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O urologista Sidney Glina faz um alerta aos homens: Muitas vezes criam ciladas para si próprios que podem causar disfunção erétil e infertilidade

Publicado em: 19 de agosto de 2012

por Conceição Lemes

O medo de infertilidade e principalmente de disfunção erétil (antigamente denominada impotência sexual) ronda a cabeça de homens das mais diferentes idades. Ambas podem decorrer de fatores orgânicos e/ou emocionais.

“O problema é que, por desinformação, muitas vezes os homens caem em ciladas que eles criam para si próprios no dia a dia”, alerta o urologista Sidney Glina. “Na prática, são o grande obstáculo à fertilidade e à potência sexual masculinas plenas.”

Sidney Glina é muito respeitado pelos próprios colegas. Já foi presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa de Disfunção Erétil e da Sociedade Brasileira de Urologia.  Atualmente, é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo. Entrevistei-o para saber quais são as armadilhas e conhecer a receita para manter a fertilidade e potência sexual.

Blog da Saúde –  Vamos começar pelas armadilhas. O senhor atende em serviços públicos e no consultório particular. Tem alguma armadilha que seja mais comum entre os jovens, por exemplo?

Sidney Glina – Tem. É o uso sem necessidade das facilitadoras de ereção [Cialis, Helleva Levitra, Viagra, Vivanza]. Eles correm o grande risco de ficar psicologicamente dependentes, e, aí, só funcionarem na base da medicação. Portanto, é uma armadilha.

Blog da Saúde – A brincadeira pode acabar mal?

Sidney Glina — Infelizmente, sim. Há basicamente três tipos de usuários dessas pílulas. Os pacientes que vão ao médico devido a dificuldades de ereção, e o médico prescreve. Há os homens maduros que querem dar uma turbinadinha para uma relação sexual eventual, principalmente na hora do almoço. Normalmente, eles não usam a medicação frequentemente. E há um contingente, provavelmente o maior,  de homens que utilizam o remédio devido a medo ou insegurança. São principalmente jovens, inclusive adolescentes.

Blog da Saúde – De que forma eles podem vir a ter disfunção erétil?

Sidney Glina – Esses homens, jovens e adolescentes têm um ponto em comum: ereção perfeita mas que, seduzidos pela propaganda, recorrem a uma das pílulas existentes no mercado, para “mostrar serviço” ou “ter certerza de que o pênis vai funcionar”. Eles sabem que o remédio pode dar ajudazinha. Então, na primeira vez, usam geralmente com a namorada nova. Aí, na próxima saída, eles usam também, pois receiam que não dê certo. E, assim, vão usando sucessivamente. Com o tempo, esses indivíduos têm grande probabilidade de ficar dependentes psicologicamente da medicação. Começam a achar que só funcionam na base da medicação. E, se não usarem, podem realmente falhar. É uma das causas de disfunção erétil psicológica.

Blog da Saúde – Que outras ciladas os homens armam contra a própria potência sexual e/ou fertilidade?

Sidney Glina – Há várias. A boa ereção depende não apenas do psiquismo “inteiro”, mas de nervos, artérias, veias, hormônios e músculos envolvidos no processo também íntegros. Por isso, ao usar cocaína o homem corre risco de promover danos à ereção. Explico. A cocaína mesmo consumida eventualmente e em pequenas doses pode levar à atrofia da musculatura dos corpos cavernosos, ou seja, das estruturas do pênis que, uma vez cheias de sangue, permitem a ereção. Com a manutenção do hábito, a lesão é irreversível. Aí, só prótese peniana. A cocaína afeta pouco a fertilidade masculina.

Blog da Saúde – E a maconha?

Sidney Glina – Compromete menos a ereção do que a cocaína. O que a maconha pode provocar, assim como a cocaína, é alteração na ejaculação. Ambas atrapalham a concentração, dificultando a excitação.  Assim, sob efeitos delas o indivíduo ejacula mal. Agora, a maconha, o crack e a heroína  contêm substâncias tóxicas aos espermatozóides, afetando-os profundamente. Mesmo usuários de fins de semana dessas drogas têm diminuição da qualidade dos espermatozoides. A maconha, especificamente, pode levar também à infertilidade masculina, reduzindo os níveis de testosterona [hormônio masculino produzido pelos testículos].

Blog da Saúde – E a bebida alcoólica?

