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Maria Maeno: “É preciso pensar no desenvolvimento do trabalhador enquanto cidadão”

Publicado em: 22 de janeiro de 2013

Luciano Máximo, no Valor
De São Paulo

Nos últimos três anos, a média de  gastos   da  Previdência  Social com problemas de saúde  gerados no próprio ambiente de trabalho cresceu acima das despesas com os afastamentos previdenciários gerais. O elevado  número de registros  de doenças mentais que  podem ser associadas a um cotidiano profissional insalubre, como estresse, depressão, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico  e até dependência de drogas  e álcool, é um indicativo para a expansão mais firme das despesas com os chamados benefícios acidentários — quando um trabalhador é afastado por causa de doença comprovadamente adquirida em  função do  emprego ou  acidente sofrido durante a jornada de trabalho.

Segundo o Ministério da  Previdência Social, o pagamento de benefícios de afastamentos previdenciários (por  causa de doença adquirida ou acidente sofrido sem relação direta com o emprego) registrou elevação anual média  de  7,5% entre 2008  e 2011, para R$ 13,47  bilhões —  de  janeiro a novembro de 2012,  o Instituto Nacional de  Segurida- de Social (INSS) desembolsou R$
13,69  bilhões com  essas obrigações.  Já os gastos com  auxílios-doença  acidentários  passaram de R$ 1,51 bilhão em 2008  para R$ 2,11  bilhões em 2011,  apon- tando crescimento médio anual de   12%  —   no   acumulado  de
2012,  até novembro, o valor pago chega a R$ 2,02 bilhões.

Os casos de aposentadoria por invalidez  (por motivações diversas) também têm crescido dois dígitos. Entre janeiro e novembro de 2012, o INSS bancou R$ 30,86 bilhões   para   apoiar  profissionais que  nunca mais  poderão exercer suas atividades normalmente.

De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a jornada semanal média dos trabalhadores brasileiros não aumentou ao longo desses quatro anos, mantendo-se em 39,9 horas semanais. Para o pesquisador Eric Calderoni,  doutor em  psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica  de São Paulo  (PUC-SP) e Columbia University,  de  Nova York, a rotina do trabalhador é que se tornou mais estressante.

“Sofrimento no  ambiente profissional  não  é só ritmo e tempo, mas sobretudo organização do trabalho: ordens contraditórias, assédio, metas, questões éticas, autonomia, senso de dever bem cumprido,  estabilidade no emprego, clima”, pondera Calderoni.

Os auxílios-doença, previdenciários  e acidentários, concedidos a trabalhadores por causa de depressão ou transtornos depressivos recorrentes cresceram a uma  média de  5% nos  últimos cinco  anos,  superando 82 mil ocorrências anuais. Esse quadro preocupa o governo e tem mobilizado sindicatos e empresas a criar novas práticas laborais com o objetivo de evitar  as chamadas doenças da modernidade.

Em resposta a questionamentos da reportagem, a área  técnica do  Ministério da  Previdência Social  reconhece que  o problema “chama atenção de formuladores de políticas públicas” e informa que  tem  feito estudos e avaliações sobre a evolução desses números a fim de investir em processos preventivos. Para o ministério, os últimos anos  desfavoráveis para a economia global e de baixo crescimento interno impactaram negativamente a saúde do trabalhador.

A médica  do trabalho Maria Maeno, diretora da Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), entidade ligada ao Ministério do Trabalho, concorda com a visão governamental, mas avalia que respostas de empresas e governos para  enfrentar a situação são ineficazes.

“Não há política  bem definida de reabilitação profissional que  coloque pessoas  de volta no mercado, o que explica maiores gastos  com  benefícios.   Também não há espaços dentro das empresas para analisar a condição do trabalhador e eventualmente encaminhar o tratamento do problema ou mudá-lo de área”, diz Maeno.

Ela acrescenta ainda que há um grupo  de  acidentados  que   não consegue o  benefício do  INSS e acaba perdendo o emprego. O Ministério da Previdência informou que em 2013 vai reformular o Programa de Reabilitação Profissional (PRP),  com   a   implantação  de ações-piloto em diferentes setores.

Maria Maeno  também pondera que o Sistema  Único de Saúde (SUS), para onde vai a maior parte dos trabalhadores acidentados, e a perícia médica do INSS, responsável   pelo    diagnóstico que determinará o benefício previdenciário, sofrem de falta de empenho na resolução de casos. “O ideal é o SUS trabalhar de forma preventiva, cumprindo o papel de vigilante das condições de saúde no ambiente de trabalho”, sugere a  médica, para quem o problema central é estrutural.

