butantan, órgão vinculado ao Governo do Estado de São Paulo, é parceiro histórico do Ministério da Saúde e único laboratório da América Latina que produz vacinas contra a influenza.

“O Butantan só nos comunicou do atraso da entrega na sexta-feira passada, 16 de abril”, afirma o médico epidemiologista Eduardo Hage, coordenador de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. “Até o momento, recebemos 6,2 milhões de doses, ou seja, apenas um terço do total.” Pelo contrato assinado com Ministério da Saúde, o Butantan deveria ter entregue tudo até a primeira quinzena de abril.

NORTE E SUL: VACINAÇÃO SERÁ DE 24 DE ABRIL A 7 DE MAIO
Em função do atraso, o Ministério da Saúde e os Conselhos Nacionais de Secretários Estaduais (CONASS) e Municipais (CONASEMS) de Saúde elaboraram um novo calendário para as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Nas regiões Norte e Sul, está mantida a vacinação na data prevista inicialmente: 24 de abril a 7 de maio.

Questões logísticas, no Norte, e epidemiológicas, no Sul, reforçaram a necessidade de manter a data de vacinação dos idosos.

No Norte, 100% das doses de vacina contra a gripe comum já haviam sido entregues às Secretarias Estaduais de Saúde na semana passada. O envio de vacinas é priorizado para os estados dessa região porque as Secretarias Estaduais de Saúde têm dificuldade de acesso aos  municípios e às populações mais distantes; muitas vezes precisam usar barcos e aviões para transportar as vacinas. Já o Sul, historicamente, é a região com inverno mais rigoroso em relação ao restante do país.

“Todas as pessoas com mais de 60 anos das regiões Norte e Sul deverão ser imunizadas contra a gripe comum, como acontece todos os anos”, esclarece Eduardo Hage. “Aquelas que tiverem também alguma doença crônica receberão, também, no outro braço, uma dose de vacina contra a gripe H1N1 [a gripe suína]”.

SUDESTE, NORDESTE E CENTRO-OESTE: 8 A 21 DE MAIO
Nessas regiões, a campanha de vacinação contra a gripe comum para maiores de 60 anos ocorrerá de 8 a 21 de maio.  Aqueles que tiverem doenças crônicas também serão imunizados contra a gripe suína.

Nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, os idosos com doenças crônicas poderão tomar a vacina contra a gripe suína já a partir de 24 de abril, data prevista para o início da campanha.

“Os idosos que fizerem essa opção terão de voltar aos postos de vacinação mais uma vez”, alerta o dr. Hage. “É para tomarem a vacina contra a gripe comum, entre 8 e 21 de maio. Já os que optarem por aguardar até 8 de maio poderão tomar as duas vacinas no mesmo dia, uma em cada braço.”

O Ministério da Saúde, o CONASS e o CONASEMS avisam: a mudança nas datas não prejudicará  a saúde dos idosos.

Siga o Viomundo no Twitter