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Fátima Oliveira, sobre a microcefalia: A República cala e permite a imolação das grávidas pobres

Publicado em: 19 de janeiro de 2016

marcelo castro

Fátima Oliveira: “Ainda temos de aturar um ministro da Saúde sem repertório científico e humanitário a divagar sobre uma hipotética vacina. Ai, meus sais!”

Microcefalia: a República cala e permite a imolação das grávidas pobres 

Fátima Oliveira, em O TEMPO

[email protected]r @oliveirafatima_

Como esperado, já que as interdições ao aborto nunca impediram a sua realização, parece que só mulheres pobres estão tendo bebês com microcefalia. Quem pode pagar R$ 5.000 pratica desobediência civil e aborta entre o pecado e o crime. O Brasil possui uma das leis sobre aborto mais restritivas do mundo, com três permissivos legais: gravidez pós-estupro, em caso de risco de vida da gestante (1940) e anencefalia (2004).

Em “Repressão policial, ideológica e política contra o aborto no Brasil”, registrei: “O aborto – expressão radical de resistência – é uma experiência milenar de milhões de mulheres, que expõe dilemas morais e visibiliza que não é ético obrigar a mulher a levar adiante uma gravidez quando ela não quer ou não pode” (O TEMPO, 14.9.2004).

Numa epidemia que não sabemos quanto vai durar, empurrar milhares de mulheres para o aborto clandestino e inseguro é inominável! É o que a República está fazendo: reforçando o caráter de classe na criminalização do aborto, pois só penaliza as pobres, em geral negras, que sem dinheiro recorrem aos piores lugares, colocando em risco a saúde e até a vida.

Está em vigor uma tabela nacional para aborto/microcefalia: aplicação de cloreto de potássio em clínica privada: R$ 2.000 + R$ 3.000 pelo aborto em si. Há uma segunda opção: pagar a aplicação do cloreto de potássio em serviço privado e realizar o aborto no SUS. E há o Cytotec, ainda nas mãos do narcotráfico no Brasil.

Eis o cenário no qual se movem as mulheres que, após diagnóstico de feto com microcefalia, decidem interromper a gravidez. Há novos problemas clamando solução, e temos de aturar um ministro da Saúde sem repertório científico e humanitário a divagar sobre uma hipotética vacina: “Não vamos dar vacina para 200 milhões de brasileiros. Mas para pessoas em ‘período fértil’. E vamos torcer para que mulheres antes de entrar no período fértil peguem zika para elas ficarem imunizadas pelo próprio mosquito. Aí não precisa da vacina”. (Ai, meus sais!).

Lugar de ministro da Saúde torcedor é em casa, presidenta Dilma, sobretudo quando não sabe o que é idade fértil ou reprodutiva, coisa bastante diferente de “período fértil”, que dura em média seis dias e corresponde ao período da ovulação! Melhor ser gado pé-duro no Piauí, que é patrimônio histórico e cultural desde 2009!

Em 1940, a República Federativa do Brasil não se olvidou e incluiu a permissão de aborto em caso de gravidez resultante de estupro, inspirada em uma tendência ética internacional do pós-Primeira Guerra Mundial (1914-1919), quando o estupro adquiriu dimensão pública de arma de guerra: os invasores e/ou vencedores selavam a vitória estuprando as mulheres dos vencidos. Por que, no cenário da epidemia de microcefalia, não toma para si a responsabilidade de inclusão de mais um permissivo legal? São cenários similares!

“O Brasil deve assumir integralmente as crianças com microcefalia e suas mães” (“O que faremos com nossas crianças com microcefalia?”, O TEMPO, 1º.12.2015). “Quedo-me à impotência diante dos números. Os casos suspeitos só aumentam. Nem sequer temos a dimensão, nem como estimá-la, do que nos espera” (“Desafios ambientais, médicos e psicossociais e microcefalia”, O TEMPO, 15.12.2015). É dever do Estado: cuidar com dignidade das crianças com microcefalia; apoiar gestantes e mães resilientes diante da microcefalia e aquelas que não desejam levar a gravidez adiante.

Defendo o direito ao aborto voluntário segundo a decisão da mulher e considero imoral o Estado impor à mulher ter um filho quando ela não quer.

Leia também:

Fátima Oliveira: O que faremos com nossas crianças com microcefalia? 

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Soraia Lozano: Sucesso do peeling depende de cuidados posteriores

Publicado em: 29 de agosto de 2013

por Conceição Lemes

Recentemente, a leitora Kátia Moraes me mandou um e-mail, perguntando sobre peeling: Qualquer pessoa pode fazê-lo? quais os tipos? 

Para esclarecê-la, pedi ajuda à dermatologista Soraia Araceli Lozano, médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Acabei perguntando mais.  Resultado: esta entrevista.

Blog da Saúde — Doutora, o que é exatamente o peeling?

Soraia Lozano: A descamação provocada da epiderme.

 Blog da Saúde — Trocando em miúdos.

Soraia Lozano — A pele tem três camadas principais. A mais interna é a gordurosa, a chamada hipoderme. Entre outras funções, protege o organismo de traumas e de alterações climáticas (mantendo a temperatura corporal) e também atua como reserva de energia.

A segunda camada é a derme, exatamente onde estão as nossas “fábricas” de novas células da pele que você vê. Entre a hipoderme e a derme ficam certas glândulas e a raiz dos pelos.

A externa é a epiderme, a camada protetora. Constituída de células mortas, garante a impermeabilização e a resistência da cutis.

Pois bem, a derme produz continuamente células novas, que, à medida que chegam à superfície, envelhecem, morrem e descamam. É o processo natural. O que o peeling faz é acelerar essa renovação da pele.

Blog da Saúde — De que maneira?

Soraia Lozano — Utilizando substâncias químicas, físicas ou procedimentos cirúrgicos, que eliminam as camadas mais envelhecidas, e, ao mesmo tempo, forçam a proliferação de células novas. Poucos dias depois a cútis nova está à mostra.

Blog da Saúde — Que outros efeitos produz?

Soraia Lozano — Combate rugas de expressão, cicatrizes de espinhas,manchas de sol e a acne propriamente dita, além de estimular o colágeno, dando mais firmeza à pele.

Blog da Saúde — Todo peeling é igual?

Soraia Lozano –Não. Imagine uma laranja sendo descascada. Há um tipo de peeling que só retira a casca. É o superficial. Como o nome indica, retira as células mortas da porção mais externa da epiderme.

Há um segundo tipo que alcança a camada mais profunda. Esse é o médio: também age na epiderme mas um pouco abaixo e a derme superficial.

O terceiro tipo chega próximo à base de formação das células. É profundo: por meio de substância ácida ou procedimento cirúrgico, atinge derme profunda e exige anestesia.

Blog da Saúde — Os três podem ser feitos em consultório?

Soraia Lozano –– Não. Apenas o superficial e o médio. No primeiro tipo, utilizam-se principalmente os ácidos acetilsalicílico, alfa-hidroxiácido ou o retinoico. No segundo, o ácido tricloracético.

Blog da Saúde —  A opção pelo tipo de peeling depende de quê?

Soraia Lozano — Da necessidade de cada pele. Se o objetivo for retirar substâncias que obstruem poros (favorecendo o surgimento de acne) ou eliminar manchas superficiais, o peeling mais indicado é o superficial.

Ele é também a opção quando se deseja apenas dar frescor e viço à pele.

Já o peeling médio destina-se às manchas causadas pelo sol, para estimular o colágeno, melhorando algumas cicatrizes de espinhas e rugas superficiais de expressão. Ambos podem ser feitos na face, colo, pescoço, dorso das mãos e braços.

O peeling profundo também age sobre o colágeno, estimulando-o mais intensamente. Proporciona melhora das cicatrizes de acne mais profundas e rejuvenescimento.

Blog da Saúde — Na prática, como são feitos os peelings químicos?

Soraia Lozano — Sobre a pele limpa e desengordurada, aplica-se o ácido ou a substância química escolhida.  No local, às vezes provoca vermelhidão e sensação de queimação, que passam rapidamente.

