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Ministério da Saúde alerta:18,9% dos brasileiros abusam do álcool

Publicado em: 22 de junho de 2010

por Conceição Lemes

Os brasileiros relatam cada vez episódios de abuso de bebida alcoólica. É o que revela pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Núcleo de Pesquisa em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (USP). Entrevistou 54 mil adultos.

“Em 2006, 16,2% da população referiram consumo excessivo de álcool; em 2009, cresceu para 18,9%”, observa Deborah Malta, coordenadora de Vigilância de Agravos e Doenças Não Transmissíveis do Ministério da Saúde. “O levantamento mostra que as situações de descontrole são mais entre os homens. Em 2009, 28,8% dos homens e 10,4% das mulheres beberam demais.”

O Ministério da Saúde considera abuso de bebida alcoólica o consumo cinco ou mais doses na mesma ocasião em um mês, no caso dos homens, ou quatro ou mais doses, no caso das mulheres.

“Esse nível de consumo de bebida é bastante elevado e preocupante, pois é fator de risco para acidentes de trânsito, violência e doenças. Mas nem sempre isso é lembrado porque o álcool está presente na cultura brasileira, associado ao lazer e à celebração”, interpreta Deborah Malta.

VOCÊ BEBE MODERADA OU ‘‘PESADAMENTE”?

Os dados do Vigitel se assemelham aos de outros estudos feitos no Brasil.. Um deles é a pesquisa sobre o padrão de consumo de álcool e seus riscos na cidade de São Paulo, coordenada pela médica psiquiatra Laura Helena Andrade, responsável pelo Núcleo de Epidemiologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP.

“Pensou em dificuldades com bebida alcoólica, a imensa maioria das pessoas pensa na alcoolismo – a dependência que vem com o uso crônico, por tempo prolongado”, observa a médica Laura Andrade. “Ou seja, só considera problema quem fica doente por causa do álcool. Esse grupo é minoria. Mas existe outro problema, muito mais abrangente, que é o padrão de beber da população.”

“Existe uma porção de gente que, numa sentada, bebe a ponto de se intoxicar, se expondo a comportamentos de risco”, ressalta a professora Laura. “É o heavy drinking, ou beber ‘pesado’.”

“O que é o heavy drinking, ou beber ‘pesado’”?

Bem, desde que você não vá dirigir, tudo bem, de vez em quando, se reunir com amigos, parceiros, familiares para celebrar, conversar, comer e “tomar alguma coisa”. Em geral, em pequenas doses, o álcool deixa as pessoas mais relaxadas, alegres e descontraídas, sem ameaçar a saúde. É o famoso beba com moderação.

E você, bebe com moderação? Pelo sim, pelo não, que tal fazer um teste bem simples preparado pela doutora Laura? Vamos lá? Primeiro, os homens. Pensem no consumo de bebida alcoólica no último mês. Você lembra de ter consumido em um único happy hour, balada, festa, evento:

1) Cinco latinhas de cerveja ou de garrafa pequena (long neck)?

2) Três garrafas normais de cerveja?

3) Cinco doses de uísque, vodca, aguardente ou rum? Uma dose, aqui, é aquela medida de dosador de destilados, que contém 36 ml. Normalmente, a “dose” de bares e restaurantes contém duas doses de destilado.

4) Três caipirinhas de vodka ou de aguardente? Em geral, são usadas duas ou mais doses do destilado para fazer uma caipirinha.

5) Cinco taças ou copos de vinho?

Agora, as mulheres. Pensem também no consumo de bebida alcoólica no último mês. Você lembra de ter consumido num único happy hour, balada, festa, evento:

1) Quatro latinhas de cerveja ou de garrafa pequena (long neck)?

2) Duas garrafas normais de cerveja?

3) Quatro doses de uísque, vodca, aguardente ou rum? Vale a explicação dada na pergunta dirigida aos homens.

4) Duas caipirinhas de vodka ou de aguardente? Lembre-se de que, em geral, são usadas duas ou mais doses do destilado para fazer uma caipirinha.

5) Quatro taças ou copos de vinho?

“Se respondeu não às cinco questões, significa que é você um (a) bebedor (a) moderado (a)”, diagnostica Laura. “Já o sim a qualquer uma das alternativas indica que você ultrapassou o limite da moderação; é um (a) bebebor (a) ‘pesado’ (a), ainda que ocasional.”

O chamado heavy drinking, ou beber “pesado”, significa o homem consumir cinco doses de álcool numa sentada; a mulher, quatro, já que seu organismo é naturalmente mais suscetível aos efeitos do álcool. “Uma vez por mês já é suficiente para se dizer que a pessoa tem padrão heavy”, justifica Laura. “Ele é bastante freqüente.”

Uma dose de álcool equivale ao consumo de uma latinha de cerveja (350 ml) ou de uma taça de vinho (de 120 ml) ou de uma dose de uísque, rum, vodca, aguardante ou outro destilado (36 ml). Num daqueles copinhos tradicionais de pinga, uma dose de destilado “pega” um pouco acima da segunda listra.

“Então se eu beber todo dia três doses sou bebedor moderado?”

Não.  Considera-se que um homem beba com moderação quando não ultrapassa 14 doses por semana; a mulher, 7 doses. “Acima disso por semana”, adverte Laura, “é um padrão de beber de risco, que pode levar à dependência.”

PADRÃO HEAVY E RISCOS LIGADOS À INTOXICAÇÃO

“É incrível como boa parte dos bebedores ‘pesados’ não tem noção de que ultrapassam o limite da moderação”, observa Laura. “Tanto o padrão heavy ocasional quanto o heavy e freqüente estão associados diretamente a vários problemas devido à intoxicação ou à ação biológica do álcool , independentemente de gênero.”

A lista de possíveis conseqüências imediatas da intoxicação pelo álcool é extensa:

* Estimula a violência doméstica e de rua.

* Favorece acidentes de trânsito (carro, moto, bicicleta, atropelamentos), no trabalho (operação de máquinas) e em casa (quedas). É que, mesmo em baixas doses, diminui os reflexos e a coordenação motora.

* Contribui para relação sexual sem proteção, ou seja, sem camisinha. Aumenta, assim, o risco de HIV, outras doenças sexualmente transmissíveis e de gravidez não planejada.

* Prejudica a memória e o raciocínio.

* Aflora ou agrava dificuldades emocionais.

* Pode causar arritmia cardíaca: alteração dos batimentos cardíacos, causando palpitação; às vezes, essa alteração leva à morte.

“O padrão heavy nem sempre leva à dependência”, frisa Laura. “Porém, há risco, sim, de a pessoa perder o controle. E, ‘apesar dos problemas por causa da bebida’, continuar bebendo. É o que denominamos abuso do álcool. Se continuar bebendo assim,  pode chegar à dependência..”

BEBA COM MODERAÇÃO. NUNCA DIRIJA DEPOIS!

Por tudo isso, atenção:

1) Se não bebe, não se sinta compelido (a) a começar só porque os seus amigos bebem.

2) Se beber, faça-o – sempre! — com moderação.  A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera como de baixo risco até duas doses de álcool por ocasião/dia para um homem e uma dose/dia para mulher.

3) Se estiver grávida, nem uma dose de bebida alcoólica. Há maior risco de aborto e de malformações.

4) Bebida alcoólica também é contra-indicada a quem sofre de doença no fígado ou no pâncreas, utiliza remédios que interagem com o álcool, como antidepressivos, ansiolíticos, antialérgicos e certos antibióticos.

5) Ao beber, faça-o junto com as refeições. O alimento ajuda a competir com o álcool na hora da absorção, tornando-a mais lenta.

6) Beba devagar. Beber deve ser para celebrar, confraternizar, e não para afogar as mágoas e tristezas nem resolver desencantos e dificuldades. O maior espaçamento entre os drinques faz a metabolização do álcool ocorrer aos poucos.

7) Se beber qualquer que seja a quantidade, não dirija carro ou moto nem ande de bicicleta. “Em hipótese alguma”, reforça a professora Laura Helena Andrade.  Vá de metrô, ônibus, táxi, ou peça a alguém que não bebeu para guiar. Você protege a sua vida, a das pessoas de quem gosta e a de quem está passando por perto. Afinal, bebida é para ser curtida e não para causar infelicidade, dor, sofrimento.

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Vai assistir à Copa na África do Sul? Três vacinas são necessárias

Publicado em: 30 de maio de 2010

por Conceição Lemes

Quem se lembra que, durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, havia um surto de sarampo em vários países da Europa, e o Ministério da Saúde (MS) orientou quem fosse assistir aos jogos lá a se vacinar contra a doença? O cuidado faz parte da medicina do viajante. Varia de acordo com os surtos que ocorrem no mundo.

Pois, agora, a quem vai acompanhar os jogos na África do Sul, o Ministério da Saúde recomenda a vacinação contra rubéola, sarampo e febre amarela. É a orientação também da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS)

“O certificado de vacinação contra a febre amarela é obrigatório para a entrada na África do Sul, pois temos a doença aqui”, explica o médico epidemiologista Eduardo Hage, diretor de Vigilância Epidemiológica da Secretaria do MS. “Já as vacinas de sarampo e rubéola são recomendações nossas, para evitar que você adquira uma dessas doenças lá, atrapalhando o passeio, e a importação dos vírus causadores delas.”

A febre amarela existe em alguns lugares do Brasil assim como em vários outros países do mundo. Daí a exigência do governo sul-africano. O sarampo e a rubéola são de fácil transmissão. E ambas tiveram a transmissão interrompida no Brasil. Desde 2006, não há registro de transmissão de sarampo aqui. Os poucos casos são importados. Já a rubéola, em 2008, o Brasil pediu à Organização Mundial de Saúde, certificado de país livre da doença.

As vacinas devem ser tomadas com, pelo menos, dez dias antes do embarque, para terem eficácia total. São gratuitas na rede pública de todo o país. A vacina de sarampo integra a chamada MMR, que também protege contra caxumba e rubéola. Dose única.