“Principalmente para minimizar transtornos mentais, Estado e capital privado não  incorporaram  o ser humano dentro da equação de sustentabilidade. Diante da  competitividade exacerbada, falta de solidariedade — uma vez que cada um quer salvar seu emprego — e ameaças de enxugamento e demissão, é preciso pensar no desenvolvimento do trabalhador enquanto cidadão, deixar de lado  a visão economicista excessiva”, opina Maria.

Ela cita o exemplo das “práticas” recentemente acordadas por  empresas,  sindicatos e governo  para melhorar a qualidade de vida do cortador de  cana:  “Determinam que o trabalhador precisa se hidratar  e fazer  ginástica laboral. Alguém precisa me falar que eu preciso tomar água? Que fundamento científico atesta que a ginástica laboral  vai diminuir a penosidade do trabalho do cortador. Não me parece algo sério”, critica a médica.

Outro  setor  onde  as discussões sobre  saúde  no trabalho são bastante acaloradas é o bancário. Sindicalistas   reclamam,   principalmente,  das  cobranças por  metas exageradas, constrangimentos  e atitudes autoritárias de superiores e associam esses problemas ao desenvolvimento  de   mazelas   por parte  dos trabalhadores, com ênfase aos transtornos mentais, como estresse e depressão.

Walcir  Previtale,  secretário nacional de saúde do trabalhador da Confederação Nacional dos Trabalhadores do  Ramo Financeiro  da Central Única dos Trabalhadores (Contraf-CUT), conta que questões ligadas à saúde e às pressões psicológicas  no  ambiente de trabalho têm  ganho cada  vez mais espaço na pauta de reivindicações sindicais no setor financeiro.

Em 2012, bancários e banqueiros entraram em acordo para incluir três itens sobre saúde e segurança do trabalho no dissídio coletivo da categoria. Um deles garante antecipação salarial se o trabalhador precisar se afastar.  Os outros dois  sistematizam procedimentos para dar mais agilidade no encaminhamento de acidentes de trabalho.

“Leva tempo para o profissio nal receber o benefício do INSS, tem que agendar a perícia e esperar o resultado. Nesse ínterim ele continuará recebendo do banco e quando os benefícios começarem a entrar, ele devolve o valor à empresa”, explica Previtale.

Magnus  Ribas, diretor de relações do trabalho da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), pondera que é “cientificamente” difícil estabelecer correlação entre doenças mentais e trabalho e que o setor bancário é o único que fornece plano de saúde  para seus mais de 500 mil trabalhadores e familiares.

Segundo ele, recentemente os dez maiores bancos  brasileiros criaram uma comissão  para  tratar da saúde laboral. O objetivo é criar 20 diretrizes para  melhorar a qualidade de vida no trabalho.

Sobre o problema relacionado a pressões  e constrangimentos nas agências, o executivo conta que os maiores bancos  do país criaram uma espécie de “disque-denúncia”, um canal de comunicação do bancário com uma área neutra do departamento de recursos  humanos ou da ouvidoria para o registro anonimamente ocorrências. De acordo  com levantamento da Febraban, no primeiro semestre de 2012 foram  registradas 132 denúncias de bancários.

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Pedro Michaluart: “Nos estágios bem iniciais a probabilidade de cura é maior do que 95%”

Publicado em: 30 de outubro de 2011

por Conceição Lemes

O ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva começa nesta segunda-feira quimioterapia para tratar o câncer na sua laringe.

Dos 489.270 casos novos de câncer esperados para 2011 no Brasil, os de laringe representam 2% do total. Representam ainda 25% dos tumores malignos que acometem cabeça e pescoço.

Para que nos ajudasse a entender o tumor diagnosticado no ex-presidente Lula, eu entrevistei um dos mais renomados cirurgiões de cabeça e pescoço do Brasil, o doutor Pedro Michaluart Jr. Ele é professor livre-docente da Faculdade de Medicina USP e médico da disciplina de Cirurgia e Pescoço do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Viomundo – O que causa o câncer de laringe?

Pedro Michaluart Jr. – O câncer de laringe está associado principalmente ao tabagismo e ao etilismo. E se a pessoa tem esses dois fatores de risco aumenta muito a chance de aparecimento desse tumor, que é mais comum entre homens dos 50 aos 70 anos.