Blog da Saúde — Qualquer pessoa pode fazer peeling?

Soraia Lozano — Em princípio, sim. Porém, peles de pessoas com ascendência africana ou asiática requerem muito mais cuidado. Nelas, devido a características raciais, há maior risco do peeling produzir manchas.

Blog da Saúde  — E a idade?

Soraia Lozano — A menos que seja necessário por causa de muita acne, por exemplo, é aconselhável acima dos 25 anos.

Blog da Saúde — Peeling pode ser feito em qualquer fase do ano?

Soraia Lozano — No verão, há mais risco de a pele manchar, por isso o melhor é fazer no inverno. Se indispensável, os cuidados pós-peeling devem ser ainda mais rigorosos. A exposição direta ao sol é proibida.

Blog da Saúde  — Quer dizer que o sucesso do peeling depende de cuidados posteriores?

Soraia Lozano — Seguramente. Isso vale para qualquer tipo de pele em qualquer época do ano. Os cuidados indispensáveis são:

1. Não se exponha diretamente ao sol.

2. Mantenha a região bem hidratada.

3. Reaplique o protetor solar a cada duas horas.

Lembrem-se: não tem cabimento qualquer complicação em procedimento estético, certo?

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Rede Feminista de Saúde: Mortalidade materna comove, mas não mobiliza

Publicado em: 28 de maio de 2013

Detalhe da pintura “As três idades da mulher”, de Gustav Klimt

Quadro ” Mãe e  filho”, de Margot Dreger

da Rede Nacional  Feminista de Saúde

“O nome de mulher é tão sagrado
Mulher… é nome pra ser respeitado
A cobra não morde uma mulher gestante
Porque respeita seu estado interessante (…)”
Nelson Cavaquinho, J. Ribeiro, Guilherme de Brito

A música é boa… no entanto, quando são considerados os números da morte materna no Brasil, as palavras do poeta são ignoradas.

No Brasil, a razão de morte materna (RMM) no ano de 2010 foi de 68 mortes maternas por grupo de 100 mil nascidos vivos, caindo para 63,9 em 2011.

Apesar de apresentar redução o índice continua muito acima do que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera aceitável, que é de 20 mortes maternas para cada 100.000 nascidos vivos.

A hipertensão e a hemorragia são as duas principais causas específicas de morte materna.

A infecção puerperal e o aborto aparecem como outras importantes causas obstétricas diretas de morte materna. (Boletim, 1/2012 – MS)

A gravidez não é uma doença, mas um evento de saúde reprodutiva das mulheres.

A Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos desde a sua articulação, em 1991 tem como foco a discussão, o debate, a formulação de propostas e o monitoramento da morte materna em nosso país.

Desta forma, a data de 28 de Maio – Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher a Morte Materna é o tema central no Brasil, e um momento interessante para algumas análises.

A morte materna, para nós do movimento feminista, sempre foi analisada dentro do conjunto de circunstâncias relacionadas com os indicadores de adoecimento e morte das mulheres. Não se trata, portanto, de um evento isolado que é vivenciado pelas mulheres na idade reprodutiva.

É muito mais o resultado da precariedade da assistência à saúde, da desigualdade de gênero, do preconceito, do racismo, da alienação, dos fundamentalismos religiosos, da expropriação do corpo da mulher pela sociedade patriarcal, do mercantilismo do sistema de saúde assistencial-privatista, do esvaziamento das práticas e princípios do Sistema Único de Saúde.

É, acima de tudo, o resultado da submissão do Estado brasileiro às imposições da política internacional, como o Relatório do Banco Mundial de 1993 – “Investindo em Saúde” também passou a adotar mais recentemente, na contramão do SUS, as políticas focalizadas para a assistência à saúde substituindo as políticas universais, equânimes e integrais por ações pontuais e restritivas.

Desta forma ocorre uma constante, gradual e persistente decadência das ações e serviços voltados para a saúde da mulher em nosso país e do Sistema Único de Saúde – SUS como um todo.

Quando em 1983 foi lançado o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher – PAISM, ainda na vigência da ditadura militar, houve um avanço conceitual e normativo, pois foi o início da superação da lógica de atenção denominada de “Materno-Infantil”.

A formulação indicava a separação entre saúde da mulher e saúde da criança. Ampliava o âmbito de atuação, a mulher era vista como um ser integral, que adoecia e morria de todas as causas pelas quais adoecem e morrem os habitantes desse país.

Incluía o atendimento à mulher em todo o seu ciclo vital, além das condições específicas das diferentes condições de vida, classe social, raça/etnia, orientação sexual, origem geográfica, entre outras. Estas concepções foram aprofundadas e implementadas a partir de 2003; sendo que em 2004, o PAISM transformou-se um uma política (PNAISM), enfatizando as desigualdades de gênero e a diversidade entre as mulheres.

Após esse período foi apresentado ao país o “Pacto pela Saúde – 2006”, um acordo entre gestores, que reduziu drasticamente a abrangência das ações para a Saúde da Mulher. Esse pacto adequou as propostas da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher – PNAISM aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – ODMs.

Na campanha eleitoral de 2010 surge um fato novo: a Rede Cegonha! Uma viagem onírica, baseada no antigo imaginário infantil sobre a origem dos bebês. Um dos objetivos principais da Rede Cegonha é a redução da morte materna no Brasil.

Ao que parece, as dificuldades persistem, a redução não atingirá nem as metas do milênio e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher foi desmontada, assim como ocorreu também, o desaparecimento do Pacto Nacional contra a Morte Materna e Neonatal e por fim, o esvaziamento dos Comitês de Morte Materna.

E assim caminha a saúde das mulheres, a morte materna e os compromissos do Estado brasileiro com a sociedade e com os órgãos internacionais.

Para agravar o quadro, o Brasil assiste perplexo o Congresso Nacional ser transformado num Tribunal de Inquisição, onde pululam deputados/pastores/padres, enlouquecidos e misóginos, em bancadas pela “vida”, contra a legalização do aborto, que agora se voltam contra o movimento feminista.

Ameaçam as mulheres e suas entidades organizativas com sucessivas Comissões Parlamentares de Inquérito – CPIs, Estatuto do Nascituro, Bolsa-Estupro escancarando o avanço sórdido de posições retrógradas e fundamentalistas. A Rede Feminista é arrolada numa dessas CPIs como criminosa, o que coloca o Brasil entre os países em que as defensoras de direitos humanos são perseguidas e os movimentos sociais criminalizados.

As perguntas que fazemos são as seguintes:

– Como diminuir a incidência/prevalência da morte materna e o aborto sem prevenir a gravidez indesejada?

– Como prevenir a gravidez indesejada, sem dados confiáveis para o planejamento em saúde, já que o aborto, sua principal resultante é considerado crime e é realizado na clandestinidade?

– Como resolver um problema de Saúde Pública, como a Morte Materna e o aborto sob uma ótica religiosa, baseada na culpa e no pecado, que fere o princípio da laicidade do Estado, que atenta contra a Constituição da República?

– Como vencer a covardia do Executivo e do Legislativo que se dobram às imposições das bancadas religiosas, atrasadas, histéricas e eleitoreiras?

Essas questões acima indicam vestígios para responder a mais estas questões:

– Por que se fazem passeatas, cultos, cerimônias macabras, contra a legalização do aborto e não acontece, de parte desses mesmos setores, nenhuma mobilização contra a morte materna?

– Caberia somente às mulheres, notadamente as feministas, lutar pelo fim dessas mortes ou quase mortes evitáveis e eticamente inaceitáveis?

– Por que gestores de saúde (municipais e estaduais) não implementam os serviços para o atendimento do aborto nos casos previstos em lei?

– Por que não se garante as mulheres o acesso às tecnologias médicas que podem salvar a vida das gestantes, como o acesso ao CTI, sangue, medicamentos, especialistas e procedimentos diagnósticos de alta complexidade?