“Deve tomar as vacinas de rubéola e sarampo quem não se recorda de ter tido essas doenças na infância nem se imunizado contra elas”, observa Hage.

A vacina de febre amarela só é disponível nos Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais e nos aeroportos. Uma dose de reforço deve ser tomada a cada 10 anos. Portanto, se você mora ou viajou para área de risco da doença no Brasil e já tomou a vacina nesse período, não se imunize de novo.

O viajante precisa levar seu passaporte e o cartão de vacinação assinado a um Centro de Orientação ao Viajante da Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa), para obter o Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia da febre amarela.

“Muitas pessoas deixam para validar o cartão no aeroporto, um pouco antes do embarque e, aí, podem ter surpresas desagradáveis”, adverte Hage. “Por exemplo, o centro da Anvisa estar fechado no momento do embarque ou o cartão ter falhas no preenchimento.” Há centros em quase todos os portos e aeroportos do país. Para atendimento mais rápido, cadastre-se primeiro no Sistema de Informações de Portos, Aeroportos e Fronteiras, disponível na internet pelo endereço: www.anvisa.gov.br/viajante

REPELENTE, FILTRO SOLAR E REMÉDIOS
Para quem vai à Copa e fará turismo fora das áreas urbanas, o Ministério da Saúde recomenda:

* Use repelente nesses passeios; é essencial para afastar os insetos, que podem transmitir doenças, como dengue, malária, febre amarela e febre maculosa.

* Vista camisas de mangas compridas (preferencialmente cores claras), calças compridas e sapatos fechados, para se proteger de picadas de insetos.

* Examine o corpo a cada três horas para verificar a presença de carrapatos. Existem carrapatos em todo o mundo, inclusive no Brasil. Se eles estiverem contaminados pela bactéria responsável pela febre maculosa, eles podem transmitir a doença que causa febre aguda.

* Caso encontre carrapatos grudados na pele,  retire-os com uma pinça (de sobrancelhas serve). Não os esmague com as unhas, pois isso pode liberar as bactérias (caso ele esteja contaminado) e infectar partes do seu corpo.

O Ministério da Saúde lembra ainda:

* Não se esqueça do filtro solar. Passe-o nas partes do corpo expostas ao sol.

* Leve na bagagem de mão (nunca na mala) os medicamentos de uso contínuo ou controlado, como para hipertensão, diabetes e asma. A entrada de medicamentos de uso pessoal em outros países poderá sofrer fiscalização sanitária. Obtenha a prescrição médica da quantidade de medicamentos necessária para sua estada. Em caso de remédios líquidos, como xaropes, os frascos deverão ter a capacidade máxima de 100 ml. Coloque-os em embalagem plástica transparente e bem vedada. Líquidos em quantidades maiores são proibidos em bagagens de mão. De acordo com a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), há exceções. Por exemplo, alguns artigos medicamentosos com a devida prescrição médica, alimentação de bebês e líquidos de dietas especiais, na quantidade necessária a serem utilizados no período total de vôo, incluindo eventuais escalas. Devem ser apresentados no momento da inspeção.

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Ciladas que homens criam para a própria vida sexual

Publicado em: 26 de maio de 2010

por Conceição Lemes

O medo de infertilidade e principalmente de disfunção erétil (antigamente denominada impotência sexual) ronda a cabeça de homens das mais diferentes idades. Ambas podem decorrer de fatores orgânicos e/ou emocionais.

“O problema é que, por desinformação, muitas vezes os homens caem em ciladas que eles criam para si próprios no dia a dia”, afirma o urologista Sidney Glina. “Na prática, são o grande obstáculo à fertilidade e à potência sexual masculinas plenas. Infelizmente já vi muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa de alguns  ‘hábitos’.”

Sidney Glina é muito respeitado pelos próprios colegas. Já foi presidente da Sociedade Internacional de Pesquisa de Disfunção Erétil e da Sociedade Brasileira de Urologia.  Atualmente, é professor livre-docente de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC e chefe da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, em São Paulo.

Viomundo –  O senhor atende em serviços públicos e no consultório particular. Qual a cilada mais comum entre os jovens, por exemplo ?

Sidney Glina – É o uso sem necessidade das facilitadoras de ereção [Cialis, Helleva Levitra, Viagra, Vivanza]. Eles correm o grande risco de ficar psicologicamente dependentes, e, aí, só funcionarem na base da medicação. Portanto,  uma armadilha.

Viomundo – Por favor, explique melhor.

Sidney Glina —  Há basicamente três tipos de usuários dessas pílulas. Os pacientes que vão ao médico devido a dificuldades de ereção, e o médico prescreve. Há os homens maduros que querem dar uma turbinadinha para uma relação sexual eventual, principalmente na hora do almoço. Normalmente, eles não usam a medicação freqüentemente. E há um contingente, provavelmente o maior,  de homens que utilizam o remédio devido a medo ou insegurança. São principalmente jovens, inclusive adolescentes.

Viomundo – Como  eles podem vir a ter disfunção erétil?

Sidney Glina – Esses homens, jovens e adolescentes têm um ponto em comum: ereção perfeita mas que, seduzidos pela propaganda, recorrem a uma das pílulas existentes no mercado, para “mostrar serviço” ou “ter certerza de que o pênis vai funcionar”. Eles sabem que o remédio pode dar ajudazinha. Então, na primeira vez, usam geralmente com a namorada nova. Aí, na próxima saída, eles usam também, pois receiam que não dê certo. E, assim, vão usando sucessivamente. A brincadeira pode acabar mal. Com o tempo, esses indivíduos têm grande probabilidade de ficar dependentes psicologicamente da medicação. Começam a achar que só funcionam na base da medicação. E, se não usarem, podem realmente falhar. É uma das causas de disfunção erétil psicológica.

Viomundo – Que outras ciladas os homens armam contra a própria potência sexual e/ou fertilidade?

Sidney Glina – Há várias. A boa ereção depende não apenas do psiquismo “inteiro”, mas de nervos, artérias, veias, hormônios e músculos envolvidos no processo também íntegros. Por isso, ao usar cocaína o homem corre risco de promover danos à ereção. Explico. A cocaína mesmo consumida eventualmente e em pequenas doses pode levar à atrofia da musculatura dos corpos cavernosos, ou seja, das estruturas do pênis que, uma vez cheias de sangue, permitem a ereção. Com a manutenção do hábito, a lesão é irreversível. Aí, só prótese peniana. A cocaína afeta pouco a fertilidade masculina.

Viomundo – E a maconha?

Sidney Glina – Compromete menos a ereção do que a cocaína. O que a maconha pode provocar, assim como a cocaína, é alteração na ejaculação. Ambas atrapalham a concentração, dificultando a excitação.  Assim, sob efeitos delas o indivíduo ejacula mal. Agora, a maconha, o crack e a heroína  contêm substâncias tóxicas aos espermatozóides, afetando-os profundamente. Mesmo usuários de fins de semana dessas drogas têm diminuição da qualidade dos espermatozóides. A maconha, especificamente, pode levar também à infertilidade masculina, reduzindo os níveis de testosterona [hormônio masculino produzido pelos testículos].

Viomundo – E a bebida alcoólica?

Sidney Glina – Em excesso, o álcool, entre outras conseqüências à saúde, lesa os nervos penianos. Assim, a ordem enviada pelo cérebro aos corpos cavernosos para que se encham de sangue, não chega direito. O resultado é dificuldade para conseguir ter uma ereção. Segundo pesquisas, de 8% a 54% dos homens alcoólatras são impotentes. Além disso, homens que bebem freqüentemente têm mais dificuldade de engravidar suas parceiras por causa de dois problemas: ejaculação para trás, o que diminui o volume de espermatozóides no sêmen; ou insuficiência hepática, que pode levar à diminuição dos hormônios responsáveis pela produção dos espermatozóides.

Viomundo – E o cigarro?

Sidney Glina – O cigarro interfere no número e na motilidade dos espermatozóides, reduzinho-os. Mas, não há nenhum trabalho científico demonstrando que  diminui a fertilidade. Já a potência sexual reduz, sim. A nicotina dificulta a entrada de sangue no pênis, conseqüentemente  a ereção. A quantidade de nicotina contida em dois cigarros é suficiente para inibir a ereção de adolescentes.  Para agravar, a longo prazo o cigarro leva à formação de placas de gordura nas artérias, estreitando-as, ou seja, pode comprometer a ereção no futuro. Cachimbo, charuto e cigarrilha acarretam os mesmos malefícios que o cigarro.

Viomundo – Que outras armadilhas tem detectado?

Sidney Glina –As “bombas ”de anabolizantes, muito comuns em academias. No Brasil, são crescente causa de infertilidade. Por um mecanismo hormonal, fazem com que o indivíduo páre de produzir testosterona, impedindo a produção de espermatozóides. Em 10% a 20% dos casos, o dano é irreversível. Também por um mecanismo hormonal, as “bombas” levam à impotência sexual.

Viomundo É verdade que remédios contra quedas de cabelos à base de finasterida [Propecia, Pracap, Pro Hair, Finasterida Calvin, Finasterida Finastec, Finasterida Euro ou Finasterida Merck] podem causar infertilidade?

Sidney Glina – No estudo em que a Food and Drug Administration, a agência americana controladora de alimentos e remédios, se baseou para aprovar a finasterida, não afetou a fertilidade. O estudo da FDA foi feito com voluntários sadios durante seis meses.  Porém, num trabalho que fiz com pacientes com infertilidade, ficou comprovado que o uso crônico altera o sêmen. Trabalhos feitos por outros colegas no exterior comprovaram a mesma coisa: em homens inférteis, a finasterida pode agravar a infertilidade. Algumas vezes o paciente tem alguma outra causa de infertilidade, como a varicocele [varizes no escroto]. Aparentemente o uso da finasterida pode aumentar o efeito desta outra causa. Por isso, a recomendação a todo usuário de finasterida, que está tentando engravidar e não consegue, é suspendê-la. A produção de espermatozóides volta ao normal.