Sidney Glina – Em excesso, o álcool, entre outras consequências à saúde, lesa os nervos penianos. Assim, a ordem enviada pelo cérebro aos corpos cavernosos para que se encham de sangue, não chega direito. O resultado é dificuldade para conseguir ter uma ereção. Segundo pesquisas, de 8% a 54% dos homens alcoólatras são impotentes. Além disso, homens que bebem freqüentemente têm mais dificuldade de engravidar suas parceiras por causa de dois problemas: ejaculação para trás, o que diminui o volume de espermatozoides no sêmen; ou insuficiência hepática, que pode levar à diminuição dos hormônios responsáveis pela produção dos espermatozoides.

Blog da Saúde – E o cigarro? 

Sidney Glina – O cigarro interfere no número e na motilidade dos espermatozoides, reduzinho-os. Mas, não há nenhum trabalho científico demonstrando que  diminui a fertilidade. Já a potência sexual reduz, sim. A nicotina dificulta a entrada de sangue no pênis, consequentemente  a ereção. A quantidade de nicotina contida em dois cigarros é suficiente para inibir a ereção de adolescentes.  Para agravar, a longo prazo o cigarro leva à formação de placas de gordura nas artérias, estreitando-as, ou seja, pode comprometer a ereção no futuro. Cachimbo, charuto e cigarrilha acarretam os mesmos malefícios que o cigarro.

Blog da Saúde Que outras armadilhas tem detectado?

Sidney Glina –As “bombas ”de anabolizantes, muito comuns em academias. No Brasil, são crescente causa de infertilidade. Por um mecanismo hormonal, fazem com que o indivíduo páre de produzir testosterona, impedindo a produção de espermatozóides. Em 10% a 20% dos casos, o dano é irreversível. Também por um mecanismo hormonal, as “bombas” levam à impotência sexual.

Blog da Saúde — Em 2004, o senhor foi o primeiro pesquisador do mundo a dizer que a finasterida [substância presente numa imensa quantidade de remédios contra queda de cabelos] poderia causar infertilidade masculina.  Na época, essa associação foi encarada com ceticismo pelos seus colegas. Porém, cada vez mais os estudos lhe dão razão. Como  descobriu isso?

Sidney Glina – Há alguns anos comecei a ver pacientes que apresentavam infertilidade e estavam tomando finasterida. Como sempre houve suspeita de que a finasterida pudesse ter essa ação, eu optei junto com os pacientes por suspender a medicação para ver se a alteração encontrada no espermograma era revertida. E isso ocorreu. Daí ter estabelecido o nexo. Em 2004, publiquei trabalho científico mostrando tal evidência. De lá para cá, outras pesquisas apontaram o mesmo resultado.

A finasterida inibe uma enzima chamada 5-alfa redutase que bloqueia a transformação da testosterona em diidrotestosterona, que é o hormônio masculino ativo. Isso diminui a queda de cabelo de alguns pacientes. E também o crescimento da próstata quando tomada na dose de 5 mg. Entretanto, a diidrotestosterona tem ação no testículo. A diminuição da concentração de diidrotestosterona no organismo leva à alteração na produção de espermatozóides em testículos que já estejam sofrendo algum tipo de problema.

Blog da Saúde — Todo homem que usa remédio à base de finasterida contra calvície pode ter infertilidade?

Sidney GlinaNão. Existem trabalhos que mostram que homens que tomaram 1mg por dia finasterida por dia [é a dosagem recomendada para tratar a calvície] durante pelo menos seis meses, não apresentaram alteração do espermograma. Entretanto há vários relatos de infertilidade em alguns homens que tomavam essa medicação. Tais homens têm outras causas de infertilidade como varicocele (varizes dentro do escroto) ou obesidade. Aparentemente a finasterida ampliaria o efeito dessas situações e aumentaria o efeito negativo sobre o testículo.

Agora, uma vez interrompido o medicamento, há reversão da infertilidade após cerca de três meses. Por isso, aos homens com dificuldade de engravidar as suas parceiras e que usam finasterida, recomendo procurar um urologista e fazer um espermograma. Caso o exame venha alterado, a conduta é a suspensão do remédio para calvície antes de tomar qualquer outra medida.

Blog da Saúde – Os efeitos de álcool, maconha, cocaína e cigarro sobre a potência e/ou a fertilidade também são reversíveis?