Por estas e outras situações que nós da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos exigimos do Estado brasileiro e dos governos estaduais e municipais providências políticas, técnicas, viáveis, abrangentes e urgentes que busquem EFETIVAMENTE a redução e o controle da morte materna e suas causas mais diretas, como o aborto inseguro, o preconceito e o descaso.

Exigimos uma Assistência Integral à Saúde da Mulher dentro de princípios e práticas humanizadas, integrais e universais. Dentro do conceito de Direitos Reprodutivos, concebido no âmbito dos Direitos Humanos!

Assinam:

Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

Regionais:

Anis – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero – DF

Associação Casa da Mulher Catarina – SC

União Brasileira de Mulheres – SC

Associação Lésbica Feminista Coturno de Vênus – DF

Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher – RJ

Centro de Informação da Mulher – SP

Coletivo Feminino Plural – RS

Centro 8 de março – PB

Espaço Mulher – PR

Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense -PA

Ilê Mulher – RS

IMAIS Instituto Mulher pela Atenção Integral à Saúde e Direitos Humanos – – BA

Movimento do Graal no Brasil – MG

Rede de Mulheres Negras do Paraná – PR

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Seu filho tem Down? Exija que seja atendido conforme as diretrizes do Ministério da Saúde, recomenda Patrícia Tempski

Publicado em: 23 de abril de 2013

Patrícia Tempski: “A inclusão social é muito maior com a estimulação e a melhoria do atendimento, que tem de ser multiprofissional”

por Conceição Lemes

Faça um esforço de memória, tente voltar no tempo – 10, 15, 20 anos atrás. Compare com os dias atuais. Hoje certamente você vê nos espaços públicos — rua, escola, transporte coletivo — mais crianças, jovens e adultos com síndrome de Down.

Down não está aumentando, não, na população brasileira. A cada 700 nascimentos, um caso ocorre. Por ano, 10 mil crianças nascem com a síndrome no País.

— Por que então vemos mais pessoas com Down hoje em dia no Brasil? — muitos devem estar se perguntando.

Elas vivem mais e melhor devido a uma combinação de fatores: inclusão social, estimulação e atendimento multidisciplinar.

Explico. Antigamente, as pessoas com Down ficavam mais isoladas. Era comum mãe e pai esconderem a sua criança do mundo: vizinhos, amigos e familiares. Outras vezes eram os vizinhos, amigos e até familiares que evitavam chegar perto.

“Aos poucos, felizmente, isso está mudando”, observa a pediatra Patrícia Tempski.  “Eu, você e os leitores do Blog da Saúde podemos ajudar a fazer a diferença nessas histórias de vida, desmistificando ideias erradas e estimulando a inclusão.”

Down não é uma doença, como muitos pensam, mas condição humana geneticamente determinada, que acontece principalmente na fecundação. Em vez de 46 cromossomos (unidade que contém nossas informações genéticas) em cada célula (23 do pai e 23 da mãe), a criança com Down possui 47; há um cromossomo21 amais, e isso a distingue das demais.

Down não tem preferência por sexo, raça, classe social, religião. A incidência é igual para qualquer raça, nível socioeconômico, religião, entre homens e mulheres.

Muitas pessoas com Down estudam, namoram, trabalham. Outras têm mais dificuldades, logo menos autonomia.

“Essa desigualdade de desenvolvimento depende de problemas associados, estimulação, educação e cuidados dispensados à criança”, explica a médica. “A inclusão social é muito maior com a estimulação e a melhoria do atendimento, que tem de ser multiprofissional.”

A doutora Patrícia trabalha com síndrome de Down desde o início da década de 1990, quando quase não se falava em equipe multidisciplinar. Mais precisamente há 21 anos. Ela foi responsável por organizar o primeiro ambulatório multidisciplinar no Paraná e um dos primeiros no Brasil. O do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em convênio com a Associação Reviver Down, em Curitiba.

Atualmente, trabalha no Instituto de Medicina Física e Reabilitação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP – o IMREA–, que faz parte da rede Lucy Montoro.

Em 2012, integrou o grupo de especialistas que elaborou as Diretrizes para a Atenção à  Pessoa com Síndrome de Down (na íntegra, no final). Pela primeira vez, o Ministério da Saúde se mobilizou para estabelecer condutas para atendimento desse grupo populacional. Uma vitória da sociedade que há muito demandava isso.

[Conceição Lemes quer investigar a invasão dos planos de saúde vagabundos no Brasil. Colabore!]

Blog da Saúde – Na prática, qual o significado das Diretrizes?

Patrícia Tempski – Pela primeira vez a gente tem um padrão de condutas para atender a pessoa com síndrome de Down em todas as faixas etárias – desde o recém-nascido até o idoso. Antes não se tinha. Cada serviço fazia o melhor que achava possível. Agora, qualquer serviço pode se guiar pelas Diretrizes, principalmente aqueles ligados ao SUS.

Blog da Saúde – O que elas trazem?

Patrícia Tempski – As melhores práticas de cuidado para atendimento das diferentes idades. Por exemplo, exames necessários em cada idade, especialistas que têm de consultar, vacinas indicadas além das previstas no calendário nacional, cuidados extras…

Importante: não só os profissionais e os serviços têm de segui-las, o cidadão tem o direito de exigi-las.

Em português claro. A partir de agora, você, mãe, e você, pai, podem exigir que o serviço de saúde atenda  melhor o seu filho com Down conforme as recomendações previstas nas Diretrizes. É um marco. Um avanço nos cuidados da pessoa com Down. Uma vitória da sociedade.

Blog da Saúde – De onde partiu essa ideia?

Patrícia Tempski – É uma reivindicação antiga de pais e profissionais que trabalham com a síndrome de Down. Antes, o fato de não haver diretrizes fazia com que cada  serviço ou profissional fosse por um caminho. Às vezes a família tinha sorte em encontrar um profissional com mais experiência de atendimento nessa população, mas às vezes não.

Agora, as Diretrizes permitem que os profissionais de todas as especialidades  que trabalham com Down  possam atender  melhor os seus pacientes.   As Diretrizes foram escritas para profissionais, mas a sua linguagem, bastante acessível à população geral, permite que sejam utilizadas também pela família.

Blog da Saúde – De quem foi a iniciativa?  

Patrícia Tempski – Do Ministério da Saúde, compondo o programa Viver sem limites, lançado pela presidenta Dilma em 2011. O programa traça algumas metas para o atendimento de pessoas com todo tipo de deficiência. A população com Down se encaixa aí. Uma das metas do Viver Sem Limites é justamente melhorar o atendimento da síndrome de Down. Para isso, era indispensável construir diretrizes para o cuidado dessa população.

Portanto, havia, sim, uma demanda antiga da sociedade e surgiu o Viver Sem Limites. Foi nesse contexto histórico que surgiu a possibilidade de se construir as Diretrizes.

Blog da Saúde – Como isso se deu?

Patrícia Tempski – O Ministério da Saúde reuniu, em Brasília, profissionais experientes dos diferentes programas. Participaram também representantes de APAEs, da Federação Nacional de Síndrome de Down e de outras organizações não governamentais do movimento Down.

Esse grupo fez uma revisão de suas práticas, consultando a literatura mundial. Discutimos como cada serviço fazia aqui e o que era feito nas melhores instituições do mundo.

Aí, chegamos a um consenso sobre qual a melhor forma de cuidar da população Down nas diferentes idades. Este consenso passou por uma consulta pública, onde a sociedade teve acesso e possibilidade de sugerir aprimoramentos. As Diretrizes não são nada mais do que como cuidar de forma adequada a população Down nas diferentes idades.  Elas já estão valendo e à disposição da sociedade.

Blog da Saúde – A quem se destinam?

Patrícia Tempski – Prioritariamente aos profissionais que atendem no SUS, mas também aos atuam nos serviços privados e à população em geral.

Blog da Saúde – A senhora trabalha há 21 anos com a síndrome de Down. Olhando para trás, o que mudou? 