Viomundo – Os efeitos de álcool, maconha, cocaína e cigarro sobre a potência e a fertilidade também são reversíveis?

Sidney Glina —  Nunca se pegou um indivíduo absolutamente adicto para fazer contagem de espermatozóides e verificar seis meses depois como estava a quantidade. Mas, é claro, que os efeitos dependem do tempo de uso, quantidade e sensibilidade individual a essas substâncias. Quanto maior o uso maior o risco e menor a possibilidade de reversão. O que a gente vê no consultório com usuários de fins de semana de maconha e cocaína, por exemplo, é alteração na motilidade dos espermatozóides.  Os espermatozóides  “andam” mais devagar, diminuindo a probabilidade de engravidar. Quando detecto isso, peço  para o paciente suspender a droga.

Viomundo – Então o tratamento da infertilidade masculina e da impotência pode passar  pela suspensão dessas substâncias ?

Sidney Glina – Com certeza. E muitas vezes só isso basta para reverter o problema.

Viomundo –  A esta altura, alguns leitores talvez estejam dizendo que isso é “caretice”, “nunca viram ninguém com impotência e/infertilidade por causa disso” e até que o senhor “está querendo tocar horror”. O que diria para eles?

Sidney Glina – Infelizmente já vi, sim, muitos pacientes com problemas sexuais ou de fertilidade por causa destes “hábitos”. Recentemente atendi um que começou a tomar uma das pílulas para facilitar a ereção. No início, apenas um pedacinho do comprimido de 25mg. Dizia que era para dar uma turbinadinha. Agora, ele diz que a dose de 100mg já não funciona mais. Este paciente não tem nenhum problema orgânico! Tem apenas uma falta de confiança muito grande em si próprio.

Viomundo – Afinal, qual a receita para o homem manter a potência sexual e a fertilidade?

Sidney Glina – É a mesma receita para ter boa saúde física e mental: 1) n ão abusar do álcool; 2) evitar maconha, cocaína, heroína, crack, ecstasy; 3) dar adeus ao tabagismo, qualquer que seja a sua idade; 4) evitar a obesidade ou emagrecer se estiver acima do peso.  Ao combater a combater a obesidade, por tabela, diminui-se o risco de impotência sexual e infertilidade masculina. A obesidade favorece ambas; 5) controlar a pressão arterial, os níveis de colesterol e de “açúcar” no sangue. São medidas fundamentais para manter a integridade de nervos, artérias e vasos sangüíneos de todo o corpo, inclusive do pênis, ajudando a evitar disfunção erétil; 6) praticar algum tipo de atividade física. O homem que caminha três vezes por semana durante 30 minutos tem mais chance de manter a potência sexual do que aquele que não faz exercício.

Viomundo – O que receitaria mais?

Sidney Glina – Educação sexual. Não existe medida preventiva mais efetiva contra a disfunção erétil. Todo homem tem medo potencial de ficar impotente. Não há como não ter. Mas, se entender como funciona a sexualidade, menor a probabilidade de ter impotência por problemas psicológicos, que é a maior parte dos casos. Por exemplo, não se obrigar a um número x de relações sexuais só para cumprir calendário. Transar em condições  adversas perturba o envolvimento erótico, portanto a ereção. Se falhar porque estava estressado, bebeu demais ou a garota, de repente, lhe desagradou, desencanar. Vai dormir, no dia seguinte levantará bem e terá uma relação sexual tranqüila. É vital também compreender e aceitar as alterações normais do desenvolvimento contínuo do homem.

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HIV-positivo: Direito a maternidade segura e filhos saudáveis

Publicado em: 11 de maio de 2010

Conceição Lemes

1984. Notificação do primeiro caso de aids em criança no Brasil. Inicialmente a transmissão é apenas sanguinea por transfusão ou produtos derivados de sangue contaminado pelo HIV, o vírus da aids.

1985. É notificado o primeiro caso transmissão vertical, ou materno-infantil no País. O HIV passa da gestante infectada para o bebê. Torna-se a causa mais freqüente de transmissão de HIV em crianças.

1996. Brasil incorpora o resultado do memorável estudo ACTG 076, feito em 1994, nos Estados Unidos. Ele comprovou que o uso do AZT pela gestante (antes e durante o parto) e pelo recém-nascido reduzia drasticamente a transmissão vertical.

O Ministério da Saúde (MS) passou então a garantir acesso ao AZT às gestantes HIV-positivas e aos seus bebês. Depois, o esquema triplo [utilização de três antirretrovirais durante a gestação], a cesariana programada e a substituição do aleitamento materno pelo leite em pó reduziram ainda mais a transmissão vertical, que pode chegar a 30%, se  não houver nenhuma intervenção.

Ou seja, de cada 100 crianças nascidas de mães infectadas pelo vírus da aids, 30 podem se tornar HIV-positivas. Porém, com medidas de prevenção a transmissão vertical pode cair para menos de 1%. Em 1996, os casos de aids por transmissão vertical somaram 893. Em 2007, caíram para 369.

2010. Aids é uma doença crônica. Os portadores do HIV vivem cada vez mais. Claro que eles precisam tomar seus remédios e se cuidar. Mas têm vida praticamente normal. Trabalham, estudam, se apaixonam, mantêm relações sexuais. E, como a maioria dos casais, muitos desejam constituir família. Um direito de todas e todos.

“Em 2008, cerca de 3 mil mulheres sabidamente soropositivas e em uso de antirretrovirais resolveram engravidar”, cientifica Mariângela Galvão, diretora do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, do Ministério da Saúde. “Esse é o mundo real. Não adianta tampar o sol com a peneira.”

Esses dados combinados à divulgação de novos estudos científicos levaram, em 2009, o Ministério da Saúde a criar dois comitês técnicos para avaliar a gravidez dos soropositivos para orientá-los mais adequadamente. Um deles, voltado para os adultos. Outro, para os bebês. Até o final de junho, as orientações devem ser divulgadas.

No dia 4 de maio, porém, reportagem publicada pela Folha de S. Paulo deixou meio mundo aturdido. A manchete da primeira página:

O deu no Ministério da Saúde? Como estimular HIV-positivo a ter filho? Essa notícia deve estar errada? esta repórter chegou a ouvir de algumas pessoas. O Viomundo entrevistou a doutora Mariângela Galvão para esclarecer melhor essa questão tão delicada.

Viomundo – Doutora Mariângela, o Ministério da Saúde planeja estimular a gravidez em portadores do HIV?

Mariângela Galvão – De jeito nenhum. O Ministério da Saúde não estimula as pessoas a engravidar – sejam soropositivas ou não. Quem decide se quer ou não engravidar é a mulher, o casal. O que cabe ao ministério fazer é, no caso do planejamento familiar, é disponibilizar os métodos contraceptivos. E, aí, cada casal, com ajuda de um profissional de saúde, decide o que é mais adequado: o DIU (dispositivo intrauterino), a pílula ou diafragma, por exemplo? Mas todos são orientados a usar preservativo masculino – a camisinha – nas relações sexuais.

Viomundo – A manchete da Folha era mentirosa?
Mariângela Galvão
 —  Infelizmente, sim. Faltou responsabilidade profissional.

Viomundo – A Folha contatou o ministério para apurar o assunto?

Mariângela Galvão – O jornal entrevistou uma técnica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que atua com reprodução assistida em casais soropositivos e está há um mês no Departamento de DST e Aids do ministério. A Folha disse que existe um plano pronto, o que não é verdade. Eu gostaria de deixar bem claro que as recomendações ainda estão sendo trabalhadas pelos dois grupos técnicos que criamos em 2009. Não há nenhuma definição de como serão as orientações. 

Viomundo – Afinal, o que planeja o Ministério da Saúde?

Mariângela Galvão —  O objetivo é que os soropositivos que desejam ter filhos engravidem em condições as mais seguras possíveis seguras para si próprios e para seus bebês. Atualmente, não há uma padronização de conduta; cada médico orienta com base na sua experiência. Além disso, receando que o médico contraindique a gestação, muitas mulheres já chegam grávidas para a consulta.

Viomundo – Quantas brasileiras soropositivas engravidam por ano?

Mariângela Simão — Em 2008, cruzando dados de testes laboratoriais, notificação de doenças, acesso a medicamentos, verificamos que 3 mil mulheres sabidamente soropositivas e em uso de medicação antirretroviral engravidaram. Esse é o mundo real. Não adianta tampar  o sol com a peneira, fingir que ele não existe. Os soropositivos vivem cada vez mais devido aos tratamentos disponíveis. Eles têm vida praticamente normal: trabalham, estudam, se apaixonam, mantêm relações sexuais, se casam e querem constituir suas famílias. É uma necessidade verdadeira, como a dos demais brasileiros e brasileiras.  Também um direito sexual e reprodutivo de todas e todos. 

Viomundo – Na Suíça, tem aquele estudo famoso que acompanha há uns cinco ou seis anos casais sorodiscordantes [apenas um dos parceiros é HIV-positivo]. Em que ele pé ele está?

Mariângela Galvão – Na Suíça, os casais cujo parceiro soropositivo tem carga viral indetectável são orientados a não usar preservativos nas relações sexuais.  Chegou a esse ponto lá. Mas é só na Suíça que isso acontece. O acompanhamento desses casais tem demonstrado que a transmissibilidade não é tão grande quanto se imaginava, quando a carga viral [quantidade de HIV presente no sangue] do parceiro soropositivo é indetectável pelos testes disponíveis. 