Sidney Glina —  Nunca se pegou um indivíduo absolutamente adicto para fazer contagem de espermatozoides e verificar seis meses depois como estava a quantidade. Mas, é claro, que os efeitos dependem do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual a essas substâncias. Quanto maior o uso maior o risco e menor a possibilidade de reversão. O que a gente vê no consultório com usuários de fins de semana de maconha e cocaína, por exemplo, é alteração na motilidade dos espermatozoides.  Os espermatozoides  “andam” mais devagar, diminuindo a probabilidade de engravidar. Quando detecto isso, peço  para o paciente suspender a droga.

Blog da Saúde – Então o tratamento da infertilidade masculina e da impotência pode passar  pela suspensão dessas substâncias ?

Sidney Glina – Com certeza. E muitas vezes só isso basta para reverter o problema.

Blog da Saúde –  A esta altura, alguns leitores talvez estejam dizendo que isso é caretice, nunca viram ninguém com impotência e/infertilidade por causa disso e até que o senhor está querendo tocar horror.

Sidney Glina – Infelizmente já vi, sim, muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa destes “hábitos”. Recentemente atendi um que começou a tomar uma das pílulas para facilitar a ereção. No início, apenas um pedacinho do comprimido de 25mg. Dizia que era para dar uma turbinadinha. Agora, ele diz que a dose de 100mg já não funciona mais. Este paciente não tem nenhum problema orgânico! Tem apenas uma falta de confiança muito grande em si próprio.

Blog da Saúde – Afinal, qual a receita para o homem manter a potência sexual e a fertilidade?

Sidney Glina – É a mesma receita para ter boa saúde física e mental:

1) Não abusar do álcool;

2) Evitar maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy;

3) Dar adeus ao tabagismo, qualquer que seja a sua idade;

4) Evitar a obesidade ou emagrecer se estiver acima do peso.  Ao combater a combater a obesidade, por tabela, diminui-se o risco de impotência sexual e infertilidade masculina. A obesidade favorece ambas;

5) Controlar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de “açúcar” no sangue. São medidas fundamentais para manter a integridade de nervos, artérias e vasos sangüíneos de todo o corpo, inclusive do pênis, ajudando a evitar disfunção erétil;

6) Praticar algum tipo de atividade física. O homem que caminha três vezes por semana durante 30 minutos tem mais chance de manter a potência sexual do que aquele que não faz exercício.

Blog da Saúde – O que receitaria mais?

Sidney Glina – Educação sexual. Não existe medida preventiva mais efetiva contra a disfunção erétil. Todo homem tem medo potencial de ficar impotente. Não há como não ter. Mas, se entender como funciona a sexualidade, tem menor probabilidade de ter impotência por problemas psicológicos, que é a maior parte dos casos.

Por exemplo, não se obrigar a um número x de relações sexuais só para cumprir calendário. Transar em condições  adversas perturba o envolvimento erótico, portanto a ereção. Se falhar porque estava estressado, bebeu demais ou a garota, de repente, lhe desagradou, desencanar. Vai dormir, no dia seguinte levantará bem e terá uma relação sexual tranqüila. É vital também compreender e aceitar as alterações normais do desenvolvimento contínuo do homem.

 PS do Blog da Saúde:  Com frequência, se confunde infertilidade com impotência sexual. Nada a ver.  Manter relações sexuais e ejacular não são atestado de fertilidade masculina. Mais: infertilidade não torna nenhum homem mais macho.

O que é então infertilidade? É a incapacidade de o casal gerar um bebê após um ano de relações sexuais regulares sem usar qualquer método contraceptivo.

Em 40% dos casais com dificuldade de engravidar, o homem tem problemas reprodutivos – o chamado fator masculino. Em outros 40%, a causa está na mulher – o fator feminino. Em 20%, ambos têm algum impedimento. Ou seja, é meio a meio. Em 50% dos casos de infertilidade, a mulher está envolvida; nos demais 50%, o homem.

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Drogas: Parar ou reduzir danos?

Publicado em: 18 de abril de 2011

Trazido do Viomundo antigo. Foi publicado originalmente em 3 de novembro de 2009

por Conceição Lemes

Não adianta bancar a avestruz.  As drogas – ilícitas e legais – estão onde quer que estejamos. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Bahia…

No momento, especialistas, pesquisadores, gestores, parlamentares, militantes de movimentos sociais organizados e órgãos governamentais preocupados com a questão estão envolvidos num amplo debate. A Secretaria Nacional sobre Drogas (Senad) , órgão vinculado à Presidência da República, e o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad) acabam de formar um expressivo e gabaritado grupo de trabalho, para elaborar proposta de projeto de lei ao Congresso Nacional para modificar a atual legislação.