Patrícia Tempski – Quando eu comecei a trabalhar com Down no Ambulatório de Atendimento à Pessoa com Síndrome de Down do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), quase não se falava em equipe multidisciplinar.  O nosso serviço foi um dos primeiros a trabalhar nesta modalidade. Foi feito um convênio entre o Hospital de Clínicas e a Associação Reviver Down. Foi algo inovador, porque uma mesma criança era atendida por vários profissionais de saúde, portanto vista sob diferentes olhares que eram complementares.  Também a inclusão social e a autonomia são maiores hoje.

Blog da Saúde – Quais os ganhos do atendimento multidisciplinar?

Patrícia Tempski – Os pacientes ganham em autonomia, qualidade de vida, a inclusão é muito melhor.

Antigamente, eles ficavam muito isolados do convívio social. Hoje frequentam o ensino regular, os que têm condições estão inseridos no mercado de trabalho. Têm uma vida muito mais próxima do normal do que aquelas pessoas com Down que tinham a mesma idade há 20 anos.

A gente percebe também que a postura da própria sociedade hoje é bem diferente; há um melhor entendimento em relação às pessoas com Down.

A inclusão – é importante que todos saibam — não é benéfica apenas para as crianças, adolescentes e adultos com Down, mas também para a sociedade que os acolhe.

Blog da Saúde – Em que se beneficiam?

Patrícia Tempski – Na área da afetividade, as crianças com Down são superiores a nós. Ensinam-nos a ser mais carinhosos, perseverantes e tolerantes. Respeitando a deficiência do outro, aceitamos mais as nossas próprias. Além disso, são muito otimistas e bem humoradas.  Alguns pais me perguntam se isso é mesmo verdade, pois algumas vezes seus filhos não são assim tão afetuosos. Respondo que essa afirmação não é uma regra, mas é uma característica bastante comum no Down.

Assim, aprendemos desde cedo a tolerância, a aceitar e respeitar o diferente, os diferentes ritmos de levar a vida, de aprendizagem…

Blog da Saúde – Ou seja, é bom, mesmo, para os dois lados.

Patrícia Tempski — Com certeza. A minha filha menor — na época, ela tinha 11 anos,  agora, 14 — está numa escola que pratica a inclusão. Ela tem um coleguinha com Down. Outro dia perguntei: Como é quando vocês têm de fazer uma atividade em grupo? Vocês têm algum problema de tê-lo no grupo?

Ela me respondeu: “Não, todo mundo quer ficar com ele. A gente briga pra ver quem vai ficar com ele, de tanto que a gente gosta dele”. Nessa escola não existe segregação, porque há todo um trabalho no sentido de desmistificar ideias equivocadas.

Blog da Saúde – Por exemplo.

Patrícia Tempski — A síndrome de Down é uma condição humana geneticamente determinada. Não é uma doença em si. Doenças são as patologias associadas à síndrome de Down. Dentro desse entendimento, fica muito mais fácil entender e aceitar as pessoas com Down, pois essa síndrome é uma condição humana.

Nesse sentido, as Diretrizes são muito importantes. Além de ser um documento de cuidado,  elas são um documento político, que firma essa posição de aceitação, direitos, equidade no tratamento e respeito. Pais e mães têm agora um paradigma para brigar pelos direitos de seu filho com Down, qualquer que seja a idade dele.

Blog da Saúde – Eu li as Diretrizes e elas salientam muito o momento em que o diagnóstico é dado à família. Gostaria que falasse um pouco sobre isso.

Patrícia Tempski – Com base no acompanhamento de quase mais de 2.500 pacientes de zero a 67 anos, eu garanto: a forma como o médico dá a notícia aos pais sobre o diagnóstico faz tremenda diferença, pode determinar o desenvolvimento da criança,  pois tem impacto muito grande na aceitação, disposição e adesão ao tratamento adequado.

Tem ainda profissional que chega e diz: “Mãe, teu filho tem Down, não vai andar, não vai se vestir sozinho, não vai…”.

Além de desrespeitosa, a postura é equivocada. Ninguém tem condições de afirmar até que ponto uma criança progredirá. Além disso, tira a esperança da família, desencorajando-a a buscar tratamento adequado. Resultado: rouba desse filho o direito de desenvolver toda a sua potencialidade. Um crime.

Blog da Saúde – Como a notícia deveria ser dada aos pais?

Patrícia Tempski – Receber a notícia de que o seu bebê tem síndrome de Down é duro, sim. É algo que não se espera. Mas o médico pode ajudar a família a dar um novo significado à vinda desse filho e a ir à luta.

O diagnóstico nunca deve ser transmitido à mãe na sala de parto, mas sempre em ambiente tranquilo, idealmente apenas com o pai ou outro parente junto. É preciso deixá-la extravasar o sofrimento. Não há script, mas, com jeito e carinho, é vital abordar os seguintes pontos na primeira conversa:

— Mãe, examinamos seu bebê e ele tem características especiais. Já percebeu que o narizinho é chato, as orelhas pequenas, o pescoço gordinho atrás, as sobrancelhas juntinhas, o corpo mais mole e os olhinhos puxados? O nome disso é síndrome de Down. Síndrome é conjunto de sintomas. E Down, o nome do médico que descreveu a síndrome.

— A síndrome de Down não tem cura, mas tem tratamento e a família terá um papel muito importante.

— Down é a principal causa de déficit intelectual. Em cada 700 nascimentos,  ocorre um caso. Por ano, são 10 mil no Brasil. A desigualdade de desenvolvimento das crianças que nascem com essa síndrome depende de doenças associadas, estimulação, educação e manutenção da saúde. Portanto, desde já, precisamos trabalhar juntas: quanto mais investirmos hoje em seu filho, mais qualidade  e autonomia terá no futuro.

— Ninguém tem culpa por isso; nem você, mãe, nem você, pai. Down é um acidente genético.

Blog da Saúde – Até agora a senhora não usou a expressão portador de Down, que muita gente utiliza…

Patrícia Tempski —  No meu entendimento, síndrome de Down não é algo que se carrega nas costas como mochila. Portanto, ela não é portadora  de algo mas é um pessoa com características próprias.

Blog da Saúde – Voltando às Diretrizes. O atendimento multiprofissional deve envolver o quê?

Patrícia Tempski — Cada fase da vida precisa de cuidados específicos. Para que sejam adequados, não podem ser feitos por um só profissional. Cada serviço tem uma formação. Alguns têm na equipe fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e fonoaudiólogo. Outros, equipe mais ampliada, incluindo ondontólogo, educador físico, psicólogo, nutricionista, assistente social. Em qualquer formato, médicos e enfermeiros compartilham o cuidado com a equipe.

Blog da Saúde – A senhora menciona o educador físico e o assistente social. Por que os incluiu?

Patrícia Tempski — O assistente social é muito importante para assegurar e manter o atendimento, que demanda recursos financeiros. É quem apoiará a família no sentido de verificar o que eventualmente ela tenha e aqueles que virão da comunidade.

Quanto ao educador físico nós o incluímos porque a gente tem a ideia de que ele faça a promoção da saúde, mostrando a importância da atividade física na qualidade de vida das pessoas com Down e suas famílias. Tanto no desenvolvimento delas como um todo como na manutenção do peso.

Eu gosto de pensar em uma equipe multiprofissional cada vez mais expandida que inclua veterinário, pois  os relatos de terapia com animais — a “pet-terapia” —  são animadores. Defendo também a presença dos pedagogos na equipe multiprofissional por acreditar na visão de integralidade do ser humano.

Blog da Saúde – Quando começa o atendimento da criança com Down?

Patrícia Tempski – Já ao nascimento, quando a gente dá a notícia à família.

Blog da Saúde – Toda criança com Down apresenta algum atraso no desenvolvimento. Atualmente é possível medir a sua extensão?

Patrícia Tempski – Não. Nós nunca sabemos aonde cada paciente chegará, porque a potencialidade humana não pode ser medida num único olhar.

O que eu tenho como certeza é que todo o trabalho e investimento feitos na saúde e na educação da criança com Down geram no futuro mais autonomia, mais potencialidade.