Além disso, nos últimos dois anos saíram vários artigos na literatura científica internacional sobre transmissibilidade do HIV. Eles correlacionavam carga viral com quantidade de HIV no esperma e nos fluídos seminais, visando justamente estratégias de redução da transmissão na gravidez. Eles descobriram que quando o parceiro infectado tem carga viral indetectável a possibilidade de o outro se infectar pelo HIV é mínima e o risco de o bebê gerado por esse casal ser soropositivo é inferior a 1%.

Pois bem, juntando todos esses dados de realidade, o Ministério da Saúde resolveu criar em 2009 dois grupos técnicos, para estudar a literatura e estabelecer quais as melhores recomendações para os soropositivos que planejam ter filho. Se um dos parceiros é soropositivo, não existe risco zero. Nem para o parceiro negativo nem para o bebê, embora o risco seja menor do que 1%. 

Viomundo – Quando as orientações saem?

Mariângela Galvão – Os grupos técnicos devem finalizar a redação daqui a 20, 25 dias. Até o final de junho serão divulgadas.

Viomundo – Os dois comitês técnicos do ministério devem ter ouvido vários especialistas. Daria para adiantar a tendência deles?

Mariângela Galvão – Por enquanto, não, pois, como já disse, não estão finalizadas. Mas orientações vão depender da situação do casal. Basicamente existem dois grandes grupos: casais sorodiscordantes – um parceiro é positivo e o outro, negativo; e casais soroconcodantes – os dois são HIV-positivos. Cada grupo vai abrir várias chaves. Uma coisa é quando a mulher é soropositiva, outra coisa, quando o homem é soropositivo.

Viomundo – Suponhamos que a mulher seja positiva para  HIV, o marido, negativo. O uso de técnicas de inseminação artificial seria a forma mais segura de gravidez? 

Mariângela Simão – Essa é uma das recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Em toda relação sexual sem camisinha há troca de fluidos e contato de mucosas. Se a pessoa infectada usa o “coquetel” antirretroviral e a quantidade de HIV no sangue está em níveis muito baixos, o risco de transmissão é menor. Porém, não há risco zero. O uso de técnicas de inseminação artificial seria a forma mais segura de gravidez: evitaria o contato direto do indivíduo HIV-negativo com uma fonte HIV-positiva.

Viomundo – E para os casais em que o homem é HIV-positivo e a mulher HIV-negativa?

Mariângela Simão –  Uma das recomendações da OMS é a inseminação artificial com a lavagem do esperma para que não contenha nenhum resíduo de vírus. Esse processo reduz o risco de transmissão do HIV para a mulher inseminada e, subsequentemente, para o feto.

Viomundo – Mas a OMS tem outras recomendações?

Mariângela Simão – Sim. Uma delas: no caso de o parceiro ser negativo, colocar o esperma numa seringa e injetar na vagina. A reprodução assistida é um procedimento caro e o HIV está muito presente em países pobres, onde as pessoas não têm acesso a esses métodos. Por isso, a própria OMS coloca entre as orientações a possibilidade de uso de métodos naturais de contracepção. Aí, o casal no período fértil não usaria preservativo, desde que o parceiro positivo estivesse tomando corretamente a medicação e a carga viral fosse indetectável. Depois, como prevenção, o parceiro negativo deveria receber durante um período tratamento antirretroviral.

Viomundo – Do jeito que a Folha divulgou inicialmente pareceu que o plano do governo visaria apenas à reprodução natural entre os HIV-positivos. 

Mariângela Simão – É o que a Folha disse inicialmente, mas não é verdade. Entre as orientações do Ministério da Saúde estará certamente a reprodução assistida para determinadas situações. As recomendações vão depender de diversos fatores: idade, medicação usada, adesão ao tratamento, carga viral, se o homem ou a mulher é soropositivo. O que nós queremos é que o casal passe a ser devidamente informado em bases científicas e tome a sua decisão, considerando o tamanho do risco de cada um.

Viomundo – Basicamente, o que deve constar dessas orientações?

Mariângela Galvão – Os métodos que podem ser usados, por quem, em que circunstâncias, quando. Também quando se deve esperar mais.

Viomundo – A reportagem da Folha levou o jornalista Alexandre Garcia a dar declarações mais equivocadas ainda. Quais as conseqüências de matérias como essas?

Mariângela Galvão – Infelizmente, estimulam o preconceito e a discriminação contra os HIV-positivos. Esquecem que as pessoas soropositivas têm direito a uma maternidade segura e a um filho saudável, como todos nós.

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Contra a depressão, “use” atividade física regularmente

Publicado em: 25 de abril de 2010

por Conceição Lemes

Mens sana in corpore sano –mente sã em corpo são. Vocês já leram ou ouviram em latim ou português essa célebre máxima. É do poeta romano Juvenal (60-130 d.C), que, para criá-la, recorreu aos manuscritos de Hipócrates (460 a 377 a.C). Muito lá trás, o Pai da Medicina antevia o que a ciência só recentemente demonstrou.

“A atividade física beneficia não apenas a saúde física, a mental também”, afirma a psiquiatra Laura Helena Andrade, responsável pelo Núcleo de Epidemiologia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas e professora colaboradora da Faculdade de Medicina da USP. “Está comprovado que ela é eficaz tanto na prevenção quanto no tratamento da depressão.”

Mas antes de ter mais detalhes, é importante saber que a depressão é uma doença comum. Hoje em dia, basta juntar dez mulheres, e terá esta “foto”: duas a três têm, tiveram ou terão o problema. Em caso de dez homens, um a dois aparecerão no “filme”.

O retrato é mundial. A depressão afeta 20% a 30% da população adulta. Segundo pesquisa da Universidade de Harvard, as doenças mentais causam metade dos 1,3 bilhão de dias/ano de afastamentos do trabalho nos Estados Unidos, sendo a depressão a principal responsável. Quadro semelhante ocorre entre os funcionários do Hospital das Clínicas de São Paulo: 45% das licenças médicas devem-se à depressão.

Ela provoca prejuízos duros e doídos. As perdas vão desde dias de trabalho, emprego, bom humor, qualidade de vida e alegria de viver até fim de relacionamentos. Tem mais. Ninguém está livre de ter uma crise um dia.

Logo, prevenir a depressão interessa a todas e todos. Pesquisas de longo prazo demonstram que a atividade física evita o aparecimento de sintomas depressivos em jovens, adultos e idosos, além de melhorar o humor e o bem-estar. Parece ainda reduzir o risco do Mal de Alzheimer e demência senil no futuro. Já em quem tem depressão, ajuda no tratamento.

“É um recurso adjuvante à medicação (os antidepressivos) e à psicoterapia”, salienta a doutora. “Os resultados surgem seis a oito semanas após o início dos exercícios regulares.”

Outra grande vantagem é diminuir as recaídas. Quem tem um episódio depressivo, tem 50% de risco de apresentar um segundo. Se dois, a probabilidade de um terceiro sobe para 70% a 80%. Em caso de três, o perigo de outras crises ultrapassa os 90%. Conseqüentemente é vital investir na prevenção de novas crises. É a chamada prevenção secundária.

Conclusão: os exercícios funcionam – mesmo! — na depressão. O que a ciência ainda não desvendou totalmente são os mecanismos que propiciam tais ganhos. Aparentemente, eles aumentam a liberação pelo cérebro de substâncias, como a serotonina (melhora humor e bem-estar) e as endorfinas (aliviam tensão e ansiedade).

Agora, para conquistá-los, há uma condição: a atividade física tem que ser regular. O ideal, quatro a cinco vezes por semana durante meia hora. Vale o que você preferir ou estiver ao seu alcance: caminhada, corrida, esteira, bicicleta, natação, exercícios com pesinhos, dança, ioga.

Tanto que a doutora Laura prescreve a todos os meus pacientes. Àqueles saudáveis, sem doenças, é sugestão, visando proteger-lhes mais a saúde mental e física. Já para quem tem depressão, é “remédio” obrigatório, que complementa os antidepressivos e/ou a psicoterapia. Potencializa, inclusive, os efeitos de ambos.

A depressão é problema de saúde como outro qualquer. No Brasil, atinge cerca de 20 milhões de pessoas. Quanto mais precoce o diagnóstico e o tratamento, menor o risco de voltar. Portanto, se você se sente triste ou infeliz, sem esperança no futuro, com vontade freqüente de chorar, atenção: talvez seja “ela”. Não se envergonhe, busque ajuda logo.

E mexa-se– sempre! Ninguém está livre de ter uma crise depressiva. Sua cabeça e seu corpo só lucrarão.

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Adiada vacinação do idoso contra gripe comum; Butantan falha

Publicado em: 19 de abril de 2010

por Conceição Lemes

A Campanha Nacional de Vacinação do Idoso deveria começar em todo o Brasil na próxima segunda-feira, 24 de abril, e iria até 7 de maio. Era o previsto desde janeiro no calendário estabelecido pelo Ministério da Saúde. Porém, o ministério teve de adiar o início para 8 de maio nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste.

Motivo: o Instituto Butantan não entregou no prazo estipulado os 18,6 milhões de doses necessárias para a campanha da vacinação do idoso contra a gripe comum. O Butantan, órgão vinculado ao Governo do Estado de São Paulo, é parceiro histórico do Ministério da Saúde e único laboratório da América Latina que produz vacinas contra a influenza.

“O Butantan só nos comunicou do atraso da entrega na sexta-feira passada, 16 de abril”, afirma o médico epidemiologista Eduardo Hage, coordenador de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. “Até o momento, recebemos 6,2 milhões de doses, ou seja, apenas um terço do total.” Pelo contrato assinado com Ministério da Saúde, o Butantan deveria ter entregue tudo até a primeira quinzena de abril.

NORTE E SUL: VACINAÇÃO SERÁ DE 24 DE ABRIL A 7 DE MAIO
Em função do atraso, o Ministério da Saúde e os Conselhos Nacionais de Secretários Estaduais (CONASS) e Municipais (CONASEMS) de Saúde elaboraram um novo calendário para as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Nas regiões Norte e Sul, está mantida a vacinação na data prevista inicialmente: 24 de abril a 7 de maio.