Viomundo – Tem algum fator de risco que prepondera?

Pedro Michaluart Jr.— Isoladamente o hábito de fumar é o fator mais importante. Agora quando tabagismo e abuso de álcool estão associados a importância é maior do que a soma deles. Aparentemente eles têm efeito sinérgico, um potencializando o do outro.

Viomundo – Por quê?

Pedro Michaluart Jr. – Não sabemos exatamente por quê. Mas essa é observação feita em várias populações.

Viomundo – E o fato de a pessoa falar muito pode levar ao câncer de laringe?

Pedro Michaluart Jr.  — Não.

Viomundo – Quais os sintomas [aquilo que o paciente sente] e sinais [aquilo que o médico observa]?

Pedro Michaluart Jr. – Nós costumamos dividir a laringe em três sítios: glote, que é a região das cordas vocais, supra-glote e infra-glote. No Brasil, o local onde mais aparece é na glote, ou seja, nas cordas vocais propriamente ditas. Representam 70% dos casos. Trinta por cento são na supra-glote e os de infra-glote são extremente raros. Frequentemente o primeiro sintoma é a rouquidão. Pode ocorrer também alteração da deglutição.

Viomundo – Que tipo de alteração na deglutição?

Pedro Michaluart Jr. – Dor ou dificuldade na hora de engolir.

Viomundo – O fato de estar num ou no outro sítio tem alguma implicação?

Pedro Michaluart Jr. – Tem, sim. Nos tumores da glote, a probabilidade de disseminação em pescoço é pequena nos casos iniciais. Já nos de supra-glote é maior a preocupação com linfonodos cervicais (gânglios), mesmo nos casos iniciais.

Viomundo — O doutor Artur Katz, que faz parte da equipe que está cuidando de Lula, disse que é um tumor epidermoide. O que isso significa?

Pedro Michaluart Jr. –– O carcinoma epidermoide representa 95% dos tumores malignos de mucosa de cabeça e pescoço. E é a ele que estou me referindo quando eu falo dos antecedentes de fatores de risco do tabagismo e etilismo. Existem outros tipos histológicos que têm comportamento distinto.

Viomundo – Quais são os tratamentos para esse tipo de tumor? Tem médico dizendo que o tratamento de Lula começará com quimioterapia, pois já estaria num estádio avançado. É isso mesmo?

Pedro Michaluart Jr. — Existem  muitos esquemas de tratamento para o câncer de laringe, que é um órgão extremamente importante, com funções vitais. A laringe tem função na preservação das vias aéreas, na deglutição e na fonação, entre outras.

Assim todo esforço é feito para preservação das funções. A opção sempre leva em consideração tratamentos que tenham a mesma chance de cura e entre esses  o que se procura é o que tenha melhor expectativa de preservação da função.

Nessa linha, nos últimos anos, existe uma tendência de iniciar muitas vezes o tratamento do câncer de laringe com quimioterapia.  Também tem a radioterapia e a cirurgia. Os três têm efetividade e utilidade, dependendo de cada caso.

Agora só pelo fato de de se iniciar com quimioterapia não dá para dizer qual é o estágio do seu tumor.

Viomundo – O fato de começar com químio não significa que Lula vá fazer só químio?

Pedro Michaluart Jr. –– A quimioterapia usualmente faz parte do tratamento, mas não é exclusiva. Mais comumente a cirurgia ou radioterapia são tratamentos únicos para o câncer de laringe.

Viomundo – Lula então vai fazer rádio ou cirurgia?

Pedro Michaluart Jr. — Eu não tenho nenhuma informação técnica sobre o caso dele.

Viomundo — Qual a possibilidade de cura?

Pedro Michaluart Jr.  — Depende do estágio em que se inicia o tratamento. Nos estágios bem iniciais a probabilidade de cura é maior do que 95%. Já nos estágios bastante avançados é bem inferior.

Viomundo – Quer dizer que as chances de cura de Lula são excelentes?

Pedro Michaluart Jr.  –– Como disse, não tenho nenhuma informação sobre o caso dele

Viomundo – Aproveitando esse momento, o que o senhor diria para os nossos leitores?