Os jovens que tiveram estimulação global, cuidado mais integral, participaram da inclusão desde cedo, possivelmente estão melhores do que aqueles que não tiveram.

Por isso é fundamental aproveitar cada momento do dia para ensinar e a criança aprender. A boa mãe e o bom pai, além de não se envergonharem de mostrar o filho ao mundo, mostram o mundo ao filho, como afirmava o psicanalista Winicott.

Blog da Saúde – O que gostaria de dizer mais à mãe e ao pai com um filho Down?

Patrícia Tempski — Quanto mais você fizer hoje, melhor será a qualidade de vida dele no futuro. Estimule-o. Pratique inclusão social, tolerância e solidariedade. Todos nós sairemos ganhando.

Blog da Saúde – E aos profissionais de saúde e à própria sociedade?

Patrícia Tempski – Nós, profissionais de saúde,  podemos fazer a diferença, desmitificando ideias erradas e estimulando a inclusão. Já as escolas regulares que aceitam crianças com Down merecem meus aplausos: vocês estão praticando inclusão, cidadania, tolerância e solidariedade de verdade.Apenas  o discurso, se vem não acompanhado da prática, fica vazio.

Quanto a vocês, pai e mãe, não é porque seu filho é diferente e tem dificuldades que não será querido e feliz. Arregacem as mangas. Lutem pelos direitos dele. Todos nós — profissionais, pais e sociedade — devemos ser  facilitadores de vivências e oportunidades que permitam  que as pessoas Down atinjam o seu melhor potencial. Vale a pena!

Diretrizes Cuidados Sindrome Down by Conceição Lemes

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Conselhos de Medicina decidem a favor da autonomia da mulher: Aborto pode ser até 12ª semana

Publicado em: 24 de março de 2013

Dr. Roberto Luiz d’Ávila, presidente do CFM: “Somos a favor da vida, mas queremos respeitar a autonomia da mulher”. Foto: Antonio Cruz/ABr

por Conceição Lemes

Atualmente a legislação permite o aborto em três situações: risco à vida da gestante; gravidez decorrente de violência sexual ou uso não consentido de reprodução assistida; fetos com anencefalia.

Há duas semanas o Conselho Federal de Medicina (CFM) e 27 conselhos regionais de medicina (CRMs) tomaram uma decisão inédita. No I Encontro Nacional de Conselhos de Medicina 2013, realizado em Belém (PA), deliberaram, por maioria, defender a revisão da lei, acrescentando uma quarta situação: interrupção da gravidez até a 12ª semana, se for a vontade da mulher. Juntas essas entidades representam 400 mil médicos brasileiros.

“Não se decidiu a favor do aborto, mas, sim, a favor da autonomia da mulher e do médico”, explica o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Roberto Luiz d´Avila. “Somos a favor da vida, mas queremos respeitar a autonomia da mulher que, até a 12ª semana, já tomou a decisão de praticar a interrupção da gravidez.”

Essa posição será encaminhada à comissão de juristas que está analisando a Reforma do Código Penal Brasileiro, atualmente em tramitação no Congresso Nacional. “Quem vai decidir a descriminalização do aborto é a sociedade brasileira, por meio do legislativo”, enfatiza d’Ávila. “O que nós fizemos foi encaminhar a nossa posição.”

LIMITES ATUAIS SÃO LANÇAM NO LIMBO PRINCIPALMENTE AS MULHERES MAIS POBRES

Durante vários meses, os Conselhos de Medicina se debruçaram sobre o tema. Foram ouvidos representantes de diferentes segmentos, inclusive representantes de grupos religiosos, e analisados inúmeros estudos e contribuições.

“Do ponto de vista ético, os atuais limites excludentes da ilicitude do aborto previstos no Código Penal, que é de 1940, são incoerentes com compromissos humanísticos e humanitários”, observa d’Ávila. “Também paradoxais à responsabilidade social e aos tratados internacionais subscritos pelo governo brasileiro.”

Explica-se. As mulheres de melhor poder aquisitivo conseguem interromper a gravidez com segurança, enquanto as mais pobres se arriscam em mãos inabilitadas e condições inadequadas, sofrendo as consequências do aborto malfeito.

Isso tem forte impacto na saúde pública. As complicações causadas pelo aborto inseguro representam a terceira causa de ocupação dos leitos obstétricos no Brasil. Em 2001, houve 243 mil internações na rede do Sistema Único de Saúde (SUS) por curetagens pós-abortamento.

Pior. O aborto inseguro é importante causa de mortalidade materna no Brasil, sendo evitável em 92% dos casos.

“As complicações e a mortalidade decorrentes do aborto inseguro são ainda maiores devido à dificuldade de acesso à assistência adequada, especialmente entre as mulheres mais pobres”, atenta d’Ávila. “Esse aspecto agrega a dimensão social ao problema. Afinal, lança no limbo um segmento importante de mulheres que acaba perdendo a vida ou comprometendo sua saúde por conta de práticas sem o menor cuidado.”

Daí a necessidade imperiosa de se rever o rol das exclusões no Código Penal. Essa questão diz respeito, inclusive, ao princípio de justiça.

Quanto ao limite de 12 semanas para a interrupção de gravidez, há dois fatores. A partir desse período, a experiência médica demonstra que há maior risco para a mãe. Também, a partir daí, o sistema nervoso central já estará formado.

Mas atenção: até que o novo Código Penal seja aprovado, o aborto será permitido apenas nas três situações já previstas hoje em lei. Atos praticados fora delas serão considerados crime.

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Mães e pais, atenção: Pasta com flúor, só após os 5 anos de idade

Publicado em: 30 de novembro de 2012

por Conceição Lemes

Que imagens veem à sua cabeça quando o assunto é higiene bucal da criança?  Nós apostamos. Quase certamente uma delas é aquela do menininho ou menininha se esforçando para alcançar a pia do banheiro para escovar os dentes. Acertamos?

“Só que a higiene bucal deve ser feita desde o nascimento”, alerta o cirurgião-dentista Marcelo Fava, diretor do Departamento de Odontologia do Instituto da Criança da Faculdade de Medicina da USP. “Deve ser iniciada antes mesmo de aparecerem os dentinhos.”

Com a ponta da fralda ou gaze umedecida, higienize a boca do bebê após cada mamada ou refeição. É para tirar os resíduos de leite e alimentos que, em contato com as bactérias locais, causam cáries.  Limpe gengiva, língua, céu da boca, parte interna das bochechas e dentes, se houver.

Blog da Saúde — Por que fazer a higiene bucal desde o nascimento se os dentinhos só aparecem aos 6 meses de idade?

Marcelo Fava — É para a mãe já ir se acostumando, a fazer a limpeza. Também para evitar a replicação das bactérias que provocam cáries.

Blog da Saúde — Mas os dentinhos podem nascer com cárie caso a mãe não faça a higiene?

Marcelo Fava –Não. As cáries só podem aparecer depois que os primeiros dentinhos (incisivos inferiores, os dois da frente, parte debaixo) despontarem. A higiene bucal é uma questão de hábito. É uma medida educativa. Ela é essencial à promoção da saúde desde o nascimento.

Blog da Saúde –Com que idade deve-se começar a escovar os dentinhos da criança, usando creme dental? 

 Marcelo Fava – A partir de 1 ano de idade. Antes, a higiene bucal é feita com ponta da fralda ou gaze umedecida após cada mamada ou refeição.

Blog da Saúde —  Tem de ser com escova e pasta especiais?

Marcelo Fava – Escova de cerdas macias, pequena, em tamanho adequado à boca da criança. De 1 a 4 anos de idade, a pasta não deve conter flúor.

Blog da Saúde – Por quê?

 Marcelo Fava — A água de muitas cidades – São Paulo, por exemplo, — já contêm flúor.  Mesmo a água mineral, tem certa quantidade. Assim, se juntarmos o flúor da água com o da pasta de dente, já que a criança acaba engolindo sempre um pouco, ela estará exposta duas fontes.  Em conseqüência, pode ter fluorose, ou seja, mancha nos dentes.  Daí a contraindicação de creme dental com flúor onde a água distribuída à população já é fluoretada.