Supondo que fosse chamado (a) a opinar, você proporia:

* Guerra às drogas?

* Repressão ao uso?

* Internação dos usuários?

* Prisão dos traficantes?

* Descriminalização do uso?

* Redução de danos?

Do ponto de vista de saúde, o ideal, claro, é evitar o uso de drogas. Só que, queiramos ou não, as drogas sempre existirão e as pessoas farão uso delas. Algumas param, outras não. Dessas, algumas não querem, outras não conseguem, apesar do uso problemático.

“É ilusão achar que a repressão motiva o tratamento ou interrompe o uso”, desmistifica a psicóloga Denise Serafim, assessora técnica da Unidade de Prevenção do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. “Considerando as dificuldades de enfrentamento de situações complexas da vida, os diferentes desejos de prazer e até as motivações inconscientes, a redução de danos é estratégia fundamental para se lidar com a questão drogas e com as pessoas que fazem uso. É uma estratégia de saúde pública que visa à redução das conseqüências danosas à saúde e sociais do uso problemático de álcool e outras drogas.”

“O objetivo principal dessa estratégia não é a interrupção do uso”, adianta Denise. “É motivar o usuário a ir ao serviço de saúde, a falar mais sobre seus hábitos de drogas e a se cuidar melhor. O respeito à sua escolha ou necessidade de uso, sem imposição ou preconceito, faz com que o usuário se sinta um cidadão, com direitos e deveres também.”

“A política de ‘guerra às drogas’ não obteve bons resultados – nem lá fora nem aqui”, põe abaixo outro mito o advogado e deputado federal Paulo Teixeira (PT-São Paulo). “Mundialmente está perdendo a batalha.”

No Brasil, o tráfico se fortaleceu.  Financeiramente, cooptando milhares de pessoas para distribuir seus “produtos”. Militarmente, se instalando e controlando o território de inúmeras comunidades pobres. Politicamente, neutralizando a ação repressiva do Estado.

Os condenados por tráfico de drogas – quase 70 mil – são o segundo contingente do sistema carcerário brasileiro. Pesquisa realizada por Luciana Boiteux e Ela Wiecko nas varas criminais de Brasília e Rio de Janeiro traça o perfil deles: a maioria é réu primário, foi preso sozinho, com pouca quantidade de drogas e não tinha associação com o crime organizado.

“A lei brasileira não penaliza o consumo individual, porém não diferencia o usuário do traficante”, condena Teixeira. “A distinção então é subjetiva e muitos usuários estão sendo presos e condenados, especialmente os pobres e pretos, sem acesso à assistência jurídica. Nos presídios, organizações criminosas atraem parte deles para delitos mais graves, como roubos, sequestros e extorsões.”

“De fato, na hora de decidir o enquadramento, policiais e juízes acabam levando em conta onde a pessoa mora ou é presa”, revela Luciana Boiteux, professora de Direito Constitucional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Isso reforça a criminalização da pobreza”.

O problema advém da política de enfrentamento das drogas. As legislações da América Latina, inclusive a do Brasil, sofrem forte influência dos Estados Unidos.

“Só que esse modelo não é adequado à nossa realidade social nem à nossa Constituição”, argumenta Luciana Boiteux. “Temos de olhar para outro lado. A minha proposta é que seja para a Europa.”

Paulina Duarte, Secretária Adjunta da Senad, afirma: “No Brasil, a tendência é discutir as drogas somente com base na experiência pessoal ou nas informações da mídia. É preciso fazer agora um debate mais científico e menos ideológico”.

DESCRIMINALIZAÇÃO: A EXPERIÊNCIA BEM-SUCEDIDA DE PORTUGAL

Tratar a questão de forma científica é exatamente o que pretende fazer o Viomundo.

Nos dias 21 e 22 de outubro, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados realizou um seminário com especialistas nacionais e estrangeiros, que defenderam: 1. a prevenção do abuso de drogas; 2. a implementação de políticas visando à saúde dos usuários, inclusive a redução de danos; 3.a descriminalização do uso e posse de pequenas quantidades para uso pessoal.

Holanda e Inglaterra foram os primeiros adotar essas políticas. E cada vez mais países estão mudando para essa direção.