Pedro Michaluart Jr. — Tabagismo e abuso de álcool são os grandes inimigos da laringe.  A rouquidão é o principal sintoma do câncer nesse órgão. Rouquidão que não melhora em 15 dias deve ser investigada. Ás vezes gânglios cervicais aumentados (“caroço” no pescoço) também podem ocorrer em câncer de laringe. Em quaisquer dessas situações, busque um médico. Se eventualmente for câncer, tem-se a oportunidade de fazer diagnóstico precoce, com possibilidade de preservação do órgão e de cura.

Leia também:

Lula inicia quimioterapia na segunda-feira

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Ministério da Saúde alerta:18,9% dos brasileiros abusam do álcool

Publicado em: 22 de junho de 2010

por Conceição Lemes

Os brasileiros relatam cada vez episódios de abuso de bebida alcoólica. É o que revela pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP). Entrevistou 54 mil adultos.

“Em 2006, 16,2% da população referiram consumo excessivo de álcool; em 2009, cresceu para 18,9%”, observa Deborah Malta, coordenadora de Vigilância de Agravos e Doenças Não Transmissíveis do Ministério da Saúde. “O levantamento mostra que as situações de descontrole são mais entre os homens. Em 2009, 28,8% dos homens e 10,4% das mulheres beberam demais.”

O Ministério da Saúde considera abuso de bebida alcoólica o consumo cinco ou mais doses na mesma ocasião em um mês, no caso dos homens, ou quatro ou mais doses, no caso das mulheres.

“Esse nível de consumo de bebida é bastante elevado e preocupante, pois é fator de risco para acidentes de trânsito, violência e doenças. Mas nem sempre isso é lembrado porque o álcool está presente na cultura brasileira, associado ao lazer e à celebração”, interpreta Deborah Malta.

VOCÊ BEBE MODERADA OU ‘‘PESADAMENTE”?

Os dados do Vigitel se assemelham aos de outros estudos feitos no Brasil.. Um deles é a pesquisa sobre o padrão de consumo de álcool e seus riscos na cidade de São Paulo, coordenada pela médica psiquiatra Laura Helena Andrade, responsável pelo Núcleo de Epidemiologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP.

“Pensou em dificuldades com bebida alcoólica, a imensa maioria das pessoas pensa na alcoolismo – a dependência que vem com o uso crônico, por tempo prolongado”, observa a médica Laura Andrade. “Ou seja, só considera problema quem fica doente por causa do álcool. Esse grupo é minoria. Mas existe outro problema, muito mais abrangente, que é o padrão de beber da população.”

“Existe uma porção de gente que, numa sentada, bebe a ponto de se intoxicar, se expondo a comportamentos de risco”, ressalta a professora Laura. “É o heavy drinking, ou beber ‘pesado’.”

“O que é o heavy drinking, ou beber ‘pesado’”?

Bem, desde que você não vá dirigir, tudo bem, de vez em quando, se reunir com amigos, parceiros, familiares para celebrar, conversar, comer e “tomar alguma coisa”. Em geral, em pequenas doses, o álcool deixa as pessoas mais relaxadas, alegres e descontraídas, sem ameaçar a saúde. É o famoso beba com moderação.

E você, bebe com moderação? Pelo sim, pelo não, que tal fazer um teste bem simples preparado pela doutora Laura? Vamos lá? Primeiro, os homens. Pensem no consumo de bebida alcoólica no último mês. Você lembra de ter consumido em um único happy hour, balada, festa, evento:

1) Cinco latinhas de cerveja ou de garrafa pequena (long neck)?

2) Três garrafas normais de cerveja?

3) Cinco doses de uísque, vodca, aguardente ou rum? Uma dose, aqui, é aquela medida de dosador de destilados, que contém 36 ml. Normalmente, a “dose” de bares e restaurantes contém duas doses de destilado.

4) Três caipirinhas de vodka ou de aguardente? Em geral, são usadas duas ou mais doses do destilado para fazer uma caipirinha.

5) Cinco taças ou copos de vinho?

Agora, as mulheres. Pensem também no consumo de bebida alcoólica no último mês. Você lembra de ter consumido num único happy hour, balada, festa, evento:

1) Quatro latinhas de cerveja ou de garrafa pequena (long neck)?

2) Duas garrafas normais de cerveja?

3) Quatro doses de uísque, vodca, aguardente ou rum? Vale a explicação dada na pergunta dirigida aos homens.

4) Duas caipirinhas de vodka ou de aguardente? Lembre-se de que, em geral, são usadas duas ou mais doses do destilado para fazer uma caipirinha.