Blog da Saúde – Há pastas infantis sem flúor?

 Marcelo Fava – Sim, mas poucas. Descobrimos duas nacionais (Welleda e Malvatrikids Baby) e uma importada (First Teeth).

Blog da Saúde – Uma criança de 2, 3 anos já pode escovar os seus próprios dentes?

 Marcelo Fava – Como brincadeira, sim. Na frente do espelho, ela imita os pais, aprende os movimentos.  Mas a escovação de verdade, para higienizar mesmo, deve ser feita pelos próprios pais enquanto ela tiver de  1 a 4 anos de idade. A escovação é indispensável após cada refeição.

Blog da Saúde – Com quantos anos a criança pode usar pasta com flúor?

Marcelo Fava – Acima de 5 anos de idade, quando ela já consegue bochechar e cuspir a pasta.

Blog da Saúde – E com quantos anos a criança já pode escovar os seus próprios dentes?

Marcelo Fava – A partir dos 4. Mas sob supervisão dos pais.

Blog da Saúde – Nas propagandas, normalmente a escova fica cheia de pasta. A quantidade mostrada dos anúncios é a recomendada?

Marcelo Fava – Não. Está errada. A quantidade é equivalente a um grão de ervilha. Isso vale todo tipo de creme dental.

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Violência obstétrica: Em vídeo, brasileiras denunciam abusos, maus tratos e sofrimento nas mãos de profissionais de saúde

Publicado em: 25 de novembro de 2012

por Conceição Lemes

Neste 25 de novembro, faz exatamente um ano que um grupo de mulheres ligadas à área de saúde e/ou interessadas em questões referentes a parto realiza ações coletivas nas mídias sociais. Objetivos: dar mais visibilidade à violência obstétrica e desnaturalizar  as infrações aos direitos das mulheres, que são cometidas pelos profissionais de saúde e muitas vezes passam desapercebidas.

“São ações organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde para promover o debate, sensibilizar, denunciar essas questões “, diz Ana Carolina Franzon, que edita o blog Parto no Brasil em parceria com Bianca Lanu.  “Prosseguiremos até que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.”

Em 2010,  os dados sobre a violência da pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privadorealizada pela Fundação Perseu Abramo e o SESC, chamaram muito a atenção do grupo. E um dado se destacou: uma cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto.

Entre as possíveis formas de abusos e maus-tratos, sobressaíram:  exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor,  não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações.

Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: não chora que ano que vem você está aqui de novona hora de fazer não chorou, não chamou a mamãese gritar eu paro e não vou te atenderse ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo.

Por isso, neste 25 de novembro, Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, o grupo está lançando o videodocumentário popular Violência obstétrica — A voz das brasileiras, produzido entre outubro e novembro deste ano. Os responsáveis pela iniciativa:

Ana Carolina Franzon, jornalista, pesquisadora em Saúde Pública, integrante do grupo de pesquisa sobre Gênero, Maternidade e Saúde ( GEMAS), da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Bianca Lanu,cientista social, produtora cultural e educadora perinatal.

Bianca Zorzam,  obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da USP.

Lígia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, e responsável pelo blog Cientista Que Virou Mãe.

Kalu Brum, jornalista, doula e coeditora do blog Mamíferas.

Armando Rapchan,  fotógrafo e videomaker.

Conversei um pouco mais com Ana Carolina sobre esse trabalho.

Blog da Saúde — Violência obstétrica traduz bem os maus tratos e abusos que sofrem as mulheres quando internadas numa maternidade. Essa expressão foi criada pelo blog?

Ana Carolina Franzon — Não. Foram as próprias mulheres do movimento que cunharam o termo violência obstétrica para tais práticas.

 Blog da Saúde —  Por que videodocumentário popular?

Ana Carolina Franzon — Trata-se de uma ação de ciberativismo, realizada quase que exclusivamente via mídias sociais, coordenada por usuárias e pesquisadoras da área da Saúde Coletiva.

Chamamos de “videodocumentário popular”, porque priorizamos a experiência das usuárias de saúde para elaborar e difundir este conceito “violência obstétrica”. Também qualificamos como uma produção da subárea da Comunicação Social, a Comunicação Popular e Comunitária, que compreende produtos de informação de caráter não-empresarial.

Blog da Sáude — Os vídeos foram gravados por vocês ou pelas próprias mulheres e/ou familiares? 

Ana Carolina Franzon — Inicialmente, montamos um roteiro para os depoimentos. Que formas de desrespeito você viveu em seu parto? Como isso te afetou física e emocionalmente? Qual o seu objetivo com esse depoimento?.

Depois, por meio de uma divulgação nas mídias sociais, convidamos as mulheres para participar. Pedimos vídeos com depoimentos,  fotografias com descrições das imagens… Assim, todas as mulheres que estão no vídeo participaram de forma espontânea e voluntária.

Os vídeos foram gravados em webcam, celular ou máquina fotográfica pelas próprias mulheres, que se auto-selecionaram para participação. Optamos por manter esta característica de “comunicação popular”, como você poderá ver.

Por fim,  fizemos um roteiro para edição final. Aí, contamos com os trabalhos – também voluntários – de um fotógrafo e videomaker. Fizemos tudo isso em apenas um mês.

Blog da Saúde — Me fala um pouco sobre o vídeo. 

Ana Carolina Franzon — O filme retrata a experiência das mulheres brasileiras com o nosso atual modelo de assistência ao parto, que já foi definido por Maria do Carmo Leal (ENSP/FIOCRUZ), coordenadora do Inquérito Nacional Nascer no Brasil, como um “modelo obstétrico doente e adoecedor”.

Aliás, os nossos atuais indicadores de saúde reprodutiva são igualmente preocupantes:

* Anualmente, temos  no país um milhão de cesáreas desnecessárias.

* Temos uma assistência ao parto normal excessivamente medicalizada e intervencionista, com abuso de procedimentos obsoletos, que já deveriam ter sido erradicados há muitos anos.

* Cerca de 90% das mortes maternas evitáveis estão relacionadas à qualidade insuficiente dos serviços obstétricos.

* A péssima qualidade das informações dos prontuários sobre procedimentos obsoletos, dolorosos, e até arriscados à saúde. Por exemplo, a episiotomia (corte no períneo) e a manobra de Kristeller (pressão externa no fundo do útero para expulsão do bebê).

* A negação do direito de escolha das mulheres e o impedimento de sua autonomia pela ausência completa de consentimentos esclarecidos.

* Infração institucional da Lei do Acompanhante (de 2005), que ocorre de modo ordinário e impune.

Esses mesmos problemas ocorrem com as mulheres que buscam os serviços de saúde para planejamento reprodutivo e abortamento, com todos os agravantes que a ilegalidade provoca.

Blog da Saúde — O vídeo traz histórias dolorosas. Vocês já sabiam que iriam encontrar essa situação?

Ana Carolina Franzon– Sim, porque nas pesquisas que realizamos em Saúde Coletiva temos uma trajetória de escuta das mulheres. As pesquisas sobre a qualidade da assistência compreendem: a efetividade das condutas clínicas, a segurança das pacientes e sua experiência emocional com todo o processo de cuidado.

Estamos fazendo uma escolha consciente, quando priorizamos a perspectiva que as mulheres têm de todos os direitos reprodutivos que lhes foram subtraídos pela instituição ou pelos profissionais das maternidades.

 Blog da Saúde — O vídeo é uma denúncia.

Ana Carolina Franzon — Sem dúvida, sim. Há um ano a nossa grande questão é desnaturalizar essa forma de violência contra as mulheres, violência de gênero. Dar visibilidade aos direitos humanos das mulheres na gravidez, parto, pós-parto, planejamento reprodutivo e abortamento – que são os próprios direitos reprodutivos.