“Portugal descriminalizou o uso e o porte, criou um serviço de acompanhamento do usuário e diminuiu o uso de drogas. Caíram também os crimes e as mortes relacionados às drogas”, justifica Teixeira. “Só no Rio de Janeiro ocorrem anualmente 4 mil mortes associadas a crimes de drogas, enquanto o uso provoca cerca 100. A droga tem produzido efeitos menos nocivos do que o próprio crime relacionado à droga.”

Luciana Boiteux defende: “O Brasil deve unir os avanços da legislação de Portugal, onde descriminalizaram as drogas,  com os da Espanha, que diferencia pequenos e grandes traficantes e as drogas de baixo e de alto impacto social”.

A Holanda tem uma abordagem pragmática. Vai atrás dos consumidores e encaminha para tratamento de redução de danos, às vezes até com prescrição da droga sob cuidado médico. É para evitar, por exemplo, que o usuário problemático pratique pequenos roubos para obtê-la.

México e Argentina também descriminalizaram o consumo e estabeleceram critérios claros para separar os usuários dos traficantes e evitar que consumidores acabem na cadeia.

“Uma diferenciação menos subjetiva é necessária também no Brasil ”, propõe Teixeira. “O uso de drogas passaria a ser infração administrativa, com advertência, multa e frequência em cursos.”

“REDUÇÃO DE DANOS É UMA ESTRATÉGIA MAIS HUMANIZADA E INCLUSIVA”

“Afinal, o que é redução de danos?”, alguns devem estar querendo mais detalhes desde o começo da reportagem. Outros, de pé atrás, questionam: “De que adianta a redução de danos se ela não objetiva acabar com o uso das drogas?”

Temos que voltar no tempo. Mais precisamente a 1989. O vírus da aids se disseminava entre os usuários de drogas injetáveis. No exterior e aqui, se observou que o ritual de uso – o compartilhamento da seringa – é que provocava, pela via sanguínea, a infecção pelo HIV. Além disso, é comum, sob efeito de substâncias psicoativas, os usuários se protegerem menos, ou seja, não usarem a camisinha nas suas relações sexuais.

O diagnóstico positivo de HIV equivalia à sentença de morte. Hepatite C e formação de abscessos no local da injeção (por conta da higiene precária) também eram comuns. Pessoas da sociedade civil ligadas à questão e do Programa Nacional de DST/Aids resolveram usar a estratégia da redução de danos.

“Como os usuários não iam ao serviço de saúde, para não revelar o uso de droga ilegal, nós, profissionais de saúde, e os redutores de danos, representantes da sociedade civil, passamos a ir à noite, de madrugada, ao encontro deles nos mocós”, relembra a psicóloga Denise Serafim. “Aí, descobrimos que não adiantava dizer ‘pára de usar’. Isso afugentava. Dizíamos então que muitos estavam se infectando pelo HIV, morrendo cedo e isso não precisava acontecer com eles. Para isso, era importante que não compartilhassem a seringa e usassem camisinha nas relações sexuais. Nesses contatos, eram oferecidos os materiais, pois geralmente não tinham dinheiro para comprar, com orientações para uso mais seguro das drogas, prevenção das DST [doenças sexualmente transmissíveis] e de outros danos para a saúde.”

Com o tempo, essa experiência foi disseminada para outras cidades brasileiras. A estratégia se estendeu à cocaína aspirada, ao crack, ao álcool. Hoje, a redução de danos é uma estratégia do Ministério da Saúde para lidar com usuários de qualquer droga.

“O usuário abordado assim usa mais camisinha, busca mais o serviço de saúde, tende a olhar mais para a dependência, no mínimo reduzindo o uso da droga”, revela Denise. “É uma política que respeita a vontade do usuário. É inclusiva, mais humanizada e favorece ao autocuidado.”

“Mas não seria melhor parar de vez?”, vão cobrar de Denise Serafim.

“Alguns conseguem interromper o uso bruscamente, outros precisam ir aos poucos. Há uma diversidade de usos e de perfil dos usuários”, explica a psicóloga. “Por isso, há um ‘cardápio’ de opções. A gente tem de sentar com o usuário, ouvir sobre a sua rotina, as suas pretensões e com ele identificar qual o tratamento que melhor se adapta àquele caso específico. Ele tem de ter a liberdade de escolha.”