Questões logísticas, no Norte, e epidemiológicas, no Sul, reforçaram a necessidade de manter a data de vacinação dos idosos.

No Norte, 100% das doses de vacina contra a gripe comum já haviam sido entregues às Secretarias Estaduais de Saúde na semana passada. O envio de vacinas é priorizado para os estados dessa região porque as Secretarias Estaduais de Saúde têm dificuldade de acesso aos  municípios e às populações mais distantes; muitas vezes precisam usar barcos e aviões para transportar as vacinas. Já o Sul, historicamente, é a região com inverno mais rigoroso em relação ao restante do país.

“Todas as pessoas com mais de 60 anos das regiões Norte e Sul deverão ser imunizadas contra a gripe comum, como acontece todos os anos”, esclarece Eduardo Hage. “Aquelas que tiverem também alguma doença crônica receberão, também, no outro braço, uma dose de vacina contra a gripe H1N1 [a gripe suína]”.

SUDESTE, NORDESTE E CENTRO-OESTE: 8 A 21 DE MAIO
Nessas regiões, a campanha de vacinação contra a gripe comum para maiores de 60 anos ocorrerá de 8 a 21 de maio.  Aqueles que tiverem doenças crônicas também serão imunizados contra a gripe suína.

Nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste, os idosos com doenças crônicas poderão tomar a vacina contra a gripe suína já a partir de 24 de abril, data prevista para o início da campanha.

“Os idosos que fizerem essa opção terão de voltar aos postos de vacinação mais uma vez”, alerta o dr. Hage. “É para tomarem a vacina contra a gripe comum, entre 8 e 21 de maio. Já os que optarem por aguardar até 8 de maio poderão tomar as duas vacinas no mesmo dia, uma em cada braço.”

O Ministério da Saúde, o CONASS e o CONASEMS avisam: a mudança nas datas não prejudicará  a saúde dos idosos.

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Troca-troca: O que falar com os filhos, os sobrinhos…

Publicado em: 10 de abril de 2010

por Conceição Lemes

Em consultórios de especialistas que trabalham com sexualidade, vez por outra aparecem pais e mães literalmente arrasados. Flagraram ou suspeitam que o filho faz troca-troca com coleguinhas. Junto, quase sempre arrastado, o menino humilhado. É de doer.

A preocupação com essa questão já lhe passou pela cabeça? O seu filho ou seu sobrinho já esboçou necessidade de esclarecer alguma dúvida sobre troca-troca? O que fez você? Já pensou o que responderá quando ele voltar a tocar no assunto? E se eventualmente surpreendê-lo na hora H, o que fará?

Tais situações são freqüentes e exigem informação e maturidade do pai e da mãe. Para esclarecer essas e outras questões sobre o tema, entrevistamos a médica psiquiatra Carmita Abdo, especialista em Medicina Sexual. Carmita é professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Viomundo – Doutora, o troca-troca entre meninos leva à homossexualidade?

Carmita Abdo – Evitar o troca-troca não é garantia de que o menino será heterossexual  quando for adulto. Também não é porque o menino vivenciou experiências de troca-troca que se tornará homossexual. Ser homo, bi ou heterossexual não é uma opção. Ou seja, ninguém escolhe ser homo, hétero ou bi. A teoria mais aceita hoje em dia é a de que o indivíduo nasce com uma carga genética sobre a qual se assentam fatores educacionais, sociais e emocionais, que o vão moldando para a heterossexualidade, a homossexualidade ou a bissexualidade. Muitos estudos demonstram que alguns fatores que vão determinar a orientação sexual estão presentes muito cedo na vida, talvez até já ao nascimento. A homossexualidade, assim como a heterossexualidade, é uma tendência, uma orientação sexual.

Viomundo – O que vem a ser exatamente o troca-troca?

Carmita Abdo – Como a própria expressão indica, é um relacionamento no qual há alternância de situação dos parceiros. Em determinada ocasião, um deles estará na posição de recepção; na outra, na de introdução. De longa data sabemos que isso acontece.

Viomundo – Em que idade costuma ocorrer?

Carmita Abdo – Quando os meninos começam a produzir os hormônios sexuais e a ganhar os caracteres sexuais secundários — surgimento de pêlos, engrossamento da voz, aumento da musculatura, ereção peniana e ejaculação. Isso se dá por volta dos 11, 12 anos de idade; mais raramente aos 10, entre os mais precoces. Eles ainda não têm facilidade para abordar uma garota, mas já têm desejo sexual, vontade de manter contato físico, penetrar e ejacular. Para resolver essa necessidade e o impulso sexual acabam fazendo um acordo entre si, que é o chamado troca-troca: cada qual usufrui do prazer de penetrar, desde que também se submeta à penetração.

Viomundo – Que papel tem no desenvolvimento sexual do menino?

Carmita Abdo — De iniciação. Freqüentemente representa a primeira experiência sexual. Ela vai ser repetida algumas vezes, enquanto o menino desejar o ato sexual, mas ainda não tiver habilidade, experiência, disposição ou coragem para abordar uma garota. Antigamente, quando as meninas se resguardavam sexualmente até o casamento, muito tempo transcorria até que o garoto pudesse ter uma experiência heterossexual com alguém de sua idade. E como ele, em geral, também não tinha condição de pagar uma profissional do sexo, por um bom tempo resolvia o impulso sexual com o troca-troca.

Viomundo – Então antigamente o troca-troca ia até mais tarde?

Carmita Abdo – Sim. Mas, atualmente, com a liberdade sexual das meninas e das adolescentes, o troca-troca dos meninos está restrito à fase de iniciação sexual mesmo. Quando o garoto tem 11, 12 anos é muito imaturo; nenhuma menina tem interesse sexual nele e a alternativa é o troca-troca. Isso perdura até os 13, 14 anos. Em seguida, o troca-troca é substituído por iniciação sexual com garotas. Mesmo aqueles que serão homossexuais costumam ter essa fase com garotas.

Viomundo – Ou seja, o troca-troca faz parte do desenvolvimento sexual?

Carmita Abdo – É um estágio natural e universal do desenvolvimento sexual de boa parte dos garotos, independentemente da cultura em que estão inseridos.  Na puberdade, fase de transição entre a infância e a adolescência, os hormônios sexuais começam a ser produzidos. E o apelo biológico se torna incontrolável. Além disso, a educação dada aos meninos os leva a entender que a busca por sexo é um valor positivo. E como não têm como resolver essa questão com as garotas que os atraem, vão solucionando essa necessidade física entre eles.

Viomundo – Há alguma estimativa sobre a freqüência atual?

Carmita Abdo – É difícil estimar um número preciso, porque não é uma atividade que os garotos comentem ou assumam publicamente, por receio de serem mal interpretados. Nega-se muito. “Eu nunca fiz, doutora”, muitos me dizem. Eu sei que pode não ser verdade, mas não retruco. O que podemos dizer é que a maioria dos meninos teria essa experiência pelo menos uma vez ao longo da vida.

Viomundo – Faz de conta que não faz?

Carmita Abdo – Existe um pacto de silêncio. O que dá prazer ao menino geralmente é a penetração. Ele penetra, mas também é penetrado, porque o outro menino também quer penetrar. Assim, ambos conhecem os dois lados e se satisfazem com parte da experiência.  Agora, quando o garoto aceita ambas as práticas e se submete de forma mais receptiva e até se mostra interessado nesse contato físico, seu próprio grupo tende a estigmatizá-lo. Muitas vezes é considerado um homossexual.  Mas esse garoto – atenção! – não necessariamente terá orientação homossexual.

Viomundo – Na cabeça dos meninos, homossexual é apenas o passivo, o ativo, não?

Carmita Abdo – Geralmente pensam assim. Mas é um grande equívoco considerar que ser homossexual masculino significa ter passividade sexual, ou seja, ser penetrado. O homossexual pode ser ativo também. Na vida adulta, independentemente de ele penetrar ou ser penetrado, é a atração que define a tendência sexual. Homossexual – seja homem ou mulher – é aquele que tem preferência sexual por pessoa do mesmo gênero que o seu.

Viomundo – Vamos supor que o pai flagre a situação. O que ele deve fazer nessa hora?

Carmita Abdo – Primeiro, ter muita tranqüilidade, não se angustiar. O grande medo dos pais é que essa experiência se torne a preferência sexual do filho.  Na maioria das vezes ela é temporária. Segundo, não comece a investigar a vida do garoto de forma explícita e indiscreta. É a intimidade dele que estará sendo vasculhada. É muitíssimo desagradável estar exposto, ser interrogado, às vezes até sem nenhuma privacidade. Terceiro, seria interessante ainda o pai puxar um pouquinho pela memória e relembrar que deve ter vivido situação semelhante na sua puberdade ou no início da adolescência, e hoje nem se lembra.

Viomundo – Adianta xingar, dar bronca, brigar  e até partir para a agressão física?

Carmita Abdo – De modo algum. Se o garoto se deixou ser pego, talvez ele quisesse mesmo que isso acontecesse, para abrir um canal de comunicação com o adulto. Pais, não percam essa oportunidade. Mas é só uma conversa mesmo, uma oportunidade de educação sexual em família, sem coações ou medidas repressivas que possam complicar o relacionamento familiar. Lembrem-se: na maioria das vezes, é apenas uma fase natural do desenvolvimento sexual do menino.

Viomundo – Os pais devem conversar com os filhos sobre essa questão ou esperar que perguntem?

Carmita Abdo – A melhor forma de educação sexual – começa na primeira pergunta da criança sobre sexo, o troca-troca e todas as demais questões – é tratar cada assunto à medida que for apresentado. Não adianta se antecipar sobre aquilo que o menino ainda não viveu. Ele vai estranhar, não vai entender. É a mesma coisa que falar para uma criança de 2 anos que um dia ela vai ler, escrever… Ela pode até ouvir, mas essa fala não será assimilada.