Temos uma reação muito comum e corriqueira – especialmente anunciada por profissionais de saúde – que é de desmerecimento da questão, uma tentativa talvez até inconsciente de naturalizar os maus-tratos e invisibilizar a questão.

Já ouvimos de tudo um pouco: que estamos transformando “problemas médicos” em fatos policialescos; que não temos a mínima ideia da violência que os próprios profissionais sofrem do sistema de saúde – como se uma violência justificasse a outra; que tudo não passa de uma escolha ou descompensação/exagero por parte das mulheres.

O problema da invisibilidade é que as mulheres ficam fadadas ao silêncio e à individualização, personalização, do dano. Ou seja, não conseguimos politizar o debate, e continuaremos anos e anos sofrendo em silêncio, mas “felizes porque ao menos o bebê está bem”.

Também temos como resultado a responsabilização da fisiologia do parto pelos danos iatrogênicos.  Parto normal não é terrível por si – como descreve a Bíblia cristã.  É a assistência que pode piorá-lo — e muito.

Blog da Saúde — Com base nas suas pesquisas e neste vídeo, o que recomendaria? 

Ana Carolina Franzon — Sempre encorajamos as mulheres a buscarem informações alternativas sobre os processos da gravidez, parto e pós-parto, com valorização da troca de experiências.

Infelizmente, a realidade dos serviços hoje, de modo geral, não consegue viabilizar a “escuta das mulheres” – suas histórias de vida são geralmente marcadas por situações que não devem ser compartilhadas em grupos, e é assim que os serviços as silenciam. Queremos resgatar os benefícios dos grupos populares de apoio, com rodas dialogadas sobre direitos e cidadania – além de informações sobre fisiologia da gravidez e parto, com esclarecimento sobre riscos e benefícios.

Temos hoje grupos voluntários de apoio entre usuárias, que existem na maior parte das capitais e em algumas cidades do interior. A Rede Parto do Princípio mantém uma lista periodicamente atualizada com as informações destes grupos.

Além disso, temos uma agenda de pesquisa e políticas públicas que inclui a criação de indicadores específicos para o parto, para que seja possível monitorar e avaliar a qualidade da assistência. Enquanto todos os procedimentos não estiverem bem monitorados, continuaremos produzindo uma cultura de fobia do parto normal, como se os danos fossem próprios da fisiologia e não, da iatrogenia. E o número de cesáreas tenderá a aumentar.

Acima de tudo queremos colaborar para a mudança do modelo de assistência ao parto, hoje centrado no bem-estar do provedor de saúde e não da mulher. Para termos experiências mais satisfatórias, precisamos:

* ter autonomia sobre nossos corpos;

* de esclarecimentos verdadeiros sobre riscos e benefícios dos procedimentos:

*ter liberdade de posição durante o trabalho de parto e parto, com incentivo ao parto normal em posição verticalizada;

* analgesia de qualidade para todas as mulheres;

* e o cumprimento estrito da Lei do Acompanhante, que prevê sua permanência junto da mulher durante toda a internação.

Eu assisti ao vídeo. Estarrece. Vale a pena conhecê-lo.Embora  as mulheres pobres e as negras sejam as as principais vítimas da violência no parto, aquelas de alto poder aquisitivo, que têm os seus bebês em hospitais famosos, não estão livres do problema.

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Você sabe escolher brinquedo para filho, sobrinho, neto? Terapeuta ocupacional do Instituto da Criança da USP dá dicas preciosas

Publicado em: 10 de outubro de 2012

por Conceição Lemes

Principalmente em época de Natal e Dia da Criança, anúncios maravilhosos de brinquedos invadem a mídia.  Não são publicidade de brinquedos em geral. São produtos de marca, dos artistas X e Y ou de herois de desenhos e filmes infantis da hora. Tudo feito para conquistar a criançada.

Os “consumidores” ficam extasiados, claro. Os pagadores (pais, avós, tios) ficam…

Bem, os pagadores frequentemente ficam numa situação difícil. Comprar (são brinquedos caros) ou não comprar?

Exatamente por conhecer esses dilemas, a terapeuta ocupacional Aide Mitie Kudo, responsável pela Brinquedoteca do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, propôs este teste.

Imagine-se numa loja escolhendo presente para seu filho, sobrinho, neto. Você daria preferência ao brinquedo:

a) Mais caro, pois “pelo preço ele deve ser bom”?

b) Adequado à faixa etária da criança?

c) Com um montão de peças, pois “é bonito, é o que está na moda”?

d) Importado, já que “se é de fora, deve ser melhor”?

“Mãe, não caia no apelo de comprar o mais caro por causa dos anúncios”, orienta a Aide Kudo. “A mídia quer que você ache que os brinquedos mais caros são os melhores e,  portanto, pague pela marca. O brinquedo ideal é aquele adequado à faixa etária da criança e seguro, seja caro ou barato. Do contrário, vai ser inútil”

Quer um exemplo? Está na última moda um jogo de quebra-cabeça de 100 peças. É lindo! Se for dado a uma criança de 3 anos de idade, ela não conseguirá montar. Para ela tem de ser jogo com menos peças e, ainda, tridimensionais. Nessa faixa etária, a criança visualiza objetos que tenham altura, comprimento e largura, e não imagens chapadas.

“Já vi muitas crianças pegarem pote de plástico e ficarem colocando e tirando pecinhas lá dentro por horas a fio”, exemplifica Aide. “Elas mesmas transformaram o pote da cozinha, que não custou nada, numa brincadeira muito prazerosa. Prova de que preço mais caro não deve ser critério para compra.”

“O brincar é mais do que um entretenimento, diversão e lazer”, acrescenta Aide. “É uma forma natural e espontânea para estimular o desenvolvimento físico e mental da criança.”

Por isso, se quiser que o brinquedo seja aproveitado e não ofereça risco, é fundamental ter alguns cuidados na hora de comprar e escolher. A terapeuta ocupacional Aide Kudo dá as dicas:

* Não existe brinquedo ideal. Cada criança tem seu próprio universo. Leve conta os gostos, interesses e habilidade da sua criança.

* Observe as recomendações sobre a faixa etária; está indicada na embalagem. Ela é resultado de estudos feitos por especialistas na área.

* Segurança é fundamental. Verifique se o brinquedo tem o selo do Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial ). A certificação é a garantia de que o produto foi fabricado de acordo com as normas de segurança.

* Brinquedos importados devem trazer, em português, as recomendações para faixa etária, uso e selo do Inmetro.

* Evite brinquedos com peças pequenas e ímãs; crianças menores podem colocar na boca e engolir.

“Nenhum brinquedo, porém, substitui a sua relação com a criança”, arremata Aide. “O mais importante é você criar situações para brincar junto.”

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Criança tem de praticar esporte ou fazer atividade física em escolinha? O pediatra João Guilherme Alves dá todas as dicas

Publicado em: 14 de setembro de 2012

O pediatra João Guilherme Alves receita: Atividade física é um dos melhores “remédios” para a criançada

por Conceição Lemes

Esconde, pega-pega, amarelinha, barra-manteiga, queimada, pular corda, andar de bicicleta, jogar bola, garrafão

A lista de brincadeiras infantis de 20 ou 30 anos atrás era imensa. Brincando, a criançada se exercitava, mesmo. Tanto que raramente os pediatras precisavam prescrever atividade física, como é obrigatório hoje em dia.

“As crianças de hoje não estão se exercitando como devem, estão menos ativas”, alerta o pediatra João Guilherme Bezerra Alves, responsável pela pós-graduação do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), em Pernambuco. “Estima-se que hoje uma criança gaste menos 400 Kcal por dia do que há 20 anos.”

É o equivalente às calorias contidas em meio litro de leite ou em aproximadamente uma hora de atividade física. Conseqüências: crianças obesas, com colesterol, pressão arterial e níveis de açúcar elevados no sangue.

Questão de saúde pública, portanto. Por isso, aprofundei  essa conversa com o doutor João Guilherme Bezerra Alves.