Para cada droga e doença associadas há uma abordagem. Vamos supor que a pessoa já esteja infectada pelo vírus da hepatite C – a maioria dos usuários de drogas injetáveis está – tomando medicamento.  Conversar sobre a sobrecarga do fígado é fundamental. Repensar o uso se torna indispensável. “Você tem hepatite C e ainda vai beber todo dia?” A prevenção é para evitar a piora do fígado e do estado geral.

“Os serviços e os profissionais de saúde precisam entender que a abordagem baseada na redução de danos aproxima mais o usuário do serviço”, continua Denise. “Favorece uma melhor adaptação ao tratamento quando o usuário deseja se tratar.”

“OS PAIS DEVEM MANTER DIÁLOGO ABERTO COM OS FILHOS”

No Brasil inteiro, o uso de drogas está crescendo entre os jovens do ensino fundamental e médio. Raramente os professores sabem abordar o assunto. Como a política é a de prevenção ao uso, quando um aluno é flagrado, frequentemente é expulso.

“É para não ‘contaminar’ os outros”, critica Denise. “É um faz de conta que aqui não está acontecendo nada. Uma pena. Afinal, é também no contexto escolar, que a gente tem que investir na redução de danos. É importante problematizar a questão, mostrando aos jovens quais são as drogas, seus efeitos e consequências, para no caso do uso, fazê-lo de forma mais consciente.”

A droga sozinha não tem efeito demoníaco. É preciso sempre fazer a sua contextualização. A droga junto com uma pessoa em conflito é que vai facilitar o seu uso. Depois, dependendo da maneira como essa droga atua na vida daquela pessoa e do seu contexto familiar, é que vai se tornar problemática ou não.

“Por isso, é preciso se dialogar de forma ampla com os filhos”, aconselha Denise.

“E se de repente meu filho começar a usar?”

“Será que proibir vai ajudar? Será melhor permitir, para saber o que está acontecendo? A família tem de definir a estratégia. Aí, é importante também discutir com um profissional”, diz Denise. “Não há uma recomendação única. Eventualmente, quando o o uso se torna problemático, é preciso até a contenção.”

Paulo Teixeira tem seis filhos: “Os pais devem manter diálogo aberto com os filhos e acompanhá-los nos diferentes momentos de vida. Acredito na educação aberta, na prevenção. Falo a eles dos perigos e espero que me contem o que fazem para que eu possa aconselhá-los”.

E para a sociedade geral, qual a “receita”?

“Desaconselho o uso de drogas. Para o usuário, evitar o abuso”, frisa Teixeira.  “No caso de abuso, o tratamento voluntário deve estar à disposição do usuário.”

Leia aqui a entrevista com o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) sobre matéria publicada pela Folha de S. Paulo,  que insinua que ele  defende o uso de drogas. O jornal fez a matéria sem ouvi-lo: “A Folha não queria me encontrar. A matéria já estava pronta, toda editada”.

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Ciladas que homens criam para a própria vida sexual

Publicado em: 26 de maio de 2010

por Conceição Lemes

O medo de infertilidade e principalmente de disfunção erétil (antigamente denominada impotência sexual) ronda a cabeça de homens das mais diferentes idades. Ambas podem decorrer de fatores orgânicos e/ou emocionais.

“O problema é que, por desinformação, muitas vezes os homens caem em ciladas que eles criam para si próprios no dia a dia”, afirma o urologista Sidney Glina. “Na prática, são o grande obstáculo à fertilidade e à potência sexual masculinas plenas. Infelizmente já vi muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa de alguns  ‘hábitos’.”

Sidney Glina é muito respeitado pelos próprios colegas. Já foi presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa de Disfunção Erétil e da Sociedade Brasileira de Urologia.  Atualmente, é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo.

Viomundo –  O senhor atende em serviços públicos e no consultório particular. Qual a cilada mais comum entre os jovens, por exemplo ?

Sidney Glina – É o uso sem necessidade das facilitadoras de ereção [Cialis, Helleva Levitra, Viagra, Vivanza]. Eles correm o grande risco de ficar psicologicamente dependentes, e, aí, só funcionarem na base da medicação. Portanto,  uma armadilha.

Viomundo – Por favor, explique melhor.