Viomundo – Como os pais devem proceder?

Carmita Abdo – Todas as perguntas sobre sexualidade devem ser respondidas à medida que aparecem. Não se deve fazer discurso, mas responder de forma direta, objetiva, sintética, pontual, a questão formulada.  Os pais – leia-se pai e mãe – são os que têm melhores condições de dar educação sexual aos próprios filhos. Afinal, conhecem melhor do que ninguém as peculiaridades da personalidade do seu menino ou menina.  Isso exige maturidade do pai e/ou da mãe para lidar com o tema.

Viomundo – Mas, por vergonha ou desinformação, muitos pais não conseguem. O que fazer?

Carmita Abdo – Independentemente de os pais estarem ou não atentos ao desenvolvimento sexual do filho, ele está ocorrendo. A melhor educação sexual é a que se recebe em casa. Por isso, o ideal seria que falassem abertamente com a criança sobre o assunto. Hoje em dia existem sites, livros, filmes capazes de fornecer informação de qualidade. Entretanto, se não se sentem à vontade para fazer esse papel, um caminho é pedir a outro familiar adulto que o faça. Em última instância, a educação sexual na escola pode ser a alternativa possível. É fundamental não apenas para o desenvolvimento sexual  mas para a saúde geral da criança.

Viomundo – O que diria a um garoto que eventualmente leia a nossa entrevista?

Carmita Abdo – Primeiro, faria a seguinte observação: a sexualidade existe dentro de todo ser humano. É lícito que você se sinta sexualmente estimulado; isso faz parte naturalmente do seu desenvolvimento. Em seguida, daria três sugestões: 1) se tiver dúvida, procure dividi-la com um adulto da família que possa orientá-lo, de preferência seu pai ou sua mãe. Se sentir que não estão aptos, converse com outra pessoa adulta da família ou um professor; 2) seus primeiros contatos sexuais devem ser com pessoas da sua faixa etária; 3) nunca deixe de fazer sexo protegido, isto é, use sempre a camisinha. Sexo seguro é fundamental para a sua saúde e da sociedade como um todo.

Viomundo – O troca-troca tem que ser mesmo entre meninos da mesma faixa etária?

Carmita Abdo – Seguramente. Tudo o que foge disso pode causar dano físico e emocional à criança.

Viomundo – Explique melhor.

Carmita Abdo – Às vezes o garoto pensa que está fazendo troca-troca e não está.  Por exemplo, quando ele, com 11, 12 anos, descobre a sua sexualidade com um adulto ou com um adolescente de 18, 19 anos. Não é uma experiência de troca, porque não existe liberdade de escolha. Aí, ele serve como objeto sexual, pois está submetido pela pessoa mais velha. Essa experiência pode ser violenta e machucar, prejudicar o menino física e emocionalmente. O troca-troca também é danoso quando o garoto é obrigado por outros maiores ou mais fortes a se submeter a essa prática. Troca-troca supõe livre escolha.

Viomundo – Sexo seguro supõe o uso de camisinha. Isso significa que troca-troca só com preservativo?

Carmita Abdo –Troca-troca é uma prática sexual, na qual há contato íntimo dos órgãos genitais e troca de secreções. É indispensável, portanto, que o garoto use camisinha, pois é impossível saber se o outro tem alguma doença sexualmente transmissível. Além disso, o pênis de quem penetra fica exposto ao conteúdo do reto [parte final do intestino] de quem está sendo penetrado. Alguém pode refutar: “Como chegar para um garoto de 10, 11, 12 anos e dizer: olha, isto aqui é uma camisinha; use-a quando fizer o seu troca-troca?”.  Quando o assunto é sexo, a regra de que não se deve antecipar coisa alguma cai por terra. Às vezes o preço que se paga por não informar e educar é muitíssimo mais alto.

Viomundo – Como resolver esse impasse?

Carmita Abdo – Os pais precisam estar cientes de que os recursos para evitar o sexo de risco devem ser adotados desde a iniciação sexual. É melhor promover saúde e engajar-se na prevenção do que enfrentar, no futuro, as conseqüências do sexo de risco. Por isso, sistematicamente, os pais têm que bater na tecla da camisinha.  Ela é o único recurso eficaz contra gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, inclusive aids.

Viomundo – Nesse caso, o que aconselharia um pai ou uma mãe a dizer ao filho?

Carmita Abdo — Tudo o que você faz na vida pode ser bom como ruim. Você às vezes saboreia um prato excelente, mas que pode lhe fazer mal. Por isso, é preciso sempre se prevenir. Você não coloca uma verdura ou fruta na boca do jeito que vem da feira. Você lava antes. Esse cuidado de se proteger deve se tornar hábito desde o início da vida sexual. Você não precisa dizer para o garoto: “quando você fizer troca-troca, use preservativo”. Mas você pode dizer que em toda relação sexual – seja qual for — é fundamental que ele use a camisinha. Pronto. Não precisa entrar em detalhes.

Viomundo – E se o garoto se mostrar insatisfeito com a resposta genérica?
Carmita Abdo –
Você até pode aprofundar a resposta, caso o clima seja propício e o próprio garoto queira.

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HIV passa de mulher para homem, sim, Dourado!

Publicado em: 25 de março de 2010

 por Conceição Lemes

Não acompanho o BBB10, tampouco conheço os candidatos .  Mas, felizmente, o Ministério Público Federal em São Paulo está de olho e flagrou o participante Marcelo Dourado, falando um absurdo total sobre como “se pega” aids.  A conversa com outros moradores da casa ocorreu em 2 de fevereiro. No dia 9, editada, foi ao ar para o grande público. A Globo limitou-se a sugerir que o público consultasse o site do Ministério da Saúde para se informar melhor.

Dourado declarou: um homem portador do vírus da aids em algum momento teve relação com outro homem. Disse ainda que hétero não pega aids, que obteve a informação com médicos. E concluiu: Um homem transmite para outro homem, mas uma mulher não passa para o homem.

“A Globo não alertou que a fala do Dourado era completamente equivocada”, lamenta Jefferson Aparecido Dias, Procurador Regional dos Direitos do Cidadão do MPF em São Paulo. “Ao permitir a veiculação dessa informação num programa com tanta audiência, a TV Globo prestou um grande desserviço à prevenção da aids no país.”

Dias questionou a Globo sobre o episódio e a emissora respondeu que o BBB não conta com um roteiro, sendo espontâneas as manifestações de seus participantes e que, “qualquer manifestação preconceituosa ou equivocada (…) não reflete o posicionamento da TV Globo sobre o tema”. Na resposta, a emissora disse ainda que “o esclarecimento feito pelo apresentador do programa foi a providência tomada pela TV Globo, por liberalidade”.

O procurador julgou insuficiente a resposta. Ontem, instaurou uma ação contra a emissora, exigindo que explique no BBB 10 como se contrai o HIV, o vírus causador da aids, segundo critérios definidos pelo Ministério da Saúde.    

“A lesão social causada pela declaração de Dourado no programa é evidente, ante o poder de persuasão e de formação de opinião da TV no Brasil”, justifica Dias. “Num país em que a aids cresce entre mulheres casadas e idosos, a declaração de Dourado, exibida pela Globo, é ainda mais perigosa e é preciso a intervenção do MPF.”

A TRANSMISSÃO DO HIV É BIDIRECIONAL
O procurador Jefferson Aparecido Dias está coberto de razão.

No Brasil, 70% das mulheres portadoras do HIV foram infectadas pelo esposo ou namorado; 26% tiveram um ou dois parceiros em toda a vida.

A cada ano, mais de 35 mil brasileiros recebem o diagnóstico de aids. De 1980 a junho de 2007, foram identificados 474.273; em 1985, havia 15 casos em homens para 1 em mulher. Atualmente, a relação é de 1,5 para 1. Em ambos os sexos, a maior parte se concentra na faixa etária de 25 a 49 anos. Porém, tem-se verificado aumento da doença na população acima dos 50, tanto em homens quanto em mulheres.

A principal forma de transmissão é a sexual, ou seja, sexo sem camisinha. Infelizmente, como Dourado, há brasileiros que ainda acreditam que o HIV não passa de mulher para homem e estão se infectando.

“Está cientificamente comprovado que não é verdade que o HIV não passa de mulher para o homem”, alerta o médico infectologista Marco Antônio de Ávila Vitória, do corpo técnico do Departamento de HIV da Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, Suíça. 

Teoricamente a mulher tem um risco maior de infectar-se devido a fatores anatômicos e maior vulnerabilidade social em muitas culturas. Porém, o homem também tem risco importante de se contaminar se tiver relações sexuais sem uso de preservativo com mulher  infectada pelo HIV. O vírus da aids pode passar de homem para mulher e de mulher para homem, desde que um dos parceiros seja portador  do HIV.

Marco Vitória insiste: “A transmissão do HIV é bidirecional”.

Ou seja, sempre que houver contato sexual com troca de fluidos contaminados – leia-se esperma, secreção vaginal e sangue – existe risco tanto para homens quanto para mulheres. Alguns fatores podem aumentar esse risco. Por exemplo, lesões na pele ou na mucosa dos genitais causadas por machucados ou doenças sexualmente transmissíveis.
Mas atenção. Mesmo na ausência de ferimentos genitais, a transmissão do HIV pode ocorrer.

“As DST [doenças sexualmente transmissíveis] são o principal facilitador da transmissão sexual do vírus da aids”, afirma o sociólogo Ivo Brito, coordenador da Unidade de Prevenção do programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. “Feridas nos órgãos genitais favorecem a entrada do HIV.” Gonorréia, sífilis, herpes, HPV (papilomavírus humano), corrimento vaginal e doença inflamatória pélvica são algumas das DST. A infecção pelo HIV também é uma DST.