Blog da Saúde —  Que  fatores contribuem para a inatividade infantil e as suas conseqüências?

João Guilheme Alves-– Por exemplo, a falta de espaço para recreações, incluídos o residencial e o da escola, devido à especulação imobiliária; a violência que limita os deslocamentos das crianças — não se vai mais à escola de bicicleta como antigamente; TV, computador, internet, videogame.

Bog da Saúde — Qual a importância da atividade física para a criança?

João Guilherme Alves — É um dos melhores remédios para ela. Ajuda a manter a criança com aptidão física e no seu peso adequado.  Promove a saúde, previne doenças e auxilia no tratamento de muitas delas.  Atividade física é excelente para coração, pulmão, osso, músculo, cabeça… Ajuda a evitar doenças que podem acometer a criança, como depressão, asma, infecções. Assim como doenças da vida adulta, entre as quais hipertensão arterial, diabetes, infarto do miocárdio.

Blog da Saúde —  Que atividades são recomendadas à criança?

João Guilherme Alves — A criança simplesmente necessita de espaço para desenvolver suas atividades físicas, que dependem da idade. É importante que faça uma que goste. Atividades esportivas competitivas somente devem ser praticadas sob duas condições: 1) se a criança quiser; e 2) baseada na habilidade dela e não naquilo que os pais gostariam. Por exemplo, se a criança não leva jeito para jogar futebol, convém que seja estimulada para outro tipo de esporte.

Blog da Saúde — A partir de que idade?

João Guilherme Alves — Desde o momento em que começa a ir para o chão, a criança necessita de espaço para pleno desenvolvimento. Na realidade, já na vida intra-uterina. A pratica da atividade física orientada durante a gravidez beneficia o feto e ajuda a mulher a ter um bom parto.

Blog da Saúde —  Muitas pessoas acham que atividade física supõe esporte ou atividade em escolinha. Isso é necessário?

João Guilherme Alves –– Nem uma coisa nem outra. Atividade física é se movimentar,  gastar energia. Ou seja, quando transpiramos um pouco ou sentimos o coração bater mais acelerado já estamos fazendo atividade física. Logo, uma criança brincando no parque, jogando, correndo, andando de bicicleta, está fazendo atividade física.

Blog da Saúde — Que alerta gostaria de fazer aos pais e mães?

João Guilherme Alves — Crianças fisicamente ativas têm maior probabilidade de viverem mais e com saúde.  Afinal, na vida adulta, terão menos risco de diabetes, hipertensão, obesidade e de morte por infarto do miocárdio, principal causa de óbitos no mundo, inclusive no Brasil.

Blog da Saúde — O que recomendaria mais ?  

João Guilherme Alves — Mãe, pai, sejam fisicamente ativos! Além de terem mais saúde, serão exemplos para os seus filhos.

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Sexo: Distribua carícias à vontade. Sem a menoooooooooooooooooor… pressa

Publicado em: 27 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

Em tempos de internet banda larga, muitos querem tudo na base do pá-pum: objetivo, rápido e competente. Isso inclui a sexualidade. Tanto que sexo virou sinônimo de penetração; competência sexual é penetrar e ser penetrado. Se não houver, o restante do contato não vale nada. O “negócio” é ir logo para os “finalmentes”. Mero encontro de genitais. Uma pena.

“O prazer não é só genital, tem de integrar tudo”, argumenta a ginecologista e obstetra Fátima Duarte, com base no atendimento de mulheres de todos os níveis sociais e faixas etárias, em 30 anos de profissão. “A grande jogada para ter e dar prazer é distribuir carícias à vontade – sem pressa.

Isso mesmo. Sem a menooooooooooooooooooooooooor… pressa. Imagine-se num restaurante divino comemorando uma data especial. Você prefere que o chefe de cozinha prepare o seu prato em dois minutos, tirando-o do freezer, ou que demore para fazer algo especial? No sexo, é parecido. Você quer um prato feito rapidinho ou se dispõe a caprichar nos temperos, e depois saborear o manjar dos deuses? Pois as carícias são os temperos.

Por isso, aqui vai uma dica do livro   Saúde — A hora é agora, capítulo Relacionamento — O corpo inteiro para amar: invista mais nas preliminares.

Em geral, não utilizamos nem 30% do potencial erótico do nosso corpo. E os receptores de sensações estão nele inteiro. Basta você e seu (sua) parceiro(a) se tocarem bastante para os seus pontos preferidos aflorarem. Por falar nisso, você sabe quais são os seus?

“Quanto mais tempo o casal se dedica às preliminares, maiores tendem a ser a carga erótica e o prazer”, abre o jogo a psiquiatra e especialista em medicina sexual Carmita  Abdo,  professora livre-docente e coordenadora do Projeto Sexualidade  (ProSex) da  Faculdade de Medicina da USP.  “A mulher fica mais lubrificada e a penetração mais fácil, o que ajuda, ainda, a atingir o orgasmo. Para o homem saudável, cria condições para boas ereções.”

INFORME O QUE E COMO GOSTA — SEM ACANHAMENTO

Aproveitando a brecha, algumas e alguns desabafam:

– Ah… Mas meu parceiro não sabe do que eu gosto…

– Adoro meu marido, só que de uns tempos para cá não sinto desejo.

– Quando estou de TPM, meu tesão vai pra cucuia.

– Minha ex-namorada ia às nuvens; a atual, eu tento, tento, e ela não tem orgasmo. Será que se o meu pênis fosse maior…?

– Há um tempo saí com uma menina só porque ela me deu mole. Falhei! Desde então, perco o controle direto. Quando me dou conta, já gozei; minha companheira fica uma fera, diz que não ligo para o prazer dela. Juro que me importo.

Calma. Praticamente tudo em sexualidade tem explicação e – o melhor – solução. Na maioria das vezes, é questão de informação. Frequentemente, a mulher espera que o homem nasça sabendo fazer sexo, para que ela não precise comunicar o que gosta. O homem, por seu lado, habitualmente acha que as carícias que uma mulher adora a outra também vai amar, certo?

Ambos errados. Nem o homem é o “professor” nem a mulher a “aluna”. Cada pessoa é uma pessoa. Para descobrir onde “mora” o prazer do(a) parceiro(a), o casal tem de fazer tentativas. A mulher não deve se envergonhar de comunicar o que lhe agrada, assim como o homem também não.

No Brasil, 3,4% dos brasileiros nunca se masturbaram, contra 34% das brasileiras. Portanto, se você ainda desconhece todas as suas áreas erógenas, sempre é tempo de elas serem exploradas. Prazer é questão de foco, duração e intensidade.

A mulher tem de aprender a identificar suas áreas prediletas de carícias e o homem a detectar novas. Seria o clitóris ou a vagina? O abdome, o pescoço ou os seios? Os lábios ou a sola do pé? Por acaso a cabeça ou o corpo do pênis? A região do umbigo ou a da nuca? Os lábios ou as costas? É tudo junto? Ou junto com o quê? Pegue a mão do(a) parceiro(a) e o(a) oriente. Você é que tem de lhe dizer: Está ótimo aí, continue!; Aqui, não!

Agora, não é fazer um carinho rápido e pronto. É preciso um tempo para o estímulo sair das terminações nervosas existentes nas áreas externas do corpo, chegar ao cérebro, informar que algo prazeroso está sendo feito e voltar sob a forma de sensação agradável. Além disso, você tem de informar sobre a intensidade dos toques naquele instante. São os movimentos lentos ou rápidos? Mais superficiais ou profundos? Em circular ou ziguezague?

“Se você silenciar, acabará entrando e saindo da relação sem a menor excitação, provavelmente não sentirá prazer, e o sexo se tornará desagradável”, observa Carmita. Se o(a) parceiro(a) for realmente legal, ficará feliz em tomar conhecimento das suas preferências para lhe satisfazer.

Portanto, nada de acanhamentos. Informe-o(a) das suas predileções, pois ninguém tem bola de cristal. Só assim o prazer de ambos poderá ser explorado ao máximo.

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