Sidney Glina —  Há basicamente três tipos de usuários dessas pílulas. Os pacientes que vão ao médico devido a dificuldades de ereção, e o médico prescreve. Há os homens maduros que querem dar uma turbinadinha para uma relação sexual eventual, principalmente na hora do almoço. Normalmente, eles não usam a medicação freqüentemente. E há um contingente, provavelmente o maior,  de homens que utilizam o remédio devido a medo ou insegurança. São principalmente jovens, inclusive adolescentes.

Viomundo – Como  eles podem vir a ter disfunção erétil?

Sidney Glina – Esses homens, jovens e adolescentes têm um ponto em comum: ereção perfeita mas que, seduzidos pela propaganda, recorrem a uma das pílulas existentes no mercado, para “mostrar serviço” ou “ter certerza de que o pênis vai funcionar”. Eles sabem que o remédio pode dar ajudazinha. Então, na primeira vez, usam geralmente com a namorada nova. Aí, na próxima saída, eles usam também, pois receiam que não dê certo. E, assim, vão usando sucessivamente. A brincadeira pode acabar mal. Com o tempo, esses indivíduos têm grande probabilidade de ficar dependentes psicologicamente da medicação. Começam a achar que só funcionam na base da medicação. E, se não usarem, podem realmente falhar. É uma das causas de disfunção erétil psicológica.

Viomundo – Que outras ciladas os homens armam contra a própria potência sexual e/ou fertilidade?

Sidney Glina – Há várias. A boa ereção depende não apenas do psiquismo “inteiro”, mas de nervos, artérias, veias, hormônios e músculos envolvidos no processo também íntegros. Por isso, ao usar cocaína o homem corre risco de promover danos à ereção. Explico. A cocaína mesmo consumida eventualmente e em pequenas doses pode levar à atrofia da musculatura dos corpos cavernosos, ou seja, das estruturas do pênis que, uma vez cheias de sangue, permitem a ereção. Com a manutenção do hábito, a lesão é irreversível. Aí, só prótese peniana. A cocaína afeta pouco a fertilidade masculina.

Viomundo – E a maconha?

Sidney Glina – Compromete menos a ereção do que a cocaína. O que a maconha pode provocar, assim como a cocaína, é alteração na ejaculação. Ambas atrapalham a concentração, dificultando a excitação.  Assim, sob efeitos delas o indivíduo ejacula mal. Agora, a maconha, o crack e a heroína  contêm substâncias tóxicas aos espermatozóides, afetando-os profundamente. Mesmo usuários de fins de semana dessas drogas têm diminuição da qualidade dos espermatozóides. A maconha, especificamente, pode levar também à infertilidade masculina, reduzindo os níveis de testosterona [hormônio masculino produzido pelos testículos].

Viomundo – E a bebida alcoólica?

Sidney Glina – Em excesso, o álcool, entre outras conseqüências à saúde, lesa os nervos penianos. Assim, a ordem enviada pelo cérebro aos corpos cavernosos para que se encham de sangue, não chega direito. O resultado é dificuldade para conseguir ter uma ereção. Segundo pesquisas, de 8% a 54% dos homens alcoólatras são impotentes. Além disso, homens que bebem freqüentemente têm mais dificuldade de engravidar suas parceiras por causa de dois problemas: ejaculação para trás, o que diminui o volume de espermatozóides no sêmen; ou insuficiência hepática, que pode levar à diminuição dos hormônios responsáveis pela produção dos espermatozóides.

Viomundo – E o cigarro?

Sidney Glina – O cigarro interfere no número e na motilidade dos espermatozóides, reduzinho-os. Mas, não há nenhum trabalho científico demonstrando que  diminui a fertilidade. Já a potência sexual reduz, sim. A nicotina dificulta a entrada de sangue no pênis, conseqüentemente  a ereção. A quantidade de nicotina contida em dois cigarros é suficiente para inibir a ereção de adolescentes.  Para agravar, a longo prazo o cigarro leva à formação de placas de gordura nas artérias, estreitando-as, ou seja, pode comprometer a ereção no futuro. Cachimbo, charuto e cigarrilha acarretam os mesmos malefícios que o cigarro.

Viomundo – Que outras armadilhas tem detectado?

Sidney Glina –As “bombas ”de anabolizantes, muito comuns em academias. No Brasil, são crescente causa de infertilidade. Por um mecanismo hormonal, fazem com que o indivíduo páre de produzir testosterona, impedindo a produção de espermatozóides. Em 10% a 20% dos casos, o dano é irreversível. Também por um mecanismo hormonal, as “bombas” levam à impotência sexual.