5) Quatro taças ou copos de vinho?

“Se respondeu não às cinco questões, significa que é você um (a) bebedor (a) moderado (a)”, diagnostica Laura. “Já o sim a qualquer uma das alternativas indica que você ultrapassou o limite da moderação; é um (a) bebebor (a) ‘pesado’ (a), ainda que ocasional.”

O chamado heavy drinking, ou beber “pesado”, significa o homem consumir cinco doses de álcool numa sentada; a mulher, quatro, já que seu organismo é naturalmente mais suscetível aos efeitos do álcool. “Uma vez por mês já é suficiente para se dizer que a pessoa tem padrão heavy”, justifica Laura. “Ele é bastante freqüente.”

Uma dose de álcool equivale ao consumo de uma latinha de cerveja (350 ml) ou de uma taça de vinho (de 120 ml) ou de uma dose de uísque, rum, vodca, aguardante ou outro destilado (36 ml). Num daqueles copinhos tradicionais de pinga, uma dose de destilado “pega” um pouco acima da segunda listra.

“Então se eu beber todo dia três doses sou bebedor moderado?”

Não.  Considera-se que um homem beba com moderação quando não ultrapassa 14 doses por semana; a mulher, 7 doses. “Acima disso por semana”, adverte Laura, “é um padrão de beber de risco, que pode levar à dependência.”

PADRÃO HEAVY E RISCOS LIGADOS À INTOXICAÇÃO

“É incrível como boa parte dos bebedores ‘pesados’ não tem noção de que ultrapassam o limite da moderação”, observa Laura. “Tanto o padrão heavy ocasional quanto o heavy e freqüente estão associados diretamente a vários problemas devido à intoxicação ou à ação biológica do álcool , independentemente de gênero.”

A lista de possíveis conseqüências imediatas da intoxicação pelo álcool é extensa:

* Estimula a violência doméstica e de rua.

* Favorece acidentes de trânsito (carro, moto, bicicleta, atropelamentos), no trabalho (operação de máquinas) e em casa (quedas). É que, mesmo em baixas doses, diminui os reflexos e a coordenação motora.

* Contribui para relação sexual sem proteção, ou seja, sem camisinha. Aumenta, assim, o risco de HIV, outras doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez não planejada.

* Prejudica a memória e o raciocínio.

* Aflora ou agrava dificuldades emocionais.

* Pode causar arritmia cardíaca: alteração dos batimentos cardíacos, causando palpitação; às vezes, essa alteração leva à morte.

“O padrão heavy nem sempre leva à dependência”, frisa Laura. “Porém, há risco, sim, de a pessoa perder o controle. E, ‘apesar dos problemas por causa da bebida’, continuar bebendo. É o que denominamos abuso do álcool. Se continuar bebendo assim,  pode chegar à dependência..”

BEBA COM MODERAÇÃO. NUNCA DIRIJA DEPOIS!

Por tudo isso, atenção:

1) Se não bebe, não se sinta compelido (a) a começar só porque os seus amigos bebem.

2) Se beber, faça-o – sempre! — com moderação.  A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como de baixo risco até duas doses de álcool por ocasião/dia para um homem e uma dose/dia para mulher.

3) Se estiver grávida, nem uma dose de bebida alcoólica. Há maior risco de aborto e de malformações.

4) Bebida alcoólica também é contra-indicada a quem sofre de doença no fígado ou no pâncreas, utiliza remédios que interagem com o álcool, como antidepressivos, ansiolíticos, antialérgicos e certos antibióticos.

5) Ao beber, faça-o junto com as refeições. O alimento ajuda a competir com o álcool na hora da absorção, tornando-a mais lenta.

6) Beba devagar. Beber deve ser para celebrar, confraternizar, e não para afogar as mágoas e tristezas nem resolver desencantos e dificuldades. O maior espaçamento entre os drinques faz a metabolização do álcool ocorrer aos poucos.

7) Se beber qualquer que seja a quantidade, não dirija carro ou moto nem ande de bicicleta. “Em hipótese alguma”, reforça a professora Laura Helena Andrade.  Vá de metrô, ônibus, táxi, ou peça a alguém que não bebeu para guiar. Você protege a sua vida, a das pessoas de quem gosta e a de quem está passando por perto. Afinal, bebida é para ser curtida e não para causar infelicidade, dor, sofrimento.