“Portanto, se pode pegar o HIV, fazendo sexo vaginal, anal e oral – sem camisinha”, previne Ivo Brito. “Mas não se pega nem se transmite HIV, praticando masturbação a dois.”

“Ah, mas o Dourado disse que foram médicos que lhe disseram que o vírus da aids não passa de mulher para homem…”, talvez alguém retruque.

Se realmente disseram, são desinformados. O fato de ser médico não significa obrigatoriamente que disponha de informação qualificada na área de saúde. Ponham isso na cabeça.

A propósito, a camisinha é uma “vacina” tripla. Protege contra o HIV, demais DST e gravidez indesejada. É o verdadeiro método três em um. Inserida no jogo erótico, é excitante, bom demais.

Homens, não joguem toda a responsabilidade pela segurança das relações sexuais nas costas de suas parceiras.  É responsabilidade de vocês também.

O amor, mulheres,  não protege ninguém do HIV.

Lembrem-se de que ao transar sem camisinha, você faz sexo não só com o (a)parceiro (a) atual. Você “transa” também com os ex de ambos. Use camisinha e proteja vocês dois.

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Gripe suína, vacinar ou não?

Publicado em: 13 de março de 2010

por Conceição Lemes

Para a Fundação Oswaldo Cruz, (Fiocruz), a Escola Nacional de Saúde Pública, o Conselho Federal de Medicina (CFM), a Associação Médica Brasileira (AMB), a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade Brasileira de Pediatria, a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, entre dezenas de instituições médicas e de saúde coletiva de peso no país, a resposta é sim.

A saúde pública do Brasil tem um grande desafio nos próximos três meses: vacinar pelo menos 80% das 91 milhões de pessoas que devem ser imunizadas contra a influenza A (H1N1), ou gripe A, mais conhecida como gripe suína. A vacinação acontecerá simultaneamente em todo o território nacional.

“Prioritariamente o objetivo é proteger os profissionais de saúde e alguns grupos que têm maior risco de desenvolver a forma grave da doença ou evoluir para o óbito durante a segunda onda da pandemia da gripe A”, explica o médico epidemiologista Eduardo Hage Carmo, diretor de vigilância epidemiológica da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. “A segunda onda acontecerá no inverno.”

Os grupos com maior risco de desenvolver a forma grave de gripe suína são:
* Gestantes
* Indígenas que vivem em aldeias
* Portadores de doenças crônicas, independentemente da idade
* Crianças de 6 meses a 2 anos de idade
* Pessoas de 20 a 39 anos

Se você está em uma dessas situações ou é profissional da área de saúde, o Ministério da Saúde recomenda que se vacine. A vacinação será feita em cinco etapas, de  acordo com os grupos, como mostra o calendário abaixo.

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MINISTÉRIO DA SAÚDE ESCLARECE AS DÚVIDAS FREQUENTES

Preocupado em informar ao máximo a população, o MS selecionou as dúvidas mais freqüentes nos serviços públicos de saúde e no seu Disque Saúde (0800 611997).  A equipe técnica do próprio ministério é quem as respondeu.

O que é influenza A, ou gripe suína?

É uma doença respiratória contagiosa causada pelo vírus A (H1N1). Assim como a gripe comum, a influenza A é transmitida de pessoa a pessoa, principalmente por meio de tosse, espirro e contato direto com secreções respiratórias de pessoas infectadas. Os sintomas podem aparecer 7 a 14 dias após a pessoa infectar-se pelo novo vírus.

Qual a diferença entre a gripe comum e a suína?

Elas são causadas por diferentes subtipos do vírus influenza. Os sintomas são muito parecidos e se confundem: febre repentina, tosse, dor de cabeça, dores musculares, dores nas articulações e coriza. Por isso, ao apresentar esses sintomas, procure o seu médico ou um posto de saúde.

O vírus da gripe é mais violento do que o da gripe comum? Qual mata mais?

Inicialmente, acreditava-se que o vírus A (H1N1) fosse mais patogênico do que o da gripe sazonal, comum.  Porém, até o momento, ele não demonstrou ser mais violento ou mais mortal na população geral. A maioria das pessoas desenvolve a forma leve da doença e se recupera sem uso de medicamentos. Assim como na gripe comum, portadores de doenças crônicas, gestantes e crianças com menos de 2 anos são  os mais vulneráveis. A principal diferença é que o vírus da gripe A tem potencial maior de causar doença grave em pessoas saudáveis de 20 a 39 anos. Em compensação, tem afetado menos as com mais de 60 anos.

Por que não vacinar toda a população?

A vacinação em massa não tem sentido por um motivo bem simples: a contenção de segunda onda da pandemia de gripe A não é mais possível em todo o mundo.

Que critérios o Ministério da Saúde utilizou para selecionar os grupos prioritários para a vacinação? Esses grupos são os mais afetados ou os que têm maior risco?

Comecemos pelos trabalhadores da saúde. Eles precisam estar protegidos, pois são os que garantirão o funcionamento ininterrupto dos serviços de pronto-atendimento, vigilância em saúde, laboratório. Deles dependem todos os serviços de combate à pandemia de gripe A – da vacinação ao diagnóstico e tratamento. Não se pode correr o risco de colapso dessas atividades essenciais.

Os indígenas aldeados por dois motivos: são mais vulneráveis a infecções e têm maior dificuldade de acesso às unidades hospitalares, caso necessitem.

Os demais grupos prioritários são aqueles que, na primeira onda da pandemia, tiveram mais frequentemente a síndrome respiratória aguda grave (SRAG), que é a forma grave da influenza A. Por exemplo, entre as mulheres em idade fértil que apresentaram SRAG em 2009 devido à gripe A, 22% eram gestantes. Os jovens de 20 a 29 anos foram o grupo etário mais afetado: representam 24% do total de casos de SRAG por influenza A em 2009. Entre os adultos de 30 e 39 anos, ocorreu a maior taxa de mortalidade: 22% do total de óbitos.

Todos os trabalhadores da área de saúde precisam se vacinar?

Não. Apenas aqueles estão na rede de serviços, atendendo diretamente a população. Ou seja, aqueles que, em razão das suas funções, têm risco potencial de contrair a infecção pelo H1N1 no contato com possíveis suspeitos da doença. Portanto, devem se vacinar os trabalhadores da atenção básica (postos de saúde e  programa de saúde da família),  dos serviços de média e alta complexidade (pequeno, médio e grande porte) e aqueles que atuam na vigilância epidemiológica, especialmente na investigação de casos e em laboratório.

É importante que todos os trabalhadores da área de saúde informem-se nos seus serviços e na Secretaria Municipal ou na Secretaria Estadual de Saúde para conhecer os detalhes da vacinação, já que a imunização não será feita em 100%.

E a população indígena que vive em aldeias será 100% vacinada?

A partir dos 6 meses de idade, sim, devido à maior vulnerabilidade a infecções.

Por que vacinar portadores de doenças crônicas?

Devido às doenças crônicas eles já são naturalmente mais vulneráveis a infecções. E a maior vulnerabilidade aumenta a probabilidade de quadros de maior gravidade e óbito. Na pandemia de 2009, observou-se um alto percentual de pessoas com doenças crônicas entre os casos de SRAG.

Quem pode ser considerado portador de doença crônica?

A lista é grande. Estão nesse grupo, por exemplo:
* Pessoas com obesidade grau III, antigamente chamada obesidade mórbida, independentemente da idade.
* Pessoas com doenças renais, pulmonares, cardiovasculares, hepáticas e hematológicas crônicas
* Imunodeprimidos devido ao uso de certos medicamentos (por exemplo, contra rejeição de transplantes, cortiscosteróides e antineoplásicos) e de algumas doenças (como câncer e aids).
* Diabéticos.

E os idosos por que não estão entre os grupos prioritários?

Porque a influenza A afeta menos as pessoas com mais de 60 anos. Porém, se o idoso tiver alguma doença crônica, deverá ser vacinado contra a gripe suína. A vacina será feita durante a campanha anual de vacinação do idoso contra a gripe comum, de 24 de abril a 7 de maio. Portanto, o idoso com doenças crônicas tomará duas vacinas: contra a influenza A e contra a gripe comum.

O fato de as pessoas terem doenças crônicas não aumenta o risco de efeitos colaterais da vacina?

Não. A possibilidade de ocorrer um evento adverso após a administração da vacina em pessoas com doença crônica é a mesma de qualquer outra pessoa.

Por que as crianças com menos de 6 meses não estão incluídas nos grupos prioritários? Há alguma contraindicação?

É que não está comprovado que nessa faixa etária a vacina garante proteção.

Por que vacinar as grávidas contra a gripe suína se normalmente não são vacinadas contra a gripe comum?

Não há nenhuma contraindicação à vacinação de gestantes contra a gripe comum. Acontece que as campanhas anuais priorizam a população de maior risco – a população de 60 anos ou mais. Já em relação à influenza A as gestantes são consideradas como grupo de risco. Relembramos que, em 2009, entre as mulheres em idade fértil que apresentaram a forma grave da gripe A, 22% eram gestantes.

A vacina não oferece risco à grávida? E ao feto? Há risco de aborto?

Não há risco em vacinar grávidas. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e os  laboratórios produtores, a vacina contra o vírus influenza A H1N1 é segura para a gestante. Também não há evidências de que possa causar aborto ou afetar o feto.

A grávida pode se vacinar em qualquer fase da gestação?

Sim, pois será utilizada para as gestantes a vacina que não contém o adjuvante.  Com base na experiência de outros países que estão vacinando desde novembro de 2009, a OMS e Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) orienta o uso da vacina com ou sem adjuvante. Porém, por cautela, a orientação do Ministério é utilizar em grávidas somente a vacina sem adjuvante.

Suponhamos que a mulher só se descubra grávida depois de 21 de maio. Ela poderá se vacinar, mesmo após o término da campanha de vacinação contra a gripe A?