Viomundo É verdade que remédios contra quedas de cabelos à base de finasterida [Propecia, Pracap, Pro Hair, Finasterida Calvin, Finasterida Finastec, Finasterida Euro ou Finasterida Merck] podem causar infertilidade?

Sidney Glina – No estudo em que a Food and Drug Administration, a agência americana controladora de alimentos e remédios, se baseou para aprovar a finasterida, não afetou a fertilidade. O estudo da FDA foi feito com voluntários sadios durante seis meses.  Porém, num trabalho que fiz com pacientes com infertilidade, ficou comprovado que o uso crônico altera o sêmen. Trabalhos feitos por outros colegas no exterior comprovaram a mesma coisa: em homens inférteis, a finasterida pode agravar a infertilidade. Algumas vezes o paciente tem alguma outra causa de infertilidade, como a varicocele [varizes no escroto]. Aparentemente o uso da finasterida pode aumentar o efeito desta outra causa. Por isso, a recomendação a todo usuário de finasterida, que está tentando engravidar e não consegue, é suspendê-la. A produção de espermatozóides volta ao normal.

Viomundo – Os efeitos de álcool, maconha, cocaína e cigarro sobre a potência e a fertilidade também são reversíveis?

Sidney Glina —  Nunca se pegou um indivíduo absolutamente adicto para fazer contagem de espermatozóides e verificar seis meses depois como estava a quantidade. Mas, é claro, que os efeitos dependem do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual a essas substâncias. Quanto maior o uso maior o risco e menor a possibilidade de reversão. O que a gente vê no consultório com usuários de fins de semana de maconha e cocaína, por exemplo, é alteração na motilidade dos espermatozóides.  Os espermatozóides  “andam” mais devagar, diminuindo a probabilidade de engravidar. Quando detecto isso, peço  para o paciente suspender a droga.

Viomundo – Então o tratamento da infertilidade masculina e da impotência pode passar  pela suspensão dessas substâncias ?

Sidney Glina – Com certeza. E muitas vezes só isso basta para reverter o problema.

Viomundo –  A esta altura, alguns leitores talvez estejam dizendo que isso é “caretice”, “nunca viram ninguém com impotência e/infertilidade por causa disso” e até que o senhor “está querendo tocar horror”. O que diria para eles?

Sidney Glina – Infelizmente já vi, sim, muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa destes “hábitos”. Recentemente atendi um que começou a tomar uma das pílulas para facilitar a ereção. No início, apenas um pedacinho do comprimido de 25mg. Dizia que era para dar uma turbinadinha. Agora, ele diz que a dose de 100mg já não funciona mais. Este paciente não tem nenhum problema orgânico! Tem apenas uma falta de confiança muito grande em si próprio.

Viomundo – Afinal, qual a receita para o homem manter a potência sexual e a fertilidade?

Sidney Glina – É a mesma receita para ter boa saúde física e mental: 1) n ão abusar do álcool; 2) evitar maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy; 3) dar adeus ao tabagismo, qualquer que seja a sua idade; 4) evitar a obesidade ou emagrecer se estiver acima do peso.  Ao combater a combater a obesidade, por tabela, diminui-se o risco de impotência sexual e infertilidade masculina. A obesidade favorece ambas; 5) controlar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de “açúcar” no sangue. São medidas fundamentais para manter a integridade de nervos, artérias e vasos sangüíneos de todo o corpo, inclusive do pênis, ajudando a evitar disfunção erétil; 6) praticar algum tipo de atividade física. O homem que caminha três vezes por semana durante 30 minutos tem mais chance de manter a potência sexual do que aquele que não faz exercício.

Viomundo – O que receitaria mais?

Sidney Glina – Educação sexual. Não existe medida preventiva mais efetiva contra a disfunção erétil. Todo homem tem medo potencial de ficar impotente. Não há como não ter. Mas, se entender como funciona a sexualidade, menor a probabilidade de ter impotência por problemas psicológicos, que é a maior parte dos casos. Por exemplo, não se obrigar a um número x de relações sexuais só para cumprir calendário. Transar em condições  adversas perturba o envolvimento erótico, portanto a ereção. Se falhar porque estava estressado, bebeu demais ou a garota, de repente, lhe desagradou, desencanar. Vai dormir, no dia seguinte levantará bem e terá uma relação sexual tranqüila. É vital também compreender e aceitar as alterações normais do desenvolvimento contínuo do homem.