As mulheres que se descobrirem grávidas ou engravidarem depois de 21 de maio poderão se vacinar depois, sim.

A vacina que será utilizada no Brasil é segura?

Sim. Ela já está em uso em outros países. Até o momento não foi observado neles a relação entre o uso da vacina e a ocorrência de efeitos adversos graves.A segurança da vacinação, porém, não depende apenas do imunizante. Está relacionada também à: 1) utilização de seringas e agulhas apropriadas; 2) adoção de procedimentos seguros no manuseio, no preparo e na administração da vacina, conforme normas técnicas estabelecidas; 3) conservação da vacina na temperatura adequada, conforme preconizado; qualidade da capacitação do pessoal envolvido, bem como da supervisão ao trabalho de vacinação. É fundamental, no entanto, o monitoramento de eventos adversos associados temporalmente à vacinação, para investigá-los.

Qual a eficácia da vacina a ser utilizada no Brasil?

Em média, acima de 95%. Proteção máxima é alcançada entre 14º e 21º dia após a vacinação.

A vacina que será utilizada no Brasil é inalável ou injetável?

Injetável, administrada por via intramuscular.

Qual a incidência de efeitos colaterais da vacina?

A grande maioria apresenta os mesmos da vacina contra a gripe em idosos, são reações leves: dor local, febre baixa, dores musculares, que se resolvem em torno de 48 horas.

Tudo bem tomar a vacina em clínica particular?

A vacina vai estar disponível em toda a rede pública de saúde do Brasil. Mas se você preferir vacinar-se em clínica particular, não há nenhum problema. O Ministério da Saúde não impôs nenhum obstáculo para o setor privado adquirir vacina contra a gripe A. O que pode ocorrer é não haver o produto disponível; isso dependerá da capacidade de fornecimento dos laboratórios produtores.

Se eu me vacinar contra a gripe comum estarei protegida contra a gripe A?

Não. Portanto, se faz parte dos grupos prioritários deverá se vacinar também contra a gripe A.

Supondo que eu faça parte dos grupos prioritários e não queira me vacinar, e aí?A vacina é obrigatória?

De modo algum, a vacina contra a gripe A é compulsória.  Nós, enquanto Ministério da Saúde, apenas recomendamos o que do ponto de vista de saúde pública julgamos necessário. A decisão é individual. Questão de livre arbítrio. Mas antes de decidir, reflita bem. Nós esperamos que você espontânea e conscientemente se imunize, caso faça dos grupos prioritários.

O vírus da gripe suína, como já dissemos, é transmitido da mesma forma que o da gripe sazonal: por gotículas que são expelidas quando a pessoa infectada fala, espirra ou tosse. E as medidas de prevenção são as mesmas para o controle e prevenção da gripe sazonal e de outras doenças respiratórias.Por isso, as medidas de prevenção são muito importantes, principalmente as individuais, pois evitam que uma pessoa doente transmita o vírus para outra. Questão de respeito com a saúde do outro:

* Cubra a boca e o nariz com lenço descartável ao tossir e espirrar; é para evitar que gotículas atinjam os que estão próximos.

* Lave frequentemente as mãos com água e sabonete. Faça isso, pelo menos: depois de tossir ou espirrar. Após usar o banheiro; antes de comer; e antes de tocar os olhos, boca e nariz

* Evite compartilhar pratos, talheres e alimentos.

* Evite colocar as mãos nos olhos, nariz ou boca após pegar mexer com dinheiro, pegar produtos no supermercado ou ter contato com superfícies que não estejam devidamente higienizadas.

* Procure ter hábitos saudáveis, como alimentação adequada, ingestão de líquidos e atividade física.

Afinal de contas, quanto mais prevenção mais proteção.

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Conceição Lemes: Remédios para emagrecer emagrecem?

Publicado em: 23 de fevereiro de 2010

por Conceição Lemes

Os remédios para emagrecer são mania nacional. É ligar televisão ou rádio, acessar internet, abrir jornal ou revista. Anúncios deles existem aos montes.  Porém, os cientificamente testados e os aprovados são poucos. E todos — atenção! — ainda longe do ideal.

Desde o final de janeiro, um deles, a sibutramina, está proibido em todos os países da Europa. Nos Estados Unidos, a FDA, a agência de controle de alimentos e medicamentos, determinou a inclusão de novas contraindicações na bula do produto. A sibutramina não deve ser usada em pacientes com história de doenças cardiovasculares ou com fatores de risco para desenvolvê-las.

Aqui, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez o mesmo.  Ainda em fevereiro, a Câmara Técnica de Medicamentos (Cateme) fará nova avaliação dos estudos, para decidir se amplia as restrições do uso do remédio.

A decisão da Agência Europeia de Medicamentos (EMA – European Medicine Agency) de proibir a sibutramina foi a divulgação dos resultados do estudo denominado SCOUT (Sibutramine Cardiovascular Outcomes). Durante seis anos, ele avaliou 10 mil pacientes obesos com risco aumentado de doenças cardiovasculares.

No grupo que tomou placebo (preparação neutra, com aparência do remédio verdadeiro, mas sem efeito farmacológico), 10% tiveram infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC) ou parada cardíaca. Já no que tomou a sibutramina, a porcentagem foi maior: 11,45%.  Um aumento de 16%, quando comparado ao tratado com placebo.

“O estudo foi feito com pacientes com história de doenças cardioavasculares para os quais geralmente nós já não prescrevíamos a sibutramina”, explica médica endocrinologista Maria Teresa Zanella, professora titular de Endocrinologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O médico endocrinologista Simão Lottenberg, do Serviço de Endocrinologia da Faculdade de Medicina da USP, acrescenta: “Embora não houvesse contraindicação formal, a recomendação era de que fosse administrada com cautela em obesos hipertensos ou com problemas  cardiovasculares, já que eventualmente a sibutramina pode aumentar a pressão arterial e causar arritmia [alteração do ritmo dos batimentos cardíacos]”.

A doutora Maria Teresa reforça: “Na prática, nós já adotávamos as contraindicações estabelecidas atualmente pela Anvisa em função do novo estudo”.

A DROGA IDEAL AINDA NÃO EXISTE; TODAS TÊM EFEITOS COLATERAIS

“O fato é que, mesmo os aprovados, por si só não resolvem a obesidade. Eles apenas ajudam no processo de emagrecimento”, alerta Simão Lottenberg “Se não forem acompanhados de reeducação alimentar e atividade física, eles não funcionam. Todos ainda têm efeitos colaterais.”

“Na verdade, o desafio da ciência é conseguir uma droga que atue essencialmente na queima de calorias, de forma a gastar a gordura estocada a mais”, “Essa droga ainda não existe.”

Os remédios hoje disponíveis agem fundamentalmente no mecanismo de ingestão de calorias:

* Anfetamínicos – Mazindol, femproporex e anfepramona são os nomes químicos. “Primos” da anfetamina, eles aumentam a produção de adrenalina pelo organismo, diminuindo a fome no horário em que é tomado. Custam barato, mas produzem muitos efeitos colaterais: ansiedade, insônia, agitação, irritabilidade, aumento da pressão arterial e dos batimentos cardíacos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), devem ser usados em baixas doses, no máximo por três meses, pois causam dependência e, principalmente, tolerância: com o tempo, a pessoa precisa usar doses cada vez maiores para a medicação funcionar. E, aí, aumenta o risco de alterações psíquicas, cardíacas e de pressão arterial.

* Sibutramina – Mais segura do que os anfetamínicos, tira um pouco do apetite e aumenta a saciedade. Como qualquer medicação, pode provocar efeitos colaterais, como dor de cabeça, alterações emocionais e na pressão arterial. Portanto, seu uso deve ser monitorado, até porque não são todos que se beneficiam do tratamento: cerca de 60% dos usuários perdem peso; 40%, não.

“A sibutramina diminui a ansiedade, por isso é mais indicada para os comedores compulsivos”, informa  Lottenberg. Outras drogas que aumentam a saciedade e têm sido usadas no tratamento da obesidade são a fluoxetina e a sertralina (antidepressivos) e o topiramato (anticonvulsivante).

* Orlistat – Diferentemente de anfetamínicos, sibutramina, fluoxetina, sertralina e topiramato, o orlistat não age no cérebro, portanto não tira o apetite nem aumenta a saciedade. Sua forma de atuação: ele diminui em 30% a absorção da gordura da alimentação. Seu efeito colateral mais importante é a diarreia: a maior quantidade de gordura no intestino faz com que ele funcione mais rápido, aumentando o número de evacuações diárias. Por vezes acontecem “acidentes”, principalmente quando se come algum alimento mais gorduroso. Assim como a sibutramina, pode ser usado por tempo prolongado e em cerca de 40% das pessoas não funciona. Custa muito caro.

“A opção por um desses remédios depende de cada caso. Tem de pesar risco, benefícios, efeitos colaterais, contraindicações e custo financeiro”, esclarece Lottenberg. “Por si só, nenhum é capaz de solucionar a obesidade. Eles são apenas coadjuvantes do processo de emagrecimento.”

“Além disso, quando as pessoas perdem cerca de 10% do peso, esses medicamentos fazem um platô”, chama a atenção Maria Teresa. “Isso significa que, mesmo que continuem sendo usados, a pessoa pára de emagrecer.”

Por tudo isso, atenção:

1) não existe droga milagrosa para emagrecer, nem aqui nem no restante do mundo; se alguém te prometer o contrário, está mentindo.

2) esses poucos remédios aprovados devem ser usados sob rigorosa prescrição médica;

3) não substituem em hipótese alguma a reeducação alimentar e a atividade física;

4) nenhum deles permite que se coma à vontade e ser sedentário;  se não houver mudança no estilo de vida, não funcionam;

5) a mudança de hábitos é a única receita que faz você eliminar os quilos extras e manter o peso saudável por tempo prolongado. Com a vantagem de não ter efeitos colaterais e beneficiar toda a sua saúde